Aliança PT-PCdoB-PV Por Wesley Oliveira – Gazeta do Povo Brasília
Nova proposta de reforma trabalhista estará no plano de governo da chapa entre Lula e Alckmin| Foto: Ricardo Stuckert/PT
A federação partidária que reúne PT, PCdoB e PV, formalizada nesta segunda-feira (18), e que apoiará a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, incluiu em sua carta-programa a defesa da “revogação” da reforma trabalhista aprovada em 2017 no governo Michel Temer. A proposta foi defendida pelo PT na reunião que aprovou a indicação do ex-governador Geraldo Alckmin (PSB) como vice na chapa de Lula, na semana passada, e debatida com os partidos aliados no fim de semana.
Inicialmente, o partido falava em “revisão” da reforma trabalhista. Mas o uso do termo “revogação” foi aprovado pela maioria dos petistas depois que lideranças alegaram que a reforma foi nociva aos direitos trabalhistas. A proposta, agora, deve ser incluída no plano de governo de Lula.
O texto aprovado pelo PT e que serviu de modelo para o programa da federação é claro: “Defendemos a revogação da contrarreforma trabalhista feita no governo Temer, e implementar uma nova reforma trabalhista feita a partir de negociação tripartite, que proteja trabalhadores, recomponha direitos, fortaleça a negociação coletiva e a representação sindical e dê especial atenção aos trabalhadores informais e de aplicativos”.
Na prática, porém, o esforço político será por revogar apenas trechos da reforma trabalhista e não toda a legislação. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, disse em entrevista recente à CNN Brasil que a ideia é consertar o que “deu errado”, debatendo a questão com empresários e trabalhadores. Qualquer alteração na lei precisará passar pelo Congresso.
Lula: reforma “não é voltar ao que era antes” Publicamente, Lula já afirmou que pretende retomar direitos dos trabalhadores que supostamente teriam sido extintos pela reforma. O petista também tem dito que é a favor da valorização do papel dos sindicatos e de uma legislação que inclua trabalhadores de aplicativo.
“O que eles fizeram foi destruir o direito dos trabalhadores. Trabalhador que trabalha em aplicativo não tem direito a nada, não tem direito a descanso semanal remunerado, não tem direito a férias, não tem direito a 13º [salário], e não tem seguridade nenhuma. Quando o carro bate é que ele percebe que está abandonado, quando a bicicleta bate é que ele percebe que está abandonado”, exemplificou Lula, em entrevista à Rádio Passos FM.
Na última quinta-feira (14), Lula usou um discurso em evento com sindicalistas para rejeitar a ideia de “mudar tudo e voltar ao que era antes” da reforma trabalhista, acrescentando que deseja “adaptar uma nova legislação trabalhista a uma legislação atual”. “Não queremos voltar a 1943, queremos um acordo em função da realidade dos trabalhadores em 2023, 2024, 2030. A gente quer avançar”, declarou.
Alckmin e PSB também têm sugestões sobre nova reforma trabalhista As declarações de Lula e do PT já tinham provocado reações por parte de setores do mercado financeiro e até do ex-governador Geraldo Alckmin. À época, interlocutores do ex-presidente, no entanto, se apressaram para explicar que o partido defende apenas mudanças em pontos como acordos coletivos e definição de jornadas mais flexíveis.
Como forma de conter os ânimos do mercado, Alckmin e o PSB já sinalizaram que vão participar das discussões do plano que será apresentado pelo petista. A expectativa é de que uma proposta para a reforma trabalhista seja apresentada pelo PSB no final do mês de abril, período em que a legenda pretende se reunir para aprovar um manifesto com uma nova direção programática.
Alckmin tem evitado responder aos questionamentos sobre as posições econômicas de Lula, entre elas a revogação da reforma trabalhista e do teto de gastos. Interlocutores do ex-governador, no entanto, avaliam que a relação com o petista está azeitada e as propostas de mudanças serão feitas em conjunto e com diálogo com setores da sociedade.
No encontro recente entre PT e PSB, Lula afirmou que a composição de chapa com Alckmin será uma forma de dialogar tanto com trabalhadores quanto com os empresários. “Teremos o mesmo respeito com um catador de papel que está nas ruas do país e o empresário do mais alto quilate. Vamos tratar com o mesmo respeito um trabalhador sem-terra e um grande fazendeiro. Vamos governar o país para todos, mas as pessoas precisam saber que nosso coração estará voltado às pessoas que mais necessitam”, afirmou Lula.
Na mesma semana, durante um jantar com empresários, Gleisi Hoffmann reforçou que o ex-presidente está disposto a debater com o meio econômico seu plano de governo. “Vocês conhecem o Lula, ele foi presidente oito anos. Ele sabia que tinha divergências com muitos setores, mas jamais se recusou a conversar”, afirmou a presidente do PT.
A Esplanada dos Ministérios, em Brasília: servidores federais pedem aumento de 19,99%.| Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
O que começou como um aceno a algumas categorias específicas de profissionais levou a uma mobilização da elite pública e termina com um rombo para o qual não há espaço no orçamento e que pressionará os cofres públicos não apenas agora, mas também no futuro. O reajuste anunciado pelo governo federal, de 5% para todo o funcionalismo federal do Poder Executivo, é um desfecho que não agradou ninguém para uma novela que já havia começado mal.
