O que fazer após renegociar as dÍvidas? Economistas dão dicas
Sem um planejamento adequado com as finanças, os participantes do Desenrola podem voltar a ter dívidas
Por Agência Brasil – Jornal Estadão
Com R$ 8,1 bilhões de dívidas bancárias renegociadas, segundo balanço mais recente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o programa Desenrola completou o primeiro mês na última quinta-feira, 17 com 985 mil clientes atendidos.
Nesta fase do Desenrola Brasil, bancos oferecem condições especiais para a renegociação de dívidas Foto: Giovanni Nobile / BB
Apesar do sucesso da iniciativa, que será expandida para débitos não
bancários nas próximas semanas, economistas recomendam cuidados com o
consumidor que limpa o nome.
A principal crítica diz respeito à falta de educação financeira na
primeira fase do programa, que retirou dos cadastros negativos dívidas
de até R$ 100 e está refinanciando débitos com instituições financeiras
de clientes que ganham até R$ 20 mil. Sem o planejamento devido, advertem os economistas, o alívio pode durar pouco, com o correntista endividando-se novamente.
O principal ponto de atenção diz respeito aos débitos de até R$ 100.
Como condição para aderirem ao Desenrola, as instituições financeiras
limparam o nome de quem devia até esse valor, mas os débitos não
deixaram de existir, continuando a ser corrigidos com juros.
“Essa medida teve como objetivo liberar o consumo. Quando há a
desnegativação, o consumidor pode voltar a fazer crediário, mas isso não
implica a quitação da dívida”, afirma o professor de Finanças do Ibmec
Gilberto Braga. Com juros médios de 59,9% ao ano no crédito a pessoas
físicas, segundo o dado mais recente do Banco Central, esses débitos
dobram em um ano e meio.
Educação financeira
Em relação à Faixa 2 do Desenrola, os economistas concordam com a necessidade de planejamento por parte dos correntistas para não se endividar após a renegociação.
“Para quem parcelou débitos, o melhor a fazer é honrar esses
compromissos renegociados. A ideia é primeiramente quitar esses
compromissos para depois, se for o caso, se endividar”, argumenta
Teixeira.
“Se na renegociação a parcela ficar muito baixa, permitindo que, com
segurança, volte a consumir imediatamente, pode fazer isso, mas dentro
de um planejamento muito responsável”, acrescenta.
Para o professor Gilberto Braga, a principal crítica ao Desenrola, até agora, diz respeito à falta de um programa de reeducação financeira.
Embora alguns bancos promovam campanhas de esclarecimento por meio de
vídeos para quem renegocia os débitos, essa não é uma condição
obrigatória para aderir às renegociações.
“O Desenrola oferece uma solução plausível para a dívida, mas não vem
acompanhado de um processo de reeducação financeira. Acho que seria
interessante que se colocasse à disposição uma forma de ajuda para as
pessoas poderem se programar melhor em relação a seus orçamentos”,
salienta Braga.
A portaria que criou o Desenrola prevê cursos de educação financeira
apenas para a segunda etapa do programa, que oferecerá descontos para a
Faixa 1, que engloba dívidas não bancárias. Os cursos serão ofertados na
plataforma eletrônica construída pela B3 (bolsa de valores brasileira)
que leiloará os descontos oferecidos pelas empresas, mas não serão
necessários para aderir aos parcelamentos. O cliente pode inclusive
começar a assistir às aulas e abandonar o curso, sem impedimento para as
renegociações.
Prevista para ser lançada em setembro, a faixa 1 abrange devedores
inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal
(CadÚnico) ou de renda mensal até dois salários mínimos com débitos de
até R$ 5 mil com empresas de fora do sistema financeiro. A categoria
abrange concessionárias de água, energia e gás e crediário em comércio.
Cadastro negativo
Segundo a Febraban, cinco milhões de registros de dívidas de até R$
100 foram retirados dos cadastros negativos até 27 de julho deste ano,
quando o processo foi encerrado.
Na maior parte dos casos, os débitos nesse valor dizem respeito a
contas esquecidas nas instituições financeiras sobre as quais continuam a
incidir tarifas. “Na realidade, todo mundo precisa ter muito cuidado. A primeira providência, sendo retirado do cadastro de inadimplentes, é imediatamente quitar essa dívida de pequeno valor o mais rapidamente possível”, diz o coordenador do MBA de Gestão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV), Ricardo Teixeira./Agência Brasil
Mais de 90% das empresas concordam que estratégias de Customer
Experience são importantes, mas não entendem como colocá-las em prática.
Toda e qualquer experiência começa no primeiro contato – e quando
falamos de uma relação entre marca e cliente este é sempre um ponto
delicado. Qualquer atrito ou ruído neste momento pode colocar em risco a
conclusão do processo e fazer com que ambos terminem no prejuízo, por
isso, criar uma boa experiência para o cliente envolve investir em
recursos internamente nesta área. Uma pesquisa recente da consultoria
Gartner aponta que mais de 90% das empresas vêem valor em estratégias de
Customer Experience (CX), mas têm dificuldades em aplicar o conceito na
prática.
De acordo com Irene Silva, CEO da Ellevo, analisando os projetos do
Ellevo Next percebeu-se que o investimento em tecnologia e recursos
humanos para extrair valor das ferramentas tecnológicas pode ser um dos
fatores que mais prejudicam o sucesso da implantação de novos sistemas
para qualificar o atendimento. “Quem nunca se inspirou após uma feira de
tecnologia ou assistindo um vídeo no Youtube e percebeu que, na
prática, colocar aquela solução para rodar era mais complexo do que
imaginado? Uma das formas que percebemos ao longo de quase 20 anos
trabalhando com softwares que ajudam empresas a criar experiências
fantásticas para seus clientes é que, para ter ênfase na agilidade, é
preciso investir em educação de qualidade para quem irá interagir com
clientes”, aponta.
O processo de treinamento de quem vai atuar nessa linha de frente
também precisa ser criterioso, por isso, é importante uma plataforma que
não exija uma adaptação complexa, sem códigos, interações complicadas e
capacitações longas e exaustivas.
“Quando as pessoas percebem como a tecnologia irá ajudar a realizar
seu trabalho, a transformação começa a permear outros setores da
empresa. Quantos e-mails uma área financeira recebe por dia ou por mês?
Compras, contas a pagar e receber, ajustes em boletos… Tudo isso, que
poderia ficar perdido com conversas de WhatsApp ou e-mails, pode ficar
centralizado em uma ferramenta que pode, por exemplo, transformar um
e-mail recebido em um ticket, uma resposta de mensagem em um alerta e
por aí vai”, exemplifica Irene.
O que se observa na prática é que um negócio competitivo e que gera
boas experiências aos clientes precisa, primeiro, envolver os
colaboradores no treinamento de forma inteligente e desenvolver
processos que eliminem a burocracia. Afinal de contas, ter uma mesma
forma de fazer as coisas é diferente de manter ações burocráticas
repetidamente. As empresas precisam entender que o futuro da experiência
do cliente passa por uma transformação cultural da compreensão sobre a
importância do atendimento.
ESCALANDO NEGÓCIOS DA VALEON
1 – Qual é o seu mercado? Qual é o tamanho dele?
O nosso mercado será atingir os 766 mil habitantes do Vale do
Aço e poder divulgar os produtos / serviços para vocês clientes,
lojistas, prestadores de serviços e profissionais autônomos e obter dos
consumidores e usuários a sua audiência.
A ValeOn atenderá a todos os nichos de mercado da região e
especialmente aos pequenos e microempresários da região que não
conseguem entrar no comércio eletrônico para usufruir dos benefícios que
ele proporciona. Pretendemos cadastrar todas as empresas locais com
CNPJ ou não e coloca-las na internet.
