Rússia Briga entre Putin e grupo mercenário Wagner ameaça planos russos na Ucrânia
Por Fábio Galão – Gazeta do Povo
O presidente russo, Vladimir Putin, e o líder do grupo Wagner,
Yevgeny Prigozhin, em imagem de 2010: amizade foi abalada pelos
desdobramentos da batalha de Bakhmut| Foto: Presidência da
Rússia/Wikimedia Commons
Bakhmut, cidade no oblast de Donetsk, é
desde o final do ano passado o principal palco da guerra deflagrada pela
Rússia contra a Ucrânia. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, já
disse que a queda de Bakhmut seria um golpe duro para a resistência de
Kiev, pois abriria caminho para a Rússia ganhar ainda mais terreno no
leste do país.
A principal força de assalto russa nessa batalha é o grupo mercenário
Wagner, cujo líder, Yevgeny Prigozhin, é aliado do presidente Vladimir
Putin. O grupo paramilitar recrutou presos em penitenciárias russas para
lutar na Ucrânia, com a promessa de liberdade após servirem na guerra.
Na semana passada, Prigozhin informou que mais de 5 mil presos
receberam indulto das suas penas após o término dos seus contratos para
lutar pelo Wagner.
Entretanto, nos últimos meses surgiram vários indícios de
desentendimentos entre o grupo mercenário e o Kremlin, o que pode
comprometer os planos russos na Ucrânia.
Prigozhin causou constrangimentos a Putin ao reivindicar vitórias em
batalhas antes que as próprias forças armadas da Rússia se
pronunciassem, fez críticas públicas ao alto escalão militar russo e
reclamou de falta de munição e apoio. Também se queixou de que não tinha
mais acesso direto a Putin.
A batalha de Bakhmut já proporcionou grandes perdas ao Wagner e, após
semanas de discurso confiante, Prigozhin afirmou na quarta-feira (29)
que seu contingente na cidade ucraniana sofreu “graves danos”.
O fato de Putin ter admitido que o grupo mercenário permanecesse com
pouco ou nenhum apoio numa batalha com grandes perdas fez surgir a
teoria de que o objetivo do presidente russo é evitar que Prigozhin se
torne popular demais e busque enfrentá-lo na eleição presidencial de
2024.
Essa teoria foi corroborada pelo analista George Barros, chefe da
equipe de inteligência geoespacial que monitora a Rússia e a Ucrânia no
Instituto de Estudos da Guerra (ISW, na sigla em inglês).
“Atualmente, nós avaliamos, devido às disputas internas entre o
Ministério da Defesa russo e Yevgeny Prigozhin, que os russos estão
usando Bakhmut para em grande parte destruir o grupo Wagner e, por assim
dizer, colocar Prigozhin ‘no seu devido lugar’”, afirmou, durante um
recente debate online sobre a Ucrânia. As declarações foram reproduzidas
pelo jornal britânico The Independent.
O desentendimento entre Prigozhin e Putin seria tão profundo que o
líder do grupo mercenário estaria disposto a voltar suas atenções para a
África, onde o Wagner atua no Sudão, na República Centro-Africana, no
Mali e em outros países, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg.
No Telegram, Prigozhin disse que não sabia do que “a Bloomberg está
falando”. “Aparentemente, eles sabem melhor do que eu o que vamos fazer
em seguida. Enquanto formos necessários para nossa nação, seguiremos
lutando no território da Ucrânia”, rebateu.
Um eventual rompimento com o Wagner poderia comprometer a ofensiva
russa no país vizinho, visto que, como destacou George Barros, as tropas
do Kremlin estão exauridas.
“As forças armadas convencionais russas foram derrotadas. Se
considerarmos as forças russas como um todo, todas as unidades de
combate importantes […] já lutaram na Ucrânia no ano passado, e todas
sofreram níveis variados de perdas e foram reagrupadas até certo ponto”,
explicou, citando que a Rússia está sendo obrigada a despachar para o
campo de batalha homens cada vez mais inexperientes, “o que é muito bom
para a Ucrânia”.
Curiosamente, um oficial de inteligência ucraniano informou à CNN que
prisioneiros estão sendo recrutados diretamente pelo Ministério da
Defesa russo para lutar como “bucha de canhão” na Ucrânia. Ou seja, no
seu desespero, o Kremlin parece disposto a deixar de “terceirizar” o que
o Wagner vinha fazendo.
Arcabouço não terá punição por crime de responsabilidade fiscal, que levou a impeachment de Dilma
Foto: Eraldo Peres/AP
Por Adriana Fernandes e Anna Carolina Papp – Jornal Estadão
Regra fiscal prevê que, se a meta não for cumprida, haverá uma redução do crescimento de despesas no ano seguinte
BRASÍLIA – O novo arcabouço fiscal, apresentado nesta quinta-feira, 30, pela equipe econômica,
não terá punições por crime de responsabilidade fiscal para os gestores
que não cumprirem as metas estipuladas. Em 2016, a então presidente
Dilma Rousseff (PT) sofreu impeachment por crime de responsabilidade,
pelas chamadas “pedaladas fiscais”.
O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda,
Guilherme Mello, disse que em nenhum lugar do mundo há criminalização da
política fiscal. Ele fez questão de ressaltar que o mesmo acontece no
sistema de metas de inflação adotado pelo Banco Central do Brasil. “Não
cumpriu, não é que o presidente do BC vai para a cadeia, vai sofrer
impeachment. Ele tem mecanismos de corrigir”, disse.
Guilherme
Mello, secretário de política econômica do Ministério da Fazenda,
afirmou que em nenhum lugar do mundo há criminalização da política
fiscal. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
Na artilharia que tem sofrido do presidente Lula e ministros do
governo, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, porém, tem sido
ameaçado por lideranças do PT de pedido de demissão do cargo por
descumprimento das metas de inflação. Como ele tem mandato no cargo até
2024, o pedido teria de ser aprovado pelo Senado.
Segundo Mello, a ideia do modelo do arcabouço, ao contrário de
punições criminais, é que haja “consequências” para o governo que não
cumprir os objetivos que propôs.
O desenho prevê que, se a meta não for cumprida, haverá uma redução
do crescimento de despesas no ano seguinte. Nesse caso, o limite de
crescimento das despesas cai de 70% da variação da receita para 50%.
“Estamos colocando (o gatilho) mais rigoroso, que é um mecanismo
impositivo para o ano seguinte, caso não cumpra o objetivo”, disse o
secretário.
Especialista explica o conceito e as aplicações no dia a dia
A tecnologia está evoluindo e promovendo novos avanços tecnológicos.
Avanços esses que estão impactando cada vez mais o dia a dia das pessoas
e podem ser uma aposta transformadora também para os pequenos
negócios. O que está em alta no momento é o Chat GPT, um algoritmo
baseado em inteligência artificial que oferece ao usuário uma forma
simples de conversar e obter respostas sobre os mais diversos assuntos.