Jair Bolsonaro sancionou o Orçamento da União de 2022 com uma reserva de R$ 1,7 bilhão para reajustes salariais, e logo de início deixou claro que pretendia conceder o aumento aos membros da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e agentes prisionais – as forças de segurança sempre contaram com ouvidos atentos do presidente da República, que chegou a se empenhar pessoalmente, durante a tramitação da reforma da Previdência, para que esses profissionais tivessem mantidas algumas regras especiais de aposentadoria. A escolha, como era esperado e perfeitamente natural, irritou todos os demais servidores do Executivo, que passaram a se queixar do que consideravam – acertadamente – uma quebra de isonomia, com o privilégio a alguns grupos de profissionais, enquanto todos os demais permaneceriam sem reajuste.
Se o governo – e, por extensão, a sociedade, que é quem banca o setor público por meio dos impostos – assume um ônus, ainda ficará sem o bônus, pois diversas categorias já se manifestaram contra o reajuste de 5%, que consideram baixo
O presidente da República, então, chegou a lançar um balão de ensaio ao afirmar que a aprovação da PEC dos Precatórios poderia liberar espaço no orçamento para um reajuste a todos os servidores. “Em passando a PEC dos Precatórios, tem que ter um pequeno espaço para dar algum reajuste. Não é o que eles [servidores] merecem, mas é o que nós podemos dar”, afirmou Bolsonaro em novembro de 2021. No entanto, logo na sequência tanto parlamentares quanto ministros afirmaram que a “economia” feita com a PEC já estava toda comprometida com outros gastos, e não havia espaço para tal reajuste. A insatisfação se transformou em mobilização e, por fim, greve em diversos órgãos. A decisão pelos 5% seria, então, uma forma de contemplar todos os servidores sem desrespeitar nem a Lei de Responsabilidade Fiscal, que proíbe aumentos salariais nos últimos seis meses de um mandato, e a lei eleitoral, que veda reajustes acima da inflação.
Agora, o governo precisará encontrar mais R$ 4,6 bilhões para bancar o aumento, já que seu custo estimado para este ano é de R$ 6,3 bilhões. É certo que haverá cortes nas despesas discricionárias, reduzindo ainda mais a margem do governo para investimentos, que já é extremamente pequena, graças ao engessamento do orçamento e à sede dos parlamentares por dinheiro público, exemplificada pelo recente aumento no bilionário fundão eleitoral e pelas imorais emendas de relator. E o aperto, obviamente, não se limita a 2022: o reajuste contrata uma despesa que é permanente, sendo que o governo continua, ano após ano, gastando bem mais do que arrecada.
Por fim, se o governo – e, por extensão, a sociedade, que é quem banca o setor público por meio dos impostos – assume um ônus, ainda ficará sem o bônus, pois diversas categorias já se manifestaram contra o índice de 5%, considerado insuficiente para repor perdas inflacionárias que as entidades representativas de servidores estimam entre 20% e até 40%. Aqui, no entanto, é preciso matizar as alegações. É a mais pura verdade que a inflação vem corroendo o poder de compra de todos os brasileiros, não apenas do funcionalismo. Pleitear uma reposição é direito legítimo de todo trabalhador, usando os meios que a lei lhe faculta para tal. No entanto, também é preciso lembrar que os servidores passaram incólumes pela recessão de 2015-2016, quando o desemprego saltou de 6,5% para 13,7%, e pela catástrofe socioeconômica causada pela pandemia de Covid-19: não perderam o emprego com o “fecha tudo” ordenado por prefeitos e governadores, nem sequer puderam ter salário e jornada reduzidos, como ocorreu na iniciativa privada. Além disso, sabe-se que a média salarial do funcionalismo, mesmo sem recomposição, ainda supera a média de cargos semelhantes na iniciativa privada, sem contar que muitas das categorias que lideraram a mobilização recente estão no “topo do topo” da pirâmide socioeconômica brasileira, com remunerações mensais próximas aos R$ 30 mil.
Compreenda-se, portanto, a indignação do funcionalismo, seja com a falta de reposição salarial anterior, seja com um aumento considerado pífio. Mas que não se perca de vista que o reajuste coloca uma sobrecarga sobre um “patrão” quebrado, que só não vai à falência por se tratar do poder público – nas mesmas circunstâncias, qualquer empresa já teria ido à bancarrota. E esta sobrecarga terá consequências sobre toda a sociedade, que deixa de ter retorno em investimentos para alimentar um Estado que continua se enxergando como um fim em si mesmo.
Elon Musk, o homem mais rico do mundo e o maior acionista do Twitter| Foto: Alexander Becher/EFE/EPA
Foi-se o tempo em que ser considerado progressista era sinônimo de ser radicalmente contra qualquer tipo de censura. Se, historicamente, parte da esquerda foi por longas décadas associada à luta contra o controle do discurso praticado por regimes autoritários, hoje, amplas fileiras dos que, nos Estados Unidos, se denominam “liberals” estão cada vez mais ávidos por controle.
Vale lembrar que o termo “liberal”, em inglês, não necessariamente denota abertura a livre mercado – enquanto há, no Brasil, autoproclamados “liberais” que enveredam pelo mesmo caminho quando se trata de expressão. Um sintoma recente desta guinada foi a reação de influenciadores e intelectuais progressistas ao anúncio de que o bilionário sul-africano Elon Musk, o homem mais rico do mundo e um ferrenho defensor da liberdade de expressão, ofereceu comprar o Twitter por cerca de US$ 40 bilhões.
