quinta-feira, 17 de novembro de 2022

MST NÃO TERÁ VIDA BOA PARA INVADIR FAZENDAS DEVIDO A REAÇÃO ARMADA DOS PROPRIETÁRIOS

 

Movimento Sem-Terra
Retomada de invasões?
Por
Gabriel Sestrem – Gazeta do Povo


Principal liderança do MST afirma que retomada das mobilizações é “consequência natural” da vitória de Lula nas urnas| Foto: Reprodução MST

Especulações sobre uma possível mudança de comportamento de militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em caso de vitória de Lula (PT) – candidato que gozou de pleno apoio do movimento durante a campanha eleitoral – foram exaustivamente tratados nos meses anteriores às eleições.

Ao mencionar o assunto, Jair Bolsonaro (PL) sustentou, ao longo da campanha, que os mais de 400 mil títulos de terra distribuídos a produtores rurais têm enfraquecido a atuação do movimento. De fato, durante o mandato do atual presidente, o número de invasões de terras por parte do MST e grupos semelhantes seguiu uma forte tendência de queda (veja infográfico mais à frente) iniciada em 2016, ano do impeachment de Dilma Rousseff (PT), quando entraram em vigor novas regras de concessões de títulos sob o governo de Michel Temer (MDB).

Ao mencionar o MST em reunião com um grupo de embaixadores no dia 18 de julho, Bolsonaro disse que se tratava de “um grupo terrorista que há até pouco tempo era bastante ativo no Brasil”, em referências às violentas invasões do movimento.

Já Lula afirmou, em sabatinas, que o MST está “muito mais maduro” e que “aquele MST de 30 anos atrás não existe mais” na tentativa de tranquilizar o eleitorado, em especial o que mora em áreas rurais, quanto à eventual retomada de invasões no novo governo de Lula, que é apoiador de longa data do movimento.

O presidente eleito disse também que atualmente os militantes sem-terra estão “preocupados em produzir, organizar cooperativas e chegar no mercado externo” e defendeu que “pouquíssimas terras produtivas foram invadidas nesse país” – informação que, como mostrado pela Gazeta do Povo, é falsa.

Apesar disso, lideranças do movimento deram poucas sinalizações efetivas sobre o comportamento no novo governo petista. A Gazeta do Povo solicitou entrevista com diretores nacionais do MST para entender qual é o planejamento para os próximos anos, mas o pedido foi negado.


Retomada das mobilizações é “consequência natural”, diz líder do MST
Um dos poucos representantes da alta cúpula do grupo que abordaram publicamente o assunto foi João Pedro Stédile, principal liderança do MST atualmente. No início de setembro, em episódio do podcast Três por Quatro, ele sinalizou que as “mobilizações de massa” do grupo poderiam ser retomadas como uma “consequência natural” em caso de vitória de Lula.

“Acho que a vitória do Lula, que se avizinha, vai ter como consequência natural, psicossocial nas massas, um ‘reânimo’ para nós retomarmos as grandes mobilizações de massa”, declarou Stédile. Ao explicar o que seriam essas mobilizações, disse: “Não é só fazer passeata. É quando a classe trabalhadora recupera a iniciativa na luta de classes, então ela passa a atuar na defesa de seus direitos de mil e uma formas, fazendo greves, ocupações de terra, ocupações de terrenos, mobilizações…”.

Mesmo sem Lula ter assumido a Presidência, representantes do movimento, que participaram ativamente da campanha pró-Lula, já pressionam por espaços no governo. A expectativa do grupo é ter nomes indicados já na equipe de transição do governo Lula, que é comandada pelo vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB). O nome de Stédile chegou a ser especulado para assumir o Ministério do Desenvolvimento Agrário, em reportagem de O Antagonista, mas lideranças petistas negaram tal possibilidade.

No dia 5 de novembro, o coordenador nacional do MST, João Paulo Rodrigues, afirmou ao jornal Metrópoles que aqueles que participaram da frente de apoio ao petista “merecem estar nesse grupo” de transição. Rodrigues, que é bastante próximo a Lula, estima que ainda podem ser escolhidos pessoas de movimentos, centrais sindicais e ONGs.

“É necessário ter uma representação [no grupo de transição] de toda a força que elegeu o Lula e dos apoios que chegaram no segundo turno. É transparente, ajuda a identificar os problemas a partir da lógica de cada agrupamento social. É democrático e facilita depois a montagem do governo”, declarou o coordenador.


Agronegócio teme retomada de invasões
No dia 1º de novembro, após o resultado das eleições, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), principal entidade representativa dos produtores rurais brasileiros, divulgou uma nota oficial na qual, dentre outros pontos, citou a preocupação do setor do agronegócio com as invasões de terras.

“Para que a produção rural possa continuar sendo a segurança do abastecimento de alimentos para o mercado interno e a principal fonte das nossas exportações, precisamos que o Governo do país, acima de tudo, proporcione segurança jurídica para o produtor, defendendo-o das invasões de terra, da taxação confiscatória ou desestabilizadora ou dos excessos da regulação estatal”, diz trecho da nota.

Já o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Normando Corral, declarou, em entrevista ao Canal Rural, que o setor teme a retomada da radicalização dos movimentos sociais no governo petista. “Tenho receio de que algumas coisas possam acontecer e impeçam um bom diálogo. Uma delas, que sempre nos preocupou, é a insegurança jurídica quanto a esses movimentos ditos sociais, mas que não são, como o MST. O mercado é soberano sobre o que acontece com a produção agropecuária. Se radicalizar nesse ponto, obviamente vai ter uma radicalização do contrário”, afirmou.

Instituições que representam o agro – setor que responde por um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil e por quase 50% das exportações, segundo dados do governo federal – têm sido alvo dos militantes nos últimos meses. Em abril, o prédio da CNA, em Brasília, foi vandalizado por dezenas de militantes do MST. Segundo os ativistas, a ação criminosa fazia parte da “Jornada Nacional de Luta em Defesa da Reforma Agrária”. No final do ano passado, foi a sede da Aprosoja, também em Brasília, que foi vandalizada por militantes com dezenas de pichações com frases como “Agro mata” e “Agrosoja é fome”.

Por que MST entrou em declínio desde a saída do PT do poder?
Conforme lideranças do movimento social têm afirmado, a política de maior flexibilização no acesso a armas de fogo durante o governo teria contribuído para a redução das invasões. Uma mudança na lei nacional de controle de armas, que entrou em vigor em 2019, passou a permitir que produtores rurais portem armas de fogo em toda a extensão de suas propriedades. O entendimento anterior era de que a arma não podia sair de dentro do domicílio dos moradores; na prática, a medida inviabilizava a autodefesa por parte dessas pessoas, cujas residências normalmente ficam em áreas isoladas, até mesmo dos vizinhos, e distantes da presença das forças de segurança pública.

Já Bolsonaro destaca o papel do aumento nas concessões de títulos de terra aos produtores rurais nos últimos anos como determinante para o recrudescimento do movimento social nos últimos anos. Isso porque, na prática, a titulação das terras significa a “conclusão” do processo de reforma agrária para os agricultores que integram os assentamentos, em grande parte controlados pelo MST. Com isso, o movimento acabou perdendo influência nessas áreas, já que a principal promessa das lideranças para os assentados era justamente lutar pela concessão das terras.

Porém há outros fatores que podem explicar a diminuição das atividades do grupo. Segundo um servidor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), autarquia do governo federal, que falou à reportagem sob sigilo, durante as gestões petistas parte das verbas destinadas pelo governo federal a ONGs que mantinham convênios com o Executivo eram repassadas ao MST e a demais movimentos sociais; tais recursos facilitavam a organização das atividades do grupo. Dessa forma, eventual retorno de repasses a tais entidades no novo governo poderia gerar recursos para a retomada de atividades do grupo.

Em fevereiro deste ano, Bolsonaro declarou que promoveu corte de verbas para ONGs como forma de “esvaziar a bola do MST”. “O homem do campo vivia com insegurança por causa do MST. Fomos ver como buscavam recursos, de ONGs patrocinadas por alguns bancos federais. Cheguei nos bancos e falei ‘não quero mais dinheiro para ONG’, afinal de contas se é uma organização não governamental não tem que pegar dinheiro nosso”, afirmou Bolsonaro em entrevista ao programa Voz do Brasil.

Veja abaixo os números de invasões de terra desde o início da apuração dos dados, em 1995:

Invasões coletivas de terras (por governo federal)

VIDA E AMIZADES DO EMPRESÁRIO QUE EMPRESTOU O JATINHO PARA LULA E SUA COMITIVA

 

“Carona” para a COP-27
Lava Jato e outras polêmicas

Por
Bruna Komarchesqui


O empresário José Seripieri Filho, conhecido como Júnior, que deu carona a Lula em seu jatinho até o Egito| Foto: Julia Moraes/Fiesp

O empresário que deu uma “carona” para Lula em seu jatinho particular até a COP-27, no Egito, já foi preso em desdobramentos da Lava Jato, comprometeu-se a devolver R$ 200 milhões aos cofres públicos e é amigo de longa data do petista e de Alckmin. José Seripieri Filho, conhecido como Júnior, firmou um acordo de delação premiada em 2020, confessando o crime de caixa dois na campanha do tucano José Serra ao Senado, durante as eleições de 2014. Neste ano, Seripieri doou mais de R$ 1 milhão à campanha de Lula e foi anfitrião de um jantar da pré-campanha do petista com empresários, em junho. Ele também foi um dos convidados do casamento de Lula e Janja, no mês de maio. Conheça oito fatos sobre o empresário, que goza de grande circulação e influência no meio político brasileiro:

  1. Tornou-se bilionário com planos de saúde
    Em 1997, José Seripieri Filho fundou a Qualicorp, uma das maiores empresas de planos de saúde do Brasil, pioneira na oferta de planos coletivos por adesão. Com o negócio, ele se tornou um dos primeiros bilionários brasileiros no segmento. Em 2020, a companhia já contava com 2,5 milhões de beneficiários na base de segurados, tendo acordo com mais de 500 entidades de classe que representavam 32 mil empresas. Um ano antes, ele concluiu a venda de sua participação no negócio para a Rede D’Or, que passou a ser a acionista majoritária.

