sexta-feira, 30 de junho de 2023

DEMOCRACIA RELATIVA DE LULA COPIADA DA DITADURA É UMA DITADURA DISFARÇADA

 


A democracia relativa de Lula, o super-homem inimputável

Por
Paulo Polzonoff Jr. – Gazeta do Povo


Lula, o inimputável, chupando uma poncã, mexerica, morgote, bergamota ou mimosa. Sei lá!| Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil


No começo do ano, quando Reinaldo Azevedo teve a duvidosa honra de entrevistar cara a cara, tête à tête, o Lula, lembro que ele fez uma pergunta que me deixou mais intrigado do que revoltado. Ele perguntou como o Lula fazia para não se sentir imortal ou invencível ou indestrutível ou qualquer coisa assim. Principalmente depois de ter sido o primeiro ex-presidiário eleito presidente do Brasil. O primeiro de muitos, suponho.

E aqui abro um parêntesis bem rapidinho para pedir desculpas. Talvez o Reinaldo Azevedo tenha usado outro adjetivo para seu rapapé travestido de jornalismo. Mas a ideia era essa e, no mais, você não vai me obrigar a assistir àquilo tudo, né? E aqui abro outro parêntesis mais ligeiro ainda para dizer que, sempre que uso “àquilo”, me lembro da velha professora de português que ensinava: não se usa crase antes do masculino. Sabe de nada, inocente!

Fechados os parêntesis, volto a Lula e a Reinaldo Azevedo para dizer que o maior vira-casaca da história recente estava certo. Lula é mesmo invencível. Imortal, no sentido político da coisa. Indestrutível. Um super-homem. A maior prova disso são as bobagens que ele vem colecionando nos últimos meses e que, na boca de um Bolsonaro qualquer, já teriam reduzido a República a escombros. O mais recente exemplo dessa indestrutibilidade de Lula é a exaltação do processo eleitoral venezuelano, seguida pela declaração surpreendentemente honesta (!?) de que “o conceito de democracia é relativo”.

Neste momento, interrompo o texto para confessar que é muito estranho usar Lula e “honesto” na mesma frase. Tive que ler uma, duas, dez vezes para ver se fazia sentido.  Até coloquei um “surpreendentemente” ali, para dar uma disfarçada. Mas não sei se o advérbio expressa toda a minha estranheza. Até porque, ao ouvir essas palavras pronunciadas na voz cavernosa de Lula, me peguei concordando com o Montesquieu de Garanhuns.

Parem as máquinas!
Difícil não concordar. Afinal, vivemos hoje a democracia mais relativa de todos os tempos. Ou pelo menos dos tempos que eu vivi. Uma democracia tão relativa que pode querer fechar rádio crítica ao governo. Uma democracia tão relativa que pode considerar um ex-presidente inelegível por causa de uma reunião à toa. Uma democracia tão relativa que abriga reunião de ditadores. Uma democracia tão relativa que… ah, você entendeu.

Mas sou obrigado a novamente evocar o nome do ex-presidente para dizer que, por muito muito muito MUITO menos, os Reinaldos Azevedos e Mírians Leitões dos Pravdas da vida pediram impeachment, Tribunal de Haia, guilhotina e paredón para Bolsonaro. Que, vamos combinar, não era exatamente um ás das palavras. Esse rigor todo dos puritanos democratas é que nunca entendi. Se bem que faço questão de não entender gente má.  Por falar em “ás das palavras”, PAREM AS MÁQUINAS!

Porque me ocorreu agora (me lembrei de “Tempos Modernos”, de Paul Johnson) que a fala de Lula revela o quanto o ex-condenado se deixou corromper pela mentalidade progressista, para a qual a fronteira entre o certo e o errado não existe. Isso talvez explique a sem-cerimônia com que ele mente, vive uma vida mentirosa e faz política idem. Afinal, qualquer psicanalista de botequim sabe que a relativização de tudo (da verdade, do Bem, do certo) é uma forma que as pessoas encontram de justificar seus piores pecados. E de conviver “em paz” com eles. Uau.

Inimputável
De volta à vaca fria, o fato é que Lula, além de invencível, é inimputável. Não no sentido em que você está pensando; no sentido de alguém que é livre para cometer quaisquer erros, sem que haja consequência. Absolutamente nada atinge o Lula, e é por isso que me incomoda essa falsíssima esperança em torno da CPI do MST ou da CPMI do 8/1. Hoje, se Lula for pego em flagrante (numa foto by ©Ricardo Stuckert, talvez?) chutando uma criança, pode apostar: vão encontrar uma forma de botar a culpa na criança.

Ou seja, temos o chefe de um poder, o Executivo, sem qualquer tipo de freio, seja ele eleitoral, moral ou institucional. Temos um presidente que fala o que quer e faz o que lhe dá na telha. E ainda há quem diga que isso é uma democracia. Viu como é mesmo relativo o conceito? (E só porque odeio terminar texto com pergunta fica aqui mais este parêntesis).

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/polzonoff/a-democracia-relativa-de-lula-o-super-homem-inimputavel/
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NÃO É O ENVELHECIMENTO O VILÃO DOS PLANOS DE SAÚDE QUE COBRAM MAIS CARO PELA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO

 

Como evitar isso?

Número de jovens em planos cai e o de idosos com mais de 70 anos é o que mais cresce; fenômeno pode levar a desequilíbrio nas contas

Por Fabiana Cambricoli – Jornal Estadão

O número de jovens com planos de saúde caiu nos últimos anos no País, enquanto o de idosos, em especial os mais velhos, aumentou de forma expressiva no mesmo período, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

O fenômeno, dizem especialistas, amplia o desafio de equilibrar as contas do setor para operadoras de saúde e usuários, e escancara a urgência de alterações no modelo de prestação de serviço, que deve ter foco maior no acompanhamento de doenças crônicas e prevenção de complicações. Se nada for feito, afirmam, os custos podem aumentar a ponto de o plano de saúde passar a ser um artigo de luxo no futuro.

Planos de saúde: relatório prevê ‘prontuário único’, com exames compartilhados entre operadora e SUS

Historicamente, o maior volume de jovens entre os clientes ajuda a compensar o aumento de custos que acontece durante o envelhecimento, período da vida em que os beneficiários utilizam mais os planos. No Brasil, o envelhecimento populacional vem acontecendo de forma mais acelerada do que em outros países que passaram pelo processo, o que explica o aumento de clientes idosos.

Por outro lado, as crises econômicas de 2015 e dos anos de pandemia reduziram o número de empregos formais e, consequentemente, de beneficiários mais jovens. Isso porque 83% dos cerca de 50 milhões de brasileiros que possuem convênio médico são clientes de planos empresariais.

Segundo levantamento da ANS feito a pedido do Estadão, o número de beneficiários na faixa etária dos 20 aos 39 anos caiu 7,6% entre 2013 e 2023, enquanto o de maiores de 60 anos saltou 32,6% no período, índice muito superior à alta de 5,3% no total de clientes de convênios médicos.

A faixa etária com a maior queda foi a dos 25 aos 29 anos, com redução de 18,1% nos últimos dez anos. Já na outra ponta, o grupo de idosos de 70 a 74 anos aumentou 41,9%. A segunda faixa etária com maior aumento foi a de clientes com 80 anos ou mais – alta de 39,5%. Com isso, a proporção de idosos entre o total de clientes de convênios passou de 11,4% para 14,4% na última década.

“O progresso material e os avanços da Medicina estão permitindo que a gente viva mais. O que chama a atenção é a velocidade com que esse processo está acontecendo. O que estamos vivendo em 20 anos, países europeus demoraram mais de cem anos para viver”, diz José Cechin, superintendente executivo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS).