Em artigo para o City Journal, Corbin K. Barthold explicou como o anúncio de Elon Musk acabou por arrancar de vez a máscara dos progressistas que parecem não se incomodar quando a liberdade é ameaçada pelo Estado ou por oligarcas da tecnologia – exceto quando este defende que as pessoas deveriam ser “capazes de falar livremente dentro dos limites da lei”.
“Investi no Twitter porque acredito em seu potencial para ser a plataforma para a liberdade de expressão em todo o mundo, e acredito que a liberdade de expressão é um imperativo social para uma democracia funcional”, escreveu Musk, em carta destinada ao presidente do Conselho de Administração do Twitter. “No entanto, desde que fiz meu investimento, percebo que a empresa não prosperará nem atenderá a esse imperativo social em seu atual formato. O Twitter precisa ser transformado em uma empresa privada”.
É preciso ressaltar que a jogada de Musk não é, em si, uma garantia da manutenção da liberdade. Nas primeiras entrevistas concedidas pelo magnata depois de se tornar um dos principais acionistas da rede fundada por Jack Dorsey, o bilionário afirmou, por exemplo, que sua “prioridade máxima” seria eliminar mecanismos de spam, que são uma forma de comunicação legal. Além disso, Barthold lembra ainda que Musk não explicou completamente como se dará o financiamento da compra e já desfez negócios de grande porte antes.
Ainda assim, as primeiras horas que se sucederam ao anúncio da oferta, na última quinta-feira (14), renderam boas revelações: mal a notícia da negociação caiu na internet, e o jornalista Jeff Jarvis – evidentemente verificado pela rede – já apelou para a “cartada máxima” das discussões virtuais: a comparação com o nazismo. “Hoje o Twitter parece a última noite em uma boate de Berlim no crepúsculo (da República) de Weimar na Alemanha”.
O que, exatamente, um bilionário libertário ameaçar comprar uma rede social para permitir que seus usuários se expressem dentro da lei – que já prevê as devidas punições para a incitação à violência – tem a ver com a ascensão de um ditador sanguinário permanece uma incógnita. Inclusive porque, como boa parte da “história” progressista tende a ignorar, a censura a panfletos nazistas em nada impediu sua chegada ao poder na Alemanha.
Na mesma linha, o historiador Max Boot expressou preocupação. “Estou assustado com o impacto na sociedade e na política se Elon Must adquirir o Twitter”, publicou. “Para que a democracia sobreviva, precisamos de mais moderação de conteúdo, não menos”. Faltou, é claro, explicar que raios de democracia é essa, quem pode fazer parte dela e, sobretudo, quem cuidará da tal “moderação de conteúdo”.
O próprio fundador do Intercept, o jornalista Glenn Greenwald, um notório esquerdista, ironizou o frenesi da esquerda progressista em sua newsletter: “Os progressistas americanos estão obcecados por encontrar maneiras de silenciar e censurar seus adversários. (…) Durante anos, sua tática de censura preferida foi expandir e distorcer o conceito de ‘discurso de ódio’ para significar ‘pontos de vista que nos deixam desconfortáveis’ e, em seguida, exigir que tais pontos de vista ‘odiosos’ fossem proibidos com base nisso”.
“Ao lado do analfabetismo funcional, a estrutura do ‘discurso de ódio’ para justificar a censura agora é insuficiente porque os progressistas estão ansiosos para silenciar uma gama muito mais ampla de vozes do que aquelas que podem acusar de forma crível de serem odiosas. É por isso que a mais nova e mais popular estrutura de censura é alegar que seus alvos são culpados de espalhar ‘desinformação’. Esses termos, por natureza, não têm significado claro ou conciso”, explica o jornalista, afirmando que “poucos eventos revelaram essa estrutura distorcida de forma tão vívida” quando o anúncio de Musk.
“O fato de Musk ter repetidamente denunciado o regime de censura cada vez mais pesado e claramente ideológico do Twitter não significa que ele seja sincero em sua intenção de restaurar a liberdade de expressão na plataforma, mas a mera possibilidade de que ele pretenda fazê-lo levou os progressistas defensores da censura em espasmos de pânico e histeria”, explica Greenwald, em consonância com vozes libertárias e conservadores que comemoraram a novidade.
O desespero, afinal, tem sua graça: a esquerda que migrou das causas sociais para um affair deliberado com bilionários identitários subitamente voltou a se preocupar com a concentração do poder. E tudo por conta de um espaço que é frequentemente descrito como a “praça pública” da Era Digital. Para a elite, ao que parece, não fica bem que ela seja frequentada, dominada e cultivada por gente… comum.
Como pontua o jornalista conservador Auron MacIntyre, “se você acha que a política está acima da cultura, observe como várias entidades corporativas se coordenam com empresas de investimento, agências governamentais, governantes estrangeiros e meios de comunicação para impedir que uma peça do aparato de produção cultural caia nas mãos erradas”.
Respiradores adquiridos de modo emergencial para atender pacientes de Covid.| Foto: Marcos Santos/Agência Pará
A partir de agora, com o fim da emergência sanitária, ninguém mais é obrigado a usar máscara para sair de casa. Claro, é recomendável que quem estiver gripado e puder contagiar os outros continue usando. Mas ninguém é mais obrigado. Assim como quem quiser visitar o Brasil não precisa mais apresentar prova de que tomou vacina – também não sei para que isso servia.
Mas, principalmente, agora teremos licitação novamente. Esse processo vai coibir a picaretagem que aconteceu na compra de material de proteção individual, máscara, luva, respiradores, hospitais de campanha, de UTI e etc, nessa pandemia. Milhões de reais dos nossos impostos foram desviados em fraudes, por gente que se aproveitou da situação. E, pior, a CPI do Senado não quis investigar essa corrupção. Agora, pelo menos daqui para frente, já será mais difícil disso ocorrer.
