domingo, 22 de maio de 2022

O BRASIL PODE CONTRIBUIR PARA ALIMENTAR O MUNDO

 

Segurança alimentar

Por
Marcos Tosi – Gazeta do Povo

EXPEDIÇÃO SAFRA 2018/2019 – COLHEITA DE SOJA EM CÂNDIDO MOTA/SP – José Pascoal Paliarini, produtor rural – FOTO: MICHEL WILLIAN/GAZETA DO POVO – 08/02/2019


José Pascoal Paliarini, produtor rural de Cândido Mota, SP, durante colheita de soja da safra 2018/19| Foto: Michel Willian / Arquivo Gazeta do Povo/Michel Willian/Gazeta do Povo

No espaço de poucas semanas, acendeu-se o alerta de que o momento de insegurança alimentar pode rapidamente evoluir para um quadro de fome global. A Organização Mundial do Comércio (OMC) apelou ao Brasil para aumentar sua produção de grãos; a Ucrânia busca desesperadamente saídas para os cereais estagnados atrás das linhas de conflito; nos EUA, a inflação dos alimentos bateu quase 10% e levou o presidente Joe Biden a conclamar os agricultores a cultivarem uma segunda safra – apesar dos elevados riscos climáticos e da curta janela de produção no hemisfério Norte.

Quando se fala de segurança alimentar e produção agrícola, o desenho geopolítico global simplesmente não permite não dar ao Brasil um papel de destaque. Há quatro décadas, pelo menos, o país tem espantado os competidores com a capacidade de expandir sua produção. Tomando como exemplo a soja, principal cultivo de exportação, enquanto a produção global cresceu 7,73 vezes de 1970 a 2017, as colheitas brasileiras no mesmo período cresceram 76 vezes: de 1,5 milhão de toneladas em 1970 para 114 milhões de toneladas em 2017. Em 2021 a projeção era de colheita de 138 milhões de toneladas, mas ficou pouco acima de 120 milhões por causa da estiagem na região Sul.

País tem vasto estoque de terras agricultáveis
Além dos ganhos de produtividade, nenhum outro país do mundo tem tanto estoque de terras. A Embrapa estima que o País dispõe de pelo menos 30 milhões de hectares de áreas subutilizadas ou de pastagens degradadas que ainda podem ser convertidas à agricultura, sem derrubar uma árvore. Hoje as plantações ocupam 67 milhões de hectares.

No nível diplomático, a resposta ao apelo da OMC para o Brasil produzir mais alimentos foi dada pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, que assegurou: “Terão mais alimentos, com toda certeza. Ano após ano, aumenta nossa produtividade, quer seja na agricultura, quer seja na pecuária”.

À exceção de anos de frustrações climáticas, o país realmente vem batendo sucessivos recordes na produção agropecuária. Neste novo ciclo, em que pese a alta dos custos de itens essenciais como diesel, fertilizantes e defensivos, o Ministério da Agricultura vê condições favoráveis para algum otimismo.

“Existe hoje, sim, apetite do produtor brasileiro para plantar. Porque ele está capitalizado e as principais commodities agrícolas estão valorizadas. A relação de troca dessas commodities, como soja e milho, ainda é lucrativa para o produtor”, pontua Luiz Rangel, diretor de programas do Ministério da Agricultura.

Se o mundo quer mais alimentos, precisa aportar financiamentos

Na avaliação de Rangel, ainda que o governo federal trabalhe para aumentar a oferta de crédito oficial para os agricultores, a maior contribuição deverá vir de outros eixos de financiamento. Em outras palavras, se o mundo precisa de mais comida do Brasil, também terá de participar no financiamento desse esforço. A nova lei do agro, aprovada em 2021, criou os Fiagros – fundos de investimentos no agronegócio, talhados para serem mais atrativos ao investidor.

“Essas conversas e apelos da ONU e da FAO devem ajudar a atrair esses investimentos. O Brasil tem uma grande companhia de minérios, que é a Vale, e cujo financiamento não precisa ser público. Acho que o mesmo pode ocorrer na agricultura”, sublinha Rangel, destacando que os recursos oficiais, escassos, tendem a ser direcionados para políticas públicas de apoio a pequenos e médios produtores. Atualmente, apenas 30% da produção está atrelada ao financiamento público.

A pujança do agro estaria despertando o interesse de novos bancos de operar no país, com destaque aos chineses, atraídos pelo tamanho da parceria comercial (o Brasil é o maior fornecedor de alimentos para o país asiático). Para além desses recursos internacionais, Rangel aponta que a produção agrícola é ancorada por uma parcela expressiva de produtores que se autofinanciam e pela popularização das operações do barter – uma espécie de escambo em que o agricultor troca seus produtos por insumos e fertilizantes, diretamente com as tradings.

Para ex-ministro Roberto Rodrigues, momento exige plano de guerra

Um cenário de guerra exige medidas extraordinárias para alavancar o plantio de alimentos. É o que está posto hoje para o Brasil, segundo o ex-ministro da Agricultura e coordenador de estudos do agronegócio na Fundação Getúlio Vargas, Roberto Rodrigues. A oportunidade estaria no iminente anúncio de um novo plano safra. “É preciso compreender que num cenário de guerra não se pode fazer nada convencional. Vamos demonstrar ao mundo que podemos atender a demanda por alimentos de qualidade e de forma sustentável. É hora de a nação inteira se mobilizar. Pô, mas não tem dinheiro? Bom, vamos dobrar o compulsório dos bancos privados, vamos colocar dinheiro no crédito rural. Vamos chamar as tradings para fazer barters muito mais profundos, mais amplos”.

“Os produtores estão prontos. Produzir 310 ou 320 milhões de toneladas não é um fantasma ou coisa absurda. Mas tem que ter um empurrão do tamanho da guerra”, enfatiza. Investimentos paralelos, em estradas e portos, poderiam dar resultados em sete a oito meses, ainda em tempo de ajudar no escoamento da próxima safra de verão – defende Rodrigues. “Isso tudo gera emprego na veia. É preciso uma ofensiva diplomática também. É incrível que o Brasil não tenha um acordo comercial com a Índia. Podemos correr atrás desses acordos comerciais e nos comprometermos a aumentar a produção de milho, por exemplo, para 130 milhões de toneladas. Não tenho a menor dúvida de que, havendo essa orquestração, haverá resposta rápida”.