Júnior começou a carreira como vendedor bem-sucedido de planos de saúde, com grande habilidade para vendas no sistema porta a porta. Atualmente, o empresário comanda a QSaúde, que adquiriu em 2020 da Qualicorp por R$ 75 milhões. A empresa faz uso de inteligência de dados, de modo a reduzir ineficiências no sistema de saúde e comercializar planos a preços menores.

Um importante salto da Qualicorp, que garantiu a Júnior o ingresso no grupo dos milionários, ocorreu com a entrada na bolsa, em 2009. Quase dez anos depois, ele comandou uma operação com a empresa que foi criticada por investidores e chegou a ser alvo de investigação na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável pela regulação do mercado de capitais. Na época, o empresário recebeu R$ 150 milhões da empresa, em um acordo em que se comprometia a não criar concorrentes em um período de seis anos.

No dia seguinte, as ações da Qualicorp caíram 30%. Acionistas minoritários e a XP alegaram que o acerto beneficiaria o empresário em detrimento da companhia. Júnior sugeriu, então, reinvestir os R$ 150 milhões na Qualicorp. Em outubro de 2019, os seis conselheiros que tinham aprovado o acordo se ofereceram para pagar R$ 1,2 bilhão a encerrar o caso, mas a CVM rejeitou a proposta.  

2. Confessou crime de caixa dois eleitoral
Em julho de 2020, Seripieri ficou três dias preso, durante a Operação Paralelo 23, que investigava pagamentos à campanha de José Serra ao Senado, na eleição de 2014. Ele se tornou réu por corrupção, caixa dois e lavagem de dinheiro na Justiça Eleitoral de São Paulo. Serra também responde a esse processo.

Em novembro de 2020, ele firmou um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), confessando o crime de caixa dois e concordando em pagar R$ 200 milhões de ressarcimento aos cofres públicos. No fim daquele ano, o acordo foi homologado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso. Os detalhes do acordo e do depoimento do empresário ainda permanecem sob sigilo.

O conjunto de inquéritos envolvendo grandes nomes da política paulista e os caixas de campanha de seus partidos ficou conhecido como Lava Jato Eleitoral. O nome passou a ser usado pela Polícia Federal porque as investigações derivaram de delações e inquéritos da operação iniciada no Paraná.

De acordo com a defesa de Júnior, em 2014, o conselho de administração da Qualicorp só havia aprovado doações para candidatos à Presidência. Diante do pedido de contribuição eleitoral feito por Serra, ele procurou um sócio em negócios imobiliários, Elon Gomes de Almeida, para fazer repasses, em um valor total de R$ 5 milhões, sem contrapartidas do tucano. O empresário alega que só depois soube que os pagamentos foram feitos por meio de contratos fictícios de outras empresas ligadas ao sócio. Como Serra não ocupava cargo público na época, a defesa alega que não cabem as acusações de corrupção passiva e lavagem de dinheiro listadas na denúncia.

  1. Mantém relação com políticos e ministros

Próximo de figuras expressivas do cenário político nacional, como Lula, Serra e Geraldo Alckmin, suas festas são conhecidas por reunir autoridades, incluindo o ministro do STF, Alexandre de Moraes, na época em que era ministro da Justiça. Segundo afirmou à PGR, sua relação com boa parte dessas autoridades era institucional ou de amizade, sem envolver ilegalidades. Investigadores envolvidos na delação, no entanto, afirmaram na época que a cereja do bolo das revelações do empresário era sua relação com políticos do Congresso, inclusive para a aprovação de benesses. Nesse ponto, apareceriam nomes como Renan Calheiros e Romero Jucá, segundo ele, diretamente envolvidos nas manobras políticas.

Em junho deste ano, o empresário aparece na lista de participantes de uma mesa de discussão sobre regulação no Brasil no Fórum Jurídico de Lisboa, em Portugal. O evento foi organizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), fundado pelo ministro do STF Gilmar Mendes. Dois meses antes, ele esteve em terras lusitanas pela mesma organização, discutindo o setor de saúde.

  1. Indício de propina a auditores da Receita Federal
    De acordo com o portal de notícias políticas O Bastidor, mesmo após o acordo de delação com a PGR, Júnior segue sendo investigado pela PF. O motivo seria a omissão de informações relevantes pelo empresário. Investigações da Polícia e da Receita Federal dão indícios de operações de lavagem de dinheiro em conjunto com o escritório da família Claro, conhecida por intermediar negociatas políticas.

A publicação mostra que delações dos sócios do escritório Claro, extratos bancários, planilhas de doleiros e depoimentos “revelam fortes evidências” do pagamento de R$ 2,5 milhões em propina a três auditores da Receita por dirigentes da Qualicorp, em 2014. O intuito seria impedir multas à empresa. A investigação aponta dinheiro saindo das contas da companhia de Seripieri, passando por contas da Claro e girando em empresas de fachada de doleiros, antes de ser entregue em espécie aos auditores.

  1. É amigo de Lula
    Júnior e Lula se conhecem há mais de uma década. Quando o petista deixou a presidência, passou a frequentar a casa de veraneio do empresário em Angra dos Reis, chegando a ser convidado para o Réveillon de 2015. De acordo com a revista Veja, ele também costumava usar helicóptero e jatinho de Seripieri emprestado para deslocamentos. O empresário também esteve entre os seletos convidados do casamento de Lula e Janja em maio, sentando-se à mesma mesa que Gilberto e Flora Gil, Marta Suplicy e o marido dela, Márcio Toledo, de acordo com a Folha de S. Paulo.

No ano passado, interlocutores de Lula e Seripieri revelaram que o petista demonstrou uma mágoa em relação ao empresário, que se distanciou dele depois de prosperar em seu governo. Durante a pré-campanha, Júnior foi anfitrião de um jantar entre Lula e empresários. Ele também fez expressivas doações à campanha presidencial petista.

  1. Tem relação com Alckmin
    Um ano antes de convidar Lula para o Réveillon, o empresário recebeu o casal Geraldo e Lu Alckmin para a passagem de ano em sua casa. Naquele mesmo ano, Seripieri havia doado R$ 2 milhões ao comitê do PSDB (e outros R$ 4 milhões ao PT, para a campanha de Dilma, que acabou eleita). Na eleição anterior, ele também havia feito doações à campanha presidencial de José Serra.

Em 2015, a proximidade com Alckmin voltou a aparecer, quando um helicóptero da Seripatri Participações, de propriedade do empresário, caiu no interior paulista. Entre os mortos no acidente estava Thomaz Rodrigues Alckmin, filho do então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

  1. Fez doações à campanha de Lula

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Seripieri está entre os maiores doadores privados da campanha eleitoral deste ano, com um total de R$ 1,86 milhão. A maior parte do montante foi para o PT e para a candidatura de Lula. Ele doou R$ 660 mil à direção nacional do PT, em 27 de setembro de 2022, e outros R$ 500 mil à campanha de Lula, um mês depois.

  1. Jatinho é registrado nos EUA
    Além de José Seripieri Filho, no jatinho em que Lula pegou uma carona para a COP-27 também estavam a mulher do petista, Rosângela Silva, a Janja, e o ex-prefeito de São Paulo Fenando Haddad (PT). O regulamento da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) só permite remuneração por voos em aviões de empresas de táxi-aéreo. Por se tratar de um jato privado, Júnior não poderia, portanto, cobrar dos passageiros.

A aeronave de modelo Gulfstream G600, fabricada em 2021, tem capacidade para transportar 16 pessoas. Com o prefixo N600DJ, o avião foi adquirido e registrado nos Estados Unidos em nome da empresa TVPX, que administra patrimônios privados, ou seja, não está sujeito à tributação brasileira. A aeronave consome 1.740 litros de combustível por hora.

Mesmo eleito, Lula não tem o direito de viajar em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB). Analistas defendem que seu partido poderia ter solicitado uma aeronave ao presidente Jair Bolsonaro e, em caso de negativa, optado por um voo de carreira.

Para um presidente, é preciso ser e parecer honesto
O advogado civilista Afonso Oliveira defende que a carona de Lula no avião de um empresário preso por corrupção fere dois princípios da administração pública: impessoalidade e moralidade. “Um velho adágio romano diz que ‘para a mulher de César, não basta ser honesta, tem que parecer honesta’. O que Lula faz é uma afronta ao estado republicano. Seja fretamento ou carona, o presidente eleito deveria se resguardar de atitudes como essa”, diz, citando o artigo 317 do Código Penal, que tipifica o crime de corrupção passiva. “Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”.

“Portanto, independe de ter sido diplomado ou tomado posse. A vantagem nesse caso seria a carona e a suspeição dessa carona diz respeito ao agente que providenciou, alguém que esteve envolvido nas entranhas da corrupção dentro da operação Lava Jato, comprovadamente, já que houve uma delação premiada, devolvendo R$ 200 milhões aos cofres públicos”, analisa o jurista.