E só para lembrar as pessoas, vamos aos fatos. O ministro do STF Ricardo Lewandowski andou dizendo por aí que o governo estava parado na pandemia e que coube ao Supremo proteger os brasileiros. Ele disse textualmente “a inação do governo”. Curioso que a portaria que decretou a emergência sanitária no Brasil por causa da Covid saiu 40 dias antes de a OMS declarar o estado de pandemia. A portaria saiu no início de fevereiro e a pandemia foi oficializada no dia 11 de março.
Espingarda não é fuzil Eu não sei o que é que há com os jornalistas de hoje. Eles não sabem que temos a obrigação de ser especialista em generalidades. Temos que tem que ter uma cultura geral ampla.
Aí, vejo na cobertura daquela tentativa de assalto a uma transportadora de valores em Guarapuava (PR) um repórter chamando um fuzil deixado para trás numa árvore de espingarda calibre 12. E depois ainda chamou carro-forte de tanque do Exército.
Eu sinto uma tristeza enorme. Eu, que fui professor de Jornalismo na PUC-RS, em Porto Alegre, e no CEUB, em Brasília, fico me perguntando: o que está acontecendo com os jornalistas de hoje? Eles são estimulados a fazer o quê? Porque eu sempre estimulei meus alunos a pesquisarem e ampliarem seus conhecimentos.
Temos que ser enciclopédicos. Temos que entender de tudo, desde anatomia, geografia, química, física, matemática… A gente lida com tudo isso no dia a dia e tem que saber superficialmente um pouco de tudo. Isso é quase um desabafo!
Peixe fora d’água Depois de ter sido o grande candidato à Presidência da República da “terceira via”, o ex-juiz Sergio Moro foi rebaixado a candidato deputado federal. Mas ele disse que não quer, e agora vi que ele está lançando um curso anticorrupção para se sustentar, pois trocou de partido e perdeu o salário que recebia no Podemos.
Outro dia vi uma charge em que Moro atira com as duas mãos nos dois pés. A mudança de partido enterrou os planos políticos dele. Ele se mostrou um peixe fora d’agua na política. Depois de anos de carreira como juiz, Moro não conseguiu se adaptar ao novo campo de atividade.
O ministro do STF Luís Roberto Barroso| Foto: Carlos Moura/SCO/STF
Quem autorizou o ministro Luís Roberto Barroso, que é um funcionário público de primeira linha e, nessa condição, tem deveres muito claros a cumprir, a dizer que ele (e, pelo que deu para entender, quem pensa como ele) é a força que ajuda a empurrar “a História na direção certa”?
Esqueça, por economia de tempo, a pretensão cômica que é alguém dizer um negócio desses a respeito de si mesmo. O fato é que o ministro, como magistrado, não pode atribuir a si próprio a qualificação de empurrador de nada, e muito menos da “História” – ele está no seu cargo para julgar questões ligadas à aplicação da lei, unicamente isso, e para julgar com um mínimo de seriedade, tem de ser imparcial. Não há nada de mais parcial do que dar a convicções políticas pessoais o certificado de verdade indiscutível, definitiva e suprema.
E quem tem pontos de vista diferentes dos seus, e não concorda politicamente com ele – em que situação fica? Ninguém tem a obrigação legal de concordar com as opiniões políticas do ministro. Tem de acatar as suas decisões jurídicas, apenas isso, e a proclamação de Barroso não tem absolutamente nada a ver com nenhum tipo de lei – é um ponto de vista, e vale tanto quanto o de qualquer outro cidadão.
Quer dizer que quem discorda do ministro seria, por acaso, alguém que empurra a História para trás? Barroso disse também que ele, e o seu grupo político, são “a democracia”. E quem não faz parte do grupo – é um inimigo da democracia? É insano.
Um político tem o pleno direito de dizer coisas assim – eu estou certo, você está errado, e por isso quem deve governar sou eu; votem em mim. Mas um juiz? Um juiz perde a capacidade de julgar quando diz, publicamente, que é a favor ou contra um dos lados, como Barroso vem fazendo de maneira sistemática. No caso, ele (e diversos outros colegas) se colocaram contra o presidente da República, seu governo e os brasileiros que os apoiam.
Mais que isso: ele acaba de dizer, com todas as letras, que o presidente constitucional do Brasil é “o inimigo” – sim, o próprio presidente da República, que foi eleito democraticamente para o seu cargo em 2018, com 58 milhões de votos, e hoje está em busca de um segundo mandato, de acordo com o que permite a lei. Que cabimento pode ter uma coisa dessas? E os milhões de eleitores que vão votar em Jair Bolsonaro – também são “inimigos”?
O ministro Barroso deixou de ser um magistrado; ele mesmo, segundo diz em público, concedeu a si próprio o papel de “transformador” da sociedade, função que não existe na Constituição Federal e que ele não pode impor a ninguém.
Na verdade, está sendo apenas ilegal, como tantos outros ministros do STF – a começar por Alexandre Moraes, que há três anos conduz um inquérito totalmente fora da lei contra os seus inimigos políticos, ou Edson Fachin, autor da aberração legal que foi a anulação das quatro ações penais contra o ex-presidente Lula, incluindo sua condenação pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, em terceira e última instância, e por nove juízes diferentes.