Crescimento da produção é “garantido” no longo prazo
O Brasil é um dos poucos países com vastas áreas do território propícias para fazer duas e até três safras ao ano. Em termos de longo prazo, só não haverá multiplicação das colheitas se o país “der um tiro no pé”, avalia o engenheiro-agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja Décio Luiz Gazzoni. Ele é cético, contudo, quanto à possibilidade de uma resposta rápida. “No curto prazo, tudo teria de dar certo. Precisaria ter dinheiro para investimento e resolver a crise de fertilizantes. A indústria de sementes teria que dizer que tem mais sementes do que o normal, o que não é verdade, por causa da última seca. Precisaríamos ter mais caminhões, dizer que melhoramos as estradas e os portos. E não é bem assim. É muita coisa que depõe contra”, considera.

Segundo a FAO, de todo o volume que precisará ser acrescentado à produção global de alimentos para alimentar 9 bilhões de pessoas em 2050, cerca de 40% terá de vir do solo brasileiro. O cenário atual acrescentou urgência a esse desafio, ao mesmo tempo em que a questão ambiental também não pode ser ignorada. “O mundo não quer saber se o desmatamento é legal ou ilegal. Estão dizendo chega, para de desmatar, e não importa que sejam áreas excedentes ou que tenhamos a legislação florestal mais severa de todas”, avalia Gazzoni.

Eucir Brocco, produtor de grãos de Pato Branco, no Paraná, durante ciclo 2018/19| Michel Willian / Arquivo Gazeta do Povo
Produzir mais é bonito, mas não é tão simples
O discurso de que o País pode pôr mais alimentos à mesa global, em curto prazo, pode “até parecer bonito, mas não é tão simples”, avalia Glauber Silveira, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho). “O governo não está conseguindo nem arcar com os compromissos do plano da safra passada. Todo ano é essa novela, essa mendicância por recursos, o que não acontece com nossos competidores. Estamos com problema de armazenagem, passamos por um momento de preços de fertilizantes exorbitantes. Não conseguimos no curto prazo responder a ninguém”, desabafa.

“Ah, mas dizem que o presidente Bolsonaro apoia o Agro. Sim, ele apoia, mas ele não presidente só do agro, é do Brasil inteiro. O Ministério da Agricultura não tem autonomia. Depende do Paulo Guedes, de um monte de técnicos, de lei do Congresso. O Brasil tem um problema seríssimo que chamo de politicagem e de radicalismo ambiental, que nos impedem de ser uma grande nação”, sublinha Silveira.

Qualificação da pecuária “devolve” áreas para agricultura
A disparada no custo dos fertilizantes dificulta a missão de extrair mais alimentos de áreas consolidadas para a agricultura, muitas das quais, de qualquer forma, já atuam próximo das máximas de produtividade. Gazzoni, da Embrapa, vê grande potencial em pastagens “devolvidas” pela pecuária, na medida em que os criadores intensificam o uso da tecnologia e precisam de menos campo aberto para o gado.

Quanto à abertura de novas áreas, mesmo dentro da legalidade, o ritmo pode estar desacelerando. No sul do Tocantins, em Gurupi, o produtor Douglas Daronch, 37, relata o momento. “O pessoal daqui não está expandindo muito mais, não. A expansão hoje é de gente que vem de fora, do Mato Grosso e da Bahia, e que chega já capitalizada”, conta. O próprio Daronch está poupando recursos e negocia a compra de uma área bruta, de 350 hectares, para somar aos atuais 500 hectares, cultivados na forma de arrendamento. Mas ressalva que “é para daqui dois anos, e não tem nada certo ainda”. “Cada um tem uma política de expansão. Eu não gosto de expandir com rapidez, prefiro primeiro consolidar a área, construir perfil do solo, para depois aumentar. Sou mais pé no chão”, conclui.


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ATRASO BRASILEIRO TIRA OS MELHORES DO TRABALHO PARA OUTROS PAÍSES

 

Editorial
Por
Gazeta do Povo


| Foto: Rudy and Peter Skitterians/Pixabay

O Ministério das Relações Exteriores divulgou que o número de brasileiros vivendo no exterior em 2020 era de 4,2 milhões, um aumento de 35% em comparação com 2010, quando os brasileiros que emigraram eram 3,1 milhões. Porém, há quem afirme que o total de brasileiros espalhados pelo mundo pode chegar ao dobro do informado nas estatísticas oficiais. Ainda assim, tanto o total oficial quanto o crescimento da emigração são indicadores elevados e merecem ter seus motivos examinados na tentativa de entender por que tantos brasileiros desistem do país, mesmo com as agruras e dificuldades inerentes à opção de viver no exterior.

De qualquer modo e sem esgotar o problema, pode-se afirmar que há pelo menos quatro motivos capazes de explicar, quando não o problema todo, pelo menos parte dos motivos para abandonar o país, que é uma decisão corajosa e com muitos obstáculos pelo caminho. O primeiro motivo é o atraso econômico, político e social brasileiro, principalmente as baixas taxas de crescimento nos últimos 50 anos, longe de serem suficientes para oferecer perspectivas e oportunidades amplas de trabalho e crescimento pessoal para uma população que saiu de 94 milhões no início de 1971 para 214 milhões no fim de 2021.

A crença de que o Brasil não vai dar certo – esteja ela certa ou errada, exagerada ou não – levou e continuará empurrando brasileiros a emigrarem para nações que lhes parecem oferecer um futuro melhor

O baixo crescimento econômico nos últimos 50 anos se desdobra em medíocre aumento da renda per capita, baixos salários médios em comparação com as nações desenvolvidas, taxa de desemprego alta e pobreza. Nesse quadro, jovens e profissionais experientes não vislumbram um futuro promissor e a decisão de ir embora vai se firmando até se concretizar para grande parte deles. O segundo motivo é o peso do mastodôntico setor estatal, com seus altos impostos, excessiva intervenção na vida das pessoas e empresas, serviços públicos insuficientes e de baixa qualidade, corrupção generalizada, leis instáveis e confusas, insegurança jurídica e instabilidade política.

