domingo, 27 de novembro de 2022

REVOGAÇO DAS POLÍTICAS DE SAÚDE DO GOVERNO ATUAL

 

RAQUEL LOPES E MATEUS VARGAS – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O grupo de trabalho sobre saúde da transição do governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mapeia normas e orientações elaboradas na gestão de Jair Bolsonaro (PL) que podem ser revogadas.

Na lista, há políticas criadas pelo Ministério da Saúde sem o aval dos estados e municípios, além de regras que seguem bandeiras negacionistas, como de estímulo ao uso do kit Covid no combate à pandemia.

Em uma primeira análise, a avaliação é que há cerca de 60 regras que podem ser revogadas. Os textos são decretos, portarias e notas do Ministério da Saúde e de outras pastas, como o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

A equipe de transição ainda planeja nova estrutura para o ministério, com a criação de departamento de saúde mental, e mudanças no controle dos hospitais federais do Rio de Janeiro. O grupo da saúde também quer reforçar a política de produção nacional de medicamentos e insumos.

Pelo plano traçado, serão revogados decretos na primeira semana do governo, movimento que deve ocorrer em paralelo com outras áreas, como a segurança pública e o meio ambiente. Já a revisão de portarias deve constar como uma sugestão para o ministro que será escolhido para a área.

A lista deve ser apresentada em reunião interna da equipe de Lula na saúde no começo da próxima semana. Os grupos da transição têm até a próxima quarta-feira (30) para concluir o primeiro relatório, com diagnóstico preliminar dos ministérios.

O relatório final de cada grupo vai ser entregue até 11 de dezembro, apresentando a análise de ações da gestão Bolsonaro e sugestão final de revogação de normas, além de indicação das medidas prioritárias nos cem primeiros dias de governo Lula.

O “revogaço” na saúde, segundo integrantes da transição, deve simbolizar a retomada do diálogo do governo federal com os conselhos de secretários estaduais (Conass) e municipais (Conasems).

Além disso, o plano é desfazer normas e cartilhas ligadas às bandeiras conservadoras ou negacionistas de Bolsonaro, como orientações sobre saúde da mulher que atacam o aborto legal ou minimizam riscos da gravidez na adolescência; assim como textos que estimulam uso de medicamentos ineficazes contra a Covid-19.

Presidente do Conass e chefe da pasta no Espírito Santo, Nésio Fernandes disse à Folha que há seis políticas do governo Bolsonaro de maior impacto que foram implementadas sem aval de estados e dos municípios: 1) programa nacional de prevenção e detecção precoce de câncer; 2) incentivo ao aleitamento materno; 3) Cuida Mais Brasil, sobre assistência à saúde da mulher e à saúde materna e infantil, 4) Estratégia de Saúde Cardiovascular; 5) Rede Materna e Infantil; e 6) incentivo ao pré-natal odontológico.

Apenas essas políticas apresentavam orçamento de cerca de R$ 460 milhões, segundo o conselho de secretários estaduais.

 Vídeo relacionado

Fernandes disse que o governo Bolsonaro implementou ações sem diálogo, principalmente nos últimos dois anos, com recursos que somam cerca de R$ 850 milhões.

O presidente do Conass afirma que a discussão entre os entes federativos sobre políticas nacionais, além de obrigatória por lei, é relevante para definir critérios de distribuição das verbas, metas e outros indicadores de cada política.

“A falta de pactuação leva as políticas ao fracasso. Estimula a fratura da unidade interfederativa”, disse Fernandes.

Os gestores locais ainda sugeriram à transição que os valores das regras feitas sem diálogo sejam realocados em outras ações, como credenciamento de equipes de saúde bucal, além daquelas que atuam em comunidades ribeirinhas.

“Existe uma cena de horror em diversas normas, especialmente sobre cloroquina, aborto legal. Precisamos focar aquilo que é urgente e que não pode esperar, em políticas que precisam ser pactuadas ou revogadas”, disse Fernandes.

A equipe de transição também quer reforçar a política de produção nacional de insumos e medicamentos, inclusive em parceria com a indústria. A leitura é de que o país não pode ficar refém da importação em momentos de crises de desabastecimento, como ocorreu na pandemia.

Nesta semana, o grupo se reuniu com representantes da indústria. Também teve conversas com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e o presidente do TCU (Tribunal de Contas da União), Bruno Dantas.

O GT também vai sugerir uma nova estrutura ao Ministério da Saúde. Uma das ideias é criar o Departamento de Saúde Mental. Em entrevista à Folha, o ex-ministro da Saúde Arthur Chioro havia dito que a área é prioridade do novo governo.

“O impacto sobre os transtornos mentais leves, moderados, graves, uso abusivo de álcool e drogas e tentativa de suicídio a partir da pandemia tiveram grande crescimento”, disse Chioro.

Outro plano é retirar da Secretaria Executiva da Saúde o comando dos hospitais federais do Rio de Janeiro e pôr o setor dentro da pasta que cuida das unidades em todo o país, a Secretaria de Atenção Especializada à Saúde.

A transição avalia que esses hospitais, além de sucateados, estão aparelhados por indicados de políticos bolsonaristas do Rio e por militares. A ideia é ampliar o comando do ministério sobre as unidades federais.

O grupo de trabalho avalia sugerir a criação de uma pasta específica no ministério para análise e promoção de tecnologias em saúde.

Os secretários de estados e municípios também cobraram da transição nova relação com a Saúde no governo Lula.

“O pior sentimento que pode existir é o revanchismo e saudosismo. O novo governo precisa compreender que está sendo chamado a liderar o Brasil, superar os desafios deste momento, que não são os mesmos de gestões anteriores”, disse Fernandes, presidente do Conass.

Em reunião com o GT da saúde na última quinta-feira (24), Lula disse que os primeiros cem dias de seu governo serão marcados pela recuperação das campanhas de vacinação. O presidente eleito ainda sinalizou que uma bandeira do novo governo será aumentar o acesso da população à medicina especializada no SUS.

PARA GOVERNOS A INSTABILIDADE ECONÔMICA LOCAL É SEMPRE CULPA DA INSTABILIDADE EXTERIOR

 

Editorial
Por
Gazeta do Povo


Se Lula realmente optar pelo populismo desenfreado, desvalorização do real é consequência certa, além do enfraquecimento da economia como um todo.| Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas

Pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial, os governantes brasileiros adotaram o hábito de jogar nas crises internacionais a culpa pelos percalços ou fracassos da economia brasileira. Nos períodos em que o Brasil experimentou êxitos nacionais, praticamente nenhum governante atribuiu créditos à boa situação mundial e às condições favoráveis que a economia internacional criava. Essa postura é compreensível, pois é esperar demais dos políticos – pelo menos da maioria deles – que tenham a grandeza de reconhecer seus erros internos quando a situação interna vai mal e reconhecer os impactos positivos vindos do exterior quando o mundo vai bem.

Tomando o passado mais recente de duas ou três décadas, há de se lembrar, durante a gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, os efeitos negativos dos graves problemas internacionais, que ajudaram a prejudicar o desempenho econômico do Brasil; também os efeitos altamente positivos de crescimento internacional durante os dois mandatos do presidente Lula; e os efeitos da crise internacional durante o governo Dilma Rousseff. No caso do governo Lula, o presidente nunca deu crédito à prosperidade internacional, vigente durante seus oito anos de mandato, como fator que ajudou momentos de bom desempenho econômico brasileiro, como Dilma nunca reconheceu seus erros ao culpar, com insistência, a crise internacional pela grave recessão em seu governo em 2015 e 2016.

O Brasil poderá se sair melhor que vários países considerados desenvolvidos no curto prazo – mas apenas se o governo eleito não cair na tentação de medidas populistas e imprudentes

O fato é que se tornou prática comum os governantes atribuírem os êxitos a si mesmos e culparem o resto do mundo quando as coisas vão mal internamente. Na realidade, quando o mundo vai bem, o Brasil se beneficia; quando o mundo vai mal, o Brasil se prejudica e sofre os efeitos negativos das crises internacionais. Porém, ser vulnerável a problemas e êxitos externos não justifica o fracasso nem o sucesso do desempenho interno. Assim, uma das premissas para a estruturação de planos e ações destinadas a fazer o Brasil ter crescimento econômico e desenvolvimento social é que as crises e as instabilidades políticas e econômicas globais se tornaram comuns e rotineiras, e elas se repetirão com regularidade daqui para a frente. Isto é, a instabilidade mundial e os problemas econômicos globais serão a norma, de forma que uma das metas nacionais do governo e sociedade deve ser aumentar o quociente de resiliência perante os cenários imperfeitos ocorridos no mundo ou em parte dele.

Com 2022 quase no fim, ficaram claras as diferenças entre os países quanto à superação dos efeitos negativos derivados da pandemia e da paralisação de grande parte das atividades produtivas. Não há um método único para medir essa superação nacional, mas há quatro indicadores que devem estar nas fórmulas utilizadas para tal mensuração: a reorganização do sistema produtivo após o fim do isolamento social; a retomada do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB); a inflação; e o desemprego. O balanço desses quatro indicadores revela que os Estados Unidos estão em fraca travessia, inclusive amargando altas taxas de inflação, coisa que não é comum naquele país; a Europa está com sérias dificuldades para avançar e, como agravante, sofre as dificuldades de abastecimento de alguns itens altamente importantes, como o gás natural que era fornecido pela Rússia; a América Latina adiciona aos problemas já citados a velha e conhecida instabilidade política; e a China anda claudicante com crises antigas, como o desmoronamento do sistema imobiliário, fragilidades no sistema bancário e cansaço com o vaivém dos lockdowns, a ponto de protestos de rua começarem a desafiar a mão de ferro da ditadura comunista.