Breno Lessa, CEO da Appia, ressalta que o Chat GPT é um modelo de
linguagem criado e treinado por meio de uma extensa quantidade de
conteúdos, textos e códigos disponíveis na internet. “Trata-se de um
programa desenvolvido para gerar textos de forma autônoma, respondendo
perguntas e buscando soluções para os questionamentos dos usuários. A
ideia é que o Chat GPT pudesse desenvolver ainda mais a experiência e os
recursos de assistentes virtuais, como o Google Assistente ou a Alexa”,
explica.
Como toda inteligência artificial, o Chat GPT se fortalece através de
informações que são coletadas na internet, sendo assim, o que está
disponível atualmente é a base de dados do algoritmo. “O diferencial da
plataforma é que as respostas podem ser criativas. Por exemplo, ao
perguntar sobre um determinado assunto, diferente do que ocorre em um
mecanismo de busca, que apenas retorna os resultados, o Chat GPT é capaz
de contextualizá-los e elaborar textos, letras de música, poesias,
contos, códigos de programação, receitas e assim por diante”, destaca
Breno.
Aplicações do Chat GPT
Assistentes virtuais: Pode ser usado para criar
assistentes virtuais que ajudam as pessoas a fazer coisas como agendar
compromissos, fazer reservas e responder perguntas gerais. Ele também
pode ser usado para criar chatbots personalizados para diferentes
indústrias, como saúde, educação, negócios, entre outros;
Geração de conteúdo automatizado: Pode ser usado para gerar conteúdo
automatizado, como artigos de notícias, resumos de livros, descrições de
produtos e muito mais. Isso pode ser útil para empresas que precisam
produzir grandes volumes de conteúdo rapidamente e de forma eficiente;
Redação de relatórios: Também pode ser usado para gerar relatórios de
forma automatizada, como relatórios financeiros, relatórios de vendas,
relatórios de gerenciamento de projetos, entre outros. Isso pode ajudar
as empresas a economizar tempo e recursos ao automatizar essas tarefas;
Tradução automática: Pode ser usado para tradução
automática de idiomas, o que é útil para empresas que atuam em múltiplos
mercados e precisam se comunicar com clientes em diferentes idiomas;
PesquisaCientífica: É utilizado
para produzir resumos automáticos de artigos científicos, para ajudar os
pesquisadores a encontrar e entender rapidamente as informações mais
importantes.
20 coisas que eu gostaria de saber aos 20 anos (mas tive que aprender sozinho)
“Espírito primeiro. Porque isso é o mais importante. Não é o quão bem
você pode executar ou quanto dinheiro você pode ganhar. Mas se você não
é o ser humano que deveria ser, você não está fazendo isso
corretamente.” — Gladys Knight.
Uma jovem cliente que estava terminando sua terapia tinha um pedido final.
Ela queria alguns conselhos genéricos de vida: que tal 20 coisas para 2020? ela disse, lançando um desafio.
Eu não tive que pensar sobre isso por muito tempo. Quanto mais velho
você fica, mais você vê, mais você erra, mais você tem a dizer.
MAS…
Quanto mais medo você tem de dizer isso, porque sabe que não existe
uma estratégia de tamanho único para a vida – que cada um de nós precisa
seguir seu próprio caminho.
Ainda assim, eu estava pronto para o desafio. Aqui estão algumas coisas para ponderar.
20 coisas que eu gostaria de ter sabido nos meus vinte anos
1. Bons amigos valem ouro.
Ao longo da vida, apenas algumas pessoas realmente “pegarão” você. E
alguns deles também não ficarão por aqui. Portanto, cuide de quem o faz.
Mas também vale a pena saber que a amizade (e o amor) se desenvolve em
lugares surpreendentes, em todas as idades e fases. Fique aberto a isso.
2. Ninguém se importa com o que você faz da sua vida.
Bem, alguns fazem um pouco – espero que isso inclua seus pais. Mas a
maioria das pessoas está muito ocupada trilhando seus próprios caminhos
para se preocupar com o que você está fazendo no seu. No final, até seus
pais só querem que você seja feliz e autossuficiente. Aponte para isso.
3. A paixão por hambúrgueres com queijo e batatas fritas tem consequências.
Apenas dizendo.
4. A vida não dura para sempre.
Certa vez, tive um colega de apartamento cujo resumo da experiência
humana era o seguinte: “você nasce, vive um pouco e depois morre”. Achei
que ele era um Bisonho; Acontece que ele estava certo. Espero que você
tenha um longo intervalo entre o começo e o fim. Mas nenhum de nós sabe o
que está por vir. Use bem o seu tempo.
5. Nem o planeta.
Você não pode salvar tudo sozinho, mas pode fazer a sua parte.
6. A vida às vezes é entediante – precisa ser.
Tente viver em altas rotações 24 horas por dia, 7 dias por semana, e
você saberá o que quero dizer. Tempo de inatividade, manchas planas,
tédio – como você quiser chamar – é necessário para recuperar e
recarregar, pensar e criar – e fazer mudanças.
O tédio crônico é um problema, portanto, se você se encontrar lá, faça tudo o que puder para mudá-lo.
7. Sua saúde mental é um trabalho em andamento.
Humores e emoções não são consistentes. É mais difícil do que você
pensa ficar em um bom espaço mentalmente. Haverá altos e baixos, dias
bons e ruins, então você precisa aprender ferramentas e estratégias para
lidar com ambos. E você precisa continuar usando-os.
8. Assim como sua saúde física.
Os corpos também não se cuidam. Eles brincam, ficam doentes, precisam
de remédios, exames de saúde e manutenção regular. Quanto mais velho
você fica, mais alto “use-o ou perca-o” soa em seus ouvidos. Quanto mais
cedo você prestar atenção nisso, melhor.
9. Mentiras são corredores rápidos.
Uma vez ouvi dizer: uma mentira pode dar meia volta ao mundo antes
mesmo de a verdade calçar seus sapatos de salto alto. É verdade. As
mentiras se espalham rapidamente – e machucam. Pense nisso por um tempo.
10. Você precisa usar tanto as mãos quanto a cabeça.
Passar muito tempo em sua cabeça o deixará louco – e fará de você um
insone. Fazer coisas é a melhor maneira de combatê-lo – tira você da
cabeça e o leva para o corpo. Isso é bom pra você.
11. A maioria das pessoas está fazendo o melhor que pode. Mas alguns não são.
Verdadeiramente, a maioria das pessoas está se esforçando com o que
tem. A maioria das pessoas quer ser um ser humano bom, gentil e que
contribui. Algumas pessoas são idiotas, e mesmo que tenham uma razão
válida para isso, você precisa ficar longe delas.