2 – Qual problema a sua empresa está tentando resolver? O mercado já expressou a necessidade dessa solução?
A nossa Plataforma de Compras e Vendas que ora
disponibilizamos para utilização das Empresas, Prestadores de Serviços e
Profissionais Autônomos e para a audiência é um produto inovador sem
concorrentes na região e foi projetada para atender às necessidades
locais e oferecemos condições de adesão muito mais em conta que qualquer
outro meio de comunicação.
Viemos para suprir as demandas da região no que tange a
divulgação de produtos/serviços cuja finalidade é a prestação de
serviços diferenciados para a conquista cada vez maior de mais clientes e
públicos.
O nosso diferencial está focado nas empresas da região ao
resolvermos a dor da falta de comunicação entre as empresas e seus
clientes. Essa dor é resolvida através de uma tecnologia eficiente que
permite que cada empresa / serviços tenha o seu próprio site e possa
expor os seus produtos e promoções para os seus clientes / usuários ao
utilizar a plataforma da ValeOn.
3 – Quais métodos você usará para o crescimento? O seu mercado está propício para esse tipo de crescimento?
Estratégias para o crescimento da nossa empresa
Investimento na satisfação do cliente. Fidelizar é mais barato do que atrair novos clientes.
Equilíbrio financeiro e rentabilidade. Capital de giro,
controle de fluxo de caixa e análises de rentabilidade são termos que
devem fazer parte da rotina de uma empresa que tenha o objetivo de
crescer.
Desenvolvimento de um planejamento estratégico. Planejar-se
estrategicamente é como definir com antecedência um roteiro de viagem ao
destino final.
Investimento em marketing. Sem marketing, nem gigantes como a
Coca-Cola sobreviveriam em um mercado feroz e competitivo ao extremo.
Recrutamento e gestão de pessoas. Pessoas são sempre o maior patrimônio de uma empresa.
O mercado é um ambiente altamente volátil e competitivo. Para
conquistar o sucesso, os gestores precisam estar conectados às demandas
de consumo e preparados para respondê-las com eficiência.
Para isso, é essencial que os líderes procurem conhecer (e
entender) as preferências do cliente e as tendências em vigor. Em um
cenário em que tudo muda o tempo todo, ignorar as movimentações externas
é um equívoco geralmente fatal.
Planeje-se, portanto, para reservar um tempo dedicado ao
estudo do consumidor e (por que não?) da concorrência. Ao observar as
melhores práticas e conhecer quais têm sido os retornos, assim podemos
identificar oportunidades para melhorar nossa operação e, assim,
desenvolver a bossa empresa.
4 – Quem são seus principais concorrentes e há quanto tempo
eles estão no mercado? Quão grandes eles são comparados à sua empresa?
Descreva suas marcas.
Nossos concorrentes indiretos costumam ser sites da área,
sites de diretório e sites de mídia social. Nós não estamos apenas
competindo com outras marcas – estamos competindo com todos os sites que
desejam nos desconectar do nosso potencial comprador.
Nosso concorrente maior ainda é a comunicação offline que é
formada por meios de comunicação de massa como rádios, propagandas de
TV, revistas, outdoors, panfletos e outras mídias impressas e estão no
mercado há muito tempo, bem antes da nossa Startup Valeon.
5 – Sua empresa está bem estabelecida? Quais práticas e procedimentos são considerados parte da identidade do setor?
A nossa empresa Startup Valeon é bem estabelecida e
concentramos em objetivos financeiros e comerciais de curto prazo,
desconsideramos a concorrência recém chegada no mercado até que deixem
de ser calouros, e ignoramos as pequenas tendências de mercado até que
representem mudanças catastróficas.
“Empresas bem estabelecidas igual à Startp Valeon devemos começar a pensar como disruptores”, diz Paul Earle,
professor leitor adjunto de inovação e empreendedorismo na Kellogg
School. “Não é uma escolha. Toda a nossa existência está em risco”.
6 – Se você quiser superar seus concorrentes, será necessário escalar o seu negócio?
A escalabilidade é um conceito administrativo usado para
identificar as oportunidades de que um negócio aumente o faturamento,
sem que precise alavancar seus custos operacionais em igual medida. Ou
seja: a arte de fazer mais, com menos!
Então, podemos resumir que um empreendimento escalável é
aquele que consegue aumentar sua produtividade, alcance e receita sem
aumentar os gastos. Na maioria dos casos, a escalabilidade é atingida
por conta de boas redes de relacionamento e decisões gerenciais bem
acertadas.
Além disso, vale lembrar que um negócio escalável também
passa por uma fase de otimização, que é o conceito focado em enxugar o
funcionamento de uma empresa, examinando gastos, cortando desperdícios e
eliminando a ociosidade.
Sendo assim, a otimização acaba sendo uma etapa inevitável
até a conquista da escalabilidade. Afinal de contas, é disso que se
trata esse conceito: atingir o máximo de eficiência, aumentando clientes, vendas, projetos e afins, sem expandir os gastos da operação de maneira expressiva.
Pretendemos escalar o nosso negócio que é o site marketplace da Startup Valeon da seguinte forma:
objetivo final em alguma métrica clara, como crescimento percentual em vendas, projetos, clientes e afins;
etapas e práticas que serão tomadas ao longo do ano para alcançar a meta;
decisões acertadas na contratação de novos colaboradores;
gerenciamento de recursos focado em otimização.
Nossos contatos: Fones: (31) 3827-2297 e (31) 98428-0590 (App)
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – As mudanças no imposto estadual sobre
heranças e doações previstas na Reforma Tributária têm levado alguns
contribuintes a procurar escritórios de advocacia para avaliar a
antecipação de transferência de patrimônio em vida.
A PEC 45 (Proposta de Emenda à Constituição), aprovada na Câmara em
julho e que agora está sendo analisada pelo Senado, altera vários
tributos. Entre eles, o ITCMD (Imposto de Transmissão Causa Mortis e
Doação), de competência dos estados.
A proposta autoriza, por exemplo, a cobrança sobre heranças e doações
de residentes no exterior, sem necessidade da lei complementar federal
anteriormente prevista no texto constitucional e que nunca foi votada
pelo Congresso.
Também diz que o imposto será progressivo, ou seja, quanto maior o
valor do patrimônio envolvido, maior a alíquota, semelhante ao que
ocorre hoje no Imposto de Renda em relação aos salários. Esse ponto
dependerá ainda da aprovação de leis estaduais, que podem resultar em
aumento de alíquotas.
Atualmente, alíquotas progressivas são aplicadas em 15 estados e no
Distrito Federal. Em 11 desses locais, a taxação chega ao teto de 8%.
Outros dez estados têm alíquotas fixas, em alguns casos, uma para
herança e outra para doação: São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo,
Paraná, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Amapá, Roraima, Alagoas e Rio
Grande do Norte.
O texto inclui ainda isenção para transmissões e doações para
instituições sem fins lucrativos, inclusive aquelas ligadas a entidades
religiosas e institutos científicos e tecnológicos. A bancada ruralista
quer isentar também a sucessão familiar de algumas propriedades rurais.
Imposto sobre herança e doação varia de 1% a 8% no Brasil
Estado | Alíquotas
AC 2% e 4%
AL 2% e 4%
AP 3% e 4%
AM 2%
BA 3,5% a 8%
CE 2% a 8%
DF 4% a 6%
ES 4%
GO 2% a 8%
MA 1% a 7%
MT 2% a 8%
MS 3% e 6%
MG 5%
PA 4%
PB 2% a 8%
PR 4%
PE 2% a 8%
PI 2% a 6%
RJ 4% a 8%
RN 3%
RS 3% a 6%
RO 2% a 4%
RR 4%
SC 1% a 8%
SP 4%
SE 2% a 8%
TO 2% a 8%
Fonte: Secretarias de Fazenda. Alíquotas coletadas em janeiro de 2023
para novos fatos geradores. Alguns estados garantem isenções em alguns
casos.