Nesse panorama, ainda que amargando duros efeitos da pandemia, em termos comparativos o Brasil está tendo razoável crescimento do PIB, a inflação está relativamente controlada, o desemprego começou a diminuir e, a despeito da grave crise hídrica que durou até pouco tempo atrás, o agronegócio vem tendo desempenho expressivo. Nesse sentido, a economia brasileira está em boa situação relativa e as desigualdades sociais foram amenizadas com a reformulação do Auxílio Brasil. Em tal contexto, o Brasil poderá se sair melhor que vários países considerados desenvolvidos e começar a recuperar sua economia com vistas a concluir esta terceira década com desempenho bem melhor que as décadas anteriores – mas apenas se o governo eleito não cair na tentação de medidas populistas e imprudentes. O problema é que Lula vem sinalizando exatamente na direção contrária, apostando na explosão do gasto público para cumprir promessas de campanha como a manutenção do Bolsa Família de R$ 600 e o aumento real do salário mínimo. Quando os resultados negativos do abandono completo da responsabilidade fiscal vierem, não será surpresa alguma se a culpa for novamente colocada em um cenário global com problemas.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/a-instabilidade-economica-global/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

ATIVISMO LGBT ABORTO E RACISMO

 

Equipe de Transição
O que defende a equipe de Direitos Humanos de Lula
Por
Gabriele Bonat- Gazeta do Povo


Gabinete de transição anunciou os membros da equipe da área dos Direitos Humanos| Foto: Emídio de Souza/ Site do PT/Maria do Rosário/ Reprodução

Como já era esperado e anunciado em documentos programáticos do PT, os responsáveis pela equipe de transição do governo Lula na área de “Direitos Humanos” devem atuar na contramão do que hoje o governo de Jair Bolsonaro entende por direitos humanos. Os petistas pretendem reforçar o ativismo LGBT, batalhar para que o aborto deixe de ser crime no Brasil e insistir na tese de que existiria um suposto “racismo estrutural” no Brasil que justificaria ações afirmativas para negros, e não necessariamente para os mais pobres, entre outros temas. Esse cenário é confirmado pelo perfil dos escolhidos por Geraldo Alckmin, vice de Lula, para participar dos trabalhos da equipe de transição responsável pelo tema.

Alguns dos membros do grupo são veteranos no Partido dos Trabalhadores (PT), a exemplo da deputada federal Maria do Rosário. Ela já foi ministra na Secretaria Especial de Direitos Humanos no governo da ex-presidente Dilma Rousseff entre 2011 e 2014. Maria do Rosário apoia o movimento LGBT, o aborto, o feminismo em sua vertente mais radical, entre outras pautas “progressistas” (que defendem a ruptura com os valores tradicionais). Ela criticou, por exemplo, campanha do governo Bolsonaro contra gravidez precoce que, ao invés de estimular o sexo e uso de contraceptivos, apostou na educação da afetividade dos jovens.

Na Câmara, a deputada é autora do projeto de lei sobre o registro de dupla maternidade ou paternidade a casais homoafetivos que tiverem filhos, independentemente do estado civil. Além disso, ela tem se manifestado contra todas as medidas adotadas no governo Bolsonaro para tentar descobrir quem é o estuprador quando a mulher busca o aborto (não punido pela lei nesses casos), com a justificativa de que seriam abusivas para a gestante. Na época do caso da menina de 11 anos grávida e que realizou aborto, a deputado solicitou ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que apurasse a responsabilidade da juíza Joana Ribeiro Zimmer – que atuou para tentar afastar a criança do ambiente em que havia sido estuprada.

Recentemente, ela também criticou em suas redes sociais as manifestações em frente aos quartéis. “Essa prática terrorista faz ataques disseminados, visa gerar pânico, de forma articulada e nacionalizada. É organização criminosa”, afirmou.

Outro deputado do PT que também está na equipe é o parlamentar Emídio de Souza. Ele foi vereador e prefeito de Osasco (SP). Atualmente, foi reeleito deputado estadual e preside a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo. Ele participou da criação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), também esteve à frente da presidência do PT de São Paulo e foi secretário nacional de Finanças do PT. Emídio é advogado de Lula (PT).

Ao G1, Emídio confirmou que era necessário o famoso “revogaço” em todas as áreas. Em entrevista à TVT, ele disse acreditar que houve um “desmonte” na área de direitos humanos no governo de Bolsonaro (PL). Ele criticou não ter um programa para as pessoas LGBT e alegou falta de investimento nos programas de direitos humanos.

À BandNews, o parlamentar frisou que o governo Lula vai combater o preconceito racial e implementar políticas com o intuito de conscientizar as pessoas sobre o respeito à diversidade e à tolerância. Ele evidenciou que o Estado, desde os primeiros anos na escola, e os pais devem educar os filhos sobre o combate racial e a diversidade do Brasil.

O advogado também criticou os protestos e chamou de “atos golpistas”. Em sua rede social, ele acusou o dono da Havan, Luciano Hang, de financiar “atos golpistas”. “Hang e companhia precisam responder criminalmente pelos ataques antidemocráticos e até pela sonegação de impostos”, afirmou. Na verdade, os direitos humanos, previstos na Constituição, de Hang e de outros empresários estão sendo violados: são alvo de inquérito inconstitucional, sem direito ao contraditório e devido processo legal.

LGBT e racismo estrutural   
A pauta LGBT também é primordial no governo de Lula (PT). A equipe de transição nomeou pessoas como a deputada trans Duda Salabert e a militante em defesa dos direitos LGBT, Janaína Barbosa de Oliveira, da Secretaria Nacional LGBT do PT. Janaína também foi presidente do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CNCD/LGBT) e coordenadora da Diversidade da Secretaria de Políticas para Mulheres durante o governo da presidenta Dilma Rousseff.

Ela é uma forte defensora da causa LGBT e feminista. Em suas redes sociais, Janaína debate sobre diversidade, transfobia, questões raciais e feminismo.

Além de questões LGBT, outro enfoque no grupo de Direitos Humanos é a defesa da tese de que existiria um “racismo estrutural” contra negros no Brasil que justificaria ações afirmativas para essa raça, independente da renda. O advogado, filósofo e professor universitário, Silvio Almeira, foi chamado para estar na equipe. Almeida, professor universitário e conhecido marxista, é um dos signatários de documento apresentado por juristas no Congresso para criar um “Brasil antirracista”. O documento traz uma série de medidas questionáveis voltadas para negros (pobres ou ricos), como benefícios fiscais ou facilidades em licitações.

Outros nomes e pautas   
A diretora-executiva do Instituto Alana e líder executiva em Desenvolvimento da Primeira Infância pelo Núcleo Ciência pela Infância, Isabella Henriques, também foi cotada para a equipe de Lula (PT). Advogada e doutora em direitos difusos e coletivos, ela é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB-SP e conselheira do Conselho Consultivo da Ouvidoria da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. A associação da qual Isabella é diretora-executiva também já se posicionou contra a regulamentação do homeschooling, considerado como direito humano em 30 dos 38 países da OCDE.

Outro nome que está na coordenação da equipe é Maria Victoria Benevides, socióloga, marxista e favorável ao aborto. Já no sub-grupo de Infância está a mestre em psicologia Maria Luiza Moura Oliveira, também ativista pelo aborto, e o teólogo e pastor metodista Welington Pereira da Silva. O advogado e membro do Instituto dos Direitos da Criança e do Adolescente (INDICA), Ariel de Castro Alves, também estará a frente na luta pelos direitos das crianças. Ariel, à Jovem Pan, apontou alguns problemas que deverão ter foco no próximo governo, como evasão escolar e fome de crianças.

Os direitos dos deficientes também estão na lista de prioridades da equipe de Direitos Humanos. Dois membros são ativistas pela luta das pessoas portadoras de deficiência: Rubens Linhares Mendonça Lopes e Luiz Alberto Melchetti. Os dois, porém, seguem com a tese da “inclusão a qualquer custo”, mesmo quando crianças necessitariam de atendimento especial fora das escolas normais. Rubens é da coordenação do Setorial da Pessoa com deficiência do PT e também tem nanismo. Já Luiz Alberto é portador de deficiência visual, tem mestrado em economia e doutorado em História Econômica.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/lgbt-aborto-e-racismo-estrutural-o-que-defende-a-equipe-de-direitos-humanos-de-lula/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

QUEREM MUITO RIGOR AMBIENTAL NO BRASIL E MEDIDAS FROUXAS NA EUROPA

 


Europeus, americanos e tradings se unem para impor ao Brasil plano ambiental acima da lei

Por
Marcos Tosi

10/10/2007 – CAMPO MOURÃO – PARANÁ – EXPEDIÇÃO CAMINHOS DO CAMPO – ÚLTIMA SEMANA DA PRIMEIRA ETAPA DA EXPEDIÇÃO CAMINHOS DO CAMPO NA REGIÃO NOROENSTE E REGIÃO CENTRAL DO PARANÁ – PLATIO ESTÁ ATRASADO DEVIDO A FALTA DE CHUVAS NA REGIÃO – NA FOTO ÁREA DE RESERVA LEGAL – FOTO ALBARI ROSA / GAZETA DO POVO


Área de reserva legal corre ao lado de plantação em Campo Mourão, no Paraná| Foto: Albari Rosa / Arquivo Gazeta do Povo

Em meio a dezenas de debates, propostas e reuniões, uma iniciativa de 14 tradings multinacionais, com potencial de enorme impacto na produção de alimentos no Brasil, quase passou despercebida durante a 27ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP27), realizada no balneário de Sharm El-Sheikh, no Egito.