Além de o número de idosos estar aumentando no País, esse segmento populacional é o que registra a menor rotatividade nos planos. “Eles saem menos e trocam menos de operadora porque é mais difícil conseguirem trocar e porque a percepção de necessidade é maior. Muitas vezes o plano de saúde do idoso é rateado por toda a família”, diz Martha Oliveira, especialista em envelhecimento e CEO da Laços da Saúde, empresa especializada em cuidados domiciliares para idosos.

“Já os jovens, por terem planos ligados a empresas e menor percepção de necessidade, costumam ser quem mais perde, cancela ou troca de plano, em especial em momentos de crise econômica”, afirma.

‘Não é o envelhecimento o vilão’, diz especialista

Martha ressalta que o cenário demográfico não pode ser usado para culpabilizar e punir os idosos sobre o aumento de custos. Ela afirma que, embora seja verdade que o idoso custe mais ao plano, é preciso lembrar que ele também paga um valor mais alto do que os jovens. “Atrelar essa alta de custos dos planos ao envelhecimento é muito ruim. O idoso utiliza mais o plano, sim, mas se você souber fazer a gestão dessas pessoas, essa utilização a mais é custeada pelo valor mais alto que ele paga”, diz.

Estudo do IESS mostra que o custo médio com um beneficiário a partir dos 60 anos é de seis vezes o de um usuário de zero a 18 anos. O valor da mensalidade da última faixa etária também só pode ser seis vezes maior do que a da primeira, segundo regra da ANS. Cechin afirma que, entre os idosos mais velhos, a partir dos 80 anos, o custo sobe muito e que nem sempre o valor pago pelo beneficiário idoso é suficiente para cobrir as despesas assistenciais, mas admite que não é repassando todos os custos aos usuários que o problema será resolvido.

“Isso exige uma reestruturação hospitalar e campanhas e ações para a gente evitar o adoecimento e controlar doenças crônicas. Se não fizermos nada, o valor dos planos, que já está subindo acima da inflação, vai ficar ainda mais caro e o plano poderá passar a ser um artigo de luxo”, diz.

Ele defende que, além das operadoras, os empregadores, que são os principais contratantes de planos de saúde, também desenvolvam ações de prevenção e promoção da saúde para seus funcionários, o que ajudaria a melhorar a condição de saúde dos usuários e a reduzir os custos.

Martha concorda que o caminho para redução de custos no sistema sem punir o elo mais vulnerável – os beneficiários – passa pela prevenção e acompanhamento de doentes crônicos, além de uso mais inteligente dos recursos do sistema de saúde.

“Com certeza não é o envelhecimento que é o vilão. É preciso tirar o preconceito de cima dessa população. O sistema está cheio de desperdício, de refazimento. Falta organização e gestão, a pessoa fica perdida na rede. Temos que requalificar essa prestação de serviço. Se continuar como está hoje, teremos mesmo uma elitização. Menos pessoas terão condições de pagar pelo plano”, diz.

‘Preço ficou inviável’, diz filha de idoso que paga R$ 9 mil de mensalidade

É o que já está acontecendo com o aposentado Nelson Roberti, de 84 anos. Cliente da SulAmérica desde a década de 1990, ele paga hoje uma mensalidade de R$ 9 mil. “Sempre foi um valor alto, mas, de uns tempos para cá, com os reajustes, está ficando inviável. A aposentadoria dele não dá para pagar esse valor, a gente completa com a conta da família, mas está difícil manter”, conta a filha do idoso, a advogada Tatiana Saldanha Roberti, de 46 anos.

Nelson Roberti, de 84 anos, e a filha, Tatiana, reclamam do alto custo e queda de qualidade do plano de saúde
Nelson Roberti, de 84 anos, e a filha, Tatiana, reclamam do alto custo e queda de qualidade do plano de saúde Foto: Felipe Rau/Estadão

Ela reclama que, além das mensalidades altas, o pai sofre com queda na qualidade do serviço prestado. “O preço está cada vez maior e o serviço já não corresponde mais. Tivemos o descredenciamento de hospitais, laboratórios. Descredenciaram um hospital que sempre usamos, que fica a poucos minutos de casa. É muito ruim passar por isso justamente no momento da vida de maior vulnerabilidade. A gente se sente abandonado”, afirma.

Tatiana conta que outra dificuldade enfrentada pelos idosos é a troca de plano. “Com esse valor, eu cheguei a tentar procurar um plano mais barato, mas não encontro quase nenhuma opção. Já cotei todos que você pode imaginar, mas ou não o aceitam ou o valor ficaria maior”, diz ela. Procurada, a SulAmérica afirmou que o descredenciamento mencionado “foi uma decisão unilateral” do hospital e que foram “sugeridas outras opções de rede de atendimento com a mesma qualidade do serviço prestado”.

Marcos Novais, superintendente executivo da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), afirma que há operadoras focadas no nicho de idosos e que as empresas vêm ampliando suas ações para tentar acompanhar mais de perto essa população. Ele reconhece, no entanto, que é necessário acelerar e ampliar essas ações.

“Os custos estão crescendo, mas temos que trabalhar para que eles tenham um aumento sustentável. Para isso, temos que usar mais telessaúde, ter atendimento personalizado com atenção continuada. Cada vez mais o trabalho vai ser de acompanhamento, isso ajuda na gestão do plano, mas temos um limitador: não há equipes suficientes para fazer isso com todos os usuários”, diz.

Ele diz que o grande desafio é conseguir realizar essas mudanças no mesmo ritmo do processo de envelhecimento da população. “Como esse processo está acontecendo mais rapidamente no Brasil, a gente acaba tendo custos mais elevados porque nossos investimentos nessa nova infraestrutura precisam ser mais rápidos também”, diz.

O cenário é uma das razões apontadas pelos planos para a crise financeira vivida pelo setor. De acordo com a Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), as operadoras registraram em 2022 prejuízo operacional de R$10,7 bilhões, o pior resultado desde o início da série histórica, em 2001. Procurada para comentar os desafios do setor frente ao envelhecimento, a entidade não quis dar entrevista.

Para os especialistas, podemos olhar para exemplos de outros países que já passaram pelo processo de envelhecimento para buscar soluções para a equação. Cechin, do IESS, cita a necessidade de ações por parte dos governos, operadoras e empregadores para combater a obesidade, por exemplo. “Reduzir a obesidade diminui também risco de doenças cardiovasculares, problemas nas articulações, alguns tipos de câncer. Tem países, como a Holanda, com programas para enfrentar essa questão”, diz.

Martha também cita o país europeu. “Eles reconstruíram todo o sistema de saúde sob essa ótica do envelhecimento, com uma lógica de levar o cuidado ao paciente no seu domicílio, promover a autonomia, o autocuidado. A Alemanha criou postos específicos para dar conta do envelhecimento. A França também reorganizou seu sistema de saúde. É verdade que esses países tiveram muito mais tempo para se preparar, mas eles já passaram por isso, então podemos olhar e aprender com eles”, diz.

A PREOCUPAÇÃO COM A EMPREGABILIDADE E ESTABILIDADE FINANCEIRA É FUNDAMENTAL PARA O SER HUMANO

 

João Luiz Simões Neves é economista

Uma das maiores necessidades do ser humano é ter o controle sobre seus objetivos e respectivos resultados, a partir das ações e das decisões que toma em prol de seus objetivos de vida. Em decorrência, a preocupação com a empregabilidade e estabilidade financeira é um tema fundamental para cada um de nós.

Neste artigo, gostaria de discorrer sobre a questão do emprego, da carreira e da empregabilidade, explorando estes aspectos de forma ampla e sistêmica. Acredito que assim, a contribuição deste artigo poderá ser mais profunda, ao abordar diretamente os fundamentos da empregabilidade.

À parte da questão econômica, das expansões e retrações cíclicas do nível de atividade local e mundial, grande parte da responsabilidade sobre nossa empregabilidade futura recai sobre as nossas decisões. Se qualificarmos melhor as nossas decisões, teremos melhores resultados no longo prazo.