Não há alteração na alíquota máxima que os estados podem cobrar, que
atualmente é de 8%. Uma mudança nesse valor depende apenas de resolução
do Senado, mas a progressividade pode levar estados com alíquotas
menores, como São Paulo, a aprovar esse teto, avaliam advogados da área.
Outra mudança é que o imposto passa a ser de competência do estado de
domicílio do doador ou da pessoa que morreu. Atualmente, o critério é o
local do inventário, o que permite a alguns herdeiros buscar uma
tributação menor em estados como Paraná e São Paulo, por exemplo.
“Desde a aprovação disso pela Câmara, muitos clientes nos procuraram
com essa preocupação de planejar a sucessão. Encaminhamos cinco casos no
último mês”, diz Mariana Domingues, especialista em direito empresarial
e sócia do escritório Domingues & Herold Advogados.
A advogada afirma que empresários do Paraná e de São Paulo, onde a
tributação pode praticamente dobrar, têm buscado orientação sobre
antecipar processo de sucessão para evitar um possível aumento da
tributação. Ela diz que o planejamento é também uma opção muito
procurada por famílias com propriedades rurais e patrimônio imobiliário,
que buscam gerir esses bens por meio de empresas.
Marcos Paiva, do Choaib, Paiva e Justo Advogados, afirma que as
mudanças no imposto devem entrar em vigor em 2024, por isso, as famílias
que quiserem aproveitar as regras atuais devem iniciar o planejamento
sucessório neste ano.
Ele vê algumas mudanças como positivas. Por exemplo, a definição
sobre questões como a tributação no exterior e a progressividade, temas
que geram debates no Judiciário. “É muito melhor um sistema tributário
em que todos sabem quanto devem pagar do que ter dúvidas, o que acaba
criando uma falta de isonomia: alguns pagam, outros entram na Justiça.”
Felipe Dias, sócio e responsável pela área tributária no Arbach &
Farhat Advogados, também relata aumento da demanda por clientes que
buscam acelerar esse tipo de planejamento, mas diz que é necessária uma
avaliação caso a caso. Uma das preocupações é evitar que o patrimônio
dos pais possa ficar exposto no caso de herdeiros que são gestores em
outras empresas.
Ele afirma que outra opção para fugir da tributação será a doação
isenta a entidades sem fins lucrativos, norma que aproxima o Brasil da
prática internacional. O advogado diz esperar, no entanto, uma
regulamentação dessa regra para evitar fraudes.
“O ITCMD não tem vinculação. Se você acha que o governo não vai fazer
um bom uso desse dinheiro, pode fazer essa doação”, afirma. “Mas espero
que isso seja melhor desenhado dentro de uma lei complementar, com uma
norma antielisiva específica para evitar que haja algum desvio.”
Qualquer mudança no imposto precisa respeitar as regras da cobrança
no ano seguinte e também o prazo de no mínimo 90 dias para entrada em
vigor da norma, lembra Hermano Barbosa, sócio da Área Tributária do
escritório BMA.
Segundo ele, no planejamento patrimonial ou sucessório, a decisão
passa muitas vezes por elementos pessoais. Há também questões que podem
demandar mais tempo, em função da natureza dos bens.
“Minha recomendação é estar atento a essas mudanças, eventualmente
começar a se preparar, mas sabendo que existem esses prazos para que
elas passem a ser aplicadas.”
O ITCMD responde por 0,4% da carga tributária nacional, segundo dados
de 2022. É praticamente o mesmo percentual verificado na média do grupo
de países da OCDE.
Estados como o Rio de Janeiro já fazem a cobrança progressiva até a
alíquota máxima. São Paulo cobra 4%. O governador Tarcísio de Freitas
(Republicanos) vetou neste ano a tentativa de reduzi-la.
Em relação à cobrança no exterior, ela era feita por muitos estados,
apesar da falta de uma lei federal regulamentando a questão. Em 2021, o
STF (Supremo Tribunal Federal) considerou essas leis estaduais
inconstitucionais, mas isentou os governadores de restituir os
contribuintes taxados anteriormente.
Menos de dois meses depois de ser declarado inelegível por
abuso de poder político e uso indevido de meios de comunicação, o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) viu se abrirem, nesta semana, novas
crises ligadas a duas grandes investigações que o citam como figura
central.
Na primeira investigação, a Polícia Federal apura um suposto
“esquema”, nas palavras do Supremo Tribunal Federal (STF), de venda
ilegal de joias dadas como presentes ao governo brasileiro.
De acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU), estes presentes
deveriam ser encaminhados ao acervo da União, e não negociados para
enriquecimento pessoal do ex-presidente ou pessoas próximas.
Na segunda investigação, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)
que apura os atos de 8 de janeiro a favor de Bolsonaro debateu nos
últimos dias o suposto envolvimento direto do ex-presidente em propostas
de acobertamento de crimes, sabotagem de urnas e do sistema eleitoral
brasileiro.
Ao longo desta semana, a situação jurídica de Bolsonaro se agravou,
na avaliação de professores de Direito ouvidos pela reportagem, com
novas operações judiciais, depoimentos e confissões de rivais e aliados
próximos.
Para Flaviane Barros, professora de Direito Penal da PUC-Minas, “a
situação do ex-presidente como investigado em termos de fatos penais
teve mudança considerável” após as revelações desta semana.
Na avaliação do professor de Direito Penal da UERJ (Universidade do
Estado do Rio de Janeiro) Davi Tangerino, “os elementos de prática de
delito por ele (Jair Bolsonaro) vão se avolumando”.
Quinta-feira: confissão, acusação e quebra de sigilo
A quinta-feira (17/8), até agora, foi o dia mais duro contra Bolsonaro.
O ex-presidente estaria prestes a ser apontado nominalmente como
mandante e beneficiário da venda ilegal de jóias dadas de presente ao
governo brasileiro, declarou Cezar Bittencourt, advogado do ex-ajudante
de ordens e braço direito de Bolsonaro, Mauro Cid, na principal crise inaugurada nesta quinta.
Segundo Bittencourt afirmou à revista Veja, o
tenente-coronel Cid vai confessar ao Supremo Tribunal Federal que
entregou a Bolsonaro centenas de milhares de reais conseguidos com a
suposta venda ilegal de relógios nos Estados Unidos.
O ex-presidente nega todas as acusações.
À TV Band, após a publicação da reportagem da Veja,
Bolsonaro descreveu a estratégia do advogado de Cid como “camicase”,
afirmou que não recebeu valores em espécie de Cid e que não pediu pra
que bens fosses vendidos.
Bolsonaro também disse que “Cid está preso há muito tempo e, por
isso, é capaz de falar qualquer coisa pra sair da cadeia”, segundo o
jornalista Tulio Amansio.
Na sexta-feira, o advogado recuou e negou ter afirmado à revista que o
militar confessaria algo relativo às joias. A Veja, então, respondeu
publicando os áudios da entrevista e mostrando que o advogado realmente
disse o que foi originalmente publicado.
À BBC News Brasil, criminalistas apontam entre os possíveis crimes de
Bolsonaro no caso, se declarado culpado, peculato (pelo desvio das
joias), lavagem de dinheiro (pela ocultação do proveito do crime) e
descaminho (caso os bens sejam reconhedos como dele).
As declarações desta quarta indicam mudança significativa na postura
de Cid, preso desde maio e até então descrito como leal ao
ex-presidente.