Convocadas pelos governos do Reino Unido e dos Estados Unidos, as gigantes do comércio global de commodities agrícolas lançaram na COP27 um plano conjunto para combater o desmatamento e a conversão de uso do solo, mirando os dois maiores biomas brasileiros: a Amazônia e o Cerrado. Entre as signatárias do Roteiro do Setor Agrícola 1,5°C estão as gigantes do agro que atuam no Brasil ADM, Amaggi, Bunge, Cargill, COFCO International, JBS, Louis Dreyfus Company e Marfrig. Juntas, as empresas respondem por mais de 60% das exportações de soja e 50% dos embarques de carne do Brasil, segundo a ONG inglesa Global Canopy. O documento também prevê medidas para proteger coberturas nativas pressionadas pela produção de cacau e óleo de palma, na África e na Ásia. Nenhum país, contudo, é tão atingido como o Brasil.

Na prática, o Roteiro do Setor Agrícola para 1,5º C – em referência à meta da ONU de limitar até 2050 o aquecimento global em 1,5º C acima da era pré-industrial – estabelece restrições mais severas do que a legislação brasileira quanto ao uso da terra para produção agrícola e pecuária.

Tolerância zero para qualquer conversão de área florestal
Enquanto o Código Florestal prevê preservação obrigatória de 80% da cobertura nativa em todas as propriedades do bioma Amazônia, de 35% no cerrado amazônico, e de 20% nos demais biomas brasileiros, as tradings decidiram que, a partir de 2025, não vão tolerar na cadeia de fornecedores nenhuma conversão de área florestal para produção de soja. E vale para a Amazônia, o Cerrado e o Chaco dos vizinhos Argentina e Paraguai. Numa concessão às pressões de ONGs ambientalistas, o conceito de cobertura florestal inclui partes do Cerrado com vegetação rala, mas que tenham mais de 10% de cobertura de copa de árvores. Somente essa “inovação” ameaça retirar do potencial agrícola brasileiro cerca de 17 milhões de hectares.

Em relação à criação de gado, as companhias decidiram acompanhar a legislação nacional e vetar animais criados em áreas desmatadas após 2008 na Amazônia; no Cerrado, no entanto, outra inovação: foi estabelecido 1º de agosto de 2020 como marco temporal do veto à carne vinda de áreas convertidas para a pecuária. A reportagem contatou algumas das signatárias com forte presença no Brasil, como Cargil, Bunge e JBS, mas não obteve retorno aos pedidos de entrevista. A JBS enviou uma nota distribuída à Imprensa em que Gilberto Tomazoni, CEO global da empresa, afirmou que 2023 “será um ano de ação para irmos mais longe – junto com parceiros dos setores público e privado – para desenvolver incentivos e suporte técnico para produtores que são a chave para acabar com o desmatamento”.

Na prática, se as tradings realmente considerarem como área florestal as paisagens do Cerrado com 10% de cobertura de copa, haverá uma inversão do que hoje é permitido pela lei brasileira naquele bioma. Em vez de ter autonomia para uso de 80% da terra, essa “permissão” se reduziria a 20%, como na Amazônia.

Decisão das tradings pode caracterizar formação de cartel
Para quem trabalha próximo do setor produtivo em assuntos ligados ao direito ambiental, a reação foi de espanto. “Elas podem comprar de quem quiserem, mas não podem fazer exigências além da lei. O produtor rural tem direito de usar 80% da área no Cerrado. Se todas as tradings se mancomunarem para impedir isso, é formação de cartel. Eu processaria as tradings por perdas e danos, por formação de cartel, por controle de preço, por um monte de coisa. Vai virar uma guerra. E o preço do alimento vai disparar. Isso é invasão de soberania”, diz a advogada Samantha Piñeda.

Na mesma linha reage o ex-secretário de Relações Internacionais do Ministério do Meio Ambiente na gestão Bolsonaro, Eduardo Lunardelli Novaes. “Eles dizem que a partir de determinado momento não aceitarão nenhum tipo de desmatamento, nem mesmo o legal. Isso é violência contra o marco regulatório brasileiro. E a segunda restrição, de canopy cover, que só pode desmatar numa linha de base a ser estabelecida, não existe na legislação. Do ponto de vista geopolítico, são barreiras comerciais disfarçadas. São interesses americanos e europeus na veia”, afirma Lunardelli.

O documento acabou desagradando também, em certa medida, ONGs e ambientalistas que queriam um posicionamento ainda mais firme das tradings. Dentre as críticas, o fato de ainda não terem sido criadas barreiras imediatas para soja vinda de áreas em que não houve desmatamento, mas ocorreu a conversão do uso do solo de ecossistemas não florestais. As empresas definiram que até o fim de 2023 uma análise de risco embasará medidas restritivas para essas áreas.

EXPEDICAO – MATO GROSSO, 23/01/2014 – EXPEDICAO SAFRA 2013 / 2014 – Expedicao safra inicia a etapa da colheita nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do sul. Na foto plantacao de soja na regiao de Dom Aquino – Foto: Daniel Castellano / AGP / Agencia de Noticias Gazeta do Povo

Produtor rural em plantação de soja no Mato Grosso: movimento quer frear agricultura no Cerrado| Daniel Castellano / Arquivo Gazeta do Povo

Ambientalistas brasileiros pedem que europeus aumentem boicotes
“Eles não terem mencionado uma data de corte e terem jogado para o futuro é motivo de preocupação enorme. É a famosa corrida do ouro, avisam que vão fechar as portas e todo mundo sai desmatando”, critica Frederico Machado, líder da Estratégia de Conversão da ONG Fundo Mundial da Natureza (WWF). Machado diz que o Código Florestal não protege adequadamente o Cerrado, ao permitir abertura de 80% de um bioma que já perdeu 50% de sua cobertura nativa. Junto com outras organizações, a WWF está empenhada em convencer os europeus a boicotar produtos vindos não apenas de áreas desmatadas em florestas, mas também de onde houve conversão do uso do solo, o que incluiria a cobertura arbustiva do Cerrado. Uma medida como essa englobaria 80% do bioma remanescente no Brasil Central.

Enquanto ocorria a COP27, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação de Articulação das Comunidades Negras Rurais e Quilombolas (CONAQ) divulgaram a “Carta dos Povos do Cerrado à União Europeia” em que pedem endurecimento das sanções contra a produção em “ecossistemas savânicos e campestres”. A WWF vai na mesma linha e chega até a invocar declarações de ministros do atual governo como suposto endosso da tese de expansão agrícola “zero” em novas áreas nativas.

“Nossa posição, assim como do governo atual, dos ministros Tereza Cristina e Paulo Guedes, entre outras autoridades, é de que não é preciso desmatar nenhum hectare a mais para ampliar a produção no Brasil. Existem mais de 70 milhões de hectares de pastagens que estão muito aquém de seu potencial produtivo e em estágios diferentes de degradação. Só isso já permitiria ao Brasil mais do que dobrar a produção atual”, afirma Machado, da WWF, que nega que as tradings e ONGs estejam interferindo na soberania brasileira.

“O primeiro ato soberano é demonstrar que a legislação é cumprida, e isso não está acontecendo. O que está acontecendo lá fora é um exercício de soberania também, de autoproteção, de proteção do planeta. Há soberania nas decisões de mercado e de outros países que não querem coadunar com decisões feitas de forma irresponsável, que não querem estimular essa destruição que é ruim para todo mundo. A gente não está contra o Brasil. Nós queremos nossa economia e nossos produtores se dando bem também. É importante que quem está fazendo direito seja recompensado”, afirma. A WWF, entre outros projetos, participa do Programa Manancial Vivo, que faz pagamentos por serviços ambientais a produtores que adotam boas práticas de conservação de água e solo na bacia do Guariroba, em Campo grande (MS).

Plenária da COP27 realizada em novembro de 2022 no balneário Sharm El-Sheikh, no Egito
Tradings pressionadas por gigantes varejistas
O documento Roadmap é uma guinada significativa no posicionamento das grandes tradings, avalia Eduardo Assad, professor da FGV e da Unicamp, ex-pesquisador da Embrapa e um dos criadores do sistema de Zoneamento Agrícola de Riscos Climáticos do Ministério da Agricultura. “Durante mais de 15 anos a gente ouvia de algumas dessas empresas que não havia mudanças climáticas, inclusive algumas delas pagavam negacionistas. Elas fizeram isso porque estão tendo problemas para vender seus produtos, porque o mundo está de olho no Brasil. E nós estamos desmatando muito”, diz Assad.

Na opinião do pesquisador, o Brasil precisa sinalizar que está agindo contra o desmatamento. O que antes era visto apenas como um problema de governo, agora passou a ser dor de cabeça para o mercado. “Quem vai comprar um produto que ninguém quer? Quem compra são os grandes supermercados, Carrefour, Pão de Açúcar, tudo vêm da Europa e dos EUA, e segue os padrões desses países. Ou as tradings consertam isso ou não vão vender. Faz 15 anos que chamamos a atenção para as barreiras não tarifárias. O negócio chegou a um nível tão grave, que quem está decidindo é o consumidor. Ele não compra. O mundo mudou. Não adianta dizer ‘eles desmataram lá, nós podemos desmatar aqui’. Não podemos sair por aí repetindo o erro dos outros. A questão é de dinheiro, senão vamos perder mercado”, avalia.