Para Oliveira, o que está sendo tratado como “mera e simples carona” pelos correligionários de Lula, vai além de simplesmente ferir um princípio ético e merece uma apuração séria por parte das instituições. “Qual a vantagem dessa carona? Quanto custará aos cofres públicos futuramente, caso Lula seja de fato empossado, esse tipo de relacionamento com figuras reconhecidamente condenadas ou pelo menos envolvidas em corrupção, como é o caso do senhor José Seripieri [Filho]?”, questiona. “Imagine se mudássemos o nome para Bolsonaro ou qualquer outro personagem ativo do governo atual, quais seriam as críticas e denúncias que estariam sendo feitas, as interpelações junto ao STF pelos políticos de esquerda? Para Lula, tudo é permitido?”, completa. O deputado federal Sanderson (PL-RS) entrou com uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) para pedir investigações sobre a carona ao Egito. “Eu encarei como deboche. Um presidente que acabou de sair da cadeia por corrupção e um empresário que também foi preso e só está nas ruas porque fez delação premiada, ou seja, com um acordo com o Estado. Essa relação precisa ser investigada em toda a sua extensão. Encaminhei ontem mesmo à tarde ao procurador-geral um ofício de procuração pedindo para fazer investigação”, afirmou, em entrevista à Jovem Pan.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/lava-jato-e-outras-polemicas-8-fatos-sobre-o-empresario-dono-do-jatinho-que-levou-lula-ao-egito/
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PT QUER APROVAÇÃO DO CONGRESSO PARA FURAR O TETO DE GASTOS

 

Editorial
Por
Gazeta do Povo


Presidente eleito Lula decidiu começar a tramitação da PEC pelo Senado presidido por Rodrigo Pacheco (PSD-MG)| Foto: Pedro Gontijo/Senado Federal

Enquanto a equipe comandada pelo vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, seguia trabalhando na PEC da Transição, a emenda fura-teto que o presidente eleito Lula quer ver aprovada ainda antes de sua posse para permitir o cumprimento da promessa de um Bolsa Família de R$ 600, prosseguiam as articulações políticas e as manifestações de quem apoiou o petista e agora critica seu populismo fiscal como se ele não fosse algo totalmente previsível. Por mais que vários atores políticos façam todo tipo de ressalva, há o risco de que o teto de gastos acabe definitivamente desmoralizado ou até mesmo abolido sem nada de concreto no lugar, abrindo de vez a porta para o retorno dos tempos de gastança sem fim que levaram o país à pior recessão da história, sob Dilma Rousseff.

A julgar pelas declarações de Ciro Nogueira, expoente do Centrão, senador licenciado e ministro de Jair Bolsonaro, Lula terá o que deseja ao menos em parte. A PEC “deve garantir somente os pontos comuns das duas candidaturas: R$ 600 de auxílio e aumento real do salário mínimo em 2023”, afirmou Nogueira, referindo-se a dois itens que também fizeram parte do programa da candidatura de Bolsonaro à reeleição e prometendo o apoio de seu partido, o PP, à PEC da Transição. Do ponto de vista prático, no entanto, é preciso lembrar que, se a base de apoio do atual governo já entrega de antemão essas dezenas de bilhões de reais fora do teto, sem que Lula não precise nem mesmo negociar por esse valor, o mais provável é que a fatura final acabe ainda maior, como demonstra o texto apresentado ao Congresso na noite desta quarta-feira, com quase R$ 200 bilhões fora do teto em 2023, além de manter o Bolsa Família longe da regra fiscal por tempo indeterminado.

Manobras que desmoralizam o teto de gastos enfraquecem também a posição do país diante do investidor, que passa a desconfiar da saúde fiscal brasileira

E é aqui que volta à cena Henrique Meirelles, que apoiou Lula ainda no primeiro turno apesar de seu partido (o União Brasil) ter lançado candidata própria ao Planalto, e que agora faz alertas corretos, talvez na esperança de que o país se esqueça do seu papel de fiador da campanha do petista junto a determinados setores do mercado e do eleitorado. “Tem que se ter uma âncora, tem que ter um teto. O limite tem que ser claro porque, caso contrário, o país pode e corre o risco sério de voltar a um clima de recessão”, disse o “pai” do teto de gastos, ex-presidente do Banco Central (nos dois mandatos de Lula, entre 2003 e 2010) e ex-ministro da Fazenda de Michel Temer, durante evento em Nova York na terça-feira, dia 15.

O teto de gastos, que limita o crescimento real da despesa pública ao permitir apenas a correção pela inflação, pode até não ter sido a melhor escolha para a primeira grande reforma macroeconômica do governo Temer – discute-se, por exemplo, se não teria sido melhor aprovar primeiro uma reforma da Previdência antes do teto –, mas seus méritos são inegáveis em um país que tem histórico de irresponsabilidade fiscal. O teto corta as asas de governantes gastadores e permite que eventuais receitas extraordinárias (por exemplo, decorrentes de privatizações) sejam usadas para abater a dívida pública, em vez de elevar despesas, às vezes de forma permanente. Faltou, no entanto, cumprir um outro objetivo: uma vez que o teto impõe um limite para a despesa total, políticos no Executivo e no Legislativo teriam de aprender a fazer boas escolhas, eliminando desperdícios, gastos imorais ou ineficientes para priorizar investimentos importantes e necessários – o bilionário fundo eleitoral e as emendas de relator estão aí para comprovar que o senso de prioridade ainda é escasso em Brasília.


O descumprimento do teto em situações de grave emergência se justifica. Durante a pandemia, o Brasil teria sofrido uma catástrofe econômica de proporções inimagináveis sem o auxílio emergencial, o crédito especial para micro e pequenas empresas e o dinheiro governamental para bancar parte do salário de trabalhadores com redução de jornada ou contrato suspenso; foram medidas que custaram centenas de bilhões de reais acima do teto. Situações muito diferentes, no entanto, têm sido as repetidas medidas que contornam o teto, criando “puxadinhos orçamentários” que nada mais são que uma burla ao mecanismo de responsabilidade fiscal. Foi assim, por exemplo, com a PEC dos Precatórios e a PEC dos Benefícios. Este é o tipo de manobra que desmoraliza não apenas o teto, mas também a posição do país diante do investidor, que passa a desconfiar da saúde fiscal brasileira, por exemplo exigindo juros maiores para emprestar ao Tesouro.

Isso não significa que o mecanismo seja imutável; enquanto a responsabilidade fiscal não for algo profundamente impregnado em nossos governantes, a ponto de limites legais se tornarem desnecessários, o teto pode e deve ser aperfeiçoado. Técnicos do Tesouro Nacional publicaram, no site do órgão, um relatório sugerindo a possibilidade de aumento real no gasto público desde que cumpridos critérios relativos à dívida pública – outro problema crônico brasileiro, já que o país tem relação dívida/PIB de país desenvolvido sem a confiabilidade das nações ricas, que lhes permite rolar dívida a juros baixos. Pela sugestão dos técnicos do Tesouro, o gasto público poderia subir até dois pontos porcentuais acima da inflação, mas apenas se a dívida estivesse abaixo de 45% do PIB (ela deve terminar o ano em 76,2% do PIB, segundo o próprio Tesouro) e em trajetória descendente; se estiver acima de 55% do PIB e em trajetória ascendente, não poderia ocorrer aumento nenhum. É uma ideia que merece ao menos discussão, desde que não se permita mais nenhum tipo de “puxadinho” ou exceção à regra.

Quase R$ 200 bilhões
PEC fura-teto é apresentada com Bolsa Família fora do teto de gastos sem prazo definido

Por
Célio Yano – Gazeta do Povo
e

Por
Camila Abrão


Ackmin entrega PEC ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).| Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados.

Foi enfim apresentada nesta quarta-feira (16) a proposta de emenda à Constituição (PEC) que deve permitir ao futuro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manter em R$ 600 a parcela mínima do Auxílio Brasil, que deve voltar a se chamar Bolsa Família. O anteprojeto foi entregue ao Congresso nesta noite pelo vice-presidente eleito e coordenador da equipe de transição Geraldo Alckmin (PSB).

O texto não prevê um limite de prazo para retirar do alcance do teto de gastos os recursos necessários para financiar o programa, estimados em R$ 175 bilhões para 2023. Além disso, cerca de R$ 23 bilhões em receita extra também poderão ficar fora do teto para serem destinados a investimentos públicos. Com isso, a PEC poderá liberar do teto de gastos R$ 198 bilhões em 2023. A proposta também deve retirar do teto as despesas de universidade feitas com receitas próprias.

O valor destinado ao Bolsa Família contempla ainda a criação de um benefício extra de R$ 150 para cada criança de 6 anos de famílias inscritas no programa, conforme prometido pelo petista ainda durante a campanha eleitoral.

Caso seja aprovada, a PEC abrirá no Orçamento de 2023 um espaço de R$ 105 bilhões que estão previstos para o Auxílio Brasil na versão encaminhada pelo governo de Jair Bolsonaro (PL) do Projeto de Lei Orçamentária Anual. A peça prevê um benefício com parcela média de R$ 405 por família.

A chamada PEC fura-teto estabelece que 40% do que o governo federal arrecadar a cada ano em receitas extraordinárias deverá ser direcionado para investimentos considerados estruturantes. “O que tiver de receita extra uma parte vai para investimento, então 40% iria para investimento e 60% para o pagamento de dívida, mas se estabeleceu uma trava de 6,5% da receita corrente líquida de 2021. Isso significa, na prática, R$ 23 bilhões”, disse Alckmin.