Mas quais elementos precisamos ter para qualificarmos melhor as nossas decisões em busca de uma carreira promissora e longeva?

Hoje em dia, observamos vários ciclos de carreira em nossas vidas. Há pouco tempo tínhamos uma vida e uma carreira se encaixava nesta vida, apesar de podermos mudar de empresas, um mesmo ciclo e perfil profissional percorria o início da vida profissional até a aposentadoria.  Hoje em dia, numa mesma única vida, temos que nos reinventar e inovar, construindo diversas carreiras para a nossa existência, que com o progresso da ciência tende a ser de forma geral cada vez mais longa.

Para termos uma clara visão dos mecanismos subjacentes à empregabilidade, gostaria de iniciar falando sobre paradigmas. Paradigma é um conjunto de padrões, crenças e verdades que estão estabelecidas e arraigadas em determinado momento na sociedade. Ele estabelece a forma como achamos que as coisas funcionam, o que é verdadeiro e não é verdadeiro, o que deve ser considerado e o que deve ser descartado à luz da verdade considerada.

À luz disto, estabelecemos regras de convivência com o paradigma vigente. A partir dele nós nos capacitamos e com base nele somos medidos. Nós construímos instrumentos e ferramentas para conviver com este paradigma, e o conhecimento e primazia no uso destes instrumentos nos coloca numa zona de conforto.

Uma pessoa da idade média, por exemplo, teria que investir grande parte do seu tempo se capacitando para sua defesa pessoal e no desenvolvimento de habilidades com o escudo e a lança. A sociedade o mediria com base nas habilidades no uso destes instrumentos. Quanto maior a sua habilidade, mas ele se sentiria confortável em sua esfera de atuação, entrando, portanto, numa zona de conforto. Zona de conforto pode ser entendida como a nossa destreza no uso de ferramentas e no entendimento das relações de causa-efeito valorizados pelo paradigma predominante.

Muitas vezes dois paradigmas convivem no mesmo tempo, num processo de transição entre o velho e o novo. Assim foi com a introdução da energia elétrica nas fábricas, em substituição ao vapor para mover as máquinas. No século XIX, os EUA possuíam parte de sua rede de comunicação por telégrafo instalada na costa leste primeiramente, depois na costa oeste, porém por muitos anos a ligação entre elas era realizada através de carruagens. De um momento para outro, com a ligação entre elas, as carruagens se tornaram obsoletas e o tempo para se trocar mensagens caiu drasticamente.

Um argumento mais atual. Após o advento da pandemia, os estilos de trabalho presencial versus remoto convivem atualmente, cada um procurando ocupar o seu espaço e justificar suas vantagens e desvantagens. É um processo de transição, que embora não saibamos ainda como irá se concretizar, mas com certeza não será exatamente igual ao que era antes do início da pandemia. Novas tecnologias, novos instrumentos e ferramentas foram desenvolvidos, e a destreza no uso delas marcará a nossa capacidade de nos mantermos relevantes.

Associado a estes mecanismos subjacentes, nossos estilos de liderança também têm que se adaptar. Antigamente, um estilo de comando mais hierárquico e controlador era largamente predominante. Há algum tempo, cada vez mais passamos a valorizar estilos de liderança de contexto, com foco nos resultados e na delegação. O comando migra do chefe centralizador para os medidores de resultado.

Mas como podemos nos posicionar neste momento de tantas inovações?

O desafio é nos mantermos relevantes, qualquer que sejam as inovações que ocorrerão. Carreiras e profissões, assim como no passado, podem se tornar obsoletas no futuro. Empresas precisarão aprender a se manter relevantes. Profissionais terão que aprender a se manter relevantes em suas carreiras e suas empresas.

A pergunta certa a ser colocada é a seguinte: o que precisamos fazer para nos mantermos relevantes?

Precisamos estar atentos e renovar constantemente nossos instrumentos, nossas capacitações, nossas crenças, nossas formas de interagir com a sociedade.

Porém, em meio à tanta mudança, tem uma coisa que não muda, e esta é uma oportunidade que devemos explorar.

O lado comportamental do profissional sempre será demandado e cobrado. A forma como mantemos nosso foco, a firmeza dos nossos argumentos, a retidão das nossas ações, a confiança que transmitimos em nossos grupos de trabalho, a nossa empatia, isto não muda e continuará sendo valorizado. O autoconhecimento e a busca do aprimoramento através da constante aprendizagem e do desafio de nossas próprias crenças são caminhos seguros.

Como empresário de empresa industrial e de serviços, nitidamente identifico que muito antes do conhecimento técnico ser firmado numa entrevista, o candidato precisa passar pelo seguinte filtro: Posso confiar nesta pessoa? Ele é mesmo assim como está se vendendo?

Em meio a tantas mudanças, o valor humano continua sendo o diferencial e é um aspecto que podemos ter controle sobre nós mesmos.

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quinta-feira, 29 de junho de 2023

FORO DE SÃO PAULO ORGANIZADO POR LULA COMEÇA HOJE EM BRASÍLIA COM PRESENÇA DE DITADORES

 

Apoio a ditaduras
Presença de Lula no Foro de São Paulo reforça imagem negativa do petista no Brasil e no exterior
Por
Carinne Souza – Gazeta do Povo


Participação no Foro de São Paulo reforça imagem negativa de Lula no Ocidente| Foto: André Borges/EFE

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai discursar na reunião geral do Foro de São Paulo, que vai acontecer nesta quinta-feira (29). O evento reúne líderes de esquerda da América Latina e deve deixar a reputação do petista ainda mais desgastada internamente e também no exterior. Especialistas avaliam que Lula tem feito apostas erradas ao se aproximar de ditadores e deve manchar ainda mais sua imagem internacionalmente se reforçar o discurso anti-Ocidente que predomina nas reuniões do grupo.

Fundado em 1990 por Lula e pelo antigo ditador cubano, Fidel Castro, o Foro de São Paulo (FSP) foi criado com o intuito de unir a esquerda latino-americana após o colapso da União Soviética. Em 33 anos, a organização se consolidou como uma força que tenta impor pautas de esquerda ao subcontinente, apoiou grupos criminosos como as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e faz vistas grossas a ditaduras.

Atualmente, 123 partidos, de 27 países, estão associados ao Foro. Em solo brasileiro, de acordo com o site da organização, o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT) estão na lista de associados ao grupo. Procurada pela reportagem, no entanto, a assessoria do PDT que informou que não faz mais parte do grupo, ainda que o nome do partido conste na lista de associados no site do Foro de São Paulo.

Para a doutora em Ciências Políticas Deysi Cioccari, Lula está “fornecendo argumentos para a oposição” ao posar com ditadores e confirmar presença no Foro de São Paulo. Segundo a especialista, o petista está apostando em um alto risco político, levando em consideração que atualmente o Foro não é um consenso nem mesmo dentro do PT. “Lula tem dobrado a aposta em questões sensíveis e [sua presença no Foro de São Paulo] certamente vai reforçar a ideia de que ele apoia ditaduras”, pondera Cioccari.

No final de maio, o presidente brasileiro tentou demonstrar força ao reunir os presidentes da América do Sul em Brasília para a Cúpula da América do Sul. Tal esforço, no entanto, foi minado por ele mesmo com declarações equivocadas sobre a Venezuela. Ao se encontrar com o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, Lula disse que a Venezuela era “vítima de uma narrativa de antidemocracia e autoritarismo”.

A fala do presidente brasileiro é totalmente equivocada. A Venezuela possui um extenso histórico de crimes, entre eles prisões e assassinatos de opositores políticos, censura de partidos políticos e repressão pesada contra a livre opinião.

As alegações causaram reações em chefes de Estado de direita e também de esquerda, que repreenderam as afirmações do petista. Ainda na última semana, durante viagem à França, Lula também teve um encontro com o ditador cubano, Miguel Mario Díaz-Canel Bermúdez. Em sua conta no Twitter, o petista disse que os dois discutiram “questões bilaterais que foram abandonadas nos últimos anos”.