12. Poder regular tudo é tudo.
Comida, álcool, substâncias, pornografia/sexo, humores, emoções,
reações – ter propriedade sobre isso é possuir sua própria vida. NB: Não
espere muito em breve, leva tempo e prática.
13. Tentar fazer os outros felizes é perda de tempo.
Você não pode. Você pode apoiá-los e estar lá para eles, mas criar
uma vida boa é o trabalho deles. Assim como criar o seu é seu.
14. Ficar sozinho é legal. Estar sozinho é difícil.
Estar sozinho, para experimentar, pensar e sonhar, sustentará e até
fortalecerá sua saúde mental. Mas sentir-se isolado o levará para o
outro lado. Faça o possível para se manter conectado – com as pessoas,
com os vizinhos, com os animais de estimação, com o caixa do
supermercado. E se você não está sozinho, fique de olho nos que estão.
Uma palavra gentil faz uma grande diferença.
15. O arrependimento é bom; pendurar no passado é ruim.
Ter arrependimentos mostra que você está ciente dos erros que
cometeu, das maneiras não tão boas como tratou os outros ou a si mesmo.
Apegar-se a coisas que você não pode mudar irá destruí-lo, então treine
seus olhos na estrada à sua frente.
16. O luto é uma merda.
As pessoas que você ama e se preocupam estarão perdidas para você, e
você terá que encontrar maneiras de lidar com isso. Leva muito mais
tempo do que você pensa, às vezes para sempre. Mas você precisa saber
que pode viver uma vida boa, até ótima, ao lado dela.
17. As pessoas são criaturas de hábitos E incrivelmente imprevisíveis. Incluindo você.
Abandone suas elevadas expectativas em relação às pessoas. Até de si mesmo.
18. Você vai se machucar — mas não precisa se agarrar a isso.
Mágoa, rejeição e dor fazem parte do trato humano. Mas continue
aprendendo a deixar ir, ou pelo menos afrouxar seu controle sobre isso.
19. Coisas ruins acontecem com pessoas boas.
Sim, eles fazem. E grandes coisas acontecem para significar pessoas. Vai saber.
20. A diversão também está em toda parte – mas às vezes está escondida.
Para citar os atemporais Desiderata de Max Ehrmann: “Apesar de toda a
sua farsa, labuta e sonhos desfeitos, ainda é um mundo lindo.”
Nem sempre parece assim, eu sei. Às vezes parece que a beleza foi
sugada dele. Mas há muita coisa boa no mundo. Faça da sua missão
continuar procurando por ele.
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Marco Civil da Internet Por Leonardo Desideri – Gazeta do Povo Brasília
Audiência pública no STF sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet.| Foto: Carlos Alves Moura/STF
O
Supremo Tribunal Federal (STF) fez, na terça e nesta quarta-feira (28 e
29), uma audiência pública para rediscutir o artigo 19 do Marco Civil
da Internet, que trata do dever das redes sociais na remoção de
conteúdos ilícitos. Nas entrelinhas, a discussão é um jogo de
empurra-empurra entre o Estado brasileiro e as Big Techs para definir a
quem cabe vigiar e censurar a expressão nas redes sociais, o que deve
gerar preocupação para a direita.
Na lei atual, aprovada em 2014, as redes só são punidas conforme o
artigo 19 se, após ordem judicial, não tirarem o conteúdo ilícito do ar.
STF e governo querem que elas arquem com mais do que isso, removendo
ativamente – sem ordem judicial – postagens que se encaixem nos rótulos
de pretexto para censura empregados pelo tribunal nos últimos anos, como
“fake news”, “desinformação”, “discurso de ódio” e “antidemocrático”.
Essas etiquetas, aliás, foram usadas à exaustão nas exposições da
audiência, especialmente por membros da Corte e do governo federal nas
sessões da terça-feira de manhã. O 8 de janeiro, como muitos previram
logo após os ataques, tornou-se o pretexto perfeito para a necessidade
de uma revisão do marco, e as autoridades fizeram questão de mencioná-lo
reiteradamente para defender seus pontos de vista.
Casos mais objetivos de comportamentos ilícitos, como abuso sexual,
pedofilia ou tráfico de drogas, foram quase ignorados pelas autoridades
em suas intervenções, embora também estejam no guarda-chuva do artigo 19
do marco. Os dois julgamentos que motivaram a audiência tratam de
crimes contra a honra, mas essa categoria penal foi outra negligenciada
nos discursos.
O ministro Gilmar Mendes afirmou que os atos de vandalismo do 8/1
“guardam conexão direta com o uso abusivo da internet”. “O sistema
jurídico precisa encontrar meios e modos de lidar com esta temática”,
defendeu. O ministro Alexandre de Moraes disse que as plataformas
digitais “foram instrumentalizadas para o que nós vimos que ocorreu no
dia 8”.
O anseio de controle estatal da expressão contra a direita ficou
subentendido em diversos momentos. O ministro dos Direitos Humanos e da
Cidadania, Silvio Almeida, falou na necessidade de um “freio
institucional que permita uma reorientação cultural e ideológica da
sociedade”. O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), integrante de
uma legenda com “comunista” no nome, disse que não é admissível “um
modelo de negócios que se apoie no extremismo político”, em referência
às redes sociais. O ministro do Supremo Luís Roberto Barroso afirmou
que, contra a “desinformação” e a “disseminação do ódio”, são
necessárias “regulação estatal moderada, autorregulação ampla,
monitoramento adequado e independente do cumprimento dessa regulação e
educação midiática”.
Para essas autoridades, as plataformas precisam aceitar um novo
paradigma: devem ser elas, a partir de agora, as protagonistas em coibir
os discursos que supostamente atentam contra a democracia. A expressão
“dever de cuidado”, usada para designar essa responsabilidade, virou
palavra de ordem durante a audiência.
Entre os órgãos do governo convidados para discursar estava a
Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia – o chamado “Ministério da
Verdade” da Advocacia Geral da União (AGU). Marcelo Eugênio Almeida,
que comanda essa nova estrutura, disse na audiência que o órgão “nasce
como resposta ao extremismo que este prédio [do STF] testemunhou
recentemente” e chamou as redes sociais de “armas de destruição da
democracia em massa”.
VEJA TAMBÉM:
STF, redes sociais e a liberdade de expressão: o que está sendo debatido
Governo e STF querem ampliar controle de conteúdo nas redes sociais; empresas se opõem
O império da mentira quer definir o que é verdade Defesa da liberdade de expressão da direita fica sem voz no debate Em
uma audiência que toca diretamente no tema da liberdade de expressão
dentro das redes sociais, nenhum expositor fez ponderações explícitas
sobre as ameaças de silenciamento digital do maior alvo das decisões de
censura nos últimos tempos: a direita. No braço de ferro entre Estado
brasileiro e as Big Techs, o foco da discussão não era a liberdade de
expressão em si, mas quem cuidaria de limitá-la.