O terceiro motivo é a convicção de que o país não conseguiu nem conseguirá aplicar fórmulas para ter crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 5% ao ano, taxa necessária para almejar entrar no clube das nações desenvolvidas até 2050. A realidade dos últimos 40 anos, em especial após a redemocratização a partir de 1985 e da nova Constituição em 1988, tem levado muitos a não acreditarem que o Brasil será capaz de deixar a condição de país subdesenvolvido nas próximas três décadas, porquanto os vícios econômicos, éticos, políticos e culturais que impediram o êxito passado são os mesmos que, para os descrentes, irão impedir o êxito futuro. Algum desenvolvimento o país terá, mas sem que isso seja suficiente para convencer brasileiros a não emigrarem em busca de uma vida melhor.


O quarto motivo é uma espécie de sentimento que passou a povoar a mente de legiões de brasileiros: a sensação de que o país não irá mudar e não deixará de ser que o tem sido, com aquelas características que têm mantido o atraso e a pobreza, mesmo com abundantes recursos naturais e um elevado espírito empreendedor de seu povo. Certa ou errada, a percepção é de que a essência do Brasil consiste em baixo crescimento econômico e vida política ineficiente, imoral e corrupta. As pessoas deixam o país em função da realidade dos fatos que atingem suas vidas e de suas famílias, de um lado, e sua descrença no país, de outro. A crença de que o Brasil não vai dar certo – esteja ela certa ou errada, exagerada ou não – levou e continuará empurrando brasileiros a emigrarem para nações que lhes parecem oferecer um futuro melhor.

Esses aspectos todos podem ser analisados e vistos por ângulos diferentes, com mais ou menos pessimismo, mas as pessoas agem e reagem diante de seus problemas e dos fatos nacionais, da forma como elas interpretam esses fatos e das crenças que formam para si próprias. Os fatos negativos de suas vidas são alimento para formar crenças negativas sobre o país e desesperança com o futuro. Por isso, os altos índices de emigrantes que vão buscar um futuro fora do Brasil não revelam toda a gravidade do desencanto com o país, pelo simples fato de que há muitos outros que gostariam de ir embora, mas não o fazem por razões diversas. Não se trata de usar essa realidade para falar mal do Brasil gratuitamente, mas prestar atenção e tentar entender a essência do problema, suas causas e consequências e que soluções ajudariam a melhorar a realidade que aí está.


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O BRASIL QUER OS BRICS FORTES

 

Proposta de expansão

Por
Luis Kawaguti – Gazeta do Povo

AME4460. BRASILIA (BRASIL), 14/11/2019.- El presidente de Brasil, Jair Bolsonaro (d), habla con un asesor militar junto al presidente de Rusia, Vladimir Putin, en el evento de Diálogo de Líderes con el Consejo Empresarial BRICS y el Nuevo Banco de Desarrollo (NBD) este jueves en Brasilia. Los líderes de Brasil, Rusia, India, China y Sudáfrica acordaron este jueves ampliar las actividades y el número de socios del NBD, fundado por el foro BRICS en 2014, aunque sin establecer plazos ni metas. EFE/Andre Coelho


Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e do Brasil, Jair Bolsonaro, em evento dos Brics em Brasília, em 2019| Foto: EFE/André Coelho

Em uma reunião virtual dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) na quinta-feira (19), o chanceler chinês, Wang Yi, defendeu a inclusão de mais nações no bloco de países de economias emergentes. Essa parece ser uma grande oportunidade para o Brasil embarcar em uma aliança que parece estar se fortalecendo no contexto de sanções à Rússia por causa da invasão à Ucrânia, certo?

Não necessariamente, pelo menos não no contexto do atual governo brasileiro. A administração de Jair Bolsonaro vê com certa desconfiança a possibilidade de um emaranhamento mais profundo com os Brics, especialmente com a China – segundo este colunista apurou junto à cúpula do governo brasileiro.

Então por que o governo Bolsonaro se aproximou de Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia e agora seus diplomatas parecem fazer malabarismo para amenizar as críticas a Moscou em fóruns internacionais? Isso ocorreu no Conselho de Direitos Humanos da ONU, no dia 12, quando o Brasil tentou amenizar palavras críticas à Rússia na votação de uma resolução. E voltou a acontecer no dia 19, quando todos os Brics defenderam que a Rússia não deve ser excluída do G20 – como havia sinalizado o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

A resposta principal para essa postura é a dependência do agronegócio brasileiro em relação aos fertilizantes da Rússia, que hoje representam um quarto das importações brasileiras desse tipo de produto.

Por ora, a compra de fertilizantes de Moscou não é objeto de sanções dos EUA – que estão preocupados com uma possível crise mundial de alimentos. O Brasil até conseguiu negociar cotas do produto que, antes das sanções à Rússia, seriam destinadas ao mercado europeu.

Em segundo plano, vem o interesse brasileiro em tentar adquirir tecnologia militar da Rússia, como relatei na coluna da semana passada.

O Itamaraty, por sua vez, afirma que adota uma posição de equilíbrio em relação à Rússia. A pasta defende, por exemplo, que uma investigação independente seja realizada antes que sejam feitas acusações de crimes de guerra contra a atuação de militares russos na Ucrânia. Também é favorável à ideia de que um G20 intacto pode ajudar a tirar o mundo da crise econômica.

Na reunião dos Brics, seus membros defenderam ainda a habitual pauta de aumentar a influência dos países emergentes nos órgãos que definem as normas do comércio internacional. Os ministros de relações exteriores também reiteraram seu compromisso com o multilateralismo, no qual estados soberanos cooperam para a paz por meio da ONU.

A pauta do multilateralismo
A invasão da Ucrânia pela Rússia vem sendo interpretada por muitos analistas internacionais como uma tentativa de Moscou de contestar a hegemonia global americana, em nome de uma ordem mundial multilateral.

Alguns leitores descontentes com as deficiências das democracias ocidentais e que veem um caráter predatório na expansão para leste da OTAN (aliança militar ocidental) passaram então a aplaudir a Rússia. Conversei com alguns deles e percebi que começaram a ver Moscou e Pequim como os novos aliados naturais do Brasil.

Sinto frustrá-los, mas isso não deve acontecer por ora.

A administração atual tem uma série de críticas ao posicionamento do Ocidente em relação à questão ambiental na Amazônia, por exemplo, mas isso não significa alinhamento automático com os rivais dos EUA e dos europeus.

A questão da Amazônia é emblemática. Isso porque muitas pessoas viram no ano passado um suposto apoio de Moscou ao Brasil, com o veto na ONU de uma proposta segundo a qual temas de segurança internacional relacionados a mudanças climáticas deveriam ser decididos no Conselho de Segurança da ONU. O temor era de que o destino da Amazônia pudesse ser decidido nas Nações Unidas.