Um juiz, ao contrário de Barroso e seus colegas, não pode ter inimigos. Se tem, então não é mais juiz de coisa nenhuma.
Foto: Demetrius FreemanPor Eli Saslow19/04/2022 | 05h00
Força aérea americana instalou bases de lançamento por todo o Oeste do país no período da Guerra Fria; agora, proprietários de terras se perguntam se eles podem ser disparados
THE WASHINGTON POST – Ed Butcher, de 78 anos, amarrou seu cavalo, tirou a lama das botas de cowboy e entrou em casa para jantar. Ele havia trabalhado na fazenda durante a maior parte do dia, a quilômetros de distância da cobertura de telefonia celular. “Perdi alguma coisa?”, perguntou para sua mulher, Pam, enquanto ligava a TV a cabo no noticiário. “Que parte do mundo está desabando hoje?”
“A agressão da Rússia passou de temerária para aterradora”, afirmou o comentarista da TV, enquanto Pam tirava do forno o jantar do casal.
“Estamos falando de uma guerra que envolve uma potência nuclear muito instável”, afirmou o comentarista, enquanto os Butchers baixavam o olhar diante do guisado de carne de cervo, para fazer sua oração.
“Pode haver uma escalada”, afirmou o comentarista. “A coisa poderia extrapolar nossas mais delirantes fantasias.”
Ed desligou a TV e olhou através da janela, para quilômetros de amplas pradarias onde o vento sacode o celeiro da fazenda e assopra nuvens de poeira sobre a Butcher Road. A família de Ed está nesta terra desde que os avós dele se assentaram por aqui, em 1913, mas em raras ocasiões a vida rural pareceu tão precária. Sua terra se ressecou em consequência de secas recorde, foi negligenciada em razão da escassez de mão de obra durante a pandemia, sofreu incêndios recentemente e agora também se conectou de maneira singular a uma guerra que ocorre do outro lado do mundo. “Às vezes me pergunto o que mais poderia ter dado errado”, afirmou Ed, olhando para uma colina no oeste de sua fazenda, onde um míssil nuclear ativo do governo dos EUA está enterrado logo abaixo do pasto.
“Você acha que algum dia eles vão dispará-lo?”, perguntou Pam.
“Eu costumava dizer, ‘De jeito nenhum’”, afirmou Ed. “Agora, penso mais em algo do tipo, ‘Por favor, Deus, não nos deixe viver para testemunhar isso’.”
Ed Butcher verifica o arame da cerca que protege o silo nuclear em sua propriedade em Fergus, Montana Foto: Demetrius Freeman
O míssil foi batizado de Minuteman III, e sua plataforma de lançamento foi instalada na propriedade dos Butchers na época da Guerra Fria, quando a Força Aérea pagou US$ 150 por 4 mil metros quadrados da terra da família enquanto instalava armas nucleares por todo o Oeste rural. Cerca de 400 daqueles mísseis continuam ativos e prontos para serem lançados em poucos segundos a partir de Montana, Wyoming, Dakota do Norte, Colorado e Nebraska. Os armamentos estão instalados em áreas de conservação de bisões e reservas indígenas. Ficam em localidades como uma floresta nacional, atrás de um estádio de rodeio, na mesma rua de uma pequena escola e dentro de dezenas de fazendas privadas, com a dos Butchers, que há 60 anos têm como vizinho mais próximo um míssil nuclear.
O armamento está enterrado em um local cercado por cercas metálicas, sob uma comporta de 110 toneladas feita de concreto e aço. O míssil tem 18,3 metros de comprimento. Pesa 36.029 quilos. Possui uma força ao menos 20 vezes maior do que a da bomba atômica que matou 140 mil pessoas em Hiroshima. Uma equipe da Força Aérea fica estacionada num bunker subterrâneo a poucos quilômetros de lá, pronta para disparar o míssil no momento que a ordem chegar. O projétil levaria cerca de 3,4 segundos para deixar o silo e cortar o céu da fazenda a 3.048 metros por segundo. Foi projetado para atingir uma altura de 112,7 quilômetros, voar para o outro lado do mundo em 25 minutos e explodir a poucos metros de seu alvo. A bola de fogo resultante é capaz de vaporizar todos os seres humanos e estruturas do local da explosão num raio de 800 metros. A explosão arruinaria edifícios num raio de 8 quilômetros. Incêndios secundários e doses fatais de radiação se espalhariam por dezenas de quilômetros quadrados, resultando no que especialistas militares americanos qualificam como “aniquilação nuclear total”.
“Aposto que ele passaria bem em cima da nossa sala de estar”, afirmou Ed. “Acho que nem conseguiríamos ver.”
“Ouviríamos bem, sentiríamos o abalo provocado por ele”, afirmou Pam. “A casa inteira tremeria.”
“E se estivéssemos disparando os mísseis, você pode apostar que outros estariam vindo em nossa direção”, afirmou Ed.
Ataques com mísseis deixam mortos em Lviv
Ao menos sete pessoas morreram e 11 ficaram feridas em ataques russos em Lviv, no oeste da Ucrânia, autoridades denunciaram que alvos civis foram atingidos
Ao longo dos anos, os Butchers enfrentaram todas as ameaças concebíveis contra sua terra. A seca esgotou os nutrientes do solo. O granizo destruiu colheitas inteiras. Lobos e leões da montanha se alimentaram do gado. Águias atacaram as ovelhas. Crânios de animais se espalharam pela mesma pradaria em que dezenas de crias nasciam a cada primavera. O primogênito do casal morreu subitamente na fazenda, durante um ataque de asma. Um bisneto nasceu no barracão, a sexta geração de Butchers a nascer dentro da propriedade. Uma das coisas que Ed gostava a respeito da vida na fazenda é que ela o aproximava dos ciclos naturais de vida e morte, o que tornava a ideia de uma destruição nuclear em massa, provocava pelo homem, algo ainda mais inimaginável.