Mudar o artigo 19 transferindo responsabilidade para as redes sociais
traz, para as autoridades brasileiras, duas vantagens: liberar-se da
custosa tarefa de vigiar os conteúdos na internet e evitar o desgaste
com a opinião pública ante as reiteradas iniciativas de censura. A
vilania, nesse caso, seria trasladada para as plataformas. Ao mesmo
tempo, o Poder Judiciário não perderia a capacidade de censurar
conteúdos por decisão própria, sempre que achasse necessário.
As Big Techs, por outro lado, querem afastar de si o “dever de
cuidado” e tentam convencer o Estado brasileiro de que já fazem muito
para combater o “discurso de ódio” e os comportamentos
“antidemocráticos”. O advogado representante do Google, Guilherme
Cardoso Sanchez, destacou que a empresa removeu do YouTube, no ano
passado, “10 mil vídeos com desinformação sobre eleições”.
Outros argumentos entraram em jogo. Sanchez disse que “a conta da
irresponsabilidade pode cair na empresa” e, com isso, as pessoas podem
se sentir menos responsáveis pelo que dizem nas redes. O argumento
econômico também foi usado: Google e Facebook dizem que não obtêm
vantagem financeira nenhuma com o extremismo.
Em meio a essas ponderações, as plataformas deram menor destaque ao
tema da liberdade de expressão, mas não deixaram de mencioná-lo. Rodrigo
Ruf Martins, gerente jurídico do Facebook Brasil, disse que estabelecer
o chamado “dever de cuidado” suporia o risco de exclusão de conteúdos
cuja ilegalidade é subjetiva, o que seria um problema para a livre
expressão. Temendo punições, as redes seriam obrigadas a pesar a mão na
censura, coibindo expressões potencialmente legítimas. Esse foi, no
primeiro dia de audiência pública, o máximo de contundência
pró-liberdade de expressão que se extraiu das exposições.
Transferir o “dever de cuidado” às redes traz risco de censura invisível, diz especialista em Direito Civil O
advogado Rodrigo Xavier, representante da Rede de Pesquisa de Direito
Civil Contemporâneo, destacou no segundo dia da audiência, na
quarta-feira (29), que possíveis limitações do artigo 19 do Marco Civil
não significam que ele seja inconstitucional, o que torna o Supremo um
âmbito inadequado para a discussão sobre sua mudança. “Essa é uma
questão que não seria desafiada por um juízo de constitucionalidade, mas
sim por possíveis alterações no Legislativo”, afirmou.
Além disso, para ele, transferir o “dever de cuidado” às redes
sociais suporia um risco à liberdade de expressão. As plataformas,
segundo Xavier, estariam “numa situação, se não exatamente, muito
próxima da sujeição: ou retirar de imediato o conteúdo ou assumir a
responsabilidade de pagar por isso”.
“Já há alguns estudos na Alemanha no sentido de que a majoração
desses deveres para os provedores gera o pior tipo de censura: a censura
invisível. Quando o Poder Judiciário é levado a decidir na ponderação
de conflitos, isso é feito publicamente e abertamente. Quando a
plataforma é levada a decidir como um tribunal privado – quase como uma
arbitragem coativa a que todas as pessoas estariam sujeitas –, o que se
decide? Como se decide? Qual é a jurisprudência dessa decisão? É
silenciosa, é desconhecida. E, pior do que a censura, é a censura
escondida; é a censura que não pode ser sindicada”, observou.
Fake news espalhadas por Lula e outros petistas são ignoradas no portal “Brasil contra fake”.| Foto: Andre Borges/EFE
Enquanto não consegue implantar a mordaça pura e simples na imprensa
independente com sua “regulação da mídia”, nem calar qualquer um que
ouse criticar Lula nas mídias sociais com mudanças em leis como o Marco
Civil da Internet, o governo federal continua “comendo pelas beiradas”.
Depois da criação de dois órgãos dentro da Advocacia-Geral da União e da
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República,
apelidados de “Ministério da Verdade” (e que nem seria o primeiro
“ministério” do gênero, já que a primazia parece pertencer a certos
gabinetes supremos), a novidade é o lançamento de um portal chamado
“Brasil contra fake”, por iniciativa também da Secom e hospedado no site
oficial do Planalto.
O objetivo é bem simples e consiste em uma reedição do “nós contra
eles”. No caso, “eles” são todos os que, audácia das audácias, se opõem
ao governo Lula, mentirosos que tramam contra o presidente dia e noite
por meio de fake news espalhadas deliberadamente nas mídias sociais.
“Nós”, claro, são Lula e os demais petistas, sempre honestos, sempre
vítimas de armações e trapaças, sempre prontos a guerrear pelo povo
brasileiro. Isso explica que absolutamente todos os conteúdos sejam
laudatórios ao atual governo, isso quando não trazem consigo acusações
contra seu antecessor, Jair Bolsonaro. O site costuma aproveitar
material de outras agências de checagem, ou simplesmente reproduzir
notas que trazem a versão do governo sobre algum fato, a exemplo da
recente aparição da primeira-dama Janja na TV Brasil.
Ainda que o governo atual fosse formado por pessoas completamente
virtuosas, o portal “Brasil contra fake” já seria um absurdo, pois
governo nenhum pode pretender ser árbitro da verdade e dizer o que é
fato ou o que é fake
Tudo muito natural, pois, se Lula é a “alma mais honesta do Brasil”,
sua virtude deixa para trás até mesmo a mitologia criada em torno do
ex-presidente norte-americano George Washington. E a honestidade é tanta
que transborda para seus companheiros de partido, também incapazes de
mentir. Lula pode dizer que a Venezuela tem “democracia em excesso”,
como fez em 2005; que o mensalão nunca existiu; que a Previdência Social
teve superávit em 2014; que a Operação Lava Jato era apenas uma trama
de procuradores do MPF para destruir o PT e a indústria nacional; que o
impeachment de Dilma Rousseff foi um golpe das elites; que o Brasil é
líder mundial em mortes por Covid-19 como proporção da população; e que o
plano do PCC para sequestrar e matar Sergio Moro, desarticulado pela
Polícia Federal e pelo Ministério Público paulista, não passava de
“armação” do ex-juiz e senador – o tipo de afirmação que, se tivesse
vindo de um certo ex-presidente para se referir a um adversário
político, já teria sido incluída em um certo inquérito, ou ao menos
rendido prazo para explicações por “desacreditar instituições” como a
PF, o MP-SP e o Ministério da Justiça. Da mesma forma, Marina Silva pode
dizer em Davos que 120 milhões de brasileiros passam fome, e
parlamentares governistas podem dizer que o princípio da anterioridade
impede que Lula reajuste a tabela do Imposto de Renda em 2023, como
prometera na campanha.
