sábado, 2 de abril de 2022

CORRER DESCALÇO FAZ BEM

 

O barefoot running dispensa o uso de tênis e vem conquistando adeptos. A transição, contudo, deve ser gradual e feita com acompanhamento

Danilo Casaletti , Especial para o Estadão

Natan Salvan durante corrida no Parque do Ibirapuera: descalço desde 2012 Keiny Andrade/Estadão

Você já ouviu falar em barefoot? A palavra em inglês significa descalço. Porém, o termo também se refere a correr descalço, a barefoot running. Muito comum na areia, a modalidade também pode ser realizada em outros tipos de solo, como asfalto, terra e grama. Até em esteira é possível correr sem usar nada nos pés.

A prática vem despertando o interesse de corredores de 2010 para cá, depois que o jornalista americano Christopher McDougall lançou o livro Nascido para Correr: A Experiência de Descobrir uma Nova Vida. A publicação virou best-seller e ocupou durante um ano a lista de mais vendidos do jornal The New York Times. Fã de corridas, o autor sofria com repetidas lesões e dores nos pés.

Desacreditado por um médico que lhe disse que o corpo humano não suportava o esforço físico (sobretudo o dele) que a corrida exige – atualmente, McDougall tem 60 anos –, ele foi conhecer os índios tarahumaras, que vivem nas regiões montanhosas do México. Eles são considerados exímios corredores, resistentes à dor e, segundo o escritor, os mais calmos e saudáveis do planeta. A tribo já foi tema de documentários na Netflix e no Discovery Channel.

Por lá, descobriu histórias de atletas que corriam descalços e abominavam o uso de tênis – esse tipo de calçado, segundo eles, pode “matar” um corredor. Já os índios, para correr, utilizavam sandálias que eles mesmo desenvolveram.

O subtítulo que o livro de McDougall ganhou na tradução para o português – A Experiência de Descobrir uma Nova Vida – talvez não seja um exagero. Pelo menos para Natan Salvan, de 49 anos, que desde 2012 é adepto de treinos e provas com os pés descalços.

Correr descalço
Natan Salvan durante corrida no Parque do Ibirapuera: descalço desde 2012 Foto: Keiny Andrade/Estadão

“Você aprende a correr de novo”, diz Salvan, que à época fazia parte de um grupo de corredores chamado Força Vegana. Inspirados pelo livro, e em busca de uma vida mais minimalista, os corredores tinham como objetivo diminuir o drop do calçado (diferença de altura entre a parte de trás e a parte da frente do tênis), passar para o uso de sandália para, por fim, correr descalço.Você fica mais ereto. Seu calcanhar não bate ou bate muito pouco no chãoNatan Salvan, corredor

Salvan embarcou nessa transição, que durou alguns meses. Segundo ele, o processo foi tranquilo. Com os devidos cuidados, ele afirma nunca se ter lesionado. As diferenças na pisada e na postura logo apareceram. “Você fica mais ereto. Seu calcanhar não bate ou bate muito pouco no chão”, explica. Especializado em provas de aventura, ele conta que marcou seus melhores tempos correndo descalço, como na Maratona de São Paulo e em uma prova de 10 km em Portugal. 

O corredor sempre se informa sobre a condição do solo. Em montanhas, podem haver espinhos, por exemplo. Nesse caso, ele usa uma sandália. Em cidades como São Paulo, que tem ruas e calçadas malconservadas, é preciso ter cuidado. O asfalto que os corredores chamam de “chokito”, aquele cheio de pedriscos, pode machucar a sola dos pés. 

“Correr descalço traz uma sensação de liberdade. Tem gente que diz que só o tênis lhe dá a corrida perfeita, defende que você precisa ter vários pares para praticar o esporte. Não é verdade”, garante Salvan.

O que diz a ciência

A professora Ana Paula da Silva Azevedo, do laboratório de Biomecânica da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), direcionou seus trabalhos de doutorado e pós-doutorado para essa temática.

A ideia da pesquisadora era, além de se aprofundar no tema, desenvolver um método de treinamento para quem pretendesse adotar a modalidade. Uma de suas inspirações foi o artigo do paleoantropólogo Daniel Lieberman, professor do Departamento de Biologia Humana Evolucionária da Universidade Harvard, publicado pela revista Nature em 2004. Nele, Lieberman aborda a questão sobre o ponto de vista evolucionista.

“Queria investigar o que essa estratégia poderia trazer de benefício ou prejuízo para o corpo e, principalmente, por saber que abandonar o calçado na corrida não é uma tarefa das mais fáceis”, explica.