“Acho que iríamos para o armazém”, afirmou Ed.
“Faríamos alguns telefonemas de despedida”, disse Pam. “Daríamos as mãos. Rezaríamos.”
Ed se levantou da mesa para lavar seu prato. “Menos mal que tudo isso não passa de hipótese. Esses mísseis existem apenas para dissuasão, jamais explodirão realmente.”
“Você está certo”, afirmou Pam. “Isso não vai acontecer. Tenho quase certeza que não.”
Mesmo que tenha sido instalado dentro de sua fazenda, os Butchers jamais foram autorizados a conhecer o silo subterrâneo por dentro. Certas vezes, eles viram comboios de veículos militares e caminhões de carga pesada passando pelas estradas de terra de sua propriedade na direção do campo de lançamento, e uma vez Ed viu parte do Minuteman III quando o míssil era baixado para o subterrâneo, com sua ogiva pintada de preto e branco e seu propulsor. Mas os desdobramentos exatos em torno do míssil instalado em sua terra permaneceram secretos. O bunker de 24,4 metros de profundidade foi objeto principalmente de sua imaginação.
O local é conhecido pelo governo como Plataforma de Lançamento E05, um dos 52 silos de mísseis nucleares instalados nas tradicionais fazendas do Condado de Fergus. O governo escolheu transformar as desoladas pradarias de Montana em centro de atividades nucleares nos anos 50, em razão do que foi descrito como uma relativa proximidade à Rússia e também porque a região poderia atuar como o que especialistas chamavam de “esponja nuclear sacrificial”, no caso de uma guerra atômica. A teoria era que, em vez de despejar todos os seus mísseis em grandes cidades americanas, um inimigo usaria, em vez disso, alguns de seus mísseis para atacar os silos espalhados por Winifred, Montana, lar de 35 mil cabeças de gado e 189 moradores, cujos aniversários de nascimento e casamento são impressos no calendário oficial do município.
Winifred foi a cidade em que os Butchers frequentaram a igreja aos domingos e iam buscar suas correspondências no correio às quartas-feiras, mas eles passaram a maior parte do tempo com seus filhos e netos na fazenda. Eles possuem 4,8 mil hectares para administrar e nunca mantiveram empregados fixos, então, duas décadas depois de se aposentar, Ed ainda ajuda a consertar cercas e conferir o gado.
“Você vai sair a cavalo hoje?”, perguntou-lhe Pam certa manhã, sabendo que ele ocasionalmente gosta de cavalgar mais de 30 quilômetros num dia.
“Que nada, está frio demais”, afirmou ele. “Não sou mais aquele cowboy que enfrenta qualquer clima. Vou de jipe.”
Ed vestiu suas luvas de trabalho e dirigiu pela fazenda, atravessando campos de artemísias e riachos secos enquanto desviava do silo e se aproximava da floresta de pinheiros ponderosa no sul da propriedade. Ele passou pelo antigo barracão de seu avô, pela primeira cabine de caça de seu pai e por uma dezena de colinas e marcos batizados com nomes de amigos da família e bichos de estimação mortos. Vários cavalos avistaram o jipe e correram para cumprimentá-lo. “Nada de petisco hoje, pessoal”, afirmou ele, continuando o caminho para o pasto dos bovinos, onde a primeira bezerra da temporada tinha nascido na noite anterior. Ele viu a bezerra com dificuldade para ficar de pé e caindo no chão. “Vamos lá, garota, você consegue”, disse ele, que desligou o motor do veículo e ficou por lá até que a bezerra conseguisse ficar de pé novamente.
Ed se afastou da fazenda somente quando foi cursar faculdade em Billings e posteriormente iniciou carreira como professor, na Dakota do Norte. Ele estava a caminho de um doutorado em história americana até seu pai sofrer um ataque cardíaco, em 1971, e sua mãe lhe dizer pelo telefone que planejava vender a fazenda, a não ser que ele voltasse para Montana. Ed era filho único. Os Butchers davam nome à estrada, assim como os Wickens, os Wallings, os Stulcs e todas as outras famílias que se assentaram originalmente na região. Apesar de amar o ofício de lecionar, Ed voltou para Montana com Pam, para assumir a propriedade.
O solo da fazenda era normalmente seco demais para o cultivo de grãos, e criar gado quase não dava lucro. Não havia como ficar rico, mas, ao longo dos anos, Ed aprendeu por conta própria e ensinou para os três filhos como “enriquecer com a paisagem”, afirmou ele. Agora, enquanto dirigia, ele assistia a neve derreter nas Montanhas Judith e os cúmulo-nimbos chegando do Canadá. Um rebanho de antílopes-americanos corria pela da pradaria, e um porco-espinho atravessava desajeitadamente a estrada diante dele.
“A coisa não mudou muito por aqui nos cem anos mais recentes”, afirmou ele, rumando para a colina que abriga o silo, localizada a poucos quilômetros de sua casa. O ressequido capim amarelo que cobre os 4 mil metros quadrados do governo se confunde com a paisagem do restante da fazenda dos Butchers, mas a Força Aérea instalou uma cerca de alambrado e um banheiro químico. Atrás da cerca, há alguns postes telefônicos, um pequeno círculo de concreto sobre o chão e uma tampa de bueiro metálica que dá acesso ao bunker. “Entrada proibida”, diz uma pequena placa. “Autorizado o uso de força letal.”