Bittencourt, que assumiu a defesa de Cid há três dias, é o terceiro
advogado do caso desde que ele foi preso, em maio, por supostas fraudes
no cartão de vacinação de sua família, do ex-presidente Bolsonaro, e de
pessoas ligadas a ele.
As trocas recorrentes, avaliam advogados ouvidos em anonimato pela
reportagem, sugerem “dificuldade” e “conflitos de interesse” na linha de
defesa do tenente-coronel, cuja carreira militar em ascensão foi
duramente interrompida.
Na mesma quinta-feira, uma segunda crise estourou quando o hacker
Walter Delgatti disse à CPI dos Atos Golpistas que Bolsonaro o contratou
para fraudar urnas e o processo eleitoral, ofertou um indulto em caso
de condenação por crimes e pediu que ele assumisse a autoria de suposto
grampo contra o ministro Alexandre de Moraes.
A defesa de Bolsonaro descreveu as falas de Delgatti como falsas e
desprovidas de prova em nota enviada ao Jornal Nacional. O time do
ex-presidente apontou que as declarações contêm, em tese, o crime de
calúnia e que adotará as medidas judiciais cabíveis.
No fim da mesma quinta-feira, dando início à terceira crise do dia,
Alexandre de Moraes determinou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do
ex-presidente e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, além de
autorizar um pedido de cooperação internacional com autoridades do
Estados Unidos.
Pelo Instagram, a primeira-dama reagiu: “Pra que quebrar meu sigilo
bancário e fiscal? Bastava me pedir! Quem não deve, não teme!”
“Fica cada vez mais claro que essa perseguição política, cheia de
malabarismo e inflamada pela mídia, tem como objetivo manchar o nome da
minha família e tentar me fazer desistir. Não conseguirão! Estou em
paz!”, continuou.
Prisão preventiva improvável
As duas investigações envolvem membros do núcleo íntimo do
ex-presidente, caso da ex-primeira-dama e do ex-ajudante de ordens, mas
também do ex-advogado Frederick Wassef, do amigo e colega nas turmas de
cadetes da Academia Militar general Mauro Cesar Lourena Cid, dos
ex-ministros Bento Albuquerque e Fabio Wajngarten, além da deputada e
fiel escudeira Carla Zambelli.
Todos negam ter cometido qualquer crime.
“(A situação do ex-presidente) piorou bem”, avalia o professor de direito penal Tangerino em entrevista à BBC News Brasil.
“Mas não a ponto de ele ser preso preventivamente a curto prazo.”
Para o especialista, uma prisão preventiva “requereria algum fato
contemporâneo”, como coação contra testemunhas, destruição de provas ou
fuga.
“Sem um desses elementos, acho pouco provável”, ele diz.
A professora de direito da PUC-Minas concorda.
“Entendo que seria necessário algum elemento ou atuação para impedir
obtenção de provas, como a ameaça a coautores e a testemunhas, e
destruição de provas documentais e digitais”, ela explica.
Domingo a quarta-feira: compra de relógio e celulares apreendidos
A semana já começou tensa para o ex-presidente por conta de uma série
de episodios evolvendo seu ex-advogado, membro de seu círculo íntimo e
auto-proclamado “anjo” da família Frederick Wassef.
Na madrugada de domingo (13/8), frente a especulações sobre sua
participação na suposta negociação ilegal de presentes de Estado, Wassef
enviou nota à imprensa afirmando que “jamais soube da existência de
joias ou quaisquer outros presentes recebidos”.
“Nunca vendi nenhuma joia, ofereci ou tive posse. Nunca participei de
nenhuma tratativa, e nem auxiliei nenhuma venda, nem de forma direta ou
indireta”, prosseguiu
No texto, o aliado do ex-presidente dizia ser vítima de “campanha de
fake news e mentiras de todos os tipos, além de informações
contraditórias e fora de contexto”.
“Jamais participei ou ajudei de qualquer forma qualquer pessoa a realizar nenhuma negociação ou venda”, afirmou Wassef.
Na terça-feira (15/8), no entanto, Wassef aprofundou a crise para o
ex-presidente ao convocar a imprensa e assumir ter recomprado nos
Estados Unidos um relógio Rolex que havia sido dado pelo governo da
Arábia Saudita ao governo brasileiro.
“Comprei o relógio, a decisão foi minha, usei meus recursos, eu tenho a origem lícita e legal dos meus recursos”, afirmou.
Na entrevista, ele afirmou que o objetivo da compra era “devolvê-lo à
União, ao governo federal do Brasil, à Presidência da República, e isso
inclusive por decisão do Tribunal de Contas da União”.
Segundo o advogado, o pedido de compra não partiu de Bolsonaro ou de
Cid. Ele se recusou a informar para quem entregou o relógio.
O Rolex foi dado de presente por autoridades da Arábia Saudita em 2019, durante visita do ex-presidente ao país.
O relógio teria sido vendido ilegalmente pelo então ajudante de ordens de Bolsonaro Mauro Cid, segundo a polícia.
Depois que o Tribunal de Contas da União começou a suspeitar da venda
ilícita de presentes, Wassef teria sido, segundo a investigação,
escalado para viajar aos Estados Unidos para comprá-lo e trazê-lo de
volta
Após devolver a joia, membros do entorno de Bolsonaro teriam dado início a uma operação para resgatar o relógio vendido nos EUA.
Segundo a PF, os investigados são suspeitos de usar a estrutura do
governo “para desviar bens de alto valor patrimonial, entregues por
autoridades estrangeiras em missões oficiais a representantes do Estado
brasileiro, por meio da venda desses itens no exterior”.
Uma nova crise começaria na noite quarta-feira, dia seguinte às declarações dadas por Wassef à imprensa.
Enquanto jantava em uma churrascaria, num shopping center de São
Paulo, Wassef foi bordado por agentes do setor de inteligência da
Polícia Federal encontraram Frederick Wassef
Alvo de busca pessoal autorizada pela Justiça, o braço direito do
ex-presidente Jair Bolsonaro teve 4 aparelhos de celular apreendidos e o
carro revistado.
Um dos celulares agora em poder da polícia seria usado, segundo o Jornal Nacional, exclusivamenete para conversas com Bolsonaro.
TCU fez auditoria no acervo da Presidência e
determinou a localização e incorporação de 568 peças ao patrimônio da
União; processo foi concluído em 2020, em acórdão que considerou
cumpridas as determinações
Por Projeto Comprova – Jornal Estadão
Conteúdo investigado: Publicação nas
redes sociais traz uma montagem com um trecho cortado de uma declaração
de Lula e o texto “Sabe o que é alguém sair da presidência com 11
containers de acervo sem ter onde por?… Sair com cadeira, com trono, com
papel, com tudo que vocês possam imaginar?”. Na legenda do post, foi
incluída a frase “Onde estão esses bens?”. No X (antigo Twitter), a
frase adicionada é “Ele ainda reclama! Debochado, cínico”.
Onde foi publicado: Facebook, Instagram e X (antigo Twitter).
Conclusão do Comprova: Postagens das deputadas
federais Bia Kicis (PL-DF) e Carla Zambelli (PL-SP) trazem informações
de 2016 para levantar suspeitas sobre a destinação dos itens do acervo
presidencial de Lula (PT). Para tanto, compartilham título e matéria do Poder360, que diz: “Em 2016, Lula havia devolvido só 9 de 568 presentes de chefes de Estado, indicou TCU”.