Concorrentes querem diminuir relevância do Brasil, diz ABAG
Que o debate ambiental terá consequências crescentes no acesso a mercados, quase ninguém duvida. As motivações e interesses é que são vistos com desconfiança, como observa Caio Carvalho, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG). “Há uma narrativa contrária à realidade do Brasil, que rola lá fora, que rola pesado principalmente na Europa, e que acaba gerando todo um movimento para de alguma forma diminuir a relevância do Brasil na questão dos alimentos e de energia renovável”, assegura.

Com 66% de seu território preservado, o Brasil possui fundamentos verdes fortes em sua economia. Na avaliação da ABAG, falta governo e setor privado atuarem de forma coordenada para desmontar narrativas contrárias, feitas por quem não conhece o país ou tem interesse em diminuir sua importância geopolítica. “Na década de 70 importávamos tudo, e, 40 anos depois, somos o terceiro maior exportador do mundo e o primeiro em resultado líquido de exportação de alimentos e energia renovável. Tem muita gente criando narrativas inverídicas, como a Europa criou agora, um programa chamado Green Deal, que querem enfiar goela abaixo do mundo tropical a realidade temperada deles, que não tem nada a ver”, acrescenta Carvalho.

Lunardelli aponta “jogo de consolidação de mercado”
Essa concertação de esforços mirando o Brasil e sua agricultura tende a se agravar, com a chegada do novo governo. Para Lunardelli, que foi assessor especial do ex-ministro Ricardo Salles, o que ocorre é um casamento de interesses de um governo socialista e grandes cartéis globais. Ele aponta que a iniciativa não tem relação direta com a COP, que é convenção de países, mas está ancorada em interesses econômicos da Tropical Forest Alliance, uma espécie de subsidiária do Fórum Econômico Mundial de Davos.

“Isso é articulado dentro do Fórum Econômico Mundial, um clube feito para criação de oligopólios, de cartéis globais. É descarado. A pressão ocorre, talvez existam algumas exceções. A Amaggi é exceção, assim como a Cargill, que é de capital fechado. As outras têm dentro de seu grupo controlador outros tubarões como o fundo Black Rock. É um jogo de consolidação de mercado, de criar barreiras contra a entrada da concorrência. E aí você tem duas vítimas no meio do caminho. De um lado o proprietário rural brasileiro, que vai pagar essa conta, porque dormiu no ponto, gostava do cerradinho dele, e não tirou. E do outro lado o consumidor, principalmente o pobre, porque isso vai elevar o custo de produção. Você está encarecendo, diminuindo área, criando barreira, tirando concorrência. Tem dezenas de tradings médias e pequenas brasileiras que não fazem parte desse grupo. Então o mercado vai se fechando na Europa, você vai elevando o custo de fazer negócio, e cada vez você tem menos concorrentes”, avalia Lunardelli.

Para o ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente, se a iniciativa fosse de boa-fé, não miraria em apenas algumas cadeias produtivas e países, de forma unilateral. “É globalismo de carteira, é só olhar o discurso do Lula lá na COP. Os caras estão legislando lá de fora. Não adianta eleger deputado nem constituinte, tudo tem a ver com multilateralismo. Por que eles não convocam todo mundo que produz soja, para fazer uma equitativa? Não, eles não chamam Austrália, França, Estados Unidos. Isso tem endereço certo, não tem nada a ver com mudança climática. Só colocam o Brasil, é motivação comercial mesmo”, argumenta.

Reino Unido e EUA intimaram tradings a apresentar plano
Os mesmos Reino Unido e Estados Unidos que na COP26  haviam convocado as tradings a assumir um plano de ação, cobraram, em nota oficial durante a COP27,  “maior ambição e ação acelerada”. A carta é assinada pelo ministro do Clima britânico, Graham Stuart, e pelo enviado americano para Questões Climáticas, John Kerry. “É fundamental que os setores de soja e gado busquem um compromisso claro para avaliar o risco de conversão e tomar medidas ambiciosas para lidar com isso, incluindo o estabelecimento de uma data-limite conforme parâmetros científicos. Essas empresas devem desencorajar o desmatamento adicional estabelecendo políticas, práticas e protocolos de monitoramento claros e priorizando a produção em pastagens cultivadas, pastagens recuperadas, outras terras agrícolas e outros tipos de solos degradados”, disseram Stuart e Kerry.

Diante do protagonismo de ingleses e americanos, que pretendem conduzir à sua maneira as questões ambientais, o governo Bolsonaro assinou um acordo com o Congo e a Indonésia, para formar o que foi chamado de “Opep das Florestas”. A ideia é que os três países, que respondem por 52% das florestas tropicais do planeta, articulem de forma conjunta nas negociações climáticas, e tenham voz, tanto em questões de financiamento como de conservação e uso responsável dos recursos naturais. Como o atual governo brasileiro está de saída, no entanto, as tradings globais não teriam se importado em adotar uma posição mais antagônica a Brasília, e alinhada ao discurso ambientalista.

Medidas ignoram populações dos biomas brasileiros

“Acho que as tradings fizeram isso para ganhar espaço e simpatia, enquanto o governo brasileiro era antipático lá fora. Não está claro que vão fazer essas exigências. Se fizerem, estão exigindo mais do que a lei. Zerar a conversão do uso do solo é acima de qualquer humanidade. E as 25 milhões de pessoas (que moram na Amazônia) vão viver do quê? De catar coquinho, de catar castanha?”, sublinha Samantha Piñeda.

A advogada, que esteve na COP27, se diz decepcionada e desiludida com os rumos das convenções climáticas. Desde 2020, os países desenvolvidos, maiores emissores de CO2, já deveriam estar “colocando sobre a mesa” US$ 200 bilhões por ano para ajudar os esforços de preservação nos países mais pobres. “Eles querem que pare de desmatar, mas quem paga? Cadê a metodologia, de onde vai sair o dinheiro e chegar aos países em desenvolvimento? Estamos esperando desde 2020. Eles até agora não deram nem US$ 500 milhões por ano. E não vai acontecer. Agora decidiram parar de brincar disso e criar um fundo de perdas e danos. Não vai sair. Os caras assumem compromissos e jogam para os governos seguintes, é tudo para daqui a cinco ou dez anos”.

Faltam ainda, segundo Piñeda, mecanismos de responsabilização para quem descumpre os tratados. “O Trump saiu do Acordo de Paris e o que fizeram com ele? Nada. Esse acordo das tradings pune as partes mais fracas. O Brasil cuida de seus biomas e pode produzir comida, nós temos obrigação de alimentar o planeta. Não vamos morrer de fome para deixar as árvores crescer. Suprimir o Código Florestal é um pouco demais”, destaca.

Amazônia tem 80% do território protegido

Um equívoco comum quando se olhar para o bioma da Amazônia é imaginar toda a região recoberta por floresta. Segundo a Embrapa, existem no bioma nove tipos de vegetação nativa não florestais, sete tipos mistos e nove outros tipos. Atualmente, 86,2% do bioma estão cobertos por vegetação nativa e grandes superfícies hídricas. E 80% estão protegidos e destinados à preservação. As lavouras somam apenas 2,3% da área, enquanto as pastagens ocupam 12,8%. As mais de 500 mil propriedades privadas na região devem preservar, por lei, 94,2 milhões de hectares, que é quase o dobro da área agrícola atual brasileira. Desde a fundação da cidade de Belém (1616), até 2018, segundo a Embrapa, a área desmatada acumulada no bioma Amazônia foi de 708 mil km2, ou 16,9% do total, o que cai para 13,8% quando se descontam áreas que já se regeneraram.

No Cerrado, que cobre 25% do território brasileiro, os produtores rurais, por lei, preservam hoje 35 milhões de hectares de vegetação nativa em suas propriedades privadas. Nessas fazendas existem outros 35 milhões de hectares nativos, considerados excedentes de Reserva Legal. É esse excedente que as tradings e ambientalistas querem também congelar, impedindo a conversão para a agricultura. Pelo critério de 10% de canopy cover (cobertura de copa), que ainda não é adotado pela Europa, mas é encampado pelas tradings, cerca de 17,5 milhões de hectares adicionais do Cerrado se tornariam “imexíveis”, para além do que diz a lei brasileira atual.

Rigor ambiental sobre o Brasil, medidas frouxas na Europa
Fazer marketing de ações sustentáveis é legítimo, desde que as tradings não atentem contra a legislação dos países. E no caso brasileiro, elas estariam afrontando o Código Florestal, que está entre as leis ambientais mais restritivas do mundo. “Na Europa, você vê vinhedos que encostam nas águas. Não tem distância de base de rio ou de lago, não tem área de preservação permanente, reserva legal, nada disso. Para eles, a redução de emissões de carbono tem a ver com o uso extensivo da agricultura, que é uma coisa do passado. Lá eles têm neve, produzem só num período do ano, com pegada de carbono muito alta. E daí querem impor isso ao Brasil. Desculpa, mas nós fazemos três safras por ano, no mesmo local, e com uma pegada de carbono muito menor. Eles têm que nos dar um prêmio e não ficar enchendo. Essas coisas têm que ser colocadas dentro da Organização do Comércio, porque é lá que essas questões são discutidas multilateralmente. E não unilateralmente, conforme o interesse de um ou de outro. A gente não deve entrar nesse grande erro”, finaliza Caio Carvalho.