Para Cezar Roedel, mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a participação de Lula no Foro de São Paulo é mais uma prova de sua “subserviência a modelos de regimes ditatoriais”. “[Tais afirmações e atitudes de Lula] já prejudicaram sua imagem em relação ao resto do mundo, porque se entende que a política externa que ele tem exercido é em prol do seu interesse pessoal e não do que interessa ao país”, pontua.

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Após ter as reuniões suspensas por três anos devido à pandemia de Covid-19, o Foro de São Paulo escolheu Brasília para sediar seu 26º encontro anual. Ainda que a página oficial da organização não deixe claro os motivos para a escolha da capital brasileira, o fato de Lula ser o atual presidente teria pesado para essa decisão, já que o petista é um dos fundadores da organização, segundo apurou a reportagem.

O evento tem início nesta quinta-feira (29), às 19h, e Lula vai ser um dos oradores na cerimônia de abertura do encontro anual. O cronograma do Foro de São Paulo conta com programação para todo o final de semana na capital federal. Além de palestras e seminários, os participantes do evento também foram convidados para participar do Arraiá do PT, no Setor de Clubes Sul. O ingresso custa até R$ 5 mil.

Diante disso, os deputados federais Carla Zambelli (PL-SP) e Coronel Meira (PL-PE) apresentaram uma representação ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Ministério Público Eleitoral (MPE) para suspender o evento. No documento, os parlamentares afirmam que, ao analisar a programação do evento, “observa-se um claro dano ao patrimônio público, ao regime democrático e à probidade administrativa”, além de evidenciar “interferência partidária estrangeira na pauta política nacional”.

“O “Foro de São Paulo” é uma ameaça à ordem jurídica e ao regime democrático brasileiros, com a recepção de ideias e ideais autoritários, de cunho ditatorial, especialmente quando se ouve, quando se dá guarida a tais ideologias, a tais regimes de governos, de forma que é evidente que essa simbiose de ideias, durante o encontro, interferirá na forma como o Estado brasileiro será governado”, escreveram os parlamentares.

Além da suspensão dos eventos, os parlamentares pediram que seja determinada a “proibição de ingresso em território nacional de representantes do Partido Comunista de Cuba, Partido Socialista Unido da Venezuela e Frente Sandinista de Libertação Nacional da Nicarágua”.

Foro de São Paulo reforça imagem negativa de Lula no Ocidente
Para os especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, Lula erra, mais uma vez, ao marcar presença no evento. “A esquerda sempre flertou com esses personagens ditatoriais mas, até então, com certa parcimônia. O fato é que não existe ditadura boa e Lula parece ter esquecido completamente disso. A discrição parece ter ficado em outros tempos. Certamente, a presença de Lula dá um indicativo de um olhar cuidadoso a essas ditaduras”, analisa Cioccari.

Já na concepção de Roedel, a participação do presidente brasileiro não é uma surpresa e Lula deve aproveitar a oportunidade para repetir alguns discursos. “Provavelmente ele deve discursar sobre a integração latino-americana e a soberania da América Latina, algo que ao meu ver é completamente intangível e ideológico. Talvez também surja aquele antiamericanismo bobo da esquerda e se observe alguma crítica à questão das moedas”, explica o especialista citando críticas que o petista já fez sobre a hegemonia do dólar.

Os ataques aos Estados Unidos são uma das características do Foro de São Paulo que, por outro lado, vê a China como uma “influência para a paz”. O governo chinês, porém, é acusado de fazer presos políticos, perseguir minorias religiosas, violar os direitos humanos e adotar leis que não permitem a liberdade de expressão. Para Roedel, ao promover o Foro de São Paulo, Lula só reforça a imagem negativa que ele carrega desde que fez afirmações controversas sobre a Venezuela e a invasão russa na Ucrânia.

Roedel afirma que, ao se reunir constantemente com ditadores, Lula “já se prejudicou com aqueles países que conduzem políticas externas sérias, porque suas declarações mostram que ele tem defendido seus interesses pessoais”. O especialista ainda ressalta que o atual mandatário brasileiro parece perdido em meio às suas estratégias: “Lula parece querer criar algum tipo novo de governança global que nem mesmo ele é entende”, finaliza.

O governo brasileiro tem argumentado em sua defesa que é preciso conversar com todos os governos sem tomar partido ou interferir em assuntos internos.

Perdido e apegado ao passado, o petista está preso a uma esquerda que não existe mais. “Me parece que a esquerda [brasileira] está perdida desde a queda de Dilma”, analisa Cioccari. De acordo com a cientista política, o bloco tenta se manter unido em um ideal “ultrapassado” onde o intuito seria manter a chama ideológica ainda acesa.

Para Cezar Roedel, os conceitos nos quais a organização se apoia são “equivocados”. À reportagem, o especialista pontua que o grupo que diz buscar a “soberania da América Latina e a integração regional”, na verdade, tem interesses “difusos” pautados pela ideologia e pela associação a ditaduras e até organizações criminosas.

Fidel Castro e Hugo Chávez são exaltados no Foro de São Paulo
No grupo criado pelo ditador Fidel Castro, outros tiranos também ganham local de destaque. Anualmente, o Foro de São Paulo faz uma reunião para discutir temas e implementar pontos de integração entre os países-membros. Nessas ocasiões, os participantes utilizam um documento base para guiar as discussões dos encontros. No texto deste ano, um dos pontos exaltam a “firmeza e avanços de Cuba, Venezuela e Nicarágua”. Os países são considerados ditaduras de esquerda e seus respectivos líderes são acusados nos tribunais internacionais de crimes políticos e contra os direitos humanos.

“As vitórias presidenciais no México, Santa Lúcia, Bolívia, Brasil, Colômbia, Honduras, Peru e Chile são exemplos eloqüentes. A crescente liderança dos presidentes do México, Honduras, Cuba, Venezuela, Colômbia, Bolívia e Brasil foi decisiva para impedir as tentativas imperialistas de dividir e fragmentar a região”, diz ainda o texto.

Em um dos 99 pontos do documento base, também há espaço para exaltar o antigo ditador da Venezuela Hugo Chávez: “[…] devemos lembrar a morte do comandante Hugo Chávez há 10 anos, depois de chegar ao poder democraticamente, sofrer um golpe e retornar à presidência. Chávez iniciou um novo capítulo na Venezuela e em todo o continente, ao se tornar um exemplo de luta contra o neoliberalismo e o imperialismo, iniciando o enfrentamento concreto das heranças das ditaduras militares na América Latina e Caribe”.


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DISPUTA POR CARGOS NOS TRIBUNAIS E PGR INFLUI NO JULGAMENTO DE BOLSONARO

 

Guerra por poder e cargos
Disputa por vagas em tribunais superiores e na PGR entra no jogo político do julgamento de Bolsonaro

Por
Sílvio Ribas – Gazeta do Povo
Brasília


| Foto: José Cruz / Agência Brasil

Em razão do impacto potencial sobre o horizonte político, sobretudo em favor do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode deixar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) inelegível fomentou disputas de magistrados por vagas em tribunais superiores e na Procuradoria-Geral da República (PGR).

Uma prova disso veio já na primeira sessão da análise do caso no TSE, na última quinta-feira (22), quando o vice-procurador-geral eleitoral, Paulo Gonet, defendeu com veemência a condenação do ex-presidente por abuso de poder político e uso indevido de meios estatais de comunicação. Curiosamente, seu nome chegou a despertar a simpatia de aliados de Bolsonaro no passado.

Em abril, Gonet, cotado para assumir o posto de Procurador-Geral da República (PGR), já havia manifestado apoio à condenação de Bolsonaro e à inelegibilidade dele por oito anos, devido à realização de reunião com embaixadores estrangeiros em que o ex-presidente lançou suspeitas sobre as urnas eletrônicas, em julho de 2022. Ele conta com apoio dos ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O atual PGR, Augusto Aras, encerra o seu mandato em setembro.

Chamou a atenção os termos usados por Gonet em suas falas, ressaltando no TSE o discurso adotado por Bolsonaro diante dos embaixadores como reforço a outros atos e uma perturbação à “tranquilidade institucional”. Ele classificou de “temerárias” e “infundadas” as críticas do ex-presidente ao sistema eleitoral e salientou o “infesto potencial antidemocrático” delas. No parecer escrito, o procurador destacou a “gravidade do discurso contra a confiabilidade do sistema de votação”, mas sem usar expressões agressivas.

Observadores acreditam que o esforço de Gonet e de outros procuradores e juízes para buscar “mostrar serviço” visando cargos elevados teria entre as suas motivações a decisão de Lula de não considerar a lista tríplice de candidatos por votação interna da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), que apontou Luiza Frischeisen como a mais apoiada, com 525 votos.

Vera Chemin, advogada constitucionalista e mestre em Direito Público pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), explica que a competição entre magistrados por vagas nos tribunais superiores reflete a intensa polarização política no país, que ganhou força com a ascensão da direita representada por Bolsonaro. Ela observa que, dado que a esquerda não enfrentava oposição equivalente no passado, a radicalização ideológica está gerando reações sem precedentes no cenário político, inclusive de membros do Judiciário.

A advogada entende que a contaminação política resultou na atual corrida pelas vagas, apesar da exigência constitucional de seleção de magistrados e procuradores para o STJ e o STF. Nesse contexto, a condenação de Bolsonaro seria a forma mais rápida e eficiente de adesão ao poder daqueles que se utilizam de favores prestados ao presidente da República e ao presidente do TSE como garantia de progressão profissional e de mais poder, prestígio e benefícios.

O julgamento do ex-presidente já teve duas sessões na Corte Eleitoral e será retomado nesta quinta-feira (29), a partir das 9 horas. Na terça-feira (27), o corregedor-geral da Justiça Eleitoral e ministro Benedito Gonçalves, relator da ação do Partido Democrático Trabalhista (PDT) contra Bolsonaro, votou pela inelegibilidade.

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Idade pode impedir Benedito Gonçalves de chegar ao STF


Há 20 anos visto como potencial candidato a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro relator da ação do PDT contra Bolsonaro, Benedito Gonçalves, obteve nova projeção no julgamento do TSE. Como integrante do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ele tem na idade um obstáculo para postular o cargo, pois a idade de 70 anos que completará em janeiro de 2024 também é o limite para ingressar na Corte. Ministros do STF têm aposentadoria compulsória aos 75 anos e os indicados têm tido perfil dominante em torno de 50 anos, a exemplo do mais recente, Cristiano Zanin, de 47 anos, escolhido por Lula.

O advogado constitucionalista André Marsiglia Santos considera deplorável a troca de favores entre candidatos a cargos públicos e governos. “Se a troca oportunista for comprovada, é simplesmente ilegal, pois se trata de desvio de poder, quando se usa a autoridade para finalidade desviada”, sublinhou. Ele acrescentou que o Judiciário é um poder sem a legitimidade conferida pelo voto. Dessa forma, se suas nomeações também passarem a servir às conveniências políticas, “o déficit democrático se alarga”.

Para o cientista político André Felipe Rosa, o grande problema na disputa de magistrados é a falta de estruturas democráticas dentro do próprio processo de escolha, que ficam em segundo plano quando existe, deliberadamente, um ativismo judicial forte, inclusive que pode figurar dentro do STF e STJ. “Esse ativismo, que liga juízes e juízas a políticos, faz com que as influências externas sejam preponderantes no resultado dos escolhidos em tribunais superiores. Desta forma, não necessariamente vence o melhor, mas aquele cujo peso político mais preponderou”, analisa.

Alexandre de Moraes atua para impedir interrupção da votação
O julgamento de Jair Bolsonaro (PL) no TSE iniciou na quinta-feira (22) sob pressão do presidente da Corte, Alexandre de Moraes, para evitar pedidos de vista, sobretudo por parte dos ministros Kassio Nunes Marques e Raul Araújo, que são considerados alinhados ao ex-presidente.

Além disso, Moraes ainda pode antecipar o seu voto, já que ele seria o último e com isso isolar Nunes Marques. Bolsonaro expressou esperança de que a votação seja interrompida, apostando numa virada do cenário desfavorável.

Dos sete membros do TSE, apenas Nunes Marques foi indicado por Bolsonaro, o que aumenta o risco de maioria favorável à condenação ser alcançada antes de eventual pedido de vista do ministro. Sobre a questão, Bolsonaro afirmou à CNN: “Já que o voto do relator tem mais de 300 páginas, o ideal seria que alguém no início pedisse vista”. Nesse caso, esse “alguém no início” seria Raul Araújo, mencionado por Bolsonaro. Seu eventual pedido de vista teria o poder de paralisar o julgamento antes dos demais votos.

Em fevereiro, Moraes encabeçou a mudança no regimento interno do TSE, fixando prazos automáticos de até 30 dias, prorrogáveis por mais 30 dias, para a devolução da vista. Caso o pedido não seja devolvido, a ação é liberada automaticamente.

Na visão de Juan Carlos Gonçalves, diretor-geral da ONG Ranking dos Políticos, apesar da utilização de critérios objetivos nos processos seletivos, é comum que a disputa por vagas em tribunais superiores seja influenciada por questões políticas e alianças estratégicas. “A indicação de magistrados para essas posições muitas vezes envolve negociações e acordos nos bastidores, o que pode levantar dúvidas sobre a imparcialidade e independência do Judiciário”, resume.

Por essa razão, ele defende que a competição por essas vagas reflete a importância atribuída ao Judiciário e seu papel essencial na consolidação do Estado de Direito. “É crucial que as posições em tribunais superiores sejam ocupadas por magistrados competentes e comprometidos com a justiça e a imparcialidade, a fim de garantir a qualidade das decisões tomadas e manter a confiança da sociedade no sistema jurídico. Por isso, é fundamental que a seleção dos magistrados para essas vagas seja conduzida de forma transparente, baseada em critérios técnicos e meritocráticos”, disse.


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CHÁVES FECHOU UM CANAL DE TV NA VENEZUELA PELO MESMO MOTIVO QUE QUEREM FECHAR A JOVEM PAN

Censura

Por
Omar Godoy – Gazeta do Povo


O ditador venezuelano Hugo Chávez em dezembro de 2006, quando anunciou que o Estado não renovaria a concessão da emissora oposicionista RCTV.| Foto: EFE / Daniel Galli-Miraflores


Neste momento em que a liberdade de expressão está ameaçada no Brasil, muita gente nas redes sociais resgatou um fato recente da história sul-americana: o fechamento do canal de televisão venezuelano RCTV, em 2007, pelo ditador Hugo Chávez (1954-2013).

Uma das mais antigas emissoras do continente, a Radio Caracas Televisión foi fundada em 1953 e ficou conhecida no mundo todo pela popularidade de suas novelas. A partir de 1999, quando Chávez chegou ao poder, o canal de maior audiência da Venezuela adotou um posicionamento crítico com relação ao regime, que se intensificou nos anos seguintes até ganhar ares de oposição assumida.

O “começo do fim” da RCTV, no entanto, aconteceu em 2002, quando a empresa foi acusada, com outras duas tevês comerciais, de participar de uma tentativa fracassada de tirar o ditador do comando do país (a insurreição militar durou menos de três dias e acabou fortalecendo o chavismo).

Enquanto as demais emissoras foram suavizando seus noticiários em direção à neutralidade, a Radio Caracas Televisión se manteve firme no questionamento às arbitrariedades cometidas pelo governo. A reação oficial veio no final de 2006, quando o próprio Hugo Chávez, em um de seus discursos públicos intermináveis, anunciou que o Estado não renovaria a licença de transmissão da emissora (classificada por ele como “golpista”). “A concessão vai acabar porque a Venezuela deve ser respeitada”, disse na ocasião.

A decisão foi duramente condenada pela comunidade internacional, e diversas organizações voltadas para a defesa dos direitos humanos emitiram comunicados expressando repúdio e preocupação. O Senado brasileiro também publicou uma nota lamentando a situação – respondida em tom de deboche pelo ditador, que chamou nossos parlamentares de “papagaios de Washington”.

Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu segundo mandato, fez questão de passar pano (quando essa expressão ainda nem existia) para Chávez. Sim, o petista considerou o ato “democrático” e, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, declarou: “Eu acho que não dá para ideologizar essa questão da televisão. O mesmo Estado que dá uma concessão é o Estado que pode não dar a concessão”.

A RCTV encerrou suas transmissões na TV aberta em 27 de maio de 2007. Nos dias seguintes, estudantes de diferentes cidades venezuelanas saíram às ruas para protestar e sofreram dura repressão das forças de segurança. Também há registros de confrontos violentos entre os jovens e milicianos chavistas. Várias pessoas ficaram feridas e pelo menos quatro foram baleadas.

Hugo Chávez considerou os manifestantes “vítimas da manipulação sem escrúpulos da oligarquia”. E ordenou a expropriação de equipamentos da emissora, que passaram a ser utilizados em um novo canal estatal, o TVes, exibido na mesma frequência dos “golpistas” sufocados.

Depois de retomar suas atividades no sistema de cabo, a Radio Caracas Televisión teve novamente seu sinal suspenso em 2010, por desrespeitar a legislação venezuelana – que inclui, entre outras regras, a obrigatoriedade da veiculação de mensagens governamentais e um limite na apresentação de comerciais. Desde então, a empresa segue apenas como produtora de conteúdo, vendendo programas para canais internacionais e plataformas de streaming.

Exemplo próximo e emblemático do controle estatal sobre a mídia, o fechamento da RCTV também foi relembrado no Brasil em 2019, quando a tensão entre Jair Bolsonaro e a Rede Globo chegou ao seu grau máximo. Na época, veículos de comunicação como a Folha de S. Paulo e a BBC compararam o ex-presidente a Hugo Chávez e o acusaram de ameaçar a emissora carioca com o cancelamento de sua concessão. Agora, com a Jovem Pan sob risco de censura, não foram registradas manifestações semelhantes em relação ao Ministério Público Federal de São Paulo.

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PUTIN FICOU ENFRAQUECIDO COM O MOTIM DO GRUPO WAGNER

 

Editorial
Por
Gazeta do Povo


O líder do grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin.| Foto: Reprodução/Telegram/Yevgeny Prigozhin

A insurreição de Yevgeny Prigozhin, chefe do grupo mercenário Wagner, não precisou derrubar o autocrata Vladimir Putin para fazer dele o grande derrotado do inesperado evento que chacoalhou o mundo no último fim de semana. As perguntas sem resposta ainda são inúmeras – o que é típico em regimes como o russo –, mas é evidente que a imagem de Putin e da máquina de guerra russa foi abalada a ponto de analistas internacionais terem começado a se perguntar se não estaríamos testemunhando o início do fim da era Putin, mesmo que esse fim ainda leve muito tempo para se concretizar.

Prigozhin, cujos mercenários são parte importante do efetivo russo que atua no ataque à Ucrânia, participando de algumas das campanhas mais sangrentas da invasão, já vinha se desentendendo com os chefes militares russos havia muitos meses, criticando desde estratégias consideradas equivocadas até a pura e simples falta de suprimentos para seus homens. Mas a movimentação de sexta-feira e sábado mostrou que havia muito mais que meras divergências entre o chefe do Wagner e as autoridades russas. Putin anunciou a intenção de incorporar os homens do Wagner ao exército russo, ao que Prigozhin resistira; nos últimos dias, a situação se deteriorou com velocidade impressionante. O chefe mercenário acusou os russos de atacarem um acampamento do Wagner e respondeu ocupando, sem dar um tiro, a cidade de Rostov-do-Don, sendo recebido como herói pelos moradores. Na sequência, dirigiu-se para Moscou, parando a apenas 200 quilômetros da capital russa. Oficialmente, Putin e Prigozhin teriam se acertado, com a mediação do ditador da Belarus, Alexander Lukashenko, aliado de Putin. O chefe do Wagner foi exilado para a Belarus e o futuro dos soldados do Wagner ainda é incerto.

Talvez não haja outra chance como esta para que os ucranianos retomem a totalidade de seu território antes que os russos resolvam suas diferenças internas ou antes que Putin resolva se tornar ainda mais agressivo

Putin não caiu – e Prigozhin chegou a dizer que este nem era o objetivo, no fim das contas –, mas sua imagem de homem forte, larger than life na expressão inglesa, está arranhada. O autocrata que foi à televisão no sábado chamar de “traidor” o líder mercenário acabou tendo de ver sua antiga criatura, agora antagonista, escapar viva e sem maiores punições que não um exílio – algo que não costuma ser o destino costumeiro de quem desagrada Putin. Além disso, o motim demonstrou que Putin não só foi incapaz de prever e conter a insurreição, como também precisou recorrer à ajuda do ditador vizinho de um país menor, quando o normal seria que o autocrata da superpotência viesse em auxílio do parceiro em suas dificuldades. Os russos passaram a respeitar Prigozhin porque, ao contrário de comandantes militares confortavelmente instalados em escritórios longe do front, ele estava junto de seus homens na Ucrânia; assim, ao criticar a invasão russa e suas motivações, o chefe do Wagner ainda conseguiu abalar a máquina de propaganda interna que pretendia unir o país em torno da “operação especial militar” montada sob a alegação de “desnazificar” a Ucrânia.

Este é um gênio que não volta para dentro da garrafa. Ainda que, mais cedo ou mais tarde, Prigozhin acabe vítima da tradicional xícara de chá radioativo enquanto vive na Belarus, o estrago feito na campanha russa na Ucrânia não tem retorno. Sem o Wagner, a necessidade de ampliar o recrutamento, que já existia, será intensificada, desagradando partes da sociedade russa – e há um limite para a quantidade de tropas que podem ser mobilizadas sem uma declaração formal de guerra, o que por sua vez apenas pioraria a situação russa diante da comunidade internacional. E, mesmo que os mercenários retornem a seus postos na Ucrânia, eles e as tropas regulares russas já se perguntam pelo que, afinal, estão lutando – isso se estar do lado certo em uma disputa interna de poder não acabar se tornando uma preocupação ainda maior que conquistar território ucraniano.

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Para a Ucrânia e seus aliados, que receberam de presente essa enorme fissura no poderio de guerra russo, é a hora de aproveitar a oportunidade e intensificar a contraofensiva que já apresentou resultados, mas um pouco aquém do esperado. As promessas de ajuda feitas pelo ocidente a Volodymyr Zelensky durante a cúpula do G7, no Japão, em maio, têm de se concretizar rapidamente. Talvez não haja outra chance como esta para que os ucranianos retomem a totalidade de seu território antes que os russos resolvam suas diferenças internas ou antes que Putin resolva se tornar ainda mais agressivo, com demonstrações de força que também miram as eleições de 2024, nas quais a vitória era certa até que a revolta de Prigozhin abalasse sua imagem.


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PRECISAMOS DA RÚSSIA PARA O NOSSO COMÉRCIO E NÃO IMPORTANDO IDEOLOGIA

Por
Luiz Philippe Orleans e Bragança


| Foto: EFE

Sim, e muito, só que não pelas razões que você imagina. O conselho mais importante da ONU é o Conselho de Segurança, do qual somente cinco países fazem parte de forma permanente: EUA, França, Inglaterra, China e – você adivinhou – Rússia.  Esse conselho delibera sobre temas de segurança internacional e pode impor suas decisões a todos os países-membros.  É o único conselho da ONU com tal poder e por isso é necessário voto unânime dos membros permanentes para ter efeito. Basta um voto contrário e a ONU não pode intervir militarmente ou impor sanções e embargos de todos os países membros contra qualquer outro. É na análise do voto de cada um deles que se pode determinar quem pode nos ajudar e quem pode nos prejudicar. Vamos a ela.  

O Conselho e seus membros – EUA, Inglaterra e França têm rivalidades econômicas e geopolíticas com o Brasil: nosso agronegócio rivaliza com o agronegócio dos EUA e Europa; nossa indústria, se reativada, pode incomodar; e caso o Brasil resolva ativar suas indústria e forças de defesa, EUA e Europa ficarão muito preocupados. Essas são algumas das razões pelas quais nossa indústria de defesa sofre embargos silenciosos de várias formas.  Por isso também pecamos em não ter uma política de defesa nacional efetiva para combater possíveis ataques e retaliações. Caso o Conselho delibere qualquer tema contra o Brasil no quesito de segurança, o voto desses três países já estará definido.  

A China tem interesses de controle econômico do Brasil, mas diferentemente dos EUA, França e Inglaterra, tem menos rivalidades conosco: não somos um desafio para ao poderio industrial chinês, ao contrário, dependemos de produtos industrializados de lá; nosso agro é complementar, e não rival, às necessidades de alimentação da China; e geopoliticamente não temos fronteira terrestre ou marítima com a China capaz de bloquear suas relações com outros países na região. Entretanto, na eventualidade de o Brasil se tornar soberano, com política própria, e surgir um voto no Conselho de Segurança desfavorável ao Brasil, a China será pragmática: se as resistências políticas de seus interesses econômicos no Brasil forem enfraquecidas, ela votará contra, junto com o primeiro grupo.

Nosso agronegócio rivaliza com o agronegócio dos EUA e Europa; nossa indústria, se reativada, pode incomodar

É aí que entra Rússia – A Rússia por si só não tem interesses nem rivalidades com o Brasil, e essa relação neutra é fundamental no que concerne ao Conselho de Segurança. Para nós, a Rússia é apenas mais um parceiro comercial e vice-versa.  Mas o Brasil pode ter um papel fundamental para a Rússia no sentido de quebrar a hegemonia que EUA e Europa exercem sobre a América Latina e África. Não que a Rússia queira assumir o papel de poder hegemônico nessas regiões, pois a China já ocupou esse espaço, mas para barganhar contra movimentações territoriais e embargos que EUA e Europa impõem sobre a Rússia há vários anos. A troca de apoio em áreas em que o Brasil é fraco, e deveria desenvolver, é um efetivo e a Rússia sabe disso. O Brasil ganha apoio necessário para dar um passo para se estabelecer e garantir sua soberania – lembrando que o país está dentro da esfera de hegemonia dos EUA e Europa e sofre de forma direta e indireta a influência desses blocos.    

Situação da Ucrânia – Considerando o exposto acima, imagine três cenários possíveis do conflito na Ucrânia: 1- Putin cai, abrindo espaço para mais um ditador, só que este mais alinhado à Europa; 2- Putin cai, e a China passa a ser quem define toda a política externa da Rússia; 3- Putin fica, mas perde poder político e se torna um títere, sucumbindo aos interesses dos chineses e do Ocidente (muito parecido com o que o Brasil é hoje). Quais desses cenários são bons para o Brasil?  Nenhum. Na verdade, todos esses cenários são péssimos para o Brasil.  

Essa última afirmação é difícil para muitos entenderem, muito menos aceitarem, mas se existe um país neutro com força para se contrapor aos países que tenham interesses ou rivalidades com o Brasil, esse país é a Rússia. Por isso não interessa ao Brasil ver a Rússia se esfacelar ou sucumbir a outros poderes hegemônicos.

Muitos condenam a Rússia por nunca ter sido uma democracia, mas sempre um tipo de autocracia: por parte dos imperadores russos, dos ditadores comunistas ou atualmente de Putin e seus oligarcas. Outros adoram a Rússia pelos motivos opostos: por adorarem modelos autocráticos, fundados numa versão torta da história russa que define como positiva a revolução comunista em 1917 ou por combaterem o “imperialismo” norte-americano. 

Mais recentemente, com a guerra da Ucrânia, surgiu uma torcida que condena a invasão e outra que defende os intentos russos.  Só que ambos os grupos tecem um futuro do que pode ou deve acontecer baseado nesse evento isolado, sob o prisma limitado do conflito daquela região. Nesse ponto, o posicionamento do Brasil do governo passado era adequado: condena a invasão da Ucrânia, mas não quer entrar no bloco de países que praticam retaliações contra a Rússia. Esse posicionamento significa que o Brasil não é contra o governo da Rússia, mas contra as decisões que esse governo tem tomado. E também significa que o Brasil não é contra a nação russa – ou Estado russo – pois as sanções afetam a sua população assim como a nossa.   

O Brasil pode ter um papel fundamental para a Rússia no sentido de quebrar a hegemonia que EUA e Europa exercem sobre a América Latina e África

No governo atual parece que esse pragmatismo saiu de cena. O alinhamento político e ideológico entre governos da mesma cepa autocrática é mais importante que os interesses de Estado. Ou seja, as perdas que podem decorrer ao Brasil e ao povo brasileiro são secundárias aos interesses políticos do atual governo de fazer bonito com os outros governos “amigos”. Grande erro.

Temos que examinar os eventos internacionais a partir dos interesses do Brasil e passar a ter uma visão mais pragmática e realista de como esses conflitos podem afetar nossas políticas e relacionamentos de forma direta e indireta.  Se olharmos todo relacionamento externo dessa forma mais acurada, o Brasil não deveria nunca se vincular a qualquer governo, mas buscaria sempre acordos que possam perdurar entre os Estados.

Por isso, como país, não devemos defender o que qualquer governo faz ou deixa de fazer; temos de pensar nos interesses do Brasil como Estado e nação e agir a partir disso. A opinião pública tem de ser sempre livre, mas as instituições que representam o Brasil de forma permanente têm de zelar pelo interesse nacional atemporal – mesmo que a opinião pública e o governo pensem diferente.  

É difícil desvincular o Estado de seu governo? Às vezes, sim, sobretudo quando se lida com autocracias. Mas no jogo complexo das relações exteriores essa distinção é fundamental. E é sob esse aspecto que nosso país perde se a Rússia deixar de ser um país soberano.

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NÚMEROS DO CENSO INDICAM BAIXO CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO E MUNICÍPIOS PERDENDO HABITANTES

População

Por
Alexandre Garcia – Gazeta do Povo


A população do país chegou a 203,1 milhões em 2022, com aumento de 6,5% frente ao censo demográfico anterior, realizado em 2010.| Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Não é uma boa notícia… é boa, mas não é boa, como diria a ex-presidente Dilma: nossa população não cresceu como esperávamos. Somos 203 milhões de brasileiros, e não 215 milhões. O IBGE chegou a projetar que a população havia subido para 213 milhões, mas constataram outra coisa no Censo. Mesmo considerando que 4% das residências não atenderam, projetou-se um número de moradores, e chegaram a pouco mais de 203 milhões de habitantes.

A notícia boa é que, na última década, crescemos 0,5% ao ano, enquanto na década anterior crescíamos o dobro disso, e lá atrás crescíamos 2%, 3%. Quando eu nasci, nós éramos um quinto, 20% do que somos hoje. Crescemos muito e isso demanda serviços públicos de saúde, de educação, de transporte, é um desafio. Escola para todo mundo, emprego para todo mundo, renda para todo mundo, alimento para todo mundo. Estamos crescendo menos.

Qual é o lado ruim, afinal? Crescer menos é bom. Mas a população inativa está crescendo e a população ativa está se estabilizando. Isso significa que menos pessoas vão ter de sustentar mais pessoas na Previdência Social. E aí vamos precisar de outra reforma de Previdência, cobrar mais caro. Ou então fazer as pessoas se prevenirem já, com seus fundos.

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Vamos ver outros números interessantes. Dos 5.570 municípios, 3.168 cresceram, os outros 2.399 diminuíram. Os que mais cresceram estão em Roraima, Santa Catarina e Mato Grosso – e a atividade econômica atraindo gente. Por exemplo, no topo da lista, com crescimento de 189%, está o município de Canaã dos Carajás (PA), porque existem duas minas lá da Vale. Já o que mais caiu, perdendo 46% da população, foi Coatiba (BA). Eu estou falando do município, não da cidade. Está cheio de jornalista que jura que “cidade” e “município” são a mesma coisa, mas não são. É que eles vivem em cidade grande e confundem a cidade, que é a sede do município, é o aglomerado urbano, com o município, que é a área toda, área urbana e área rural. Eu sempre digo, brincando, que se cidade fosse o mesmo que município, então a maior cidade do mundo seria Altamira (PA).

A cidade mais populosa do Brasil continua sendo São Paulo – é o município mais populoso também, porque em São Paulo cidade e município têm a mesma área. São 11,5 milhões de habitantes, mais que o Rio Grande do Sul, que está mais estabilizado – a população caiu em 58% dos municípios gaúchos. A capital que mais perdeu população foi Salvador: 258 mil pessoas a menos, ou 10%. O Rio de Janeiro perdeu 109 mil pessoas nesses 10, 12 anos. Já Boa Vista (RR) passou de 284 mil habitantes para 413 mil, aumento de 45%. Em 2010, o país tinha 67 milhões de residências, agora tem 90 milhões. De 2010 até hoje, a população cresceu 6,5%, mas o número de residências subiu 34%.

Mais imposto nos combustíveis, e tráfico em aeroportos

A partir desta quinta-feira tem mais imposto sobre a gasolina, mais 34 centavos por litro de gasolina e 22 centavos por litro de etanol. E, por fim, um alerta para o pessoal que usa aeroportos diferentes de Guarulhos. A polícia centraliza muito a investigação de drogas em Guarulhos, mas estão pegando drogas em aeroportos secundários também. Apreenderam agora 3 quilos de cocaína no aeroporto de Florianópolis, com uma mulher boliviana que estava indo para a Índia. Imaginem se ela é pega num daqueles países que prevê pena de morte por transportar drogas?


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O BRASIL NÃO ACABOU AINDA

Que país é esse, etc

Por
Paulo Polzonoff Jr. – Gazeta do Povo


O Brasil do Zé Carioca realmente acabou.| Foto: Reprodução/ Twitter

Juntamente com a melancólica e vaga “perdi a esperança no Brasil”, ouço muito dizerem por aí e por aqui que o Brasil acabou. A sentença fatídica é dita num tom que varia do resignado (raro) ao indignado (beeeem mais comum). Sempre que ouço isso, finjo-me de Rodrigo Pacheco e estudo o meu redor com aquele olhar tipicamente parvo. “Ma o Brasil taqui interin in vorta di mim, uai!” – tento, na minha melhor versão do Nerso da Capetinga.

O Brasil acabou. Há um quê de verdade aí e falarei sobre isso adiante. Antes, porém, preciso constatar o óbvio: o Brasil não acabou e nem vai acabar tão cedo. O Brasil não acabou quando deixou de ser Colônia para virar nosso glorioso e efêmero Império. O Brasil não acabou quando os militares, ébrios de positivismo, impuseram aqui este arremedo de República. O Brasil não acabou com o suicídio de Vargas. Nem com o AI-5. O Brasil não acabou com Lula ou Dilma (quase). Não acabou com Lula de novo. E não vai acabar com o regime alexandrino.

Isso porque não existe uma entidade chamada Brasil e da qual que se possa excluir os 200 milhões de insuportáveis brasileiros. Eu e você. Nós. Tudo bem que o Brasil é um território de 8.510.000km², com a capital em Brasília e limitado ao mar, no leste, e a um bando de república bananeira a oeste. Mas o país não é só isso, como podem atestar todos os que passaram uma temporada no exterior, jurando nunca mais voltar, até que se viram assobiando o Hino Nacional no banheiro. Aconteceu com um amigo meu. Dizem.

Mais do que um monte de terra para o MST invadir e um PIB trilionário para a política roubar, o Brasil é uma sensação de pertencimento que desterro nenhum é capaz de nos tirar. O problema é que confundimos o Brasil com Brasília. Ou melhor, confundimos o Brasil com aquele país desgraçado que nos apresentam os telejornais. Se é que alguém ainda assiste a telejornal. O problema é que confundimos o Brasil, essa abstração obrigatória da qual ora sentimos orgulho, ora vergonha, com um ideal inalcançável ou uma percepção míope da realidade. O problema é que estamos sempre tentando transformar radicalmente a imperfeição deliciosa que nos cerca.

O Brasil acabou
O Brasil, mas, porém, contudo, todavia e entretanto, acabou. Aquele Brasil simbólico e um tanto quanto dissociado da realidade. O do xim-xim, acarajé, tamborim e samba no pé. O Brasil dos romances de Jorge Amado. Do samba-canção e da bossa nova. Acabou o Brasil do futebol e suas estrelas caídas. Das novelas e suas estrelas caídas. Do cafezinho que se bebia admirando um rabo de saia. Aliás, acabou o Brasil dos rabos de saia, bem como dos cafajestes e seus mindinhos de unha comprida. Até o Brasil do jeitinho virtuoso, mais conhecido como criatividade, deu lugar a outro, dos cambalachos e das maracutaias.

Esse Brasil aí, que era tanta coisa boa (e ruim também, mas não quero falar sobre isso), não existe mais. Foi substituído por um outro Brasil. Brasil com zê. Um Brasil que nos parece falso, porque falso de fato é. Este Brasil que revolta muitos e a que se resignam poucos é um Brasil que se encontra em qualquer lugar do mundo. Que independe da brasilidade para sobreviver. É um Brasil tão homogêneo e globalizado quanto possível. É um Brasil nova-iorquino ou senegalês. Um Brasil madrilenho ou peruano. Um Brasil moscovita ou australiano – do tipo que foi passar um ano lá para “aprender inglês”. Sei.

O Brasil dos Malufs, Justos Veríssimos, Odoricos Paraguaçus e Enéas se transformou no Brasil dos Lulas, Randolfes, Amoedos e Alexandres da vida. Será que valeu a pena a troca? O Brasil de hoje é o da criminalidade palpável. Das lojas vazias e da geração nem-nem à toa. Da realidade nua e crua da arte engajada. Mas também – e isso, sim, me preocupa! – é o Brasil dos delírios juvenis. De um lado, os liberais e sua moral flutuante e seu materialismo semienvergonhado. Seus dados e projeções de crescimento e biriri e bororó. Do outro, os comunistas de todas as matizes e seu puritanismo violento disfarçado de bom-mocismo. Seus expurgos e maldições. E a gente no meio disso.

O que acabou foi aquele Brasil do bem comum, que variava de época para época, mas sempre se baseava em valores inegavelmente cristãos. A misericórdia. A generosidade. O perdão. Já o que resiste precariamente, esse Brasil balança-mas-não-cai, é o do homem egoísta, escravo de si mesmo, preso numa masmorra de hedonismo e niilismo – mesmo que ele não saiba o que isso significa.

Ainda assim, é neste Brasil que nascemos. O de hoje. Aqui e agora trabalhamos, amamos, vivemos. E é aqui, nesta nação que está mesmo uma porcaria, que temos que fazer o certo. É aqui, ao lado de cariocas, gaúchos, baianos, cearenses e até dos pobres osasquenses, que temos de ansiar pela Eternidade.


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