De acordo com Ana Paula, se bem adotada, a corrida sem tênis promove uma mudança na geometria de aterrissagem do pé. A maioria das pessoas, quando corre de calçado, aterrissa com o calcanhar – é um padrão natural. Com o avanço do treino com os pés nus, essa aterragem passa a ser feita com a ponta dos pés – hábito que se aproxima, por exemplo, de tribos ou comunidades que têm o hábito de andar com os pés descalços.Esse ajuste da pisada diminui a sobrecarga nos joelhos. Isso já seria um benefício. Entretanto, a carga passa a ser exercida sobre o tornozeloAna Paula da Silva Azevedo, professora da USP

“Esse ajuste da pisada diminui a sobrecarga nos joelhos. Isso já seria um benefício. Entretanto, a carga passa a ser exercida sobre o tornozelo. Por isso, é importante que a corrida descalça seja bem utilizada e acompanhada por profissionais para evitar lesões. Ela é um remédio, mas a dose precisa ser prescrita de maneira correta”, observa a professora.

O alívio para os joelhos ocorre ao longo do tempo, com o treinamento, e não de maneira rápida. Na pesquisa conduzida por Ana Paula, esse benefício veio depois de 10 a 16 semanas de treinamento.

A professora ressalta outra vantagem. Quando se corre usando um calçado, há uma diminuição de dados perceptíveis no corpo – impacto ou atrito do pé com o solo, por exemplo. “Ele se acomoda e fica difícil de fazer os ajustes necessários. Já descalço, as demandas da corrida sob o corpo ficam mais claras. Essas informações são enviadas aos músculos e articulações que promovem a correção dos movimentos.”

Ana Paula afirma que ainda há muito a ser estudado sobre esse assunto. Até o momento, o que se sabe é que, para performance da corrida, ou não há influência ou ela é muito pequena. Sobre as lesões, a diminuição ocorre se uma boa estratégia de treino for adotada – periodização e progressão. “Caso contrário, tanto faz correr de tênis ou descalço”, avalia.

Para quem não consegue correr descalço, por conta da temperatura do solo ou abrasão – algo que faz parte da adaptação –, há no mercado os chamados calçados minimalistas, que prometem suavizar o impacto, mas sem tirar o contato com o solo.

Preparo e hábito

O ultratriatleta fluminense Sérgio Cordeiro, de 68 anos, é um dos maiores representantes da corrida descalça no Brasil. Entretanto, sua experiência com a prática é totalmente empírica, nascida de uma necessidade. E vem de longe, muito antes de ela virar tema entre corredores e acadêmicos.

Cordeiro começou a correr no final dos anos 1970, quando a corrida aberta de rua apareceu no Brasil, e já participou de inúmeras provas aqui e no exterior. Logo depois, se interessou pelo triatlo. Nessa época, não existiam tênis próprios para corrida por aqui. De família humilde, o atleta não tinha dinheiro para comprar calçados importados. Corria de conga escolar. 

Correr descalço
‘Correr descalço dá uma sensação de liberdade’, diz Natan Salvan Foto: Keiny Andrade/Estadão

A borracha dura do modelo lhe causava dores e bolhas. “Parecia que eu estava com o pé engessado. Comecei a correr descalço. Virou um hábito”, lembra Cordeiro. 

O atleta diz que a sensação, além de liberdade, era a de que corria mais rapidamente, com melhor projeção e estabilidade do corpo. Anos mais tarde, já patrocinado por uma famosa marca de tênis, Cordeiro começava a prova usando o calçado. Passava alguns metros da largada e já o tirava dos pés. 

Cordeiro disputará, entre os dias 2 e 9 de abril, em Búzios, a etapa do Circuito Mundial de Ultra Triathlon. Serão mais de 200 km de corrida. “Já pensou eu correr tudo isso de tênis?”, comenta, entre risadas. Brincadeiras à parte, ele sabe que a prática exige cuidados. “Jamais diria: larguem o tênis e corram descalços. Eu fiz por necessidade. Hoje temos a tecnologia dos calçados a nosso favor.”

Performance

Para o preparador físico Felipe Rabelo, consultor e idealizador do curso A Ciência da Corrida de Rua, a melhora nos indicadores de performance e a boa adaptação dos corredores devem ser encaradas como uma exceção e não como regra. “Há quem tenha se beneficiado, mas há relatos de pessoas que fizeram a transição e tiveram uma resposta negativa, inclusive lesões”, revela.Há quem tenha se beneficiado, mas há relatos de pessoas que fizeram a transição e tiveram uma resposta negativa, inclusive lesõesFelipe Rabelo, preparador físico

Além do planejamento e da quantidade de treino, segundo Rabelo, é preciso observar se o corredor está preparado para encarar as demandas mecânicas e de estresse provocadas por fatores externos que, inevitavelmente, repercutirão no corpo. “Precisamos voltar para os fatores mais básicos da corrida, mesmo para quem já corre de tênis. É um estímulo novo”, reforça.

Para quem pretende encarar o desafio, Rabelo diz que o estranhamento, no início, será normal. O corpo tende a se adaptar. Porém, isso não dispensa cuidados importantes. “Todos os treinos complementares, como de força, preventivos e propriocepção (capacidade que o corpo tem de avaliar em que posição se encontra para manter o equilíbrio ao realizar esforços) são necessários.”

A transição do tênis tradicional deve passar de um de maior suporte de amortecimento para o mais leve (o minimalista), antes de chegar ao contato direto com o solo. “Toda condição nova vai gerar uma necessidade de adaptação do corpo. Sair de um tênis com que se está acostumado diretamente para o descalço será uma ‘agressão’ e haverá a possibilidade de ter uma resposta negativa”, alerta Rabelo.

Por fim, o preparador físico recomenda que o corredor comece pela grama ou terra batida, que são tipos de solo mais macios, antes de encarar o asfalto ou cimento – e sempre lembrar do conceito de progressão. O tempo de descanso do corpo, assim como na corrida tradicional, também é fator essencial.

Não é para todo mundo

Para o médico do esporte Páblius Staduto Braga, do Hospital Nove de Julho, do ponto de vista fisiológico, correr descalço é bastante positivo. Porém, ele não indica a prática para todos. “A pessoa não pode ter um corpo muito pesado. E não estou falando de indivíduos acima do peso, mas de musculatura e ossos. É preciso um equilíbrio da carga que você fará contra o solo”, lembra.

Além de corrida, muitas pessoas estão praticando treinos de musculação ou exercícios livres, como o agachamento, descalças. O médico vê benefícios. “A sensação de solo é gostosa para os pés, massageia. É extremamente positivo para os membros inferiores. Diferentemente da corrida, não há riscos.” 

Confira os benefícios e riscos do método

Benefícios

  • Alívio da sobrecarga nos joelhos, desde que o movimento seja feito de forma correta.
  • Maior percepção do corpo em relação ao solo.

Riscos

  • Maior risco de lesões no tornozelo e tendão de aquiles. Faça exercícios de fortalecimento para a região.
  • Bolhas ou sensibilidade maior nos pés. Isso tende a passar com o tempo.

Pretende investir na prática? Preste atenção

  • Correr descalço ainda é um método considerado inovador. Busque orientação com um profissional que entenda do assunto.
  • Comece aos poucos. Não é porque você corre 20 km de tênis que deva começar a correr a mesma distância sem calçado. O corpo precisa de tempo para se habituar.
  • Reveze os estímulos. Em um planejamento semanal, você pode alternar entre correr descalço e de tênis. Dessa forma, a adaptação será gradual e você poderá notar as diferenças de cada versão.
  • Atente-se aos riscos que o local escolhido possa oferecer para os pés. Na dúvida, use sandálias próprias para corrida, tênis minimalista ou, em último caso, o calçado tradicional.
  • Diferentes tipos de solos resultam em impactos também diferentes. No asfalto, ele é muito maior do que na grama ou na areia, por exemplo. Faça uma progressão e a adaptação será mais fácil.
  • Ao sentir dores, não force: pause os treinos e procure logo um especialista.

CUSTOMER EXPERIENCE PARA OS CLIENTES

 

Por Sabrina Murino – Ellevo

Já se passou o tempo em que o preço e qualidade eram os únicos atrativos para que o cliente realizasse uma compra. Os relacionamentos com as marcas se transformaram e isso mostra que elas oferecem muito mais que um produto ou serviço, e, sim, proporcionam experiência, envolvimento e sensações. Esse conjunto de percepções e impressões que um consumidor desenvolve sobre uma marca após uma interação, é denominado Customer Experience.

Atualmente, as empresas buscam impactar o consumidor antes, durante e após a compra. A imagem é cuidadosamente construída para que a jornada do cliente seja o mais agradável possível, lembrando que ela inicia antes mesmo do primeiro contato com uma marca e se estende até a finalização do negócio, gerando ações para garantir fidelização do cliente.

Por isso, podemos afirmar que oferecer uma experiência de compra alavanca os níveis de satisfação, reduzindo os índices de rejeição e, consequentemente, aumentando a receita do negócio.

Para alcançar isso, é preciso entender as reais necessidades do seu público-alvo, traçar estratégias para que a experiência seja incrível e memorável e desenvolver um vínculo emocional entre o cliente e a empresa.

O público-alvo precisa se sentir ouvido e ter as dúvidas esclarecidas de forma objetiva. Assim, satisfeito, irá recomendar sua experiência para outras pessoas. Todas as ações da marca devem ter foco no cliente, sejam elas de publicidade, posicionamento de marca, atuação na imprensa e em redes sociais, entre outros.

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sexta-feira, 1 de abril de 2022

SERGIO MORO DESISTE DA CANDIDATURA E DORIA BLEFA

 

Corrida presidencial
Como a “super-quinta” mexeu no tabuleiro eleitoral

Por
Rodolfo Costa – Gazeta do Povo
Brasília

João Doria renunciou ao governo de São Paulo e passou o cargo ao vice-governador Rodrigo Garcia: tucano quase desistiu desse movimento.| Foto: Pablo Jacob/Governo de SP

A aparente saída do ex-juiz Sergio Moro da corrida presidencial e o “blefe” do agora ex-governador paulista João Doria (PSDB), que confirmou sua pré-candidatura à Presidência da República após quase desistir, mexeram no tabuleiro da terceira via. Da esquerda à direita, todos observaram com atenção o xadrez eleitoral e calculam os impactos desses movimentos.

A leitura feita por lideranças políticas e interlocutores dos mais diferentes espectros da política à Gazeta do Povo é que as jogadas desta “super” quinta-feira (31) possibilitam um rearranjo dos partidos de centro que, a depender de diferentes variáveis, podem ampliar ou reduzir a polarização entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL).

Ao deixar o Podemos e se filiar ao União Brasil, Moro perde a condição de presidenciável, embora assegure aos mais próximos que não desistiu de sua candidatura e tentará se cacifar internamente no novo partido. A migração partidária possibilita, no entanto, que outras candidaturas da “terceira via” se reorganizem e tentem crescer no vácuo deixado por Moro, a exemplo do PSDB.

Os tucanos não despontam, contudo, como favoritos a colher os espólios eleitorais de Moro. Ao dar sinais de que não renunciaria ao mandato de governador e abdicaria de sua pré-candidatura e voltar atrás, Doria alimentou o desejo daqueles que sonham com a candidatura de Eduardo Leite (PSDB), que deixou o governo do Rio Grande do Sul nesta quinta.

Leite conta com apoio de parte da sigla para sair candidato ao Palácio do Planalto, embora uma ala tucana defenda o respeito ao resultado das prévias do PSDB e, portanto, Doria como pré-candidato à Presidência da República.

Além de mudanças no xadrez da terceira via, a quinta também foi marcada por movimentos do governo federal, via reforma ministerial. A saída de 10 ministros e a entrada de novos abre a possibilidade de Bolsonaro avançar em negociações para ampliar sua base eleitoral. O Planalto acredita que, dessa forma, a chapa presidencial poderá, inclusive, crescer nas pesquisas eleitorais.

Já na esquerda, Lula foi à Bahia oficializar a pré-candidatura do professor Jerônimo Rodrigues (PT) ao governo baiano em uma chapa com o MDB como vice. A aliança com os emedebistas é vista pelos petistas como a possibilidade de uma coalizão nacional entre PT e MDB.

Como o centro pode alimentar a polarização e quais os impactos disso
A filiação de Moro ao União Brasil foi classificada como um gesto de “desprendimento” pelo vice-presidente do partido em São Paulo, Júnior Bozzella. Para o dirigente, é um ato que reafirma a intenção de discutir uma candidatura única da terceira via. Contudo, ao fazer isso e abrir janela para o rearranjo no centro, Moro pode ajudar a campanha de Bolsonaro, até porque, por ora, nomes do centro não demonstram o mesmo desprendimento.

À medida em que o PSDB segue com sua pré-candidatura indefinida em decorrência da disputa interna entre João Doria e Eduardo Leite, abre-se a possibilidade de os votos de Moro migrarem para Bolsonaro, e não para o centro. Essa é uma leitura admitida entre pedetistas, que sonham com a possibilidade de o capital eleitoral do ex-juiz ser absorvido pelo ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT), que, nesta quinta, negou abrir mão de sua candidatura. “Muitos vão ceder, mas não serei eu”, disse.

Na hipótese de o centro não absorver os votos de Moro e o ex-juiz não conseguir se viabilizar novamente candidato à Presidência, Bolsonaro pode absorver esse eleitorado e crescer nas eleições. É um cenário que alimentaria a polarização e eliminaria quaisquer chances de a terceira via se viabilizar, seja por Ciro ou alguém da centro-direita.

“Aqueles 6%, 7% do Moro, eles não vão para Lula em hipótese nenhuma, muitos apostam que ele vai para o Bolsonaro”, diz o deputado federal Eduardo Bismarck (PDT-CE), 1º suplente da Mesa Diretora da Câmara. “Mas pode ser que algo ‘pingue’ no Ciro, porque tem muito ‘bolsonarista’ arrependido que não quer Bolsonaro de jeito nenhum”, acrescenta.

A possibilidade de Ciro crescer para um patamar de dois dígitos nas pesquisas e romper os 10% poderia mudar o panorama da corrida eleitoral e tornar sua candidatura mais atraente aos olhos de outros partidos. Nesse cenário, Bismarck entende que o PDT poderia compor com outros partidos. “Talvez com o crescimento dele até julho, quando é o período das convenções, isso pode acontecer”, analisa.

Na contramão desse cenário, a possibilidade de Ciro não subir nas pesquisas e a centro-direita não se unir criaria um cenário de “polarização perfeita” entre Bolsonaro e Lula, pondera Bismarck. “Se a candidatura do Ciro não subir mais um pouco — e não vejo outro nome que possa aparecer no cenário hoje —, e ficar basicamente entre os dois, que é o que ambos querem, é mais factível que ganhe o Bolsonaro”, analisa o pedetista.

Como as mudanças no centro podem diluir a polarização
Existem variáveis que tornam possível a diluição da polarização entre Lula e Bolsonaro. Na possibilidade de Eduardo Leite se sobressair a João Doria no PSDB e ser lançado pré-candidato, muitos vislumbram que ele possa crescer nas pesquisas eleitorais e ultrapassar outros nomes do centro. Nesse contexto, alguns analisam que ele poderia firmar uma chapa com a senadora Simone Tebet (MDB-MS), pré-candidata à Presidência, e emplacar uma candidatura competitiva.

Uma candidatura de Leite como cabeça de chapa é a única que gera preocupação no governo. Diferentemente de Doria e Moro, que disputam o mesmo eleitorado e são rejeitados por parte do eleitorado, o agora ex-governador gaúcho é apontado na Esplanada dos Ministérios como alguém sem rejeição e com espaço para crescimento.

“Leite tira voto porque, na pauta conservadora, a ideologia de gênero não ajuda a gente. Ele é gay, é liberal individual e na economia, mas não atropela a igreja. É jovem, um cara centrado, que fala bem, ele não é chacota de ninguém. É um candidato mais perigoso que Doria, Moro e a Simone”, analisa um interlocutor do governo.

O vice-presidente nacional do PL, deputado federal Capitão Augusto (SP), endossa a leitura de que o recuo da candidatura de Moro mais atrapalha do que ajuda. Para ele, Leite volta a ganhar força e isso pode levar o PSD a apoiar sua candidatura junto ao PSDB e atrair o apoio de União Brasil, Podemos e MDB.

“[Gilberto] Kassab [presidente do PSD] está fechado, não quer apoiar nem Lula, nem Bolsonaro, se não ele racha o partido. Então, ele vai para a terceira via, começa a se fortalecer com União Brasil, Podemos, PSDB, talvez até consiga puxar alguns partidos. Acho que a coligação vai apontar um nome novo, que seria Eduardo Leite com a Simone Tebet”, analisa. “Doria não ia para lugar nenhum e Moro apanhava da esquerda e direita”, complementa.

Uma possível candidatura de Leite “embaralha” as cartas e gera algum nível de incômodo ao governo à medida em que pode mudar o xadrez eleitoral, ressalta Augusto. “Estávamos bem tranquilos, caminhando tranquilamente para o segundo turno com Lula porque sabia que nenhum dos dois [Doria e Moro] iria subir, agora dá uma embaralhada, tem que acompanhar o movimento”, diz.

Apesar de crer que Leite pode se viabilizar e ser uma ameaça maior na terceira via, Augusto acredita que dificilmente uma candidatura de centro vai conseguir romper a atual polarização. “Eu acredito que temos praticamente 30% de votos consolidados na direita, ninguém tira nós do segundo turno. Acho que quem tem que se preocupar é o Lula, apesar da esquerda ter também os seus 25% de votos consolidados, damos como certo segundo turno”, justifica. “É muito difícil outro candidato atingir o patamar de 25%. Os dois estão consolidados”, acrescenta.

Como Moro tenta manter sua candidatura à Presidência no União Brasil
Os reais impactos que os movimentos adotados nesta quinta-feira podem trazer às eleições devem ser notados