‘Vocês sabem o que é sair com 11 contêiners da Presidência sem saber onde pôr?’, disse Lula em 2016. Foto: Gabriela Biló/Estadão
À época, o Tribunal de Contas da União (TCU) fez auditoria no acervo
de presentes recebidos em cerimônias oficiais por Lula e Dilma Rousseff
(PT) quando ocuparam a Presidência da República e determinou a
localização e incorporação de 568 peças dadas a Lula e 144 a Dilma ao
patrimônio da União. Até então, não havia clareza na legislação sobre a
destinação desses bens.
Conforme o TCU explicou ao Comprova, a determinação foi cumprida, como mostra o acórdão 1577,
de 2020. Apenas oito itens do acervo de Lula não foram localizados. De
acordo com registros do Sistema de Informação do Acervo Privado
Presidencial (Infoap), eles foram estimados em R$ 11.748,40, montante
que, segundo o TCU, foi restituído à União em 10 parcelas de R$
1.174,84.
Ao Comprova, o Instituto Lula afirma que os itens que permaneceram no acervo pessoal de Lula estão,
em sua maior parte, sob a guarda do instituto em dependências do
Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em São Paulo. A
outra parte está guardada no Museu da República, através de um termo de
cessão feito entre o Instituto Lula e o museu, que abrigou as peças mais
valiosas e sensíveis.
Enganoso, para o
Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de
modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou
que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor;
conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.
Alcance da publicação: O Comprova investiga os
conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 18 de
agosto, a publicação somava mais de 1,5 milhão de visualizações nas
três redes encontradas. No Facebook, eram 357 mil visualizações, 23 mil
reações e 6,6 mil comentários, enquanto no X eram 228,3 mil
visualizações, 11,3 mil curtidas e 4,6 mil compartilhamentos. Já no
Instagram, a publicação contava com 931 mil visualizações, 90,5 mil
curtidas e 8,3 mil comentários.
Como verificamos: Em primeiro lugar, o Comprova
encontrou a origem da declaração de Lula. Para isso, como há a presença
da logo da Rede TVT, pesquisou no Google as palavras-chave “coletiva
Lula TVT presentes”, chegando ao corte “Coletiva Lula: Os presentes”, concedida em 4 de março de 2016, após o político ser levado em condução coercitiva para depor nas investigações da operação Lava Jato.
Em seguida, procurou a entrevista coletiva completa, disponível também no canal de YouTube da emissora. A declaração do atual presidente está entre 13′12″ e 13′45″.
Em seguida, foram procuradas matérias e reportagens sobre a coletiva e
os presentes recebidos durante os dois mandatos de Lula, de 2003 a
2010. O Comprova também buscou informações nos canais oficiais do
governo federal, da Secretaria de Comunicação Social (Secom) e do TCU.
Por fim, entrou em contato com a Secom, o tribunal e o Instituto Lula
para esclarecer informações, além de contatar as autoras das publicações
verificadas.
A declaração de Lula
Em 4 de março de 2016, o então juiz federal Sergio Moro, hoje senador, ordenou a condução coercitiva de Lula para depor na Polícia Federal durante as investigações da Lava Jato. Após o depoimento, o petista deu uma entrevista coletiva no
Diretório do PT em São Paulo. Dentre os assuntos abordados, o
presidente citou que o Ministério Público estaria investigando seu
acervo pessoal, contendo presentes recebidos em visitas internacionais.
A descrição da fala completa de Lula sobre o acervo pessoal é a
seguinte (no vídeo original da coletiva, o trecho da declaração começa
em 13′03″):
“Você tem que responder pelo acervo, eles agora querem saber do
acervo do Lula. Poderia ter querido saber do acervo antes de me
comprometer com essas tranqueiras todas. Vocês sabem o que que é alguém
sair da presidência com 11 contêineres de acervo sem ter onde pôr? Vocês
sabem o que é sair com cadeira, com trono, com papel, com tudo que
vocês possam imaginar? Porque se somar todos os presidentes da história
desse país, desde Floriano Peixoto, eu fui o que mais ganhei presente.
Porque viajei mais, porque trabalhei mais, porque viajei o mundo, eu
tenho até trono da África. O que que eu faço com isso? É uma coisa do
presidente, mas de domínio público, eu tenho que tomar conta, mas
ninguém me paga. Então é o seguinte, essas coisas, se o Ministério
Público está preocupado, ô, Rui [Falcão], eu acho que é importante vocês
oferecerem meu acervo. Eles têm um prédio lá redondo, de vidro fumê,
que pode guardar as coisas que eu tenho. Aquilo não me faz nenhuma
importância, a quantidade de ouro que eu tenho. Eu uso meu Citizen aqui,
não vou fazer merchandising, custa uns R$ 500, 600. Eu não quero
relógio para valorizar meu pulso, eu quero um relógio para valorizar a
hora. Eu quero saber se ele funciona ou não”.
A fala utilizada na publicação foi recortada do trecho entre “Vocês
sabem o que é alguém sair da presidência com 11 contêineres…” e “…O que
que eu faço com isso?”.
Lula
com Paulo Okamotto durante visita ao acervo presidencial no Sindicato
dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo /
21/12/2017 Foto: Ricardo Stuckert / Divulgação
Lula deixa a presidência com 11 contêineres
Diante do inquérito que apura suposta venda de joias e outros objetos de valor recebidos
em viagens oficiais do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o vídeo de
Lula foi recuperado por bolsonaristas para levantar suspeitas sobre a
destinação dos presentes recebidos pelo petista em seus dois mandatos
presidenciais).
Em entrevista por telefone ao Comprova, Paulo Okamotto, diretor do
Instituto Lula, afirmou que, após o segundo mandato do petista, foram
retirados 11 contêineres que compunham o acervo presidencial:
“São 11 contêineres. Mas não são 11 contêineres de presentes. São 11
contêineres de acervo presidencial. O que é esse acervo presidencial? As
pessoas mandaram carta para o Lula, 400 mil cartas mandadas para o
Lula, isso compõe o acervo presidencial, entendeu? As pessoas deram 180
bíblias para o Lula, isso compõe o acervo presidencial, e assim vai por
diante. O cara ganhou uma bola, uma camiseta, uma caneta, um monte de
coisa que a população deu, que popular deu. Isso dá milhares e milhares e
milhares de itens”, diz Okamotto, acrescentando que esse material está
acondicionado em dependências do Sindicato dos Metalúrgicos em São
Bernardo do Campo.
Desde a redemocratização, em 1988, a legislação sobre o acervo presidencial foi alterada por três vezes. A primeira delas é a Lei 8.394,
de 1991, que determina o que é o patrimônio privado dos presidentes.
Nessa lei, contudo, não há nenhuma citação sobre a destinação de
presentes recebidos pelas autoridades.
Em 2002, por meio do Decreto 4.344,
o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) regulamentou a lei
anterior e ampliou seu conteúdo. Essa é a primeira vez em que é citado o
recebimento de presentes e a destinação para o acervo presidencial.
Segundo a legislação, “os documentos bibliográficos e museológicos
recebidos em cerimônias de troca de presentes, nas audiências com chefes
de Estado e de Governo” devem ser destinados ao acervo presidencial,
sejam recebidos em viagens ao exterior ou entregues por autoridades
estrangeiras no Brasil.
A redação dessa lei, no entanto, gerou, segundo especialistas, uma interpretação dúbia sobre os tipos de objetos que
deveriam ter como destino final o acervo presidencial e quais seriam de
propriedade privada do presidente. Para muitos, somente presentes
recebidos em cerimônias oficiais deveriam ir para o Acervo da
Presidência, e, com isso, mantinham para o acervo pessoal todos os
outros que fossem recebidos fora desses eventos.