Mas o veto de Moscou era, na realidade, para proteger seus próprios interesses, por possuir uma área florestal ainda maior que a Amazônia, na Sibéria.

Ou seja, mesmo sendo crítico a posicionamentos americanos e europeus, o Brasil se preocupa com a dependência econômica cada vez maior em relação à China. Há um temor crescente em relação à expansão supostamente “predatória” de Pequim sobre a África e a América do Sul. Além disso, o apetite comercial de Rússia e Índia também está longe de ser visto com simpatia pelo Brasil.

Isso não significa que o país vá se afastar dos Brics (até porque isso seria muito difícil diplomaticamente). Mas parece que Brasília não vai apostar num aprofundamento irrestrito das relações com o bloco. Isso mesmo em um cenário em que os Brics ganhem maior força e importância devido a uma possível aproximação de Rússia e China, por causa da invasão da Ucrânia.

Ou seja, a perspectiva mais provável é que o Brasil mantenha sua posição de pragmatismo, fechando os acordos mais vantajosos, mas sem investir em nenhuma rede de alianças internacionais.

É claro que tudo isso pode mudar com as eleições deste ano no Brasil. Existe a possibilidade de que a perspectiva de alinhamento com a Rússia e com a China encontre maior amparo em eventuais candidatos da esquerda – segmento político historicamente mais amigável a essas potências. Mas precisaremos ouvir as propostas dos candidatos antes de nos aprofundarmos nesse tipo de análise.

Os EUA querem evitar a guerra com a Rússia ou apoiar a vitória da Ucrânia?

O que podemos esperar daqui para frente no contexto internacional é uma possível aproximação de Rússia, Índia e China. Moscou deve entrar nesse jogo com suas fontes de energia e matéria-prima e Pequim e Nova Déli com a capacidade manufatureira.

Temerosa do bloqueio das reservas internacionais da Rússia em dólar, por causa da guerra, espera-se também da China uma intensificação da tendência de fazer negócios com sua moeda nacional, o yuan, em detrimento do dólar.

Os Estados Unidos, por sua vez, devem tentar capitalizar a falta de apetite chinês para criticar a guerra promovida pela Rússia. É quase certo que Washington deve voltar a tentar frear o crescimento da influência global da China, dessa vez usando como argumento o apoio de Pequim a Moscou.

Os americanos vivem também um dilema em relação à guerra na Ucrânia, segundo editorial do jornal The New York Times publicado na semana passada: apoiar a Ucrânia até a vitória total, mesmo que isso demore, ou tentar minimizar a possibilidade de um confronto direto com a Rússia.

Washington aprovou no Senado um pacote de ajuda financeira e militar à Kyiv de US$ 40 bilhões (R$ 195 bilhões) na quinta-feira. Mas republicanos isolacionistas já começam a fazer críticas e a coalizão americana que dá suporte à Ucrânia pode se desfazer no futuro.

Os partidários de uma intensificação da ajuda à Ucrânia contra a Rússia argumentam que só uma vitória total sobre Moscou em território ucraniano vai garantir a paz. Segundo eles, um acordo de paz no momento só postergaria uma nova guerra e daria tempo para os russos se prepararem melhor.

Já a outra corrente de pensamento argumenta que seria melhor tentar convencer os ucranianos a ceder território para chegar a um acordo de paz. Ao se reduzir a duração do conflito, diminuiria-se também a possibilidade de que um erro de cálculo provocasse a escalada do conflito para uma guerra direta entre a Rússia e a OTAN.

“Uma vitória da Ucrânia sobre a Rússia com o apoio dos Estados Unidos e da União Europeia é tecnicamente viável, mas politicamente é muito difícil que se concretize”, afirmou o especialista em análise de riscos e major da reserva do Exército Nelson Ricardo Fernandes Silva.

Segundo ele, a Rússia ainda tem uma grande quantidade de tropas e equipamentos para utilizar na guerra, enquanto a Ucrânia opera no limite dos seus recursos materiais.

As fábricas de armas e munições ucranianas estão sendo sistematicamente destruídas pela Rússia. Os depósitos e refinarias de combustível foram aniquilados e a Ucrânia já lida com problemas de mobilidade.

Por causa disso, o fluxo de armamentos e ajuda financeira das potências ocidentais terá que ser cada vez maior para que a Ucrânia consiga começar a pensar em uma contraofensiva.

“Na medida em que o efeito desses custos for chegando nas economias europeias e americanas, o apetite para a ajudar a Ucrânia pode começar a cair”, opinou o analista.

Por outro lado, isso não significa que o apoio está prestes a acabar, ao menos não nos Estados Unidos. Com a aprovação do atual pacote, a ajuda à Ucrânia chega a US$ 54 bilhões. Isso equivale a menos de um décimo do orçamento anual de defesa americano, que é de US$ 750 bilhões.

Washington por ora está numa posição confortável, na medida em que enfraquece a Rússia, seu rival geopolítico, sem o ônus de perder soldados no campo de batalha. Mas cresce o receio de que essa arriscada estratégia desencadeie eventualmente um novo conflito global.


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COMUNIDADE HOMESCHOOLING SATISFEITA COM A APROVAÇÃO DO PROJETO

Ensino domiciliar
Por
Leonardo Desideri – Gazeta do Povo
Brasília


Projeto de lei do homeschooling foi aprovado pela Câmara dos Deputados e seguiu para o Senado.| Foto: Standsome/Pixabay

A aprovação do projeto de lei do homeschooling (PL 3179/2012) na Câmara na última quarta-feira (19) foi um marco histórico para o homeschooling no Brasil. Mas o texto do projeto não é unanimidade na comunidade ‘homeschooler’ do país, composta hoje por cerca de 17 mil famílias, segundo estimativa do Ministério da Educação. Entre os líderes das associações de ensino domiciliar e as famílias que aderem à prática, há uma diversidade de opiniões sobre o documento que avançou para o Senado.

A maioria considerou o resultado uma vitória, mas há divergências sobre o tamanho da conquista. Por um lado, a regulamentação é vista como um primeiro passo para quebrar o tabu, normalizar o homeschooling na sociedade e diminuir a perseguição contra seus adeptos. Por outro, a não aprovação das emendas ao texto-base decepcionou algumas famílias e associações, que esperavam, por exemplo, que se derrubassem a possibilidade de perda perpétua do direito ao homeschooling em caso de reprovação do estudante e a obrigatoriedade de que os pais ou tutores tenham ensino superior.