VEJA TAMBÉM: O PT cria seu Ministério da Verdade (editorial de 5 de janeiro de 2023) A verdade segundo o governo Lula (editorial de 18 de janeiro de 2023) Crucificando a verdade (editorial de 1.º de abril de 2022)
Tudo isso é mentira, é fake news no sentido mais cristalino do
termo: afirmação comprovadamente falsa sobre algo factual. Mas, no mundo
petista, quando tais afirmações não são consideradas a mais pura
verdade, são no máximo um “deslize”, um “equívoco”, um “excesso de
autenticidade” ou coisa parecida. Daí a Secom não ver a menor
necessidade de incluir tais falas em seu portal “Brasil contra fake”.
Para os responsáveis pelo site, petistas não mentem; só os outros são
capazes disso, sempre movidos pelas razões mais sórdidas. Apenas eles
merecem ser desmascarados. A parcialidade é tanta que mesmo as agências
de checagem, muitas vezes criticadas por deixarem transparecer um certo
viés político-partidário naquilo que escolhem verificar e na forma como o
fazem, se incomodaram com a iniciativa governista.
Ainda que o governo atual fosse formado por pessoas completamente
virtuosas, o portal “Brasil contra fake” já seria um absurdo, pois
governo nenhum pode pretender ser árbitro da verdade e dizer o que é
fato ou o que é fake. O absurdo se torna acinte quando se sabe muito bem
que o Executivo é ocupado por mentirosos contumazes, pelo império da
mentira. Não queremos com isso dizer que não existam fake news sobre o
governo Lula, pois existem; muito menos que seja impossível chegar à
verdade objetiva sobre os fatos – ela não só existe como tem de ser
buscada e divulgada. Mas este não é trabalho do governo, muito menos de
um governo que tem um conceito muito peculiar de verdade: não a
“adequação do pensamento à coisa real” tomista ou o “dizer do que é que é
e do que não é que não é, é dizer o verdadeiro” aristotélico, mas
apenas “o que eu quero que seja verdade”, nem que para isso seja preciso
repetir a mentira mil vezes.
Sessão conjunta do Congresso Nacional.| Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senad
A
disputa de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco a respeito da forma como devem
tramitar as medidas provisórias na Câmara esconde um vício muito mais
profundo e que tem sido cada vez mais inerente aos comandos da Câmara
dos Deputados e do Senado: o desrespeito aos ritos estabelecidos em seus
respectivos regimentos e, até mesmo, na Constituição. As ilegalidades
promovidas por Lira e Pacheco, mas não por eles inauguradas, foram
agravadas com a pandemia.
Dada a necessidade, a partir de março de 2020, de fazer o Parlamento
funcionar com seus membros nas bases, trancados em casa, uma série de
ritos e protocolos foram alterados, abreviados ou simplesmente
eliminados. Foi a chance de os líderes partidários, cujo poder havia
sido duramente desafiado nas eleições de 2018, recobrarem e redobrarem
suas forças após um 2019 muito difícil. À época, no calor do Plenário e
com a pressão dos demais colegas, era muito mais fácil um parlamentar
votar diferentemente da orientação do líder partidário. Com as votações
pelo celular em razão da pandemia essa capacidade de influência reduziu
drasticamente. Além disso, os poderes das presidências das Casas,
encasteladas em Brasília, também se agigantaram. É esse o caso da
tramitação das medidas provisórias, cujo estopim de crise só se acendeu
porque uma Casa julgou-se preterida em relação à outra na balança de
poder.
Assim como a sociedade se adaptou a um “novo normal”, também o
Congresso precisa fazê-lo, e o “normal” de um Parlamento sempre estará
insculpido em seu regimento e na Constituição
Antes da pandemia, medidas provisórias (MPs) seguiam o rito
estabelecido pela Constituição. Assim que editadas e publicadas pelo
governo, eram enviadas a uma comissão parlamentar mista do Congresso
Nacional composta por doze deputados e doze senadores. Os congressistas
eram indicados pelos partidos políticos observando a proporcionalidade e
as comissões escolhiam seu presidente e relator. Com vigência máxima de
120 dias, as MPs precisavam passar pelo crivo da comissão especial
antes de serem submetidas ao Plenário da Câmara dos Deputados. De lá,
quando aprovadas, seguiam ao Senado e, somente então, iam para a sanção
presidencial se aprovadas sem alteração ou, caso contrário, retornavam à
Câmara para posterior sanção.
Com o advento da pandemia de Covid-19 e a subsequente paralisação dos
trabalhos de todas as comissões, uma liminar de Alexandre de Moraes, do
STF – mais uma vez intervindo no processo legislativo –, autorizou em
abril de 2020, a adoção de um rito simplificado para a tramitação das
MPs. A partir de então, os textos poderiam ser avaliados por apenas um
relator no plenário da Câmara e um relator no plenário do Senado. Em ato
conjunto das Mesas das duas Casas, os então presidentes Rodrigo Maia e
Davi Alcolumbre regulamentaram a conveniente autorização liminar
judicial sem que se fizesse a devida alteração constitucional pelos
Plenários das duas Casas.
Se o Congresso quer legislar para a sociedade deve começar por
respeitar as regras que definem o seu próprio funcionamento e que foram
elaboradas também por parlamentares.
Começou torto: o que estava previsto na Constituição foi desfeito por
um ato conjunto decorrente de decisão do Supremo, não por nova emenda
constitucional. O ato estipulou, por exemplo, sem autorização
constitucional para tal, regras detalhadas de tramitação, como o prazo
de apenas dois dias para apresentação de emendas. No entanto, parte
importante da decisão judicial que escusava a edição do ato não foi
questionada: que a tramitação especial ocorreria apenas durante o
período da pandemia.
Na prática, medidas provisórias que antes eram debatidas em colegiado
de 24 congressistas e, depois, analisadas em Plenário com muito mais
profundidade e conhecimento dos demais parlamentares, agora são
conduzidas por apenas um deputado na Câmara e um senador no Senado,
ambos escolhidos a dedo e tão somente pelos presidentes de cada Casa.
Frequentemente, os relatórios são apresentados em Plenário minutos antes
da votação, contendo modificações substanciais, algumas incluídas de
última hora, justamente para evitar repercussão negativa junto à opinião
pública. É acintoso! Para os senadores, tanto pior: se antes podiam
participar do debate inicial na comissão mista, agora se ressentem do
fato de receber o texto pronto da Câmara para analisar no Senado em no
máximo 30 dos 120 dias de suas vigências.