Para evitar essa dubiedade, o TCU publicou o acórdão 2255/2016,
que define que todos os presentes recebidos pelos chefes do Executivo
brasileiro devem ser incorporados ao acervo presidencial. As únicas
exceções são objetos de caráter personalíssimo, como roupas e perfumes, e
de consumo imediato e perecíveis, como alimentos ou bebidas.
Auditoria do TCU nos presentes recebidos por Lula
Em 2016, seis meses após a condução coercitiva de Lula para
depoimento à PF, o Tribunal de Contas da União realizou auditoria nos
presentes recebidos pelos presidentes da República entre janeiro de 2003
e maio de 2016 cadastrados no Sistema de Informação do Acervo Privado
Presidencial. O objetivo, como consta no acórdão 2255/2016, foi “averiguar desvio ou desaparecimento de bens pertencentes à União nos palácios do Planalto e da Alvorada”.
Na ocasião, o TCU constatou interpretação equivocada do Decreto 4.344/2002,
que dispõe sobre a preservação, organização e proteção dos acervos
documentais privados dos presidentes da República, pois haviam sido
incorporados ao acervo da União somente nove presentes recebidos por
Lula e seis por Dilma de um total de 1.073 itens analisados, sob a
justificativa de que o número restrito se referia àqueles recebidos em
cerimônias formalmente denominadas de “troca de presentes”.
Segundo o TCU, essa interpretação do decreto foi equivocada. O órgão, então, fixou o seguinte entendimento: “(…)
Não só os documentos bibliográficos e museológicos, recebidos em
eventos formalmente denominados de ‘cerimônias de troca de presentes’,
devem ser excluídos do rol de acervos documentais privados dos
presidentes da República, mas, também, todos os presentes, da mesma
natureza, recebidos nas audiências da referida autoridade com outros
chefes de estado ou de governo, independentemente do nome dado ao evento
pelos cerimoniais e o local que aconteceram”.
A exceção, segundo o TCU, refere-se aos itens de natureza
personalíssima (medalhas personalizadas e grã-colar) ou de consumo
direto pelo presidente da República (bonés, camisetas, gravata, chinelo,
perfumes, entre outros). Sendo assim, do total de 1.073 presentes
analisados no período auditado, o TCU excluiu 361, entendendo serem de
natureza pessoal. Restaram 712 itens: 568 (Lula) e 144 (Dilma) que deveriam ser localizados em incorporados ao acervo da União.
Em 2019, após análise determinada pelo TCU e realizada pela Diretoria
de Documentação Histórica (DDH) do Gabinete Pessoal do Presidente da
República, a partir do Sistema de Gestão de Acervos Privados da
Presidência da República, foi feita uma recontagem dos bens que deveriam
ser restituídos ao acervo presidencial dos dois presidentes. Conforme
o acórdão 177/2019,
após a reavaliação, o número de itens que deveriam ser devolvidos
totalizaram 434 bens de Lula e 117 de Dilma. Os itens estão disponíveis
para consulta no site da Presidência.
Em relação a Lula, objeto da peça de desinformação, o TCU informou ao
Comprova que somente oito peças não foram localizadas. A esses itens
foi estipulado um valor total de R$ 11.748,40 que, segundo o TCU, foram
restituídos à União em 10 parcelas de R$ 1.174,84. A resposta também
consta em matéria da CNN Brasil.
Dessa forma, explica o TCU, o acórdão 1577/2020 considerou cumpridos os subitens 9.2.2 e 9.2.3 do acórdão 2255/2016,
que determinou a reincorporação ao acervo da União dos 568 bens e 144
bens recebidos, respectivamente, por Lula e Dilma Rousseff em cerimônias
com chefes de Estado ou de governo no período em que ocuparam a
presidência.
A
Polícia Federal encontrou indícios de que o kit de joias da Chopard
recebido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro foi colocado em leilão nos
Estados Unidos, em fevereiro deste ano. Foto: Foto: Polícia Federal
O caso de Bolsonaro
No caso de Bolsonaro, a suspeita da PF é que os presentes recebidos
pelo ex-presidente tenham sido omitidos dos órgãos do poder público e desviados para fins de enriquecimento pessoal.
As suspeitas foram reveladas em março deste ano, após o Estadão mostrar que
o governo Bolsonaro tentou trazer ilegalmente para o país colar, anel,
relógio e um par de brincos de diamantes avaliados em € 3 milhões, o
equivalente a R$ 16,2 milhões. As joias foram um presente do regime da
Arábia Saudita para o então presidente e a primeira-dama Michelle
Bolsonaro e foram apreendidas no aeroporto de Guarulhos (SP).
Na noite do 11, a defesa de Bolsonaro divulgou nota dizendo
que o ex-presidente nega ter se apropriado ou desviado bens públicos e
afirmando que coloca à disposição da Justiça sua movimentação
financeira.
Questionado pelo Comprova se, na época da auditoria no acervo
presidencial de Lula, foi constatada a venda de algum item, o TCU
respondeu: “Não localizamos análise do Tribunal nesse sentido”.
O que diz o responsável pela publicação: As
deputadas Bia Kicis e Carla Zambelli foram contatadas. Bia Kicis
respondeu: “A postagem é um vídeo da fala dele à época. Não tem nada de
enganosa. É sobre o que ele diz que levou. Se devolveu depois é outra
história”.
Já Carla Zambelli disse que “o vídeo tem fonte e trata de um assunto
específico: Lula ficou com 11 contêineres de presentes que ganhou
durante seu mandato e se gaba disso no vídeo”. Ela acrescenta: “O
desfecho não desfaz o fato dele ter saído da presidência com material
que não lhe pertencesse. E mais: não se sabe se ele devolveu realmente
tudo o que deveria, já que sequer mandava para o acervo presidencial”.
O que podemos aprender com esta verificação:
Utilizar trechos de falas e entrevistas fora de contexto é uma tática
comum entre pessoas que publicam desinformação. Ao encontrar uma
publicação com declarações curtas – os chamados “cortes” – procure
buscar pelo vídeo original para entender o contexto.
Além disso, é muito comum que desinformadores produzam conteúdos para
gerar comparações entre políticos e personalidade, geralmente quando há
uma medida ou ação polêmica envolvendo um deles. Por isso, é importante
pesquisar sobre o contexto em que determinada declaração ou informação
foi dada.
Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos
suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre
políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações
para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você
também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Quando mais cedo o investidor se organizar, menor será o valor dos aportes mensais (Foto: Envato Elements)
Pela previdência pública, as mulheres conseguem se aposentar aos 60 anos por idade, enquanto os homens aos 65 anos
Para alcançar o teto máximo, o trabalhador precisa ter um salário
equivalente ao teto do ano vigente durante os anos de contribuição
Mas com a reforma da previdência, a aposentadoria pública adotou
regras mais complexas que impedem os trabalhadores atingirem esse
patamar
As condições atuais para se aposentar pela previdência pública não costumam ser interessantes em comparação com as diversas possibilidades que o mundo de investimentos oferece.
Se levarmos em consideração as regras atuais, o trabalhador precisa
contribuir no mínimo 30 anos para se aposentar por tempo de serviço pelo
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Por idade, a faixa etária mínima é de 65 anos para os homens e de 60
para as mulheres. Além disso, a aposentadoria máxima disponível é de R$
7,5 mil por mês.
O problema é que as regras da aposentadoria pública são complexas e o
trabalhador, especialmente o que está em regime CLT, não possui a
flexibilidade de definir aportes mensais fixos para alcançar uma
remuneração ideal ao chegar na aposentadoria pelo INSS. Segundo Vania
Cervini, planejadora financeira, para conseguir se aposentar com o teto
máximo pela previdência pública, é preciso que o valor médio dos
salários durante o período de contribuição seja equivalente ao teto do
ano vigente.