Zelenski acusa Rússia de ‘genocídio’ na Ucrânia
O presidente Volodimir Zelenski disse em uma entrevista transmitida neste domingo nos Estados Unidos que as forças russas estão cometendo ‘genocídio’ na Ucrânia
Quando os militares construíram a plataforma de lançamento, durante a adolescência de Ed, ele considerava a instalação principalmente como uma potencial intrusão, um símbolo do exagero do governo, que ele qualificava como uma “insanidade da corrida nuclear armamentista”. Ele nasceu enquanto a guerra atômica surgia, e mesmo que o historiador que existe nele acreditasse que as bombas nucleares lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki foram necessárias para pôr fim à 2.ª Guerra, ele esperava nunca mais voltar a testemunhar esse tipo de devastação durante sua vida. Quando era professor de faculdade, ele dirigia uma kombi com o símbolo da paz pintado na janela traseira, e Pam compareceu a um pequeno protesto contra os mísseis Minuteman diante de um prédio do governo federal na região rural da Dakota do Norte. Eles se mudaram para a fazenda achando que poderiam testemunhar dramas nucleares dos quais haviam escutado falar a respeito de outros silos: vazamentos de lixo tóxico, acidentes que quase causaram explosões, espiões russos ou grupos de freiras se acorrentando às cercas do silo em atos de protesto.
Mas, em vez disso, toda vez que Ed passou pelo silo para ver o que acontecia por lá, não se deparou com nada além do vento e da paisagem — e ocasionalmente com alguma vaca enroscada na cerca. A Força Aérea substituiu o míssil Minuteman original por um Minuteman II e depois por um Minuteman III. Equipes de soldados construíram estradas de terra melhores na fazenda dos Butchers. No inverno, os militares passam a máquina para retirar neve das vias. E empregaram eletricistas e empreiteiros do Condado de Fergus, que trabalharam no campo de lançamento principalmente na calada da noite e, até onde Ed pode dizer, nunca aconteceu nada de excepcional por lá. O míssil nunca foi lançado. O apocalipse nuclear nunca ocorreu. Depois de um tempo, o silo passou a parecer para Ed mais uma parte da paisagem, em vez de uma ameaça — como se fosse uma relíquia benigna da Guerra Fria. Eram 4 mil metros quadrados em meio a mais de 48 milhões de metros quadrados. Pelo menos era isso que Ed pensava até o fim de fevereiro, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e o presidente Vladimir Putin colocou suas armas nucleares em alerta máximo.
“Aposto que os satélites russos estão contando até quantos fios de cabelo ainda cobrem minha cabeça neste exato momento”, afirmou Ed.
Ele olhou para o céu e depois puxou a aba de seu chapéu para baixo, na direção dos olhos, deu as costas para o silo e voltou a conferir seu gado. “Eu gostava mais quando esse lugar parecia um pedaço da história”, afirmou ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALILEncontrou algum erro?Entre em contatoCompartilhe
‘Letras Libres’, com a capa ‘Ucrânia heroica’, mostra um pouco da literatura desse país mártir
Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo
Quando vivia em Londres, lia muitas revistas, que costumavam ser excelentes na Inglaterra. Até perceber que ler todas as seções da Economist, por exemplo, me tomava quase uma semana e me impedia de ler os livros – os romances, os poemas, os ensaios – nos quais estão as verdadeiras ideias. Agora, leio apenas uma revista semanal e outra mensal, The Times Literary Suplement, para saber o que anda sendo escrito pelo mundo, e, em espanhol, Letras Libres, publicada no México e na Espanha (com variações de 30 a 40% em ambas as publicações). Estas últimas, na minha opinião, são as melhores revistas escritas em espanhol e aconselho os bons leitores a não deixarem de lê-las.
Lembro de quando o historiador e ensaísta mexicano Enrique Krauze, que trabalhou no México com Octavio Paz na revista Vuelta, criou a Letras Libres. Acabara de chegar a Madri com sua enorme maleta e projetos, e visitava muitos empresários para tentar vender a eles suas ideias, mas o retorno eram muitas decepções. Porém, ele não se deixava abater por esses tropeços, sobretudo porque dizia ser imprescindível que a Espanha e a América Latina tivessem uma mesma revista para expressar seus problemas, suas conquistas literárias e críticas políticas. No fim ele acabou conseguindo e Letras Libres é, na minha opinião, a única revista para a qual colaboram tanto escritores espanhóis quanto latino-americanos e na qual nós leitores descobrimos que os problemas que afligem nossos países não são tão diferentes, apesar dos oceanos que nos separam, porque temos um idioma em comum, uma maravilha pela qual deveríamos agradecer aos céus (ou ao acaso e à história) todos os dias.
Enrique Krauze, ensaísta mexicano criador da revista ‘Letras Libres’ Foto: Miguel Dimayuga
Escrevo estas linhas porque acabo de receber minha edição da Letras Libres, com uma grande capa em quatro cores (branco, preto, amarelo e cinza) na qual se lê: “Ucrânia heroica”. Li a revista com verdadeira devoção. Não é um simples título. A revista que, na prática, é dirigida por Daniel Gascón, na Espanha, e Christopher Domínguez Michael, no México, conseguiu colaborações e traduções que apresentam um compêndio da literatura ucraniana contemporânea e vislumbres de seu passado, de uma maneira magnífica e que permite aos leitores conhecer de perto um pouco da literatura desse país mártir, submetido atualmente ao ataque russo de Vladimir Putin, condenado pela revista, é claro.