A Casa de Leis brasileiras, que decide o que a sociedade deve ou não
deve fazer, com frequência não faz aplicar internamente o que dizem as
suas próprias leis ou mesmo a Constituição.
É importante lembrar que o estado de calamidade pública decorrente da
pandemia do novo coronavírus se encerrou em 31 de dezembro de 2020. Já a
Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional teve seu fim
decretado em 22 de maio do ano passado. Ou seja: sob qualquer marco
temporal determinado, o Congresso Nacional segue adotando trâmites do
período pandêmico muito depois do seu fim – e o exemplo da tramitação
das medidas provisórias é apenas um de tantos que se poderiam dar. Se o
formato anterior de tramitação das MPs merece ser rediscutido, que o
seja, mas com a devida mudança constitucional. Seguir utilizando agora
um modelo que serviu – mal, na minha opinião – no período pandêmico é
desrespeitar a Constituição.
A ameaça representada pelo coronavírus já passou há muito tempo, mas o
Parlamento nacional adquiriu sequelas graves. As lideranças das duas
Casas, acostumadas e até mesmo atendidas por grande parte dessas
alterações que concentraram poder em suas mãos, não fazem esforço para
tratá-las. Desmerecem, assim, o devido processo legislativo, seus
próprios regimentos internos e, claro, os parlamentares. Numa
atualização do “casa de ferreiro, espeto de pau”, em vez do desleixo
geralmente atribuído ao ditado, trata-se aqui de desrespeito intencional
de suas próprias leis por parte da Casa que faz as leis que a sociedade
brasileira deve seguir. Em outras palavras: a Casa de Leis brasileiras,
que decide o que a sociedade do lado de fora do Congresso Nacional deve
ou não deve fazer, com frequência não faz aplicar internamente o que
dizem as suas próprias leis (seu regimento interno) ou mesmo a
Constituição.
VEJA TAMBÉM: Oposição para frear o PT Até quando toleraremos tamanha injustiça? Carnaval Vermelho: MST faz guerra para retomar poder político
No caso da tramitação das medidas provisórias, o escracho regimental
veio à tona por conta do conflito entre os interesses de Arthur Lira e
Rodrigo Pacheco, entre os interesses de determinados líderes na Câmara e
do Senado. Sem entrar no mérito da discussão sobre o melhor método para
a tramitação das medidas provisórias (que, aliás, merecem um artigo à
parte para tratar da incoerência de sua existência no nosso sistema
presidencialista de governo), é preciso que o processo constitucional
seja respeitado. Há males que vêm para o bem e crises institucionais que
deixam resultados positivos. Tomara que seja este o caso aqui.
A pandemia já passou, felizmente, e faz tempo. Assim como a sociedade
se adaptou a um “novo normal”, também o Congresso precisa fazê-lo, e o
“normal” de um Parlamento sempre estará insculpido em seu regimento e na
Constituição. Caso o rito das medidas provisórias, e tantos outros
alterados durante a pandemia, mereça rediscussão, que se faça no
ambiente correto de uma comissão especial (não de um Grupo de Trabalho,
outra excrescência inventada ao arrepio do regimento) e que se altere
devidamente a Constituição. Tentar manter soluções temporárias e que
hoje são plenamente ilegais e inconstitucionais na base da guerra
política depõe contra a respeitabilidade da própria Casa de Leis
brasileira. Se o Congresso quer legislar para a sociedade, deve começar
por respeitar as regras que definem o seu próprio funcionamento e que
foram elaboradas também por parlamentares.
Cinco pilares de sustentação do governo Lula III já caíram.| Foto: Bradyn Trollip/Unsplash
Em
menos de 90 dias, o governo se autoimpôs uma crise maior do que as
piores expectativas dos mais pessimistas. Vamos comparar situações
semelhantes, relembrando o não tão distante impeachment de Dilma
Rousseff em outubro de 2016. Nessa ocasião, os seis pilares listados
abaixo caíram em “efeito dominó” e consolidaram uma situação clara de
impeachment.
Opinião Pública O primeiro pilar de sustentação que Dilma perdeu e
serviu de pano de fundo para os pedidos de impeachment foi a aprovação
da opinião pública. Ainda na reeleição, com o suposto embate com Aécio
Neves, ela tinha perdido o apoio da população já perto de assumir o novo
mandato. Desde outubro de 2014 havia manifestações contrárias à
presidente; e em dezembro já surgia o primeiro pedido de impeachment,
antes mesmo de sua posse. A opinião pública a respeito da petista estava
abalada; mas, com tantas provas contra sua administração, em 2015 este
pilar começa a ruir.
Apoio parlamentar
O segundo pilar tem muita relação com o primeiro. Eleitores e
parlamentares passaram a ter uma relação mais direta e constante.
Ativistas e pessoas comuns passaram a ligar, mandar e-mails e acessar as
redes sociais de deputados e senadores para pressioná-los a não darem
apoio às medidas do governo.
Congressistas começaram a barrar vários projetos do governo. Dilma
perdeu apoio na Câmara na medida em que os deputados reconheceram que
poderiam perder apoio popular se mantivessem o apoio à presidente.
Ministros O terceiro pilar a cair no governo Dilma também tem a
ver com a administração pública e foi uma sinalização importante de
perda de apoio político. Vários ministros que faziam parte de partidos
da base do governo renunciaram a seus cargos. O fato, de certa forma,
foi decorrente da perda de apoio da população e dos parlamentares, e
ocorreu em sequência. Nenhum partido desejava estar associado a um
governo que, além de não ter a opinião pública a seu lado e tampouco
apoio parlamentar, sairia perdedor em eventual processo, acusado de
crimes de lesa-pátria e pedalada fiscal.
Importante ressaltar que o impeachment é um processo político, mas,
para ser instaurado, é necessário que haja um crime para embasar o
pedido. No caso de Dilma, vários crimes forma cometidos, mas foram as
pedaladas fiscais, fartamente comprovadas, que selaram seu destino.
Grandes Empresários O mesmo pilar que apoiou o Lula em 2022 foi o
quarto pilar a ruir. Diversos grandes empresários que apoiaram Dilma na
eleição retiraram seus apoios. Isto aconteceu no final de 2015 e no
início de 2016, enfraquecendo ainda mais o governo. Para ela, teria
sobrado um último pilar.
Grande Mídia
O quinto pilar desaparece no mesmo período. Trata-se do apoio da
mídia tradicional e de outros veículos, notadamente a Globo e outros
canais, como UOL e Folha, que se juntaram ao coro e reconheceram que o
impeachment seria inevitável. As manifestações cresceram em número de
participantes e na frequência. Além das pedaladas, surgiram novas provas
de outros crimes, também objetos de diversos pedidos de impeachment que
não foram contemplados. Um desses exemplos é o caso do “Bessias”, em
que a presidente da República se dispõe a dar um ministério a Lula para
que este não fosse preso, em uma tentativa de blindá-lo das
consequências de seus atos. Dilma chegou a escrever um ofício nesse
sentido, o que não poderia deixar de ser noticiado, mesmo pela imprensa
que sempre a apoiou.