“Nunca tivemos ilusões de que teríamos uma lei perfeita. Longe disso. Mas sempre tivemos uma preocupação de que houvesse uma lei que fosse mais restritiva e que pudesse inviabilizar a prática. Mas seguimos. É um projeto de razoável para bom. Eu acho que a gente avançou bastante. Demos um grande passo só em tirar desse limbo jurídico as famílias processadas. É um novo alento para que elas continuem praticando o homeschooling, e com isso eu já fico muito feliz”, diz Rick Dias, presidente da Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned).

Para Rafael Vidal, fundador da Associação de Famílias Educadoras do Distrito Federal (Fameduc-DF), trata-se do “projeto possível”. “Ele não é tão rígido. Não será tão difícil para as famílias que estiverem atrás dos diplomas, da regulamentação, cumprirem o que está lá”, diz.

Nos últimos meses, aumentou o senso de urgência da comunidade homeschooler em relação à aprovação do projeto, por conta da proximidade das eleições. Uma possível mudança substancial na composição do Executivo ou do Legislativo a partir de 2023 poderia travar a discussão e manter ou até agravar a insegurança jurídica das famílias educadoras.

Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que o homeschooling não era inconstitucional, mas que seria necessária uma lei para regulamentá-lo. Mesmo com essa decisão, por conta da falta de legislação, pais e responsáveis ainda ficam sujeitos a denúncias pelo crime de abandono intelectual, previsto no artigo 246 do Código Penal. Por isso, a regulamentação é vista como um alento.

“A gente sabe que, no Brasil, jamais ia ser aprovada uma lei completamente liberal. Dadas as circunstâncias, nós apoiamos o projeto como ele está agora. Acreditamos que é uma batalha vencida. Gostamos do resultado. O fato de conseguirmos tirar famílias do limbo jurídico, de termos as instituições orientadas a entender educação domiciliar como uma modalidade, para nós, faz diferença”, diz Vanessa Fernandes, fundadora da Faedusp (Famílias Educadoras do Estado de SP).

Perda perpétua do direito ao homeschooling em caso de reprovação é ponto mais criticado

O texto-base do projeto, que foi aprovado sem emendas, teve a relatoria da deputada Luisa Canziani (PSD-PR) e foi fruto de negociação da comunidade homeschooler com membros do Congresso ao longo dos últimos anos. Ele altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), permitindo a educação domiciliar “por livre escolha e sob a responsabilidade dos pais ou responsáveis legais pelos estudantes”.

Para os adeptos da educação domiciliar, será obrigatório matricular os estudantes em uma instituição de ensino particular ou pública, que avaliará anualmente os alunos. Para cada ano, os pais ou responsáveis deverão cumprir os requisitos curriculares previstos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Eles também precisarão enviar à instituição de ensino um relatório trimestral das atividades realizadas com seus filhos. O texto também pede “garantia, pelos pais ou responsáveis legais, da convivência familiar e comunitária do estudante”, sem especificar como isso deve ser feito.

Caso um educando reprove duas vezes seguidas na avaliação feita pela instituição de ensino em que ele estiver matriculado, seus pais perderão de maneira perpétua o direito ao exercício da educação domiciliar. Esse é o ponto da lei mais criticado pelas associações de homeschooling. Uma emenda que tentou derrubar esse item não foi acatada pelo Congresso.

“A própria Constituição veda a possibilidade de uma pena perpétua. Nem para os crimes gravíssimos há pena perpétua. Por que em um caso como esse a família vai perder totalmente o direito? No meu caso, eu tenho quatro filhos em idade escolar. Se um deles reprovar, todos vão ter que voltar para a escola? É uma parte do projeto que não está muito clara. Precisa ser melhor esclarecida para as famílias”, diz Diego Vieira, presidente da Associação de Famílias Educadoras de Santa Catarina (Afesc).

Para Rick Dias, a perda do direito “é absurda e contraditória com o próprio projeto”, já que o texto prevê isonomia entre estudantes domiciliares e escolares. “Os estudantes escolares são aprovados sem saber nada, eles simplesmente passam de um ano para o outro sem saber nada, porque não podem ser reprovados. Na época em que o estudante repetia o ano, quando ele repetia, ele não era punido, e o professor não era punido, os pais não eram punidos, e ele não perdia o direito de ir à escola. Eu nunca vi alguém perder o direito de ir à escola porque perdeu o ano. Agora, com o estudante de educação domiciliar, se não passar numa prova por duas vezes, os pais perdem o direito. Não faz sentido. Isso a gente pode judicializar. Se acontecesse comigo, eu colocaria na Justiça, porque a lei prevê isonomia entre estudantes domiciliares e escolares”, afirma.

Rafael Vidal concorda que a previsão de perda do direito à educação domiciliar é injusta. Por outro lado, vê pontos positivos na exigência de se matricular em instituições de ensino. “Vejo uma abertura para um novo mercado. A obrigação de matricular os alunos numa instituição de ensino pode ser uma oportunidade. Podem surgir – e já existem – escolas parceiras. E isso até ajuda famílias, principalmente as mais inseguras, que estão iniciando a educação domiciliar e terão o apoio de uma instituição de ensino”, comenta.

Outra exigência do projeto aprovado é que os pais ou os responsáveis pelo estudante tenham curso superior. Nos dois primeiros anos depois que a lei entrar em vigor, haverá um período de transição, em que os responsáveis que ainda não cumprirem esse requisito terão a chance de aderir ao homeschooling com a condição de se matricularem num curso de nível superior.

A exigência de curso superior também é criticada pela comunidade, mas é vista como um problema menor, já que, caso não tenham nível superior, os pais poderão buscar um preceptor que cumpra esse requisito. “A grande maioria das famílias não tem ensino superior. Isso era um impeditivo para algumas famílias. O fato de terem aberto a chance de haver um preceptor respondendo pela família, isso já colaborou. Muitas famílias que criticavam principalmente esse ponto já não criticaram mais, porque a grande maioria das famílias homeschoolers tem contato com algum professor, tem o auxílio de algum professor”, afirma Diego Vieira.

Regulamentação é vista com desconfiança por algumas famílias
No espectro ideológico das famílias educadoras, há também aquelas que defendem uma liberalização mais radical, e são contra qualquer tipo de interferência do Estado na educação das crianças. Nesse grupo, a aprovação do projeto foi recebida com mais desconfiança. Há o temor, por exemplo, de que a regulamentação possa tirar a liberdade dos pais que já praticam o homeschooling, aumentando a perseguição.