De acordo com o vice-presidente eleito, o objetivo é chegar a 1% do PIB para investimento. Doações destinadas à preservação do meio-ambiente também serão excluídas do teto. “É dinheiro de graça, é doação, não tem lógica isso [manter esses recursos no teto]. Então exclui as doações e com isso [o país] vai poder receber mais recursos para preservar o meio-ambiente e ajudar no combate às mudanças climáticas”.

“A mesma coisa é a educação, se uma universidade ou um instituto federal recebe uma doação, recebe um recurso ou tem uma transferência, por exemplo, de um órgão ou ente federativo ela vai poder utilizar esse recurso”, afirmou.

A minuta da proposta, que vem sendo discutida nas últimas semanas e teve o encaminhamento adiado algumas vezes, foi finalizada nesta quarta-feira. Para que a excepcionalização de gastos não seja considerada um “cheque em branco” para o novo governo, o texto indica de forma discriminada para onde vão devem ir os recursos liberados.

O espaço fiscal deve permitir, por exemplo, o aumento real do salário mínimo e a suplementação do orçamento nas áreas de educação, saúde, cultura e ciência e tecnologia.

Também será recompostas verbas que haviam sido cortadas do programa Farmácia Popular, das universidades federais, do transporte e da merenda escolares e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O auxílio à cultura, por meio das leis Aldir Blanc 2 e Paulo Gustavo, também devem ser contemplados.

Questionado sobre o detalhamento dos gastos, Alckmin afirmou que isso será feito na Lei Orçamentária Anual (LOA). “Não há nenhum ‘cheque em branco’. Agora, não tem sentido você colocar na Constituição brasileira detalhamento, isso é a LOA, isso é a Lei Orçamentária [anual]. Só que antes de votar a Lei Orçamentária você precisa ter a PEC”, disse.

Em entrevista coletiva no fim da manhã, o vice-presidente eleito defendeu a medida e afirmou que o próximo governo não será “gastador”.

“O presidente Lula, se a gente pegar seus dois mandatos, a marca foi a responsabilidade fiscal. Não vai ser governo gastador”, disse. “Agora, você precisa ter o mínimo para poder, de um lado, garantir a rede de proteção social, ainda mais neste momento de crise socioeconômica, e de outro, o funcionamento do estado.” Ainda segundo ele, “a questão da ancoragem fiscal vai ser debatida com mais calma”. “Não é neste momento”, falou.

Tramitação
Na semana passada, o relator-geral do Orçamento 2023, senador Marcelo Castro (MDB-PI), informou que a proposta só entrará em discussão no Congresso depois de alcançar consenso entre os líderes do Senado e da Câmara.

“O que estamos fazendo é tomar uma medida de salvação nacional. Se não aprovarmos essa PEC, e isso não é terrorismo, não temos como fechar o Orçamento. O Orçamento tem furos de ponta a ponta, por exemplo, a Farmácia Popular, não podemos deixar sem recurso a Farmácia Popular. Quem vai abrir espaços é a PEC”, disse o relator a jornalista nesta noite.

Ainda segundo Castro, a PEC deve passar primeiro pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e, depois de aprovada, seguirá para o plenário do Senado. Questionado sobre riscos de demora no avanço da proposta, o relator lembrou que, por acordo, as votações podem ocorrer no mesmo dia.

Como precisa passar pelo Senado e pela Câmara, a opção pela apresentação de uma PEC foi considerada mais acertada, em oposição à alternativa de uma medida provisória, por garantir “mais segurança jurídica e política”. O presidente da CCJ, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), também participou da reunião para receber a minuta e defendeu que o texto deve tramitar com celeridade.

“A hora que essa matéria for tramitar na comissão [CCJ], vou respeitar o regimento, vou respeitar o que diz as regras da comissão para darmos celeridade, porque o tempo está contra”, pontuou Alcolumbre. Ele ressaltou que o Congresso tem cerca de 30 dias para votar o Orçamento de 2023 e tudo depende de uma “construção política”.

Após entregar a proposta aos senadores, Alckmin se encontrou com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), para apresentar o texto.

Minuta apresenta três eixos principais
O relator do Orçamento afirmou que o anteprojeto apresentado pela equipe de transição prevê três pontos principais: a “excepcionalização” do Auxílio Brasil (R$175 bilhões), de receitas extras (cerca de R$ 23 bilhões) do teto de gastos e de despesas de universidade feitas com receitas próprias. No entanto, os detalhes precisam ser negociados no Congresso.

“Essa PEC será proposta pelo Senado, nós vamos pegar essas sugestões que a equipe de transição nos trouxe, vamos negociar internamente com as lideranças do Senado, até nós chegarmos a um entendimento de qual seria o texto ideal. na hora que tivermos segurança de que aquilo é um texto ideal… com maior probabilidade de ser aprovado, nesse momento começaremos a recolher as assinatura”, disse Castro. O relator afirmou que será o primeiro a assinar a proposta.

Mesmo antes de o texto ser tornado público, no entanto, a escolha provocou críticas por causa da necessidade negociações do governo Lula com o chamado centrão ainda antes da posse. A aprovação de uma PEC precisa de três quintos dos parlamentares em cada Casa Legislativa em dois turnos de votação.


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LULA MENTE NA COP27

Cúpula do clima

Por
Alexandre Garcia – Gazeta do Povo


O presidente eleito Lula (PT) discursou nesta quarta-feira (16) durante a Conferência do Clima (COP27) da Organização das Nações Unidas (ONU), que acontece em Sharm el-Sheikh, no Egito.| Foto: Reprodução

O presidente eleito Lula usou uma conferência mundial sobre meio ambiente para fazer um discurso político-eleitoral, quase um comício. Pegou todos aqueles dados da CPI do circo e botou na tribuna internacional. Fez acusações contra o presidente Bolsonaro, acusações absurdas que já foram descartadas, jogadas no lixo pela Procuradoria-Geral da República, conforme expressão da vice-procuradora Lindôra Araújo, que disse não haver nenhum indício de crime, mas Lula repetiu tudo lá na tribuna como se fosse verdade.

Depois, Lula ainda repetiu, como se fosse verdade, que o Brasil tem 33 milhões de famintos, quando tem alimento de sobra. Também atribuiu ao presidente Bolsonaro 14 milhões de desempregados, quando a sabemos que ele recebeu esses 14 milhões lá do fim do governo petista. Foi uma inverdade atrás da outra para fazer um efeito internacional, para montar algum cenário que ele está querendo preparar por aqui, talvez tenha a ver com Bolívia ou Venezuela. Na Bolívia aconteceu algo parecido quando Evo Morales voltou, então vamos ficar prevenidos em relação aos objetivos do Foro de São Paulo.

Transição virou uma multidão de gente

Enquanto isso, o vice eleito Geraldo Alckmin anunciou o fim das nomeações para o governo de transição, o pessoal que pretende fazer um programa de governo, com tudo o que não foi anunciado durante a campanha eleitoral – o eleitor votou sem saber em que votava, só em quem estava votando. E sabia muito bem: Lula governou o país por 14 anos, os oito dele e os seis da presidente Dilma Rousseff.


Os números ruins de mentira e os números bons de verdade
Agora são 158 pessoas nessa transição; era para ser uma equipe e virou quase uma multidão de várias equipes. Os últimos nomes são Marcelo Freixo, André Janones, Randolfe Rodrigues, Marina Silva, Omar Aziz, Marta Suplicy, Manuela D’Ávila. Um nome anunciado saiu da lista: infelizmente, morreu Isabel Salgado, uma das maiores jogadoras de vôlei do Brasil, que foi da seleção brasileira e esteve em Jogos Olímpicos. Faleceu assim, de repente. Com saúde, com atividade física, era treinadora, estava em um excelente hospital, no Sírio-Libanês, tinha 62 anos e preparo físico perfeito. Não deram a causa, e acho que nós temos de achar o ponto comum entre essas pessoas jovens, esportistas, profissionais do esporte, em plena saúde, que de repente apagam.

Imprensa não vai fazer os manifestantes sumirem apenas ignorando-os

Preciso mencionar a nota do general Villas Bôas, eterno comandante do Exército, que mostrou a fibra dos manifestantes. Deve estar observando tudo de perto, em Brasília: sob chuva, gente de todas as idades, nunca vi uma multidão assim. Ele me lembrou uma coisa: a essência da questão, diz ele, está em que o ato de votar deve ser privado, enquanto a apuração deve ser pública e auditável. O general lembrou também a indiferença da grande mídia, esse negacionismo em relação às multidões. A grande mídia acha que, ignorando a multidão, vai fazê-la desaparecer. Tentaram isso na União Soviética e mesmo assim caiu o Muro de Berlim.

O PL está pretendendo, talvez, pedir a anulação do segundo turno. Já concluiu um relatório, feito por uma comissão de superespecialistas, inclusive formados no Instituto Técnico da Aeronáutica (ITA), mostrando que as urnas da geração 2020 estão OK, mas todas as outras, de 2009 a 2015, não. E que não é possível validar os resultados dessas urnas, que são 55% das urnas usadas e têm códigos e programas diferentes das de 2020.


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RÚSSIA COMEÇA PERDER A GUERRA NA UCRÂNIA

 

Contraofensiva
Onde sua agressão à Ucrânia começou, há nove anos

Por
Fábio Galão – Gazeta do Povo


Mulher oferece flores a soldado ucraniano na cidade de Kherson, capital regional de onde russos se retiraram na semana passada| Foto: EFE/EPA/OLEG PETRASYUK

Em fevereiro de 2014, a Rússia iniciou sua série de agressões à integridade territorial da Ucrânia, ao ocupar a península da Crimeia, no sul do país.