É importante lembrar que sempre há reajustes que alteram essa
remuneração máxima. Além disso, há outras variáveis que o contribuinte
deve levar em consideração como: idade, tempo de contribuição, fator
previdenciário, entre outros. “Com a reforma da previdência aconteceram
mudanças significativas, dificultando ainda mais aos contribuintes
atingirem o valor máximo”, diz Cernivi.
No entanto, há alternativas em que o trabalhador pode se planejar
financeiramente para ter uma renda confortável no futuro. Os títulos de renda fixa e até investimentos em renda variável oferecem
caminhos capazes de pagar a mesma quantia com aportes e dentro de um
período mais adequado à sua realidade. De acordo com a simulação
realizada por Cervini, para o investidor ter uma remuneração de R$ 7,5
mil, ele precisaria investir cerca de R$ R$ 2.060 por mês durante 30
anos de contribuição ou R$ 1.060 durante 40 anos de contribuição.
Na prática, isso significa que, se o trabalhador iniciar os aportes
de R$ 1.060 aos 25 anos, ele conseguiria se aposentar aos 65 anos com
uma renda de R$ 7,5 mil. A mesma faixa de idade que o INSS oferece aos
contribuintes. Caso aumente o aporte para R$ 2.060, conseguiria se
aposentar aos 55 anos. “Concluímos que o tempo pode ser seu aliado,
quanto antes começar a investir menor será seu esforço de poupança
mensal”, acrescenta a planejadora financeira. A simulação considerou uma carteira diversificada com títulos de renda fixa atrelados à inflação, taxas prefixadas e pós fixados mais uma taxa de juros de 5% ao ano.
No entanto, se o investidor escolher uma carteira de fundos
imobiliários, as condições de investimentos ficam ainda melhores devido à
alta rentabilidade, o que permite aportes com valores mais acessíveis. De
acordo com uma simulação feita pela Monett, para alcançar o teto máximo
vigente do INSS, o contribuinte precisaria realizar aportes mensais de
R$ 267,73 por 40 anos ou R$ 659,71 por 30 anos. Caso o objetivo seja se
aposentar em apenas 20 anos, basta investir mensalmente cerca de R$
1.755,28.
Felipe Paletta, sócio e analista da Monett, explica que a simulação utilizou a carteira do IFIX, índice de fundos imobiliários da B3, por reunir os maiores e os mais líquidos FIIs do mercado. “Nos
últimos meses, o yield médio ficou em 8,9%, taxa que assumi para os
cálculos e próxima à média de yield do índice nos últimos 10 anos”,
afirmou o analista.
Saiba como se planejar
Os aportes correspondem apenas a uma simulação para chegar até o
valor da renda desejável no futuro, mas podem variar de acordo com a
realidade de cada investidor. Isso porque, antes de estabelecer uma
renda mensal que deseja usufruir na aposentadoria, o investidor precisa
ter em mente o custo de vida que pode ter nos próximos anos. “O maior
erro que as pessoas cometem é achar que ao alcançar a terceira idade vão
ter menos gastos”, diz Fernando Bueno, especialista em investimentos da
Ágora.
Ao montar um planejamento financeiro para a aposentadoria, a pessoa
precisa levar em consideração as despesas que poderá ter no futuro, como
os gastos com saúde. Além disso, deve buscar construir ao longo da vida
um patrimônio capaz de reduzir os custos considerados essenciais, como
ter a casa própria. “Pagar aluguel é um estilo de vida arriscado para
uma fase em que buscamos ter paz”, diz Eric Marques dos Santos, atuário
da Luz Soluções Financeiras.
A revisão do planejamento financeiro também deve ser realizada
constantemente para que o investidor possa adequar os seus aportes com a
renda que julgue ser ideal para a sua aposentadoria.
Figuras graduadas do Exército citam caso da
prisão de integrantes da PM do DF e apontam que há limite a partir do
qual seria difícil acalmar oficialato e militares abaixo da linha de
comando.
Por Monica Gugliano – Jornal Estadão
É uma corda bastante fina essa que a Justiça está esticando com as
prisões de militares, como as que a Procuradoria-Geral da República
(PGR) determinou nesta sexta-feira, 18, e que atingiram os integrantes da cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal,
entre eles o atual comandante Klepter Rosa Gonçalves. A opinião
generalizada entre militares graduados do Exército é de que essas
prisões estão criando instabilidade e insegurança nas Forças Armadas.
Alguns oficiais chegam a dizer que a PGR estaria “tripudiando” e que
essas ações têm um limite, a partir do qual não seria fácil acalmar nem o
oficialato e nem tampouco os militares abaixo da linha de comando.”
Entre os militares, existe a percepção é de que há exagero e
descontrole nessas prisões de pessoas que não estariam dando sinais de
que tentarem atrapalhar investigações ou de que teriam realmente
participado ou feito corpo mole diante da tentativa de um golpe no dia 8
de janeiro. Elas seguiriam um estilo lavajatista que forçaria delações e
confissões, muitas das quais não se sustentaram com o passar do tempo.
Para
militares, Procuradoria Geral da República estaria “tripudiando” e
haveria um limite a partir do qual seria difícil acalmar núcleos
militares Foto: José Cruz / Agência Brasil
Para o Exército está muito claro que a Força não embarcou em nenhuma
tentativa de golpe ou suposto golpe. Pelo contrário, o Alto Comando tem
reafirmado que assumiu uma forte posição em defesa da democracia e da
posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Portanto, não
existiriam razões para a Força continuar sendo envolvida em supostos
ilícitos praticados por alguns do seus integrantes.
Mas existe um clamor popular para que aconteçam punições,
especialmente no caso do ex-ajudante de ordens do então presidente Jair
Bolsonaro, Mauro César Cid, e agora do seu pai, o general de Exército na
reserva, Mauro César Lourena Cid. O Exército é uma instituição e, como
tal, esses oficiais têm dito que a instituição não pode agir movido pelo
clamor das ruas. Mas precisa seguir a legalidade.
Isto é, quando Cid for julgado, se condenado, certamente será expulso
da Força. O caso do pai dele é mais complicado por se tratar de um
general da reserva, e cuja participação do caso das joias ainda está
sendo digerida. Mesmo seus mais próximos amigos estão desconcertados com
as revelações do possível envolvimento dele. Alguns que têm procurado
falar com ele, pararam de tentar. Lourena Cid, dizem essas pessoas, está
terrivelmente abalado, chora e não consegue conversar.
Situação
de Mauro Cesar Barbosa Cid e de seu pai, o general Mauro Cesar Lourena
Cid, é considerada delicada pelos militares Foto: Andre Borges/EFE e
Roberto Oliveira/Alesp
Até que as investigações desvendem tudo que aconteceu e como
aconteceu, e a Justiça dê uma sentença, os oficiais têm procurado
acalmar as bases e mostrar que o Exército é muito maior do que as
denúncias contra alguns de seus integrantes. É um trabalho pesado esse
de resgate da imagem de uma instituição que, até poucos anos, liderava
as pesquisas de confiabilidade.
Mas é um trabalho que vem sendo feito junto aos mais jovens por que
não é a tropa, mas a cúpula do Exército que se vê envolvida e cobrada
pelos mal feitos praticados por alguns. Não foi a tropa que embarcou com
malas e bagagens na candidatura do ex-capitão Jair Bolsonaro e nem
tampouco foi ela a beneficiária de salários e todas as outras benesses
concedidas pelo então presidente.
A reputação do Exército brasileiro, entendem, está na ponta da linha.
Está no soldado que mora na fronteira, onde não existe mais nenhuma
instituição de Estado. Está no soldado que ajuda os demais cidadãos em
enchentes ou distribuindo água em períodos de seca. E esse soldado,
ponderam os oficiais, não está sendo atingido pelas denúncias.