No ano passado, em uma enquete realizada pela Aned com famílias educadoras, a maioria dos pais, mães e responsáveis legais adeptos do homeschooling disse preferir permanecer mais tempo sem uma regulamentação a aderir a uma regulamentação muito restritiva.

“A gente tem várias vertentes de pensamento até mesmo entre as famílias educadoras. Realmente houve pontos em que as famílias se sentiram um pouco invadidas. Mas, explicando mais detalhadamente, muitas delas acolheram as mudanças. A grande maioria acolheu as mudanças”, diz Vieira.

Rick Dias afirma que “algumas pessoas têm amedrontado as famílias educadoras com relação à situação da lei”. “De fato, concordo que, na essência, bom seria mesmo que tivéssemos um olhar mais honesto para a Constituição e esse direito fosse outorgado aos pais sem maiores problemas, como ocorre em muitos países. Mas não é assim. E a gente sabe que, no nosso país, a gente não vai conseguir. Nossa mentalidade escolarizada não nos permite avançar tanto nisso hoje. As poucas famílias que dizem isso [que a regulamentação pode causar perseguição], amedrontadas por outras pessoas, geralmente não foram denunciadas e processadas. As que foram estão clamando pela legalidade. A gente precisa acalmar o Judiciário com relação à perseguição às famílias educadoras. A gente tem que saber usar a lei com muita inteligência em nosso favor. Ao bom entendedor, meia palavra basta. Vamos saber usar essa lei com inteligência”, diz Rick Dias.

Na visão de alguns membros de associações, a regulamentação acabará sendo favorável até mesmo para aquelas famílias educadoras que não desejam se submeter às regras previstas pelo projeto aprovado, já que o homeschooling deixará de ser tabu e seus adeptos passarão a ser menos perseguidos pela sociedade. Além disso, a legitimidade conquistada no campo legislativo poderá ajudar a expandir a prática, tornando-a menos associada a grupos ideológicos específicos.

“Eu vi em um jornal: ‘Vitória do governo Bolsonaro’. Não, é uma vitória das famílias educadoras. É uma pauta que existe muito antes do governo Bolsonaro. Não tem nada a ver com o governo Bolsonaro. Não é somente pauta de bolsonaristas. Há uma diversidade de pensamentos ideológicos. É até um desrespeito falar que é uma pauta bolsonarista. É um anseio das famílias educadoras”, comenta Vieira.


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RÚSSIA E UCRÂNIA UTILIZAM MERCENÁRIOS LATINOS NA GUERRA

Foto: RedaçãoPor Carolina Marins22/05/2022 | 05h00

Com mudança no perfil das guerras e sem legislações apropriadas para mercenários, latinos são contratados em conflitos no Oriente Médio e África

Na Ucrânia, a Rússia substitui seus soldados perdidos por mercenários. Há menos de um ano, o presidente do Haiti foi assassinado supostamente por militares contratados. Nas guerras do Oriente Médio, as batalhas são feitas por combatentes de várias nacionalidades. O uso de mercenários em conflitos é um fenômeno antigo, mas que voltou a ser popular nos últimos 30 anos. Neste cenário, latino-americanos se tornam atrativos por custarem menos que europeus e americanos e possuírem experiência em guerrilha urbana e em florestas.

Não existem dados oficiais de existência e uso de mercenários em conflitos, mas pesquisadores buscam há anos levantar informações de quantos são e de onde vêm. “Rastrear mercenários seria como rastrear cartéis do narcotráfico”, afirma Sean McFate, professor de estratégia militar na Georgetown University e National Defense University

Segundo ele, o mercado de mercenários é uma rede fechada, onde pouca informação vaza e organizações que os vendem e contratam não fazem de forma oficial. Mas ainda é possível ter uma dimensão com base nos relatórios de conflitos dos últimos anos.

Um relatório produzido por McFate em 2019, mostra que as maiores redes são de ex-militares dos Estados Unidos e Reino Unido, muito utilizados nas guerras do Iraque Afeganistão. Em seguida vem as ex-repúblicas soviéticas e as forças especiais da América Latina. Mas os valores dos primeiros, e principalmente, a mudança na maneira de se fazer guerra, tornou os latinos mais atrativos nos últimos anos.

Rebeldes Houthis em uma parada militar no Iêmen. Centenas de latino-americanos foram contratados para lutarem pelos Emirados Árabes Unidos na guerra do Iêmen
Rebeldes Houthis em uma parada militar no Iêmen. Centenas de latino-americanos foram contratados para lutarem pelos Emirados Árabes Unidos na guerra do Iêmen Foto: YAHYA ARHAB/EPA/EFE

“Os mercenários latino-americanos são muito bons no que fazem e também são mais baratos do que mercenários americanos ou europeus”, explica McFate. “Eles sabem lutar não apenas nas cidades, mas nas selvas. Sabem fazer a guerra de guerrilha e contra-guerrilha. E isso os torna muito atraentes porque a maior parte do mundo não gosta disso.”

“Não é como a Segunda Guerra Mundial, então você vê que este tipo de guerra está se tornando cada vez mais comum. Veja a Ucrânia, eles estão fazendo guerrilha contra um ataque convencional da Rússia e estão tendo sucesso. É por isso que os mercenários latino-americanos são altamente cobiçados no mercado da força hoje.”

Presentes no Oriente Médio e África

Grande parte desses mercenários estão lutando em conflitos no Oriente Médio, segundo relatórios. Uma investigação do The New York Times em 2015 revelou que os Emirados Árabes Unidos contrataram secretamente centenas de latino-americanos para lutarem na guerra do Iêmen. Entre as nacionalidades estavam panamenhos, salvadorenhos e chilenos, mas a maioria era de colombianos.

“Todos eles eram veteranos da guerra às drogas, trazendo novas táticas e dureza aos conflitos no Oriente Médio”, aponta o documento de McFate. “Eles também eram uma pechincha, custando uma fração do que um mercenário americano ou britânico cobraria, então os Emirados contrataram 1.800 deles, pagando duas a quatro vezes seus antigos salários”. O professor explica que essas forças contratadas se tornam atrativas para nações sem forças militares fortes e que são muito ricas, como as monarquias do golfo pérsico.