Essa anexação, assim como a guerra civil deflagrada por separatistas pró-russos no leste no mesmo ano, foi uma resposta à destituição de um governo ucraniano simpático ao Kremlin. Em fevereiro deste ano, a agressão se tornou direta, com a invasão promovida pelo presidente Vladimir Putin à ex-república soviética.

Nos últimos meses, a contraofensiva ucraniana no sul vem dando a esperança de uma virada na guerra. Em outubro, a Rússia sofreu dois golpes importantes, a explosão na ponte da Crimeia e um ataque com drones à sua frota do Mar Negro, que levou a uma suspensão temporária do acordo que tinha assinado com Ucrânia, ONU e Turquia para facilitar a exportação de grãos ucranianos.

Entretanto, o maior revés foi a retirada de tropas russas da cidade de Kherson, na semana passada, até agora o ápice de um movimento de retomada do controle da província por parte da Ucrânia: era a única capital regional que Moscou havia capturado desde o início do conflito deste ano.

“A capacidade da Rússia de sustentar suas forças na margem oeste do rio Dnieper foi colocada sob pressão por ataques ucranianos às suas rotas de reabastecimento”, destacou um relatório da Inteligência Britânica.

“Ao recuar, as forças russas destruíram várias pontes e provavelmente colocaram minas para retardar e atrasar o avanço das forças ucranianas. A perda da margem oeste de Kherson provavelmente impedirá a Rússia de alcançar sua aspiração estratégica de uma ligação terrestre que chegue a Odesa”, acrescentou o comunicado.

Pode haver alguma justiça poética na Rússia estar começando a perder a guerra pelo sul, onde começou a minar a integridade territorial ucraniana há quase nove anos, e o presidente Volodymyr Zelensky destacou em agosto que a Crimeia não foi esquecida.

“Não esqueceremos que a guerra russa contra a Ucrânia começou com a ocupação da Crimeia. Esta guerra russa começou com a Crimeia e deve terminar com a Crimeia – com sua libertação”, garantiu.

Diferenças
Porém, as vitórias em Kherson não significam que Kyiv deve recuperar todas as áreas que perdeu para o Kremlin tão cedo. O analista militar e coronel da reserva Paulo Roberto da Silva Gomes Filho destacou que a ocupação da Crimeia em 2014 teve uma natureza diferente das outras ações militares da Rússia no sul da Ucrânia neste ano.

A península era cobiçada pela sua posição sobre o Mar Negro, de grande importância para a Rússia pela base aeronaval em Sevastopol e pelo acesso, por meio dos estreitos de Bósforo e Dardanelos, ao Mediterrâneo – a Rússia tinha dificuldades de chegar aos chamados mares quentes.

“Não há muita relação, então, eles [russos] terem começado pelo sul e a guerra terminar lá. [A invasão] começou pela Crimeia pela importância geoestratégica, lá em 2014. Uma coisa é [a Ucrânia] conquistar [a cidade de] Kherson e talvez até reconquistar toda a província, chegar ao litoral, uma coisa bastante diferente seria uma tentativa de reconquistar a Crimeia”, ressaltou Paulo Filho.

O analista destacou que as tropas da Rússia haviam ultrapassado o rio Dnieper, conquista que é chamada de cabeça de ponte. Porém, é uma posição muito difícil de ser defendida, já que essas tropas precisavam receber toda a logística, de pessoal e suprimentos, pelas pontes sobre o rio, que vinham sendo sistematicamente bombardeadas pelos ucranianos, especialmente a partir do momento em que estes receberam dos Estados Unidos os lançadores múltiplos de foguetes Himars.

“Ficou muito difícil para os russos manterem essa logística, então decidiram recuar para se defenderem do outro lado do rio, onde a defesa deixa mais difícil para os ucranianos atacarem. Agora, a vantagem de colocar o rio entre o defensor e o atacante está com os russos”, afirmou Paulo Filho.

“Foram uma série de reveses para os russos, que mostram uma série de fraquezas, até certo ponto inesperadas, e uma série de êxitos ucranianos, o que aumenta muito o moral da tropa, a disposição para o combate, e dificulta as ideias de celebração da paz nesse momento porque os ucranianos não vão desistir de tentar retomar o máximo de território possível.”

Apesar de Putin estar acuado, Paulo Filho não acredita que a Rússia possa utilizar armas nucleares táticas no sul ucraniano neste momento, por receio de isolamento completo da comunidade internacional. Do lado ucraniano, o especialista destacou que, além de consolidar sua contraofensiva no sul, Kyiv terá um desafio maior: ter êxito também no leste.

“No Donbas, o conflito é mais acirrado. Ele vem desde 2014, com posições defensivas dos dois lados estabelecidas, as tropas dos dois estados rebeldes [Luhansk e Donetsk] são mais experimentadas, conhecem bem o terreno. Eu acho que vai ser uma ofensiva mais difícil para os ucranianos no leste do que no sul, embora em nenhum lugar vá ser fácil”, alertou Paulo Filho.


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MANIFESTANTES QUE PEDEM INTERVENÇÃO MILITAR PODEM SER PROCESSADOS?

O que diz a lei
Entenda os limites dos protestos

Por
Renan Ramalho
Brasília

BRA104. BRASÍLIA (BRASIL), 15/11/2022. – Simpatizantes del presidente de Brasil, Jair Bolsonaro, protestan en el Cuartel General del Ejército, hoy, en Brasilia (Brasil). Miles de bolsonaristas se concentraron este martes, día de la República, ante los cuarteles de varias ciudades brasileñas para pedir una intervención militar con el propósito de impedir la investidura del presidente electo, Luiz Inácio Lula da Silva. EFE/ Joédson Alves


Manifestantes diante do QG do Exército em Brasília: “Forças Armadas, salvem o Brasil” é um dos bordões mais usados nos atos em frente aos quartéis| Foto: Joédson Alves/EFE

Manifestantes que pedem intervenção das Forças Armadas para reverter o resultado da eleição presidencial podem ser processados? Esta é uma discussão que passou a ser feita, no mundo jurídico, desde que eclodiram os atos populares contra a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na última terça-feira (15), feriado da Proclamação da República, milhares de pessoas participaram de manifestações em frente a quartéis na maioria das capitais e das grandes cidades do país.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), já determinou que as polícias identifiquem os organizadores e financiadores do que chama de “atos antidemocráticos”. As Forças Armadas, por outro lado, defenderam, em nota, os direitos constitucionais à livre manifestação do pensamento e à liberdade de reunião, desde que realizada pacificamente.

Para entender, afinal, quais os limites dessas manifestações, e em que medida seus participantes podem ou não ser punidos, a Gazeta do Povo consultou a legislação aplicável, o atual entendimento jurídico em torno dos direitos envolvidos, e um jurista estudioso do tema.

O direito de realizar manifestações está garantido pelo inciso XVI, do artigo 5º da Constituição, que diz que “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

Qual é a jurisprudência do STF sobre o direito a manifestações
No STF, os julgamentos mais relevantes sobre o tema, no período recente, foram realizados em 2011, quando os ministros consideraram válidas as chamadas marchas da maconha. Na época, discutia-se se eram constitucionais um dispositivo da lei antidrogas que penalizava o ato de  “induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga” e outro do Código Penal que criminalizava o ato de “fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime”.

Os ministros consideraram que, no caso das marchas da maconha, esses crimes não ocorriam, por entenderem que nessas manifestações, não havia estímulo a um ato criminoso – venda ou consumo de drogas –, mas uma defesa da legalização ou descriminalização dessas condutas.

Na época, firmou-se o entendimento de que o direito de reunir-se para realizar manifestações é um meio para a livre expressão do pensamento. “O direito à livre manifestação do pensamento: núcleo de que se irradiam os direitos de crítica, de protesto, de discordância e de livre circulação de ideias”, diz a ementa do julgamento.

A discussão sobre a legalização das drogas, afirmaram os ministros, “deve ser realizada de forma racional, com respeito entre interlocutores e sem possibilidade legítima de repressão estatal, ainda que as ideias propostas possam ser consideradas, pela maioria, estranhas, insuportáveis, extravagantes, audaciosas ou inaceitáveis”.

Outra compreensão, formalizada na decisão, foi a de que “nenhuma lei, seja ela civil ou penal, pode blindar-se contra a discussão do seu próprio conteúdo”. “Nem mesmo a Constituição está a salvo da ampla, livre e aberta discussão dos seus defeitos e das suas virtudes, desde que sejam obedecidas as condicionantes ao direito constitucional de reunião, tal como a prévia comunicação às autoridades competentes”. Só no estado de defesa e no estado de sítio, o direito de reunião, e, portanto, de realizar manifestações, ficaria limitado.

Marcha da maconha pode; intervenção militar, não
Se o STF considera válido fazer uma manifestação em favor da possibilidade de fazer algo hoje considerado ilegal – venda e uso de drogas ilícitas – estariam os manifestantes que participam dos atos em frente aos quartéis exercendo seu legítimo direito de reunião, sobretudo se considerarmos que os atos são pacíficos e que, agora, não atrapalham o direito de ir e vir?

Para o procurador regional da República Bruno Calabrich, mestre e professor em Direito Penal, depende muito do tipo de manifestação realizada. Para ele, o Código Penal deixa claro que é crime pedir algo como a intervenção das Forças Armadas para impedir a posse de um presidente eleito pelo voto popular. Uma ação militar desse tipo, ainda que não tivesse êxito e fosse uma mera tentativa, estaria enquadrada no artigos 359-L, que define o crime de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, e 359-M, que classifica o delito de golpe de Estado.