Assinam o documento Roteiro do Setor Agrícola 1,5°C as seguintes empresas: ADM, Amaggi, Bunge, Cargill, COFCO International, Golden Agri-Resources, JBS, Louis Dreyfus Company, Marfrig, Musim Mas, Olam International, Olam Food Ingredients (OFI), Viterra e Wilmar International.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/agronegocio/europeus-americanos-e-tradings-se-unem-para-impor-ao-brasil-plano-ambiental-acima-da-lei/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

RÚSSIA BOMBARDEIA REDES ELÉTRICAS DA UCRÂNIA

 

Guerra na Ucrânia

Por
Luis Kawaguti – Gazeta do Povo


A cidade portuária de Odesa às escuras: apagões se tornaram rotina em toda a Ucrânia com as chuvas de mísseis russos| Foto: Luis Kawaguti

Desde o dia 10 de outubro, seguidas chuvas de mísseis – ao menos sete – destruíram aproximadamente metade da rede elétrica da Ucrânia e deixaram mais de 10 milhões de pessoas às escuras – incluindo este colunista. Com a aproximação do inverno, que começa em menos de um mês, a falta de energia pode provocar muitas mortes pelo frio.

Na última semana, o Kremlin negou ter bombardeado deliberadamente a estrutura elétrica do país vizinho. Afirmou que os alvos eram estruturas de comando e controle militares.

Mas, na prática, o objetivo aparente de Moscou é sabotar o moral da população civil. Em tese, o povo se voltaria contra o governo e exigiria um acordo de paz com a Rússia – Moscou precisa desesperadamente de uma trégua para reorganizar suas forças e tentar manter ao menos parte do território anexado da Ucrânia.

Mas o que observo em minhas reportagens pelas cidades da frente de batalha sul – Kherson, Mykolaiv – e também na região portuária de Odesa é que o Kremlin tem obtido o resultado oposto: a população está mais resoluta em resistir.

Na recém libertada Kherson, por exemplo, ouvi inúmeras vezes de moradores que a liberdade compensa a falta de luz, água e aquecimento.

Estação ferroviária de Odesa sem luz: apesar das dificuldades e da proximidade do inverno, a população ucraniana resiste. Foto: Luis Kawaguti
Os apagões já são parte do cotidiano dos ucranianos, não só nas cidades próximas da frente de batalha. Em praticamente todos os núcleos urbanos da Ucrânia hoje é comum ter luz, telefone e internet só por algumas horas por dia.

Experimentei isso de forma mais intensa na última terça-feira (22), quando Odesa, a cidade onde estou baseado, sofreu o pior golpe contra sua rede elétrica. O mesmo ocorreu em Lviv, Zhytomyr, na capital Kyiv e em inúmeras regiões da Ucrânia. As quatro centrais nucleares do país foram desconectadas da rede, algo que não ocorria há 40 anos.

Com apagões, população correu aos mercados no meio da noite para comprar água e mantimentos. Foto: Luis Kawaguti
Antes, os blecautes não duravam mais de um dia e apenas alguns bairros ficavam sem luz simultaneamente. Nesta semana, o apagão foi completo e durou três dias. Pessoas correram para supermercados para comprar água e mantimentos, houve falta de gasolina, as comunicações caíram e o trânsito ficou caótico.

O leitor deve ter uma vaga lembrança do que é andar nas ruas à noite tendo que usar lanternas. O Brasil passou pela crise do apagão entre 2001 e 2002. Não é uma experiência agradável.

Em Mykolaiv, testemunhei o que é não ter luz e também não ter água. As redes de abastecimento que levavam água do rio Dnipro para a cidade foram bombardeadas há meses. A água, quando há fornecimento, é salobra e imprópria para o consumo. As pessoas se habituaram a guardá-la em garrafas plásticas, praticamente apenas para higienizar os banheiros.

Fora isso, instalações médicas também estão sendo deliberadamente bombardeadas – foram mais de 700 ataques desde o início da invasão em 24 de fevereiro, segundo a Organização Mundial da Saúde. Estive em algumas que ainda estão funcionando e a falta de médicos e enfermeiros é evidente.

Também entrevistei cidadãos de Kherson que disseram ter visto dezenas de pessoas do lado de fora de hospitais aguardando atendimento – algumas delas estavam gravemente feridas. Eu testemunhei multidões implorando por remédios para ambulâncias militares.

Ou seja, sem dúvida, a vida ficou muito mais difícil. E vai piorar com a queda das temperaturas.

Mas usar ataques aéreos para destruir a infraestrutura civil de um país, infelizmente, não é uma novidade nas guerras. A prática começou já na Primeira Guerra, quando a Alemanha mandou primeiro zepelins e balões carregados de bombas para atacar a Grã-Bretanha e depois aviões biplanos.

Na Segunda Guerra, a estratégia foi intensificada. Prevalecia a ideia de que o poder aéreo e os bombardeios de alvos civis eram uma forma prática e barata de se tentar submeter o inimigo e forçar sua rendição.

Na prática, é possível atacar a população civil de forma direta – bombardeando áreas residenciais – ou indireta, por meio da destruição da infraestrutura elétrica, redes de abastecimento de água e transportes (a Rússia usa as duas formas na Ucrânia).

Tudo isso torna a vida da população mais sofrida, mas não gera revoltas populares nem abala a resistência dos países atacados.

Foi assim nas guerras da Coreia, do Vietnã e na primeira invasão do Iraque: os Estados Unidos bombardearam e destruíram mais de 90% das redes elétricas de seus inimigos. Mas os governos não se renderam por causa disso. Tanto que na segunda guerra do Iraque, a rede elétrica foi deixada quase intacta.

Por outro lado, esse tipo de ataque ajuda a destruir a economia do país inimigo. Vejo o exemplo mais simples: na cidade de Odesa, há centenas de lojas fechadas por causa da falta de luz. Algumas operam com geradores e outras à base de velas. As vendas são registradas à mão em caderninhos, sem os sistemas de computadores hoje tão comuns até aos pequenos negócios.

Mas como um país como a Ucrânia tenta amenizar os efeitos dos ataques à infraestrutura? Vejo duas formas no meu dia a dia: defesas antiaéreas e reparos em uma escala que seria inimaginável em tempos de paz.

A Ucrânia começou a guerra com um sistema de defesa antiaérea baseado em baterias S-300, de projeto soviético. Elas se destinam basicamente à defesa contra aviões bombardeios, mas não são a arma ideal contra mísseis de cruzeiro e pequenos drones.

Por causa disso, os ucranianos desenvolveram um segundo sistema antiaéreo, destinado principalmente a abater os mísseis russos. Ele integra baterias americanas NASSAMS, alemãs IRIS-T e italianas Asperge. Os drones também são contidos com blindados de defesa antiaérea de curta distância e com mísseis portáteis como os americanos Stinger.

Posso testemunhar o quanto são importantes essas baterias para a manutenção da sanidade mental da população. Quando o alerta de ataque aéreo começa a soar na cidade, é reconfortante saber da existência dessas defesas.

Mas é por isso que os ataques nunca são feitos com um ou dois mísseis. Moscou chegou a lançar 90 mísseis de uma só vez, para saturar a capacidade de defesa antiaérea ucraniana. Invariavelmente, alguns mísseis passam pelo escudo.

Por causa disso, a Ucrânia mantém verdadeiros exércitos de técnicos trabalhando ininterruptamente no conserto de cabos elétricos, vias férreas e tubulações de água. Reparos que eram feitos a cada cinco anos, em média, têm que ser realizados todos os dias.

Mas isso não é suficiente. A rede elétrica básica, por exemplo, levaria em torno de cinco semanas para ser reparada se os ataques parassem agora.

Faço aqui uma observação sobre guerra contemporânea destinada aos estrategistas brasileiros: se entrássemos em guerra, nosso país praticamente não teria defesas antiaéreas. Possuímos apenas baterias de defesa de curta distância (que os militares chamam de média distância, uma questão de nomenclatura) para proteger tropas e infraestruturas específicas.

A defesa aérea se baseia praticamente nos caças Gripen, que estão sendo adquiridos aos poucos. E o avião de caça não é a melhor forma de se lidar com mísseis de cruzeiro. Tenho visto aqui os esforços muitas vezes infrutíferos de pilotos ucranianos para tentar abater esses mísseis.

Sobre a capacidade das empresas brasileiras de reparar redes elétricas, prefiro nem comentar, pois o leitor tem sua própria experiência.

Mas, voltando à Ucrânia: como medidas emergenciais, o governo está pedindo para que as pessoas que puderem deixem o país durante os meses de inverno. Para apoiar as que ficarem, foram criados 4 mil pontos de “invencibilidade”, ou seja, prédios públicos onde é possível encontrar aquecimento, água, mantimentos e abrigos contra bombardeios.

Ou seja, a combinação dos ataques à infraestrutura com a chegada do inverno será penosa, se não letal para uma boa parte da população. Mas a Ucrânia não vai se render por causa disso.

Então, por que o presidente Vladimir Putin continua apostando numa estratégia que se mostrou infrutífera em tantas outras guerras do passado?

Uma explicação pode ser a tentativa de criar novas ondas de refugiados para gerar uma pressão migratória maior na Europa. Em tese, isso pode derrubar governos – embora na prática tal tendência não se verifique: os governos da Itália e do Reino Unido foram recentemente substituídos e esses países não deixaram de apoiar a Ucrânia.

Outra resposta possível à pergunta pode ser simples: vingança de um governante autocrata que viu seus planos expansionistas frustrados.

Em ambos os casos, atacar a população civil, direta ou indiretamente, tem um nome: crime de guerra.