Colômbia, embora não seja o único país, é o principal exportador desses combatentes na região. Os mais de 60 anos de conflito interno criaram gerações de soldados altamente treinados, seja guerrilheiros seja soldados das forças tradicionais. Os soldados com experiência em contra-insurgência e terrorismo urbano ou que receberam treinamento em países como Estados Unidos e Israel são os mais visados, segundo contou um militar colombiano à Reuters.

“Esses latino-americanos que são contratados para conflitos no exterior são basicamente pessoas que podem ter participado de conflitos armados, parte de guerrilhas ou são ex-militares que não encontram oportunidade após deixar essas atividades”, afirma Irene Cabrera Nossa, professora na Universidad Externado de Colombia.

“Temos um grande desafio que é como fazer com que todas essas pessoas que se desmobilizam de contextos de guerra ou que até deixam grupos criminosos não terminem fazendo parte de conflitos armados em outros cenários do mundo. Vimos isso com os colombianos no Iraque, com os centro-americanos na África e em áreas como Iêmen, Somália Síria”. Lugares como Etiópia Eritreia também têm reportado a chegada de latino-americanos.

Mercenários russos são vistos embarcando em um helicóptero no norte do Mali. O uso de mercenários em conflitos vem se popularizando desde o fim da Guerra Fria
Mercenários russos são vistos embarcando em um helicóptero no norte do Mali. O uso de mercenários em conflitos vem se popularizando desde o fim da Guerra Fria Foto: AP

Frustrações e enganos

Na Ucrânia, os relatórios iniciais apontam a presença maior de mercenários russos, especialmente do letal Grupo Wagner. Mas latinos também buscaram se juntar às forças ucranianas contra Rússia, alguns por motivação ideológica, mas outros por questões financeiras e militares.

Em março, vários mercenários da América Latina relataram ao jornal argentino Clarín as suas frustrações de tentarem lutar na Ucrânia, mas acabarem em um limbo. Lhes eram prometidos US$ 2.500 por mês, mais bônus por sucessos militares, além de um visto de residência, segundo o jornal. Mas quando chegam ao país, não é isso que encontram.

Segundo Irene, há o risco enorme destas pessoas serem enganadas ao aceitarem trabalhar como militares privados. Seja em um caso semelhante ao relatado pelo Clarin, quanto em casos mais graves em que os contratantes prometem atividades não ligadas ao front de batalha, mas que quando chegam lá essas pessoas são usadas como “carne de canhão”.

“Por exemplo, há relatórios de colombianos enganados por empresas privadas para trabalhar no Iraque, supostamente em vigilância, mas que terminaram participando de atividades hostis”, conta.

O caso mais emblemático ocorreu no Haiti, onde mercenários colombianos foram acusados de assassinar o presidente Jovenel Moise em julho de 2021. Mais de 20 colombianos foram considerados suspeitos e 15 foram detidos.

As famílias, porém, alegaram que eles foram enganados. Em entrevista a uma rádio colombiana, a esposa de um dos detidos contou que ele foi militar durante 20 anos e se encontrava na República Dominicana antes do assassinato. “Não lhes foi dito exatamente para onde seriam levados. Era uma oportunidade de trabalhar com uma agência para cuidar de famílias de xeiques”, disse.

Imagem dos suspeitos de terem assassinado o presidente haitiano Jovenel Moise. Mercenários colombianos se tornaram os principais suspeitos pela morte, mas informações continuam desencontradas mesmo quase um ano após a morte
Imagem dos suspeitos de terem assassinado o presidente haitiano Jovenel Moise. Mercenários colombianos se tornaram os principais suspeitos pela morte, mas informações continuam desencontradas mesmo quase um ano após a morte 

Empresas militares privadas

Como não há dados específicos de mercenários – ou contratistas como muitos preferem ser chamados – um caminho é monitorar o surgimento de Empresas Militares e de Segurança Privadas (PMSCs, na sigla em inglês).

Segundo o relatório “Security on Sale” produzido por pesquisadores do Diálogo Interamericano em 2018, apesar de não viver situações de conflito internacional, existem mais de 16.000 PMSCs na América Latina e Caribe, que empregam mais de 2,4 milhões de pessoas. A região tem o maior número de militares privados em comparação com a de forças públicas.

“Embora as forças de segurança privada superem os números de membros da polícia em todo o mundo, na América Latina a diferença é ainda maior. No Brasil a proporção é de quatro para um, na Guatemala de cinco para um, e em Honduras há quase sete guardas particulares para cada agente de segurança pública”, afirma o relatório.

Muitas dessas companhias fornecem serviços de segurança privada, como escoltas e proteção de edifícios, mas algumas têm o foco em combate e inteligência para conflitos internacionais, e são com frequência contratadas por governos e organizações.

A existência dessas empresas não é ilegal, pelo contrário, até mesmo agências como ONU CICV contratam essas companhias para operarem em questões humanitárias em áreas de conflito. Porém, muitas utilizam a fachada da segurança privada para oferecer serviços que se envolvem em violações de direitos humanos e do direito internacional. O caso mais famoso é da companhia Blackwater, que mudou de nome após relatórios de violações no Iraque.

Mas mesmo ao atuarem em serviços não relacionados à guerra, a atividade dessas empresas preocupa pesquisadores, já que os Estados estão abrindo mão do chamado monopólio da força e entregando para empresas privadas trabalhos que são da segurança pública.

“É um risco, porque estamos pondo nas mãos de empresas privadas, por exemplo, informações de inteligência que são muito sensíveis”, pontua Irene. A proliferação deste tipo de serviço tende a ser maior em áreas de instabilidade política e em desenvolvimento.

Membros das forças policias do Haiti ao lado de uma imagem do presidente assassinado, Jovenel Moise. Mercenários colombianos foram acusados de terem matado o presidente, mas suas famílias alegam que eles foram enganados
Membros das forças policias do Haiti ao lado de uma imagem do presidente assassinado, Jovenel Moise. Mercenários colombianos foram acusados de terem matado o presidente, mas suas famílias alegam que eles foram enganados Foto: RALPH TEDY EROL / REUTERS

Um limbo jurídico

O uso de mercenários cresceu após o fim da Guerra Fria, quando milhares de ex-militares se viram sem alternativa de trabalho após os conflitos. Seu uso se tornou interessante para os países, já que são mais baratos do que enviar o próprio exército, não custam vidas nacionais e, principalmente, isentam os Estados de culpa.