“Sem data para acabar”: um dia entre os manifestantes acampados no QG do Exército, em Brasília
Ambos foram introduzidos no ano passado no Código Penal para substituir a antiga Lei de Segurança Nacional. O artigo 359-L caracteriza-se por “tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais” – a pena é de 4 a 8 anos de prisão, além daquela correspondente à violência do ato. O artigo 359-M, com pena de 4 a 12 anos, é definido pelo ato de “tentar depor, por meio de violência ou grave ameaça, o governo legitimamente constituído”.

São crimes que dificilmente seriam cometidos por populares que estão nas ruas, pois é mais provável que fossem executados por militares armados. Ainda assim, os cidadãos comuns poderiam ser responsabilizados por incitar as Forças Armadas a agir assim. Trata-se do crime previsto no parágrafo único do artigo 286, também introduzido na nova lei de crimes contra o Estado Democrático de Direito e que consiste em incitar, publicamente, “animosidade entre as Forças Armadas, ou delas contra os poderes constitucionais, as instituições civis ou a sociedade”. A pena, no entanto, é bem menor: detenção, de três a seis meses, ou multa.

Trata-se de um crime de menor potencial ofensivo, que não leva efetivamente a pessoa para a prisão – a pena costuma se limitar a pagamento da multa, prestação de serviços à comunidade e limitações que impeçam a pessoa de reincidir. A mesma pena – ou talvez ainda menor – poderia ser aplicada a quem participa dos atos, com base no artigo 29 do CP, que diz que “quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade”.

Pedido de intervenção militar é inconstitucional
Calabrich, no entanto, faz várias observações. Em primeiro lugar, ele rebate o argumento de que se é constitucional pedir a legalização da maconha, seria também a intervenção. “É diferente: quando faz marcha do aborto ou da maconha, não está se dizendo para as pessoas fumarem maconha ou praticarem aborto. Os ativistas vão lá para pedir legalização da maconha ou do aborto. Não é ‘pratique um crime, mas legalize’”.

No caso da intervenção, ele entende que é algo impossível de ser legalizado ou constitucionalizado no atual ordenamento jurídico. “Não existe nenhuma possibilidade de uma emenda constitucional para prever que o Exército vai tomar conta do país. Isso é uma impossibilidade absoluta em nossa Constituição. A única chance disso ocorrer seria por meio de uma revolução para abolir a Constituição, abolindo um fundamento de nossa República.”

Por outro lado, ele não entende ser crime quando os manifestantes se limitam a criticar a atuação do STF ou de seus ministros, bem como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a forma como conduziu o processo eleitoral, inclusive em relação às urnas eletrônicas – vários manifestantes estão indignados porque queriam mais transparência do sistema, suspeitam de fraude na votação, entendem que não houve imparcialidade, de modo a favorecer o presidente eleito Lula e prejudicar o candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) na disputa.

Mas, ainda que os manifestantes insistam num clamor pela intervenção, não necessariamente todos seriam processados. Por duas razões: uma de razoabilidade jurídica e outra de inviabilidade prática. No primeiro caso, o Ministério Público poderia entender que muitas dessas pessoas estão iludidas ou enganadas ao considerarem que isso é algo lícito, provavelmente por uma compreensão heterodoxa e atualmente considerada equivocada do artigo 142 da Constituição, que diz que as Forças Armadas “destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

Predomina no Judiciário e na academia o entendimento de que tal dispositivo serve, no limite, para garantir a segurança externa e interna quando todos os outros meios falham. Não seria uma permissão tácita para os militares agirem quando um dos poderes requisita uma intervenção em outro que estaria ameaçando suas competências, como muitos acreditam.

“Existem muitas pessoas que estão lá iludidas com a premissa de que isso é possível. Ou por ignorância, ingenuidade, acreditam que isso é constitucionalmente viável. Não sabem dessa impossibilidade. E aí o MP tem que avaliar: será que elas têm condições de compreender que estão sendo como usadas como massa de manobra. Talvez essas pessoas sejam vítimas e estejam sendo usadas”, diz ele. Nesse caso, seria mais adequado ao Ministério Público denunciar financiadores e organizadores que estão provocando essa agitação com fins políticos ilegítimos – é o caminho já adotado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes.

Por outro lado, ficaria também difícil denunciar caso a investigação conclua que as manifestações não são orquestradas de cima para baixo, de que não há líderes e que toda a estrutura e financiamento vêm de voluntários, pessoas comuns que sinceramente acreditam na causa.

Assim como participantes comuns, alguns ativistas que colaboram voluntariamente com comida, carro de som, faixas, etc, não teriam outros interesses que não o de expressar uma revolta difusa e despropositada. Seria algo a ser esclarecido caso a caso, dentro do processo judicial.

A última dificuldade em processar todos os participantes é de ordem prática. Seria impossível ao MP ajuizar ações contra milhares de pessoas, de uma só vez, com uma enorme sobrecarga a um Judiciário já abarrotado de processos, sobretudo considerando as baixíssimas penas para o crime de incitação. “Não existem pernas dos órgãos para processar. Mas pelo menos devem ser investigados e processados os líderes”, ressalva Calabrich.


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A CRIATIVIDADE NÃO SURGE DO NADA E SIM UM ATO FINAL DE UM PROCESSO

 Danielle H. Admoni – Psiquiatra

Celebrado em 17 de novembro, o Dia da Criatividade nos convida ao desafio de ser inusitado 

A criatividade, por definição, é “a originalidade; de quem tem capacidade, inteligência e talento para criar, inventar ou fazer inovações na área em que atua. A capacidade de inventar, de criar, de compor a partir de um propósito”.

“Na realidade, todos somos criativos. A diferença está no quanto cada um exercita e estimula sua mente. Mas, com a rotina atribulada e o consequente estresse diário, fica difícil não ter a mente sempre sobrecarregada. A boa notícia é que há formas de enfrentar o bloqueio criativo e não perder a habilidade de se reinventar”, afirma Claudia Petry, pedagoga e professora no Instituto de Parapsicologia e Ciências Mentais de Joinville (SC).

E como funciona o processo criativo?

De acordo com a psiquiatra Danielle H. Admoni, preceptora na residência da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM) e especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria); a criatividade é determinada por processos cerebrais complexos que envolvem a interação entre os dois hemisférios cerebrais.

“Foi quebrado o mito de que hemisfério esquerdo é responsável pelo lógico e realista, e que o hemisfério direito, pelo criativo e intuitivo. Praticamente todas as áreas cerebrais estão envolvidas no processo criativo. Aliás, mais do que as áreas cerebrais envolvidas, são importantes os circuitos que conectam essas diversas áreas e a forma como eles interagem para produzir tudo o que constitui a nossa mente”.

Criatividade é mais do que uma epifania

Há quem pense que o ato criativo surge do “nada”, como um momento súbito de inspiração. Não é bem assim. Segundo Claudia Petry, o ato criativo é o resultado final de um processo que se desenvolve desde a elaboração (consciente e inconsciente) até a realização da ideia.

“Uma pessoa altamente criativa é aquela capaz de trazer algo novo ou inusitado, que foge aos padrões habituais já conhecidos. A criatividade depende, em parte, da inteligência, das habilidades e da bagagem cultural da pessoa. No entanto, para aprofundar sua criatividade, o indivíduo precisa ter um objetivo em mente, um desafio, algo que faça alavancar ideias diferenciadas. Na pandemia, por exemplo, muitos foram obrigados a se reinventar, já que a situação anterior foi toda modificada. Nesse momento, ser criativo se tornou praticamente uma imposição para contornar as adversidades que ninguém estava preparado para enfrentar”, pontua a especialista.

 Segundo um estudo da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, publicado no site The Conversation, a criatividade envolve uma interação complexa entre o pensamento espontâneo e o pensamento controlado, ou seja, a capacidade de pensar espontaneamente em ideias e avaliá-las deliberadamente para determinar se elas realmente funcionarão.

O desafio de ser inusitado

A estimulação da criatividade começa já na infância, quando se oferece a chance de desenvolver habilidades de modo amplo, diversificado, dando a liberdade de buscar novos interesses e experimentar novas atividades. “Essa abertura a diversas possibilidades permite ter um desenvolvimento criativo mais amplo em comparação a alguém restrito a atividades comuns, limitadas ou repetitivas”, reforça Danielle Admoni.

Para a psiquiatra, desenvolver criatividade depende da ruptura de possíveis padrões rígidos de pensamento já bem estabelecidos, do desenvolvimento do interesse por outros modos de pensar e experimentar, fugindo daquilo que a pessoa já está acostumada.

“Muitas vezes, esse desenvolvimento depende de um acompanhamento psicoterápico, uma vez que, frequentemente, a pessoa não consegue por si mesma fazer essa ruptura, esse movimento de liberdade. A boa notícia é que estar aberto ao novo já é um importante passo para se livrar do lugar comum”, finaliza Danielle Admoni.

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quarta-feira, 16 de novembro de 2022

MEMBROS DA LAVA JATO VÃO FAZER OPOSIÇÃO AO NOVO GOVERNO

 

Deltan, Moro e Rosângela
As prioridades da bancada da Lava Jato no Congresso
Por
Olavo Soares – Gazeta do Povo
Brasília


Deltan Dallagnol em sessão na Câmara dos Deputdos, em 2016.| Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A eleição de candidatos com histórico de participação na Lava Jato e no combate à corrupção pode trazer o tema novamente aos holofotes no Congresso Nacional a partir de 2023. O deputado federal eleito Deltan Dallagnol (Podemos-PR) e o senador eleito Sergio Moro (União Brasil-PR), que se consagraram como principais nomes da operação responsável pela prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), devem atuar de forma conjunta para a defesa de pautas como o fim do foro privilegiado e a detenção de condenados em segunda instância judicial. A deputada federal eleita Rosângela Moro (União Brasil-SP), esposa do ex-juiz, também fará parte da “bancada da Lava Jato”.