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/jogos-de-guerra/bombardear-redes-eletricas-nunca-surtiu-resultado-mas-moscou-insiste/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

HADDAD SERÁ O NOVO MINISTRO DA FAZENDA

 

É um desses casos de fracasso testado e comprovado

Os brasileiros não foram informados a respeito do que Lula quer fazer com a economia do País

Por J.R. Guzzo – Gazeta do Povo

O ex-presidente Lula nunca disse aos eleitores o que ele iria fazer em relação à economia do Brasil – não disse nem sequer quem iria ser o seu ministro na área. Para qualquer outro candidato, esse tipo de postura seria denunciado como oportunista e irresponsável; afinal, é um dever elementar de quem pretende presidir o País explicar honestamente quais as decisões que pretende colocar em prática em questões essenciais para a vida da população. Em Lula, é claro, a recusa de assumir compromissos e a opção de esconder propósitos foram elogiadas como mais uma prova de sua “sensibilidade política” – não dizendo nada, ele dá a entender que tudo é possível, e com isso recebe o apoio de gente que espera ações opostas umas das outras. O resultado é que os brasileiros ainda não foram informados, um mês após a eleição, a respeito do que Lula quer fazer com a economia do País.

Fernando Haddad participou do almoço de final de ano da Federação Brasileira de Bancos.
Fernando Haddad participou do almoço de final de ano da Federação Brasileira de Bancos. Foto: Reprodução TV Globo

Fala-se, agora, numa arrumação amarrada com barbante para “dividir” a administração da economia em dois pedaços, cada um querendo coisas diferentes – um pedaço de esquerda, com as mesmas soluções que dão errado há 100 anos, e um pedaço descrito como mais “liberal”. Tem tudo para dar errado, é claro, como sempre acontece com a fabricação de miragens – mesmo porque quem vai mandar de verdade é um dos lados, enquanto o outro vai ficar fingindo o desempenho de um papel de “moderação” que resultará em três vezes zero. No caso da gambiarra que vem sendo cogitada para a “equipe econômica”, tanto faz quem vai ficar no papel de “liberal” – se não vai resolver nada mesmo, podem colocar qualquer um. Já o nome do outro ministro, aquele que decidirá de fato as coisas porque vai estar lá para executar as ordens de Lula, pode fazer diferença, e muita, no seu grau de ruindade.

O nome que a esquerda colocou no ar é uma garantia de falência. Foi um ministro da Educação ruim; foi um prefeito de São Paulo pior ainda. É um desses casos de fracasso testado e comprovado. Vive de intenções, não de resultados. Tem desejos e não um programa de governo. Não quer fazer, objetivamente, nada de bom para o Brasil; só quer experimentar ideias e essas ideias são um curso completo na arte de fazer a coisa errada. É um clássico, em matéria de PT – esse tipo de governante que quer acabar com a pobreza mantendo vivos, na folha de pagamento do Estado, os Correios, o Dataprev e outros bichos da mesma espécie, ou então socando mais gente na máquina estatal, ou criando empresa estatal. São os que acham que a estabilidade financeira torna impossível o progresso social. O resto do que querem é parecido. Não há nenhum risco de dar certo.

NOVO GOVERNO VAI RECRIAR O BOLSA FAMÍLIA

Foto: Alex Silva/Estadão

Por Luiz Guilherme Gerbelli – Jornal Estadão

Distorções no Cadastro Único do atual Auxílio Brasil, notadas pelo TCU e pelo próprio Ministério da Cidadania, acendem o sinal amarelo da equipe de transição: 3 milhões de pessoas correm o risco de perder o benefício no início de 2023

Apenas garantir um valor maior para o novo Bolsa Família – atual Auxílio Brasil – não vai ser suficiente para que o próximo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha uma política bem-sucedida no combate à pobreza. Sem depurar o Cadastro Único e focar no perfil das pessoas atendidas, o programa pode se tornar ineficiente e ter um resultado abaixo do seu potencial. E a equipe de transição do novo governo sabe que será necessário um “pente-fino” nos benefícios, de olho especialmente nas concessões individuais.

A avaliação é que o País passou a enfrentar uma distorção no Cadastro Único. Houve um forte crescimento na quantidade de famílias compostas por apenas um integrante – chamadas de unipessoais – incluídas pelo programa social. Em agosto, cerca de 5,3 milhões estavam nessa condição.

O Ministério da Cidadania já instaurou um procedimento para averiguar o aumento de famílias unipessoais beneficiadas e informou que também faz um “tratamento de todo o público do Cadastro Único” em parceria com a Dataprev.

No caso das famílias unipessoais, a apuração vai ter início para os cadastrados incluídos ou atualizados após novembro de 2021, quando somavam 2,2 milhões. Ou seja, 3 milhões de beneficiários terão de atualizar os dados para evitar o bloqueio do benefício. “Existe uma agenda de qualificação de cadastro. É uma agenda grande e que apresenta um enorme desafio”, diz Vinicius Botelho, ex-secretário de Desenvolvimento Social e Cidadania.

No Cadastro Único, o beneficiário faz uma autodeclaração da renda e composição familiar. No auge da pandemia, a maneira como se deu a inscrição ajudou a provocar uma deterioração da base de dados. Para liberar o Auxílio Emergencial, depois transformado em Auxílio Brasil, o governo Jair Bolsonaro possibilitou a adesão de beneficiários por meio de aplicativo, sem a necessidade de uma grande atuação de agentes dos Centros de Referência da Assistência Social (Cras) para, por exemplo, fazer o mapeamento dos mais pobres e acompanhar o perfil da população inscrita.

Na equipe de transição, a principal preocupação tem sido com a qualidade do cadastro e com a herança que será deixada pela apuração aberta pelo Ministério da Cidadania. “Isso vai impactar o governo, vamos assumir com um processo em que não fomos consultados”, afirma Tereza Campello, uma das coordenadoras da área de assistência social da transição. “Não estou reclamando de o governo ter aberto esses processos, mas deveria ter feito isso antes.”

O novo governo também foi alertado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a distorção. “O governo Lula vai assumir com 1 milhão de pessoas sendo chamadas em janeiro e 2 milhões de pessoas sendo chamadas em fevereiro para comparecer ao Cras ou (os benefícios) vão ser bloqueados”, afirma Campello. “A pessoa não vai receber e o que ela vai fazer? Vai no Cras tentar saber o que aconteceu. Vamos ter o governo assumindo com um monte de fila.”

Critica ao desenho

Além da defasagem do Cadastro Único, outra grande crítica dos analistas é a de que o desenho do atual Auxílio Brasil leva em conta a renda familiar, não a per capita. Ou seja, famílias com dois ou seis integrantes recebem os mesmos R$ 600. “Um bom desenho de programa considera a composição familiar para definir a transferência”, afirma Laura Muller Machado, professora do Insper e ex-secretária de Desenvolvimento Social de São Paulo.

O próximo Bolsa Família deve custar R$ 175 bilhões, conforme prevê a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Transição, que retirou o benefício do teto de gastos e manteve o valor de R$ 600, além de criar um adicional de R$ 150 por crianças com até seis anos. Se confirmado, será um montante gasto que vai equivaler a quase cinco vezes o orçamento do programa original, que era de R$ 33 bilhões – em valores corrigidos pela inflação, chega a R$ 41 bilhões.

Novo Bolsa Família deve levar em conta a composição familiar
Novo Bolsa Família deve levar em conta a composição familiar Foto: Agência Senado

“Na atual gestão, houve uma desintermediação da política social”, diz Marcelo Neri, diretor do FGV Social. “Toda a literatura (de combate à pobreza) está baseada na renda per capita, não na do domicílio. No desenho atual do Auxílio Brasil, ele estima que há um desperdício de 55% de dinheiro. “Poderia se fazer mais com os mesmos recursos.”

O formato do novo Bolsa Família, diz Tereza Campello, que atuou como ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome na administração Dilma Rousseff, só deve ficar mais claro no novo governo. “O nosso projeto quer retomar as principais características do Bolsa Família”, afirma. “A primeira é que o desenho levava em conta a composição familiar, e a segunda questão é que o programa considerava fundamental que crianças e gestantes tivessem direito e acesso à educação e à saúde.”

Superação da pobreza

Mais do que resolver a questão de curto prazo da assistência social, o Brasil tem um desafio importante de fazer com que os beneficiários do programa social superem a pobreza de forma definitiva.

No ano passado, 9,5% da população brasileira vivia na situação de extrema pobreza – com uma renda per capita mensal inferior a R$ 193 –, maior patamar desde 2007, quando 10,7% estavam nessa condição, mostram dados compilados pela professora do Insper.

“O desenho de um programa de porta de saída, que vai fazer com que as pessoas alcancem uma autonomia, não está claro”, afirma Laura. “O Brasil Sem Miséria, por exemplo, era um programa bem desenhado, documentado e tinha uma proposta de como incluir produtivamente no mercado de trabalho quem estava na área rural e quem estava na área urbana.”

Não há uma regra para a superação da pobreza. É preciso levar em conta a realidade de cada família e região do País. A solução pode estar em conseguir uma creche para uma mãe solteira que precisa trabalhar ou garantir cursos de profissionalização para um trabalhador desempregado.

“Só transferir renda não é suficiente. São necessárias três coisas. A assistência, claro, é uma delas, e um valor mais alto já resolve boa parte dos problemas, mas não é suficiente”, afirma Naercio Menezes, coordenador da Cátedra Ruth Cardoso e também professor do Insper. “É preciso também ter um sistema de educação e saúde de qualidade.”