Esses combatentes repousam em um limbo jurídico, em que, se cometem crimes contra a humanidade, não são punidos – não há precedentes ao menos – e permitem que seus contratantes sejam indetectáveis.

“O presidente do Haiti foi assassinado por mercenários colombianos. Pegaram os mercenários, mas ainda não sabem quem os contratou”, aponta McFate. “Nós temos teorias. Mas se você pensar que alguém assassinou o presidente de um país e se livrou disso… Porque nem os mercenários sabem quem os contratou. São pessoas descartáveis”.

“Existe todo um vazio dentro do direito internacional de como as pessoas que fazem parte dessas empresas privadas e de segurança ou mesmo pessoas jurídicas podem ser responsabilizadas”, concorda Irene. Segundo ela, o caso do Haiti é só mais um exemplo de como a existência dessas companhias dilui as responsabilidades de crimes de guerra.

 

IMARCESCÍVEL MAIS UMA P0LAVRA DIFÍCIL DA NOSSA LÍNGUA

 

  1. Cultura 

Prestar atenção em uma palavra nova pode ampliar a maneira de perceber o mundo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

A palavra é difícil de escrever. Um solene “sc” no meio e conteúdo desconhecido da maioria. Quantas vezes, nos últimos anos, sua fala incluiu o termo imarcescível? 

Vamos nos aproximar um pouco da antiga seção “enriqueça seu vocabulário” da revista Seleções. Sua orquídea resiste na sala há 21 dias sem murchar? Talvez ela seja imarcescível. Algo que não fenece, jamais perde o viço, mantém o vigor original é parte da definição do vocábulo título da minha crônica. Com sentido figurado, aplica-se ao que nunca pode ser corrompido pelo tempo. Pode até ser elogio a sua colega de Ensino Médio que você reencontrou em um restaurante: Márcia, você tem um rosto imarcescível! Se ela for uma pessoa de vocabulário rico, baixará o rosto, corada. Ficar vermelho diante de um elogio é uma forma sofisticada de dizer: concordo, mas a humildade social impede que eu grite sim nesse instante. 

Dicionário
Imagem ilustrativa de dicionário Foto: Pixabay

Aproveito a palavra menos comum para tocar em um ponto delicado. Qual o sentido de aprender algo novo como a palavra que usei? Amplio: e o currículo escolar em si? O influencer Felipe Neto causou impacto nas redes ao declarar que ainda não tinha encontrado utilidade prática para o Teorema de Pitágoras. 

O conhecimento tem sido, com frequência, um distintivo social. Gramática não serviria, de fato, para afinar a comunicação, todavia para dizer quem é quem. Quem estudou muito sabe distinguir entre aposto explicativo, enumerativo, comparativo, circunstancial etc. Ao identificar que está utilizando um deles com acerto e consciência, causa em outros que estudaram a boa sensação de que se trata de alguém que pertence ao mesmo grupo. Resolve-se a identidade pela regra da língua. “Você ouviu? Ele pronuncia aerosol e não aerossol. Não vamos nos misturar com esse tipo de gente.” Parece cômico, porém toca no ponto real. Gramática é usada como exclusão.

Volto ao ponto: quando fará falta imarcescível? Quando você, se não for da área de exatas, utilizou o Teorema de Pitágoras? Eu, como nerd confesso na juventude, admirava a beleza da hipotenusa e dos catetos. Sei identificar oração reduzida de gerúndio e ainda respondo, com rapidez, se alguém me pergunta qual grande rio da África atravessa a linha do Equador duas vezes. 

Sempre imagino em qual jantar poderei elogiar a beleza imarcescível da dona da casa e acrescentar um detalhe interessante sobre a hipotenusa grega ou o rio Congo. Claro: o conhecimento não possui apenas esse item bizarro de enciclopédia antiga ou manual de curiosidades. Quais outras funções?

Prestar atenção em uma palavra nova pode ampliar a maneira de perceber o mundo. A velha história (lendária) de que os esquimós teriam mais de cem palavras para descrever branco. A palavra aguça o olhar e aperfeiçoa a mente. Observar que um termo é escrito com “sc” é uma maneira de prestar atenção à escrita e pode, no extremo, tornar meu olhar mais atento ao conteúdo do texto. Se eu passar para a banda do “tanto faz”, é provável que, além da ortografia, eu me descuide do significado de tudo. Um olhar atento a textos e mensagens estimula a cidadania, diminui nossa chance de sermos enganados pela propaganda comercial e política. Tradicionalmente, os grandes ladrões do erário público brasileiro eram sólidos bacharéis, formados em boas universidades e muito atentos ao vernáculo. Ladrões ágrafos são personagens mais recentes. Como Nelson Mandela, ao lutar contra os racistas da África do Sul, achou fundamental entender o africâner, dominar a língua portuguesa pode ter, em algum setor, destaque na consciência política. Conhecimento liberta e torna, no fim, sua capacidade imarcescível, mesmo navegando no rio Congo sobre uma graciosa linha de hipotenusa pitagórica. 

O saber não melhora eticamente uma pessoa. Canalhas podem ser cultos e até refinados musicalmente. Ortografia não garante criatividade ou estratégia. Opulência vocabular pode vir acompanhada de fraqueza de ânimo. O conhecimento sempre foi a chave do mundo. Na chamada sociedade 5.0 de smartphones e Google, ele é ainda mais fundamental. Os trilionários do planeta vendem ideias, algoritmos e soluções produtivas muito mais que constroem ferrovias ou extraem plutônio. Gado e soja ainda embasam fortunas. Acima dos empreendedores do agro, grandes especialistas em química, biologia e botânica concentram os verdadeiros ganhos. O fazendeiro rico, na prática, é o proletário dos grandes laboratórios ou dos sistemas logísticos de carga do mundo. 

Muita coisa pode ser discutida sobre currículo escolar, caráter prático do conhecimento ou utilidade de tudo. Volto à África do Sul de Mandela: escolas para negros ensinavam trabalhos manuais práticos porque aqueles alunos seriam trabalhadores braçais na cabeça dos organizadores do sistema escolar. Os brancos? Estudavam Filosofia e Literatura: estavam sendo preparados para o controle. Conhecimento é poder. Ensinar só coisas muito práticas é uma excelente estratégia de controle da futura mão de obra. Saber é semear uma esperança imarcescível.

* Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e autor de A Coragem da Esperança, entre outros

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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