Deltan avalia que a atuação do Congresso pode abrir caminhos “para que surjam novas Lava Jatos”. Ele foi o candidato mais votado para a Câmara no Paraná. Moro também teve um triunfo eleitoral de peso, ao superar o veterano Alvaro Dias (Podemos-PR), que buscava o quarto mandato consecutivo no Senado. Já Rosângela obteve 217 mil votos em São Paulo, número maior do que o de nomes como o ex-presidente do PT Rui Falcão e o deputado Capitão Augusto, vice-presidente nacional do PL.

Ex-coordenador da Lava Jato no Ministério Público Federal (MPF), Dallagnol diz que pode apresentar “mais de 30 projetos de lei” relacionados ao combate à corrupção e outras áreas. “Tenho projetos na área de combate ao crime e à corrupção, segurança jurídica, reforma administrativa, reforma tributária, reforma política e de cuidado com as pessoas, incluindo uma política pública nacional para o autismo.” Ele afirma que vai “estudar qual a melhor estratégia” para emplacar seus projetos, o que pode incluir o endosso a propostas de outros parlamentares que já estejam em tramitação.

Dallagnol avalia que o Brasil passou por “retrocessos recentes impostos pelo Supremo [Tribunal Federal] e pelo Congresso” no combate à corrupção. Segundo ele, as Dez Medidas Contra a Corrupção, conjunto de propostas do Ministério Público apresentadas em 2015, tiveram apreciação tímida por parte do Congresso. Segundo o deputado eleito, algumas dessas proposições são “essenciais”. Ele especifica como exemplos a “criminalização adequada do caixa dois eleitoral e do enriquecimento ilícito do funcionário público”.

A “bancada da Lava Jato” estuda se aproximar de outros parlamentares envolvidos com a temática anticorrupção para emplacar seus projetos. Segundo Deltan Dallagnol, uma estratégia é “engrossar” frentes parlamentares sobre o tema. Uma delas é a Frente Parlamentar Mista Ética Contra a Corrupção (FECC), encabeçada pela deputada Adriana Ventura (Novo-SP), reeleita em outubro.

A parlamentar confirma que já estabeleceu conversas com o ex-procurador da Lava Jato e diz que conta com ele para reforçar o grupo. Adriana Ventura avalia que discussões sobre o combate à corrupção perderam força no Legislativo, na comparação entre o biênio 2019/2020 e os dias atuais. “O combate à corrupção em 2019 tinha um peso; e foi se perdendo o interesse e o engajamento em torno do assunto. Houve vários retrocessos, e a gente espera que na próxima legislatura isso se reacenda”, diz ela. Segundo a parlamentar, nomes como Dallagnol, Moro e Rosângela podem contribuir, com sua reputação, para o fortalecimento do grupo.

Foco no PT: “não me surpreenderei se surgir um novo megaescândalo”
O futuro deputado Deltan Dallagnol indica que sua atuação como parlamentar deve priorizar denúncias que envolvem o PT, e não as relacionadas ao governo do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Ele minimiza a responsabilidade da gestão Bolsonaro nas irregularidades que envolvem o chamado “orçamento secreto”, como ficaram conhecidas as emendas de relator ao Orçamento Federal, caracterizadas pela falta de transparência na sua distribuição e execução. “Até agora não surgiram evidências do envolvimento do governo federal em desvios, mas sim de autoridades locais de prefeituras que receberam os recursos. E os casos vêm recebendo o devido tratamento das autoridades típicas de investigação”, diz.

O ex-procurador também diz que as denúncias de corrupção que envolvem o Ministério da Educação (MEC) “já estão sendo investigadas pela polícia e pelo Ministério Público”, e por isso não apoiaria, em princípio, o estabelecimento de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o tema. As denúncias no MEC vieram à tona durante a gestão do ex-ministro Milton Ribeiro e envolviam pedidos de propina para a liberação de recursos da pauta. O esquema supostamente seria conduzido por pastores que, mesmo sem ter função pública oficializada, falavam em nome do ministério e negociavam verbas diretamente com prefeitos e outros líderes políticos regionais. Ribeiro deixou o MEC em março e chegou a ser preso por causa do denúncias, mas depois foi liberado.

Por outro lado, Dallagnol indica que a atuação da “bancada da Lava Jato” será focada na fiscalização do governo de Lula. “Considerando o histórico do PT de mensalão e petrolão, não me surpreenderei se surgir um novo megaescândalo de corrupção no novo governo.”

Desde que formalizou sua entrada na política, Dallagnol sempre se posicionou contra o PT, e declarou voto em Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais. “Farei no Congresso oposição qualificada ao projeto de dominação e perpetuação no poder do PT. Defenderei o cumprimento da lei, políticas públicas com base em evidências e os valores cristãos”, publicou o deputado eleito em suas redes sociais pouco após a vitória de Lula, no último dia 31.

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MANIFESTAÇÕES DEMOCRÁTICAS ACONTECERAM NESSE DOMINGO EM TODO O BRASIL

 

Manifestações
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Protesto contra a eleição de Lula em Brasília nesta terça-feira (15)| Foto: EFE/ Joédson Alves

O feriado da Proclamação da República foi marcado por protestos contra a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República e contra o que os manifestantes chamam de “ditadura do Judiciário”.

Pelo menos 13 estados registraram atos, sempre nas proximidades de bases militares. Cartazes com os dizeres “SOS Forças Armadas”, “as eleições foram roubadas” e “Supremo é o povo” eram comuns entre os manifestantes, formados em sua grande maioria por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Estes protestos ocorrem desde a noite de 30 de outubro, quando Lula foi anunciado vencedor da eleição presidencial. Em algumas cidades, como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, manifestantes estão acampados em áreas próximas a bases do Exército desde então. Mas o feriado de 15 de novembro fez com que mais pessoas se deslocassem a esses lugares para protestar.

Atos foram registrados em Brasília, São Paulo, Rio, Curitiba, Florianópolis, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador, Campo Grande, Belém, Manaus e Aracaju. As maiores manifestações ocorreram em Brasília, São Paulo e Rio, com milhares de pessoas.

Na capital federal, eles se reuniram nas proximidades do Quartel General do Exército, no Setor Militar Urbano (SMU). Caravanas e caminhoneiros de outros cantos do país se dirigiram à capital para participar do protesto na capital federal.

A Secretaria de Segurança Pública do DF, por questões de segurança, restringiu o trânsito na Esplanada dos Ministérios e fechou o acesso à Praça dos Três Poderes.

“O fechamento se deu por razões preventivas de segurança, para evitar circulação de veículos e pessoas no mesmo local, pois com a possibilidade de atos públicos na região central de Brasília, como identificado pelos setores de inteligência das forças de segurança. Após o término do evento e dispersão do público, a reabertura da Esplanada será avaliada”, afirmou a SSP da capital federal.

De tarde uma forte chuva que caiu em Brasília dispersou parte dos manifestantes. Alguns grupos, porém, continuaram no local.

Milhares de pessoas protestaram contra o resultado da eleição presidencial em Brasília no feriadão da Proclamação da República | Foto: EFE/ Joédson Alves
Em São Paulo, os atos ocorreram nos arredores do Comando Militar do Sudeste (CMSE), perto do Parque Ibirapuera. E no Rio de Janeiro, eles se concentraram em frente ao Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste (CML), responsável pelo Exército Brasileiro no Rio, Minas Gerais e Espírito Santo.

Nesses locais era comum que manifestantes entoassem coros de “Forças Armadas salvem o Brasil” e “Se precisar, a gente acampa, mas o ladrão não sobe a rampa”, além de cantar o hino nacional e o hino à bandeira. As cores predominantes eram o verde e o amarelo. Apesar do clima pacífico, jornalistas da Jovem Pan foram hostilizados em Brasília e tiveram que deixar o ato sob escolta de militares.

General Villas Boas defende protestos

O ex-comandante do Exército, general da reserva Eduardo Villas Boas, publicou nota em suas redes sociais defendendo os protestos contra o resultado das eleições. Na visão dele, os atos são contra “os atentados à democracia, à independência dos poderes, ameaças à liberdade e as dúvidas sobre o processo eleitoral”.

Villas Boas, que até junho era assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo Jair Bolsonaro, também criticou “a indiferença da grande imprensa” em relação às manifestações e exaltou “a liderança, o equilíbrio, a serenidade e a autoridade” dos comandantes das Forças Armadas e do ministro da Defesa.

Em Nova York, ministros do STF são hostilizados


Manifestantes tentam parar uma van que transportava o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, enquanto descia a Quinta Avenida em Nova York, EUA, em 14 de novembro de 2022 | Foto: EFE/EPA/JASON SZENES

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), em especial aqueles que compõem atualmente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), como Alexandre de Moraes, presidente da corte eleitoral, também são alvo de críticas dos manifestantes que contestam o resultado da eleição presidencial e pedem a apuração pública dos votos.

Na segunda-feira (14), os magistrados foram hostilizados em frente à porta de um hotel em Nova York onde se hospedam para participar do Lide Brazil Conference, evento organizado pelo grupo empresarial do ex-governador de São Paulo João Doria.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram manifestantes hostilizando os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, chamando-os de “ladrão”, “bandido” e outras palavras de baixo calão ao deixarem o hotel. O ministro Ricardo Lewandowski também foi xingado ao sair do local.