 

COMECE UM NOVO NEGÓCIO COM POUCO DINHEIRO

Michael Aboud. Aboud – Empresário, palestrante e autor de best-seller

Dicas para começar um negócio com pouco investimento

Quer abrir um negócio do zero, mas não tem investimento? Muitas pessoas pensam em iniciar um empreendimento seja para completar renda ou ter uma fonte de recursos maior, capaz de fazer mudar de vida. Mas para que essa seja uma ação de sucesso, é preciso que o futuro empresário saiba e acredite que é possível dar esse passo.

 É possível começar com pouco dinheiro?

 Felizmente a resposta é sim! E temos muitos exemplos disso. A Amazon, de Jeff Bezos, partiu de uma pequena revendedora de livros usados, ainda com o nome de “Cadabra”, para se tornar uma das marcas mais valiosas do mundo. No Brasil temos exemplos de empresas como Magazine Luiza, MercadoLivre, Nubank e muitas outras que nasceram pequenas e tornaram-se potências mundiais. Porém, para que isso funcione para você é preciso levar a sério a sua realidade e observar os custos envolvidos.

Para te ajudar, nós consultamos o especialista em alavancagem empresarial Michael Aboud. Aboud é empresário, palestrante e autor de best-seller. Ele nos ajudou com dicas para abrir um negócio de forma planejada e organizada para tirar a sua ideia do papel.

1- Crie soluções

 Um negócio com chances de dar certo é aquele capaz de oferecer algum tipo de solução para o cliente, seja prestando algum tipo de serviço ou oferecendo algum produto interessante, de qualquer maneira está atendendo a uma demanda e portanto criando uma solução. Uma loja de roupas supre a demanda dos clientes que precisam ou querem comprar roupas novas, um hotel supre a necessidade de quem precisa de uma hospedagem temporária e por aí vai.

 Soluções muito simples podem se tornar negócios poderosos, então antes de mais nada avalie qual tipo de solução você pode trazer para alguém e comercialize isso. 

2- Crie um plano de negócios

Um plano de negócios é o primeiro passo quando você decide iniciar um negócio. O processo que à primeira vista parece complicado, fica mais fácil se você pesquisar bastante, ler sobre o assunto, ou utilizar algum tipo de software ou aplicativo.

Planejar significa determinar onde sua empresa quer chegar e quais caminhos tomar para atingir metas e objetivos. Ao planejar metas e estratégias com antecedência, o gestor evita perder dinheiro ao começar o negócio do zero.

3- Conheça seu público

O plano de negócios da empresa está alinhado com o conhecimento do público-alvo que sua marca irá atender. Isso permite que você escolha a melhor forma de começar sua empresa e promover estratégias de mercadologia de acordo com seu público-alvo e perfil do cliente ideal.

Para conhecer seu público-alvo, saia a campo com pesquisas, pessoalmente ou de forma virtual.

Ao pesquisar o cliente ideal o empreendedor deve conhecer a faixa etária pretendida, em que este grupo-alvo está concentrado e quais interesses. Verifique que tipo de solução você pode oferecer aos problemas e demandas do seu cliente. Sua posição no mercado se tornará mais forte e eficiente.

Pode parecer estranho falar em “problemas” do consumidor, mas quando você entra em um boutique está procurando o produto ou serviço que vai resolver suas necessidades. É importante saber o que seu público quer.

4- Planejamento de marketing

Deduz que é muito cedo para planejar suas estratégias de marketing? É hora de repensar essa ideia! O marketing não é apenas promover seus produtos ou serviços após a abertura da empresa. Ele também é responsável por adicionar novos clientes para conhecer o seu negócio e pela maneira como sua empresa será vista.

O objetivo do marketing também é atrair esses potenciais consumidores, os chamados prospects, atraindo-os para saber mais sobre seus produtos e serviços e, portanto, é imprescindível criar uma estratégia de marketing a curto, médio e longo prazo.

5-Aposte no diferencial competitivo e compreenda o mercado

O diferencial competitivo de uma marca é aquilo que a diferencia das concorrentes. O fator competitivo da empresa envolve a noção de valor e preço. Você sabe diferenciá-los?

O preço é aquele número objetivo, indicado na etiqueta, que mostra o quanto o cliente precisa desembolsar por um produto ou serviço. Já o valor tem caráter subjetivo, e depende da percepção do próprio cliente.

O que faz o consumidor pagar mais caro em um produto de uma marca conhecida, mesmo diante de uma opção mais barata e de qualidades semelhantes a do primeiro produto? A resposta é o valor.

Agregar valor deve ser o objetivo da sua organização desde a abertura. Quem quer começar um negócio do zero deve estar disposto a investir em seus diferenciais competitivos para sair na frente em um mercado cada dia mais acirrado.

O atendimento é um diferencial que salta aos olhos do consumidor! Invista na qualificação da sua equipe de colaboradores, incluindo treinamentos constantes. Manter um registro dos clientes também ajuda no processo.

6- Controle os processos

Reunir dados e manter registros de nada adianta se o gestor não os utiliza na sua função. Não deixe de avaliar o desempenho da sua equipe de colaboradores e mensurar o sucesso de cada estratégia aplicada.

Todo processo precisa ser bem gerido e avaliado após seu desempenho. Para otimizar a precisão das análises, o empreendedor que aceita o desafio de começar seu negócio do zero precisa contar com o respaldo da tecnologia.

7- Faça parcerias estratégicas

A sociedade é uma alternativa comum e bastante utilizada. Geralmente, uma pessoa entra com o recurso e outra com a ideia ou a execução do projeto.

Saiba escolher bem seus sócios ou os parceiros do seu negócio. Os envolvidos no projeto devem ter expectativas e objetivos bem alinhados. Definir responsabilidades também é fundamental para evitar problemas no futuro.

8- Defina seus produtos ou serviços

Esse é o momento de desenhar a solução para o problema identificado. Para que uma empresa tenha sucesso, é preciso oferecer aquilo que realmente possa resolver os problemas dos consumidores. Então, pense em como você pode fazer isso e quais são os benefícios do seu produto ou serviço.

Por exemplo, um problema pode ser a dificuldade dos empreendedores em implementar estratégias mais eficientes para enfrentar a crise que alterou o hábito de compra dos consumidores, fazendo com que eles comprem menos. Com isso, uma oportunidade de negócio é oferecer consultorias em marketing para as empresas.

Portanto, neste caso, o nicho de negócios é o marketing digital, em que podem ser ofertados serviços de produção de conteúdo para a web de acordo com o perfil do consumidor online ou a criação de campanhas publicitárias criativas e impactantes.

9- Conheça as questões burocráticas

Muitas pessoas ignoram as questões burocráticas, mas não dá para começar um negócio sem conhecer os aspectos legais que regem o comércio e a publicidade, seja em sua cidade, seja na internet.

Por exemplo, se você for abrir um restaurante é preciso saber quais as licenças obrigatórias da vigilância sanitária, alvará de funcionamento e direitos do consumidor.

10- Honestidade e justiça

Integridade e honestidade são valores muito importantes para o sucesso de um empreendedor. A boa reputação de um empresário ou empresa conta mais do que qualquer tipo de propaganda ou estrutura, portanto é importante agir com honestidade e justiça com todos ao redor para a prosperidade nos negócios.

ESCALANDO NEGÓCIOS DA VALEON

1 – Qual é o seu mercado? Qual é o tamanho dele?

O nosso mercado será atingir os 766 mil habitantes do Vale do Aço e poder divulgar os produtos / serviços para vocês clientes, lojistas, prestadores de serviços e profissionais autônomos e obter dos consumidores e usuários a sua audiência.

A ValeOn atenderá a todos os nichos de mercado da região e especialmente aos pequenos e microempresários da região que não conseguem entrar no comércio eletrônico para usufruir dos benefícios que ele proporciona. Pretendemos cadastrar todas as empresas locais com CNPJ ou não e coloca-las na internet.

2 – Qual problema a sua empresa está tentando resolver? O mercado já expressou a necessidade dessa solução?

A nossa Plataforma de Compras e Vendas que ora disponibilizamos para utilização das Empresas, Prestadores de Serviços e Profissionais Autônomos e para a audiência é um produto inovador sem concorrentes na região e foi projetada para atender às necessidades locais e oferecemos condições de adesão muito mais em conta que qualquer outro meio de comunicação.

Viemos para suprir as demandas da região no que tange a divulgação de produtos/serviços cuja finalidade é a prestação de serviços diferenciados para a conquista cada vez maior de mais clientes e públicos.

O nosso diferencial está focado nas empresas da região ao resolvermos a dor da falta de comunicação entre as empresas e seus clientes. Essa dor é resolvida através de uma tecnologia eficiente que permite que cada empresa / serviços tenha o seu próprio site e possa expor os seus produtos e promoções para os seus clientes / usuários ao utilizar a plataforma da ValeOn.

3 – Quais métodos você usará para o crescimento? O seu mercado está propício para esse tipo de crescimento?

Estratégias para o crescimento da nossa empresa

  1. Investimento na satisfação do cliente. Fidelizar é mais barato do que atrair novos clientes.
  2. Equilíbrio financeiro e rentabilidade. Capital de giro, controle de fluxo de caixa e análises de rentabilidade são termos que devem fazer parte da rotina de uma empresa que tenha o objetivo de crescer.
  3. Desenvolvimento de um planejamento estratégico. Planejar-se estrategicamente é como definir com antecedência um roteiro de viagem ao destino final.
  4. Investimento em marketing. Sem marketing, nem gigantes como a Coca-Cola sobreviveriam em um mercado feroz e competitivo ao extremo.
  5. Recrutamento e gestão de pessoas. Pessoas são sempre o maior patrimônio de uma empresa.