Era uma evidente obstrução da justiça; e embora esse dado nem tenha
sido incorporado ao pedido de impeachment, deu combustível para que a
mídia retirasse seu aval ao governo.
STF Como sexto pilar, temos o Poder Judiciário. Como um todo, ele
também reconheceu a legitimidade do pedido de impeachment de Dilma, pois
o processo foi muito bem construído, e o “efeito dominó” já estava em
curso em todas as instâncias da vida pública. Só restava ao STF amenizar
as consequências de um eventual impacto judicial para a própria Dilma.
Assim, mudou a lei e o regimento, preservando os direitos políticos de
uma presidente deposta, em evidente violação da Constituição (prática
que perdura até os dias atuais).
Este foi o histórico dos anos 2014 – 2016, quando do impeachment de
Dilma. Mas como o governo Lula se sustenta politicamente? É dono de
enorme impopularidade; não tem apoio da população ou dos parlamentares,
uma vez que a oposição no congresso é maioria; nos bastidores,
especula-se que alguns ministros estão querendo se retirar do governo;
vários empresários já se manifestaram contra o governo e a destruição da
Economia em tempo recorde que este está promovendo (pois em menos de 90
dias o governo criou um cenário caótico para o dia a dia de empresas,
consumidores e cidadãos); a imprensa já tece críticas a este mandato,
deixando claro que está em desacordo com essa gestão. Não se sabe se
judiciário, caso haja um processo de impeachment, defenderá seu
candidato ou se validará o processo parlamentar.
Mas está faltando um ingrediente chave para colocar toda essa
engrenagem em funcionamento: a Mobilização Popular. Os ativistas ainda
estão acuados depois dos infelizes episódios das eleições e do 8 de
janeiro. Hoje temos um governo fraco, impopular, sem base e com possível
conspiração de ministros, empresários e mídia. Todos eles são
contrários às ações promovidas pelo governo, mas nenhum tem força para
desencadear o processo. O que o Brasil honesto, próspero, líder, seguro e
estável está esperando é a Mobilização para desencadear o “efeito
dominó”. Como o próprio Lula dizia antes do início do processo de
Impeachment do Fernando Collor: “balança que ele cai”.
O presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, fala à imprensa.| Foto: José Cruz/Agência Brasil
É de ficar boquiaberto com o que disse o ex-governador do Acre,
ex-senador Jorge Viana, que está em Pequim há dois dias. Sua declaração
está tendo a maior repercussão no agro. Ele foi à China como presidente
da Apex, que é a agência promotora de exportações brasileiras, ligada ao
Ministério da Indústria e Comércio, cujo ministro é o vice-presidente
da República, Geraldo Alckmin. Viana foi governador de um estado da
Amazônia, mas agora integra essa delegação de mais de 100 empresários da
pecuária, da agricultura, da agroindústria, das exportações, que foram à
China, o nosso principal comprador de grãos e de carnes, para ampliar e
diversificar mercados, e buscar compradores dos nossos produtos com
mais mão de obra e tecnologia brasileira, da agroindústria.
Falando aos chineses, aos financiadores, aos investidores, aos
compradores, aos importadores, sabem o que Viana disse? Que a pecuária é
a agricultura são responsáveis por 87% do desmatamento da Amazônia nos
últimos 50 anos. Ele é presidente da agência de promoção de exportações.
E, no momento em que o mundo está aí nessa onda de politicamente
correto, de ambientalismo, de punir quem desmata, parece que ele pôs uma
bomba para implodir a delegação brasileira. O agro foi lá para expandir
os negócios, e ele fez a propaganda contrária. É inacreditável! Vamos
saber o que vai acontecer, porque acima dele está Geraldo Alckmin,
ministro e vice-presidente.
VEJA TAMBÉM: A força do agro nos estados Agro é trunfo brasileiro em missão na China Ovos de ouro
Dados da economia brasileira mostram como estragaram tudo em apenas três meses E
Viana desmerece o agro num momento em que a economia brasileira não vai
bem. A dívida pública está subindo: era de R$ 5,768 bilhões em janeiro,
já está em R$ 5,856. Alta de R$ 88 bilhões em fevereiro, ou R$ 3
bilhões por dia. O governo precisou emitir R$ 33 bilhões em papéis para
tomar dinheiro que não tem. E tem de pagar juros: no mês de fevereiro
pagou R$ 54 bilhões em juros, emitiu mais do que resgatou, mas não fica
por aí.
Em fevereiro, o país abriu 241,8 mil empregos. Em fevereiro do ano
passado tinham sido 353 mil novos empregos. Comparando um mês com outro,
veremos que houve queda de mais de 31% de um ano para outro. E onde foi
pior? No comércio, no Nordeste e no Norte. Onde o emprego mais cresceu
foi no Sudeste. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, diz que a culpa é
dos juros altos. Então vamos abaixar os juros e aumentar a inflação, que
tal? Aí teremos PIB caindo, emprego caindo e a inflação subindo.
Tudo isso se conseguiu em três meses. É um tempo recorde, mas foi
planejado por aquela equipe de transição. Parece que foi uma destruição
planejada, não? Tanto que muita gente importante que apoiava o governo
já está caindo fora, se decepcionou em pouquíssimo tempo. Os 60 milhões
de eleitores que elegeram o presidente representam 38% do eleitorado e
28% da população. Só não está havendo manifestações porque as pessoas
não estão acreditando nas garantias constitucionais de liberdade de
reunião sem armas, de liberdade de expressão sem anonimato, porque já
tivemos provas de que há um trator que passa por cima disso.
Não fosse a âncora fiscal, presidente teria
pouca coisa a mostrar até agora, além da bateção de cabeça entre
ministros, do fogo amigo do PT e da reprise de programas sociais
Por Vera Rosa – Jornal Estadão
O retorno de Jair Bolsonaro ao Brasil dá
munição aos adversários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a onze
dias de o governo completar 100 dias, ainda à procura de um rumo na
política e na economia. Não fosse a apresentação da nova âncora fiscal,
que coincide com a chegada de Bolsonaro, Lula teria pouca coisa para
mostrar até agora, além da bateção de cabeça entre ministros, do fogo
amigo no PT, da reprise de programas sociais e da inauguração do
letreiro do Ministério da Cultura.
No Palácio Planalto, auxiliares do presidente afirmam que ele não
deixará brecha para o protagonismo de Bolsonaro, como acabou fazendo com
o senador Sérgio Moro(União
Brasil-PR). Ao contrário: a estratégia é conquistar pedaços de partidos
do Centrão que foram aliados de Bolsonaro – como o PP do presidente da
Câmara, Arthur Lira (AL)
– e continuam dispostos a continuar surfando na onda governista, mesmo
porque já estiveram com o PT em um passado não muito distante.