Embora tenha uma certa inclinação liberal, suas páginas estão sempre abertas à direita e à esquerda, dependendo da originalidade e da riqueza do conteúdo escrito por seus colaboradores, independentemente de quais sejam seus pontos de vista ideológicos. Como deve ser uma publicação livre, está aberta a todas as perspectivas, desde que sejam originais e bem escritas.
Não exagero se digo que ler esta edição da Letras Libres me ensinou mais a respeito da literatura ucraniana que os três ou quatro dias que passei em Kiev há alguns anos, visitando políticos e descobrindo, na própria Praça Maidan, graças ao gentil embaixador espanhol, como os ucranianos derrubaram o político ucraniano pró-Rússia Viktor Yanukovich e conhecendo a casa-museu do grande escritor em língua russa que foi Mikhail Bulgakov – ali, naquele país de mil idiomas, nasceram dois escritores, Josef Conrad, que escrevia em inglês, e Joseph Roth, que escrevia em alemão –, autor do romance quase póstumo O Mestre e a Margarida, que eu pensava ser russo e só ali descobri que ele fora vítima da severidade do stalinismo e, além disso, era ucraniano. Esse museu, diga-se de passagem, abriu meu apetite e desde então li vários livros (traduzidos) de Bulgakov.
Adaptação teatral de ‘O Mestre e Margarida’ dirigida pelo britânico Simon McBurney em 2012
A literatura e a política têm relacionamentos difíceis, mas ambas não podem estar separadas demais, porque, na realidade, estão muito próximas uma da outra, embora seja importante que ambas mantenham certa independência, pois não atuam no mesmo campo, apesar das relações contínuas e estreitas que costumam existir entre elas e que ninguém ainda foi capaz de definir. Sartre chegou muito perto de descrever essa difícil relação – é uma de suas façanhas intelectuais –, mas, no fim, a política em sua obra e vida derrotou a literatura e ele acabou fazendo propaganda em prol de um jornal maoista, La Cause du Peuple, para os operários nas portas das fábricas da Renault.
A literatura é a fantasia e a política é a verdade que encontramos em nossos caminhos todos os dias. A fantasia é Dostoievski e a política, Putin; um abismo gigantesco os separa e, entretanto, não estão tão distantes um do outro. Os horrores que Dostoievski imaginou em seus romances são realizados no mundo real de hoje por Vladimir Putin e ele é condenado por isso por uma imensa maioria de países. Dostoievski, por outro lado, goza de admiração universal. Um mencionou o outro quando ele ainda não existia. E, da mesma maneira, aconteceu com Bulgakov, quando concebeu o diabo passeando de novo pelas ruas de Moscou: ele cheirava a enxofre e a Putin também. Para entender este e toda a sua tortuosa humanidade, é preciso ler Bulgakov.
Mas me distancio do assunto e volto ao que queria dizer. Diante de um acontecimento como o que ocorre atualmente na Ucrânia, não há nada melhor do que conhecer um pouco de sua literatura, na qual tudo isso já está insinuado e condenado, e às vezes até glorificado, e Letras Libres fez o que devia com essa excelente seleção da literatura do país. Aliás, nela descobrimos, entre outras coisas, que os poetas ucranianos leem o peruano César Vallejo e que existe um mexicano universal, Aurelio Asiain, capaz de verter do ucraniano e do japonês para o espanhol e que é poeta, ensaísta e, claro, tradutor.
O escritor russo Mikhail Bulgákov Foto: Editora 34
A relação da Letras Libres com a política é a que uma revista literária deveria ter sempre: aceitar todas as colaborações com um mínimo de qualidade literária e defender suas próprias convicções com firmeza e sem vergonha. “Suas próprias convicções” já diz muito. Em suas páginas convivem todos os representantes intelectuais da esquerda e também da direita, mas, pelo menos, o leitor sabe sempre o que esperar em relação ao que defende a revista: a liberdade, antes de tudo, e, em seguida, a democracia, ou seja, o repúdio à violência e à prepotência que constituem, cada vez mais, a atividade política atual.
Isso era o que eu encontrava em Lima, na minha juventude, nas revistas francesas. Com os escassos sóis que ganhava enquanto estava na universidade, escrevendo artigos para Turismo e, às vezes, para La Crónica, assinei duas revistas francesas Les Temps Modernes, dirigida por Sartre, e Les Lettres Nouvelles, dirigida por Maurice Nadeau, que era mais exclusivamente literária. Eu as lia de cabo a rabo, apaixonado por aquele país que me parecia o cúmulo do refinamento e da cultura, embora, depois, quando vivi ali, tenha descoberto que tais características não eram tão evidentes. E que eu, por exemplo, não seria jamais um bom escritor francês, e que seria apenas – como foi magnífico descobrir isso – um escritor mais latino-americano que peruano.
Ninguém pôde, entre as revistas que tenho ao meu alcance, resumir como o fez a Letras Libres apresentando este pequeno panorama literário da Ucrânia. É preciso lê-lo para saber como, além dos horrores que os jornais nos informam, há seres vivos, assim como nós por enquanto, que da noite para o dia são assassinados, estuprados e expulsos de seu próprio país devido à loucura imperialista de um governante, como os que temos – até mesmo para dar de presente a quem queira desfrutar deles – na América Latina.