O mercado é um ambiente altamente volátil e competitivo. Para conquistar o sucesso, os gestores precisam estar conectados às demandas de consumo e preparados para respondê-las com eficiência.

Para isso, é essencial que os líderes procurem conhecer (e entender) as preferências do cliente e as tendências em vigor. Em um cenário em que tudo muda o tempo todo, ignorar as movimentações externas é um equívoco geralmente fatal.

Planeje-se, portanto, para reservar um tempo dedicado ao estudo do consumidor e (por que não?) da concorrência. Ao observar as melhores práticas e conhecer quais têm sido os retornos, assim podemos identificar oportunidades para melhorar nossa operação e, assim, desenvolver a bossa empresa.

4 – Quem são seus principais concorrentes e há quanto tempo eles estão no mercado? Quão grandes eles são comparados à sua empresa? Descreva suas marcas.

Nossos concorrentes indiretos costumam ser sites da área, sites de diretório e sites de mídia social. Nós não estamos apenas competindo com outras marcas – estamos competindo com todos os sites que desejam nos desconectar do nosso potencial comprador.

Nosso concorrente maior ainda é a comunicação offline que é formada por meios de comunicação de massa como rádios, propagandas de TV, revistas, outdoors, panfletos e outras mídias impressas e estão no mercado há muito tempo, bem antes da nossa Startup Valeon.

5 – Sua empresa está bem estabelecida? Quais práticas e procedimentos são considerados parte da identidade do setor?

A nossa empresa Startup Valeon é bem estabelecida e concentramos em objetivos financeiros e comerciais de curto prazo, desconsideramos a concorrência recém chegada no mercado até que deixem de ser calouros, e ignoramos as pequenas tendências de mercado até que representem mudanças catastróficas.

“Empresas bem estabelecidas igual à Startp Valeon devemos começar a pensar como disruptores”, diz Paul Earle, professor leitor adjunto de inovação e empreendedorismo na Kellogg School. “Não é uma escolha. Toda a nossa existência está em risco”.

6 – Se você quiser superar seus concorrentes, será necessário escalar o seu negócio?

A escalabilidade é um conceito administrativo usado para identificar as oportunidades de que um negócio aumente o faturamento, sem que precise alavancar seus custos operacionais em igual medida. Ou seja: a arte de fazer mais, com menos!

Então, podemos resumir que um empreendimento escalável é aquele que consegue aumentar sua produtividade, alcance e receita sem aumentar os gastos. Na maioria dos casos, a escalabilidade é atingida por conta de boas redes de relacionamento e decisões gerenciais bem acertadas.

Além disso, vale lembrar que um negócio escalável também passa por uma fase de otimização, que é o conceito focado em enxugar o funcionamento de uma empresa, examinando gastos, cortando desperdícios e eliminando a ociosidade.

Sendo assim, a otimização acaba sendo uma etapa inevitável até a conquista da escalabilidade. Afinal de contas, é disso que se trata esse conceito: atingir o máximo de eficiência, aumentando clientes, vendas, projetos e afins, sem expandir os gastos da operação de maneira expressiva.

Pretendemos escalar o nosso negócio que é o site marketplace da Startup Valeon da seguinte forma:

  • objetivo final em alguma métrica clara, como crescimento percentual em vendas, projetos, clientes e afins;
  • etapas e práticas que serão tomadas ao longo do ano para alcançar a meta;
  • decisões acertadas na contratação de novos colaboradores;
  • gerenciamento de recursos focado em otimização.

 

sábado, 26 de novembro de 2022

LUVA MOSTRA DESCONHECIMENTO DOS EFEITOS NEGATIVOS DO DÉFICIT

 

Editorial
Por
Gazeta do Povo


Lula, presidente eleito: relatório do Banco Inter prevê aumento na dívida pública com a PEC fura-teto.| Foto: Sidat Suna/EFE

O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, vem dizendo que não faz sentido respeitar o teto de gastos definido em lei nem o equilíbrio das contas públicas enquanto houver pobreza no país. Lula tem afirmado publicamente que o governo deve gastar mais (sem informar qual o limite) a favor das pessoas e famílias pobres, mesmo sem receitas de impostos suficientes para pagar a conta. Por óbvio, Lula está propondo que os gastos e os déficits fiscais sejam pagos com mais dívida do governo ou emissão de moeda. Ao presidente eleito deveria ser perguntado se ele sabe que déficits repetidos por vários anos, pagos com mais dívida ou impressão de dinheiro, têm consequências graves e nocivas à economia, especialmente aos pobres, e completamente alheias às vontades dos governantes.

Cabe ressaltar, por exemplo, que há diferença entre os efeitos de um déficit feito para construir uma obra (uma ferrovia, um hospital ou uma escola) e os efeitos de um déficit feito para aumentar gastos burocráticos ou custeio com a máquina pública. Mas a diferença nesse caso se refere apenas à qualidade do gasto, não aos efeitos do déficit em si, pois as consequências do aumento da dívida pública ou do aumento da moeda circulante usado para pagar os gastos são as mesmas em ambos os casos. Se o governo decidisse gastar mais com programas direcionados aos pobres e pagasse esses novos gastos com recursos diminuídos de outras despesas, de forma a não piorar o saldo das contas, ocorreria apenas mudança no destino dos gastos, sem provocar elevação do déficit e sem a necessidade de o governo fazer mais dívida ou emitir moeda.

A inflação é a forma mais cruel de anular as boas intenções que levam à emissão de dinheiro acima do aumento do produto nacional, com o triste efeito de punir especialmente aqueles que foram usados como justificativa para explodir os gastos: os pobres

Mas não é disso que Lula anda falando. O que ele anda dizendo é que manterá os gastos que já consomem todo o orçamento público e que vai estourar o teto de gastos definido em lei para aumentar as despesas com programas direcionados aos pobres. A intenção pode parecer algo nobre, porém, se fosse possível explodir as contas públicas, gastar mais e mais, e fazer déficits todos os anos sem criar problemas nem destruir a economia, certamente não haveria pobres no mundo. Por um raciocínio simples, é fácil saber que há limites para o endividamento público, pois quem empresta dinheiro ao governo na moeda nacional são pessoas e empresas, por intermediação do sistema bancário ou comprando diretamente títulos do Tesouro Nacional. E isso tem limites claros.

Sem a possibilidade de fazer dívida ilimitada, a persistência de gastos deficitários obriga o governo a fabricar dinheiro (expansão da base monetária, na linguagem dos economistas) destinado a pagar as contas. É nesse ponto que as nobres intenções não impedem consequências desastrosas capazes de espalhar sofrimento a todos, principalmente aos pobres. O que determina o nível de bem-estar social e o padrão de consumo de um povo é o tamanho da produção de todos os bens e serviços comparado com o tamanho da população. Ou seja, é a economia real que define o padrão de vida, e não o quanto de dinheiro existe em circulação em forma de moeda manual e moeda escritural.

O total de moeda em circulação (os meios de pagamentos) representa o total do produto nacional em circulação (o Produto Interno Bruto, PIB), e a relação entre essas duas quantidades (total de moeda dividido pelo total de produto transacionado) dá um quociente que se poderia chamar de “preço nacional médio”. Se houver aumento do total de moeda manual ou escritural em circulação e não houver aumento do PIB transacionado, esse quociente (preço nacional médio) aumentará, ou seja, haverá aquilo que qualquer pessoa conhece como “inflação”.


Tendo sido presidente da República por dois mandatos, Lula já devia ter aprendido os princípios mais elementares da ciência econômica. Por exemplo, ele deveria saber que todo o dinheiro que existe em circulação – nos bolsos e nas contas das pessoas, das empresas e do governo (municípios, estados e União) – é uma espécie de representação de todos os bens e serviços disponíveis no mercado. Se houver criação de dinheiro a partir do nada, seja moeda em notas de papel ou moeda escritural na conta do governo, o país terá mais dinheiro para representar os mesmos bens e serviços, logo, o dinheiro passa a valer menos. Inflação é isso. Os preços aumentam para se adequar à nova situação de mais dinheiro sem mais produto.

A inflação é a forma mais cruel de anular as boas intenções que levam à emissão de dinheiro acima do aumento do produto nacional, com o triste efeito de punir especialmente aqueles que foram usados como justificativa para explodir os gastos: os pobres. Não é preciso dizer que a inflação pune mais severamente os pobres e os assalariados de baixa renda que as classes de renda mais alta, pois a sociedade percebe isso o tempo todo. Ou Lula não sabe essas coisas e pode acabar impondo sofrimento à população, ou ele sabe e mesmo assim fará a nação sofrer por sua demagogia e incompetência. Goste-se ou não do governo que se encerra, o fato é que o Brasil estava se recuperando após três tragédias ao mesmo tempo: a pandemia mundial do coronavírus, a grave seca que durou 18 meses e os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia.

O governo pode ser tentado a aumentar impostos para sustentar novos gastos, embora Lula não esteja deixando nada claro. Ele segue dizendo que vai revogar o teto de gastos, que é, no fundo, um limite imposto ao déficit público. A hipótese de aumentar tributos é perigosa, pois a carga tributária atual já é muito alta e eventuais novos aumentos acabariam por puxar a economia para baixo. Tudo isso resumido pode redundar em interrupção da recuperação econômica que começou em 2022. Assim, cabe à sociedade ficar vigilante e pressionar o governo para evitar imprudência fiscal e medidas que notoriamente terminam em inflação ou recessão, ou ambas.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/a-ignorancia-de-lula-sobre-os-efeitos-negativos-do-deficit/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...