Em outros vídeos, no mesmo local, manifestantes vestidos de verde e amarelo e carregando bandeiras do Brasil gritam “SOS Forças Armadas” e “Ei, Xandão, seu lugar é na prisão”, em referência a Moraes. Eles também carregavam cartazes em inglês que pediam o “fim da censura no Brasil”.

O ministro Luís Roberto Barroso, que também foi um dos palestrantes do evento, foi abordado enquanto caminhava pela Times Square. Em um vídeo gravado por ela mesma, uma manifestante diz ao ministro que “o povo brasileiro é maior que a Suprema Corte” e acrescenta: “Cuidado, ein”. Barroso, então, pediu que ela não fosse “grosseira”, se despediu e entrou em uma loja.

Já nesta terça-feira, uma cena semelhante se repetiu. Barroso reagiu a um manifestante que o abordou em Nova York, questionando-o sobre as urnas eletrônicas. “Perdeu, mané. Não amola”, disse Barroso.

A presidente do STF, Rosa Weber, divulgou uma nota de repúdio aos incidentes: “O Supremo Tribunal Federal repudia os ataques sofridos por ministros da Corte, em Nova Iorque. A democracia, fundada no pluralismo de ideias e opiniões, a legitimar o dissenso, mostra-se absolutamente incompatível com atos de intolerância e violência, inclusive moral, contra qualquer cidadão”.


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ALIADOS FICAM DECEPCIONADOS COM O POPULISMO DE LULA

 

Editorial
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O presidente eleito Lula durante reunião com parlamentares no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília, quando fez críticas a políticas de ajuste fiscal.| Foto: Joédson Alves/EFE

Não foram necessárias mais que duas semanas após a eleição de Lula à Presidência da República para que apoiadores notórios começassem a reclamar que o eleito estava se afastando das ideias e propostas que eles esperavam do novo presidente. Entre os apoiadores decepcionados estão os ex-presidentes do Banco Central (BC) Armínio Fraga (presidente do BC de março de 1999 a janeiro de 2003, na gestão de Fernando Henrique Cardoso) e Henrique Meirelles (presidente do BC de janeiro de 2003 a janeiro de 2011, na gestão do próprio Lula). Fraga disse que Lula está se afastando das ideias nas quais ele (Fraga) acredita, enquanto Meirelles afirmou que, a julgar pelas declarações públicas de Lula sobre o que ele pretende fazer, o presidente eleito poderá caminhar para repetir a segunda e desastrada gestão de Dilma Rousseff.

Mas não foram somente apoiadores famosos de Lula que se manifestaram num tom decepcionado em face das declarações do novo presidente quanto à gestão da macroeconomia e suas propostas populistas na questão orçamentária. O grande banco internacional Citibank afirmou que o mercado pode ter se enganado em relação a Lula e que o banco está reduzindo a exposição a riscos no Brasil. As declarações dos economistas e do Citibank estão em vários jornais, e já comentamos neste espaço a palestra de Meirelles na última quinta-feira, quando ele fez seus comentários e desejou “boa sorte” aos que o ouviam.

Em resumo, pode-se dizer que Lula entrou no modo “populismo econômico” antes da posse e passou a fazer discursos em favor de medidas econômicas que nem ele próprio teve coragem de adotar em seu primeiro mandato, quando o ministro da Fazenda Antônio Palocci seguiu a política que vinha do governo anterior de FHC. Palocci caiu em 2006, na esteira do escândalo da quebra de sigilo do caseiro Francenildo Costa, e foi substituído por Guido Mantega, que anos mais tarde seria um dos principais arquitetos da “nova matriz econômica” que levou à maior recessão da história do país.

Lula entrou no modo “populismo econômico” antes da posse e passou a fazer discursos em favor de medidas econômicas que nem ele próprio teve coragem de adotar em seu primeiro mandato

Como Lula fez toda a campanha eleitoral sem apresentar um plano econômico, o fato é que ele se sente livre para fazer o que quiser, inclusive para contrariar os economistas mais liberais que lhe deram apoio, entre os quais estão os autores do Plano Real, que o PT criticou no passado e acusou de “neoliberais”. Nesse sentido, vale recordar alguns aspectos do populismo econômico que, além de ser receita desastrosa para a economia, afugenta investidores privados nacionais e estrangeiros, inibe o empreendedorismo, não resolve o problema da pobreza e joga a economia em recessão.

O mal do populismo econômico é que a estrutura basilar de suas políticas e medidas se baseia na ideia de soluções simplistas e milagrosas, desrespeito à responsabilidade fiscal, gastança desenfreada e inchaço da máquina pública, quase sempre terminando em recessão, desemprego e nenhuma solução estrutural para o problema da pobreza. É sempre oportuna a lembrança do economista Nicolás Cachanosky, professor na Metropolitan State University, em Denver (EUA), que escreveu em 2016 um ensaio sobre “as quatro etapas do populismo econômico”, no qual ele traça o percurso que o populismo faz desde a indignação com a pobreza até as consequências nefastas das soluções adotadas.

Estudando a história e pesquisas feitas por outros economistas no passado, Cachanosky elaborou estudos e chegou à conclusão de que os programas populistas trazem forte intervenção estatal na economia, incentivo desordenado ao consumo, excesso de gastos sem provisão orçamentária, déficits públicos, endividamento governamental e descaso com os investimentos de longo prazo, prática grave especialmente em país com precária infraestrutura física, como é o caso do Brasil. O populismo usa sempre uma retórica atraente: a de que é mais importante ajudar os pobres que se preocupar com responsabilidade fiscal e controle dos gastos públicos. Foi exatamente isso que Lula falou recentemente, dizendo de maneira distorcida que não há sentido em o governo controlar gastos enquanto houver alguém pobre.

Cachanosky descreve os quatro estágios percorridos pelo populismo econômico desde seu início até a derrocada final, e usa vários exemplos, incluindo Argentina, Venezuela e o próprio Brasil. A ideia dos quatro estágios universais do populismo não é nova e já havia sido tratada em artigo publicado em 1990 pelos renomados economistas Rudiger Dornbusch e Sebastián Edwards, sob o título Macroeconomic Populism. Resumindo brevemente, no estágio 1 o populista se coloca ao lado dos pobres, apresenta dados dos flagelos sociais e, em nome de sua suposta bondade humana, ele cria programas assistencialistas que atacam os sintomas dos males sem eliminar as causas. Ao fim desse estágio, a máquina pública já está inchada, os déficits públicos cresceram e a inflação já mostrou suas garras.

As medidas populistas começam em congelamento de preços dos produtos das empresas estatais, como energia, combustíveis e transporte público, e avançam sobre o setor privado. Dilma Rousseff usou desse artifício especialmente no caso da Petrobras; aquilo que parecia uma solução a favor dos pobres terminou em desastre econômico e na mais grave recessão da história, ocorrida em 2015 e 2016. No estágio 2, os pobres que supostamente seriam ajudados começam a sofrer com a inflação, a desorganização do sistema de preços, a escassez de produtos e, invariavelmente, recessão e desemprego. Como todo bom populista, o governante elege vários culpados externos – empresários, especuladores, banqueiros etc. –, sem admitir que o mal está nele mesmo e em seu governo. A Argentina é o exemplo atual mais notório desse figurino.

O mal do populismo econômico é que se baseia em soluções simplistas e milagrosas, desrespeito à responsabilidade fiscal, gastança desenfreada e inchaço da máquina pública, quase sempre terminando em recessão, desemprego e nenhuma solução estrutural para a pobreza

No estágio 3, para agravar a recessão e o desemprego, instalam-se no país a inflação e as crises de abastecimento, cujo quadro se deteriora até o ponto de a situação dos pobres voltar a ser pior que antes do populismo iniciar sua trajetória. O caso da Venezuela é um exemplo dramático e desumano: o PIB caiu mais de 50% em menos de uma década e a tragédia humanitária parece não ter fim, mesmo tratando-se do país com a maior reserva de petróleo do mundo. Como aconteceu na Venezuela, o figurino populista segue com a fuga dos investidores internacionais; os bancos estrangeiros negam novos financiamentos, o balanço com o resto do mundo vai a déficit, o dólar explode e também os capitais nacionais começam a deixar o país.

No estágio 4, após o populista aumentar as doses do veneno de sua política governamental, vêm aumento de impostos, o setor privado definha, o país entra numa crise de graves proporções, o governo enfraquecido perde governabilidade e começam as pressões para ser retirado do poder (como ocorreu no impeachment de Dilma Rousseff, em que a mobilização popular foi importante para que o Congresso julgasse os crimes de responsabilidade efetivamente cometidos). O governo seguinte herda uma economia em frangalhos, problemas sociais piorados e o sacrifício de corrigir as distorções derivadas das políticas que, feitas sob o pretexto de ajudar os pobres, lançaram-nos numa pobreza maior.

A melhor ajuda imediata que se pode dar aos pobres está em programas sociais eficientes, focados, com custos baixos de operação, fontes de financiamento dentro de um orçamento geral construído de forma responsável, crescimento do PIB, geração de empregos, educação e treinamento para os pobres com vistas a salvá-los da sina de viverem dependentes de auxílio governamental. A decepção estampada nas declarações de apoiadores de Lula e a suspensão de atividades por investidores em razão das declarações do presidente eleito podem parecer ato isolado e insuficiente para julgamento sobre o que esperar do novo governo, mas o caráter populista e o descaso com as restrições econômicas na voz do novo mandatário antes da posse são preocupantes e, caso se concretizem, muito mal farão ao Brasil.


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