A expressão ‘demissão silenciosa’ pode ter
saído de moda, mas muitos profissionais continuam não se esforçando além
do necessário.
Por BBC
Quando Hunter Ka’imi compareceu ao programa de TV americano Dr. Phil,
em 2022, os produtores não chegaram sequer a mencionar seu
sobrenome. Eles o identificaram apenas como um “demissionário
silencioso”.
“Acredito que a demissão silenciosa seja um protesto pelos direitos dos trabalhadores”,
afirmou Ka’imi. “Não acho que o trabalho seja o que há de mais
importante na minha vida, nem acho que deveria ser o mais importante na
vida de uma pessoa.”
O programa dedicou meio episódio a este fenômeno, que começou no verão (do hemisfério norte) de 2022. Um usuário do TikTok chamado
Zaid Khan postou então um vídeo de si próprio explicando “esta
expressão, chamada demissão silenciosa, quando você não está saindo
deliberadamente do seu emprego, mas está abandonando a ideia de ir além
das expectativas”.
A expressão viralizou quase instantaneamente. Ela dominou as manchetes e as hashtags. No TikTok,
#quietquitting (“demissão silenciosa”, em inglês) teve cerca de 900
milhões de visualizações até o fechamento desta reportagem.
Ka’imi explica no seu vídeo: “não vou trabalhar em uma semana de 60
horas e me esforçar sozinho por um emprego que não cuida de mim como
pessoa”. O vídeo acumulou mais de sete milhões de visualizações, 38 mil
comentários e mais de 43 mil compartilhamentos.
O jovem Ka’imi, de 23 anos, era gerente de um restaurante no Estado
americano de Washington. Ele se tornou um símbolo do movimento, que
rapidamente fez com que a demissão silenciosa se tornasse uma espécie de
medalha de honra. Declarar sua demissão silenciosa logo se tornou um
ato arrojado ou, pelo menos, virou tendência.
Ka’imi afirma que aquilo aconteceu porque muitas pessoas se identificaram imediatamente com a sensação de estarem sendo usadas pelos seus empregadores. E os “demissionários silenciosos” como ele simplesmente deram um nome a esta sensação.
“Acho que as pessoas vinham se sentindo frustradas há tempos, mas não
tinham as palavras para articular os motivos, a não ser ‘estou com
raiva do meu patrão’”, segundo ele.
“Quando a conversa mudou para a demissão silenciosa, a questão passou
a ser sobre a cultura do trabalho, o capitalismo e a exploração. Foi
quando muitas pessoas perceberam, ‘oh, na verdade, é disso que tenho
raiva”, explica Ka’imi.
Esta tendência pode já ter saído do linguajar diário, mas ele e os
especialistas afirmam que o espírito da demissão silenciosa permanece
forte.
A popularidade da demissão silenciosa começou durante a pandemia,
“quando as pessoas reavaliaram suas experiências no trabalho, suas
relações com seus empregadores e sua vida em geral”, segundo Katie
Bailey, professora de trabalho e emprego do King’s College de Londres.
“Como muitas tendências nas redes sociais, ela decolou devido aos
comentaristas: acadêmicos, economistas, outros especialistas no mercado
de trabalho e assim por diante, todos estavam falando sobre ela, o que
fez com que ela ganhasse ainda mais importância”, conta a professora. “A
expressão foi adotada e usada em diferentes formas por diferentes
pessoas.”
Para Bailey, a expressão entrou com muita força no zeitgeist (o
espírito da época) devido às intensas reações dos profissionais ao
conceito, resumido em uma expressão curta.
Embora muitas pessoas se identificassem com a situação (como os
seguidores que idolatraram Ka’imi), outras passaram a difamar os
demissionários silenciosos.
No programa do Dr. Phil, o planejador financeiro Brent Wilsey, de San
Diego, nos Estados Unidos, afirmou que aquilo era simplesmente
preguiça.
“Acho que [a demissão silenciosa] realmente se resumiu a ‘nós contra
eles’”, afirma Ka’imi. Ele esclarece que, embora parecesse algo arrojado
e proibido, a demissão silenciosa, na verdade, nunca foi questão de
rebelião.
“Ela significa simplesmente fazer o seu trabalho”, explica Ka’imi.
“Não é um protesto exagerado, nem uma retórica, digamos, de sabotar seu
empregador, chegar tarde todos os dias ou roubar a sua empresa.”
“A demissão silenciosa diz que, se sou contratado para fazer A, B e
C, isso é tudo que eu irei fazer”, prossegue ele. “É a resistência a
fazer X, Y e Z, que não estão na descrição do seu cargo e pelo quê você
não está sendo pago.”
Bailey defende que o mercado de trabalho historicamente restrito, em
alguns países, com empresas lutando para preencher as vagas e reter os
funcionários, ajudou a encorajar os profissionais em demissão silenciosa
a irem a público nas redes sociais, sem medo de serem demitidos.
Ka’imi conta que simplesmente não teve medo de que os seus patrões
assistissem ao vídeo. Na verdade, ele esperava que eles vissem, mesmo
se, com isso, sua demissão silenciosa se tornasse, digamos, menos
silenciosa.
“Eu não me importei”, ele conta.
Ka’imi afirma ainda que ficou orgulhoso quando pediu ao seu patrão
para sair mais cedo para ir ao programa de TV e contar explicitamente o
quanto ele não gostava do seu trabalho.
Seus empregadores podem não ter ficado muito felizes, mas também não
discutiram. Ao falar abertamente sobre a questão, Ka’imi esperava poder
trazer alguma mudança significativa, tanto para o seu emprego quanto em
escala mais ampla.
‘Atualmente, a demissão silenciosa é o status quo’
A demissão silenciosa era uma moda, segundo Katie Bailey, no sentido
de que a expressão perdeu relevância em questão de poucas semanas.
As pesquisas pela expressão no Google atingiram seu pico em agosto de 2022 e, desde então, os números minguaram.
As discussões sobre a demissão silenciosa podem ter esmorecido, mas
isso não significa que os profissionais tenham abandonado essa prática.
“Questões subjacentes sobre nossas horas de trabalho e como nos
dedicamos ao trabalho – acho que [a demissão silenciosa] continua por
aí”, afirma Bailey.
Nós podemos ter deixado de rotular esse comportamento como demissão
silenciosa, mas as pessoas estão definindo mais fronteiras em torno do
seu tempo e energia.
Para a professora, “os profissionais estão mais conscientes sobre a
reafirmação da autonomia e controle e dizendo ‘sou um ser humano e
existem outras coisas na minha vida além do trabalho’”.
Bailey destaca que alguns profissionais podem agora estar dedicando
menos atenção a esse comportamento, para não prejudicar os seus empregos
e proteger sua renda “devido à situação financeira enfrentada por
muitas pessoas com a inflação crescente e a deterioração da economia”.
Mas, obviamente ou não, dados do instituto Gallup indicam que a maior
parte dos profissionais ainda pratica a demissão silenciosa. A edição
de 2023 do relatório sobre o Estado do Mercado de Trabalho Global,
publicado pelo instituto, afirma que seis em cada 10 empregados em todo
mundo estão psicologicamente desligados da sua organização, mesmo quando
trabalham nas horas contratadas.
Hunter Ka’imi afirma que “depois que o movimento se reduziu um pouco,
acho que as pessoas perceberam que existe uma forma muito mais saudável
de trabalhar”.
“É normal dizer ‘vou fazer apenas o mínimo possível; vou chegar para o
meu turno e sair quando ele acabar’. Atualmente, a demissão silenciosa é
o status quo.”
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Worklife.