Bolsonaro retorna ao Brasil após 3 meses nos EUA Foto: Evelyn Hockstein/Reuters – 4/3/2023
Nos últimos dias, Lula marcou um gol contra ao dizer que Moro,
ex-ministro de Bolsonaro e ex-juiz da Lava Jato, teria participado de
uma “armação”. O comentário foi feito logo depois de ministros como o da
Justiça, Flávio Dino, elogiarem a isenção da Polícia Federal, que
descobriu um plano da facção criminosa PCC para sequestrar e matar Moro,
além de outras autoridades.
A intenção do governo, agora, é isolar o ex-presidente, Moro e os
radicais que apoiaram o vandalismo na Praça dos Três Poderes, mas, ao
mesmo tempo, falar com a ala do bolsonarismo da qual Lula precisa se
aproximar, como a do agronegócio e a dos evangélicos. Mas isso foi
combinado com os russos? Ao que tudo indica, não. Tanto que, nas redes
sociais, petistas de alto escalão se apressaram em jogar os holofotes
sobre Bolsonaro e manter acesa a chama da polarização.
Apesar de desconstruído, o ex-presidente que perdeu capital político
após a tentativa de golpe de 8 de janeiro e do escândalo das joias
recebidas da Arábia Saudita ainda atormenta Lula e o PT nessa volta dos
Estados Unidos. A Polícia Federal marcou para quarta-feira, 5, o
depoimento de Bolsonaro no inquérito que apura a entrada ilegal de joias
cravejadas de diamantes no Brasil, mas, por enquanto, ele não é alvo da
investigação. Trata-se, porém, de uma história muito mal contada, que
levanta suspeitas de peculato. Afinal, por que o regime saudita teria
tanto interesse em dar presentes de R$ 18,5 milhões a Bolsonaro?
Mesmo assim, longe de estar morto politicamente, o capitão reformado
do Exército – que sempre se apresentou como um homem simples, admirador
de tubaína – ainda pode chacoalhar a oposição, se o governo Lula
permanecer refém do Centrão e não se aprumar. E, nesse caso, de nada vai
adiantar a ironia de dirigentes do PT ao perguntar: “Tudo joia?”
Nomear Dilma Rousseff para a presidência do banco dos Brics foi
uma forma inventiva e elegante de Lula despachá-la para o outro lado do
mundo. A um só tempo, ele presta tributo a uma fiel aliada, mas também a
mantém bem longe do atual governo. Seis anos desde seu impeachment, as
marcas profundas da catastrófica passagem da ex-presidente pelo Palácio
do Planalto continuam presentes na estrutura econômica, administrativa e
social do país, comprometendo até mesmo a imagem do atual mandatário,
que é menos lembrado pelo pragmatismo de seu primeiro mandato e mais
pela debacle que ela protagonizou entre 2013 e 2016, os anos que o PT
gostaria que Brasil esquecesse.
A operação política terá óbvio custo financeiro. Como principal
executiva da instituição, a petista ganhará cerca de 500 mil de dólares
por ano. Terá a atribuição de coordenar investimentos em países do bloco
num orçamento que chega a 32 bilhões de dólares. Experiência não lhe
falta. Foi ela quem, em 2006, como ministra da Casa Civil e presidente
do Conselho de Administração da Petrobras, votou a favor do contrato de
compra da refinaria de Pasadena, nos EUA. Obsoleta, a estrutura
industrial acabou gerando um gigantesco prejuízo à companhia. Ainda que
absolvida pelo Tribunal de Contas da União por supostamente ter agido de
má-fé, é incontestável, a aquisição foi um dos muitos péssimos negócios
que se deram sob suas rédeas. Russos, chineses e indianos devem estar
ansiosos.
A indicação de Dilma obedece a um critério puramente político. Um
prêmio de consolação a despeito da ignorância e da incompetência.
Dilma não está assumindo uma sinecura qualquer. Trata-se de um
organismo internacional de crescente relevância, dada a dimensão dos
países membros. É por isso que o retrospecto de seus feitos públicos não
pode ser subtraído da análise que é feita de sua indicação. Afinal,
estamos falando de uma figura que levou o Brasil a uma queda no
crescimento do Produto Interno Bruto que nem mesmo a pandemia de
Covid-19 foi capaz de igualar. Para além das pedaladas fiscais, que
serviram de justa e legítima motivação para seu afastamento pelo
Congresso Nacional, há um conjunto extenso de feitos negativos durante
seus seis anos de governo que a deslegitimam e desmoralizam para o
exercício desse tipo de função.
É importante repor a história, ainda mais quando, de volta ao poder, o
lulopetismo busca impor o revisionismo sobre o seu período anterior no
poder. A ex-presidente legou ao seu sucessor um cenário inaudito em que
compatibilizou inflação recorde, juros altos e desemprego de dois
dígitos. E isso não foi resultado de um complô de Joaquim Levy, Eduardo
Cunha e o Movimento Brasil Livre. Foram as escolhas dela e de sua equipe
de heterodoxos e terraplanistas econômicos. Gente que achava capaz de
subverter anos de avanços na agenda fiscal em nome de uma idílica “nova
matriz desenvolvimentista e anticíclica”. Uma espécie de keynesianismo
traduzido pelo dilmês.
VEJA TAMBÉM: Esquerda queima imagem de Roberto Campos Neto na fogueira santa do amor Governo Lula cria novo orçamento secreto e enfraquece Lei das Estatais para montar sua base Ao chamar impeachment de golpe, Lula ataca instituições democráticas e também a lógica
A formulada não poderia dar em outro resultado. Em 2016, o país
encontrava-se devastado. Empresas públicas haviam perdido capital e
credibilidade mais pelas intervenções governamentais do petismo do que
por corrupção, e todos os preceitos e institutos fiscais construídos ao
longo de duas décadas de Plano Real se tornaram letra morta. Que Michel
Temer, em pouco mais de dois anos e sob fogo cerrado da esquerda
inconformada tenha devolvido o mínimo de credibilidade para a economia
brasileira é uma façanha difícil de ser compreendida.
É preciso ter essa conjuntura em mente quando falamos de alguém que
ocupa agora o posto de presidente do banco dos Brics. Lula, por óbvio,
não estava minimamente interessado em analisar o retrospecto ou o
currículo de Dilma. Em seu íntimo, até o presidente da República sabe
que ela não está gabaritada para a função. Apesar de formada em
economia, a indicação de Dilma obedece a um critério puramente político.
Um prêmio de consolação a despeito da ignorância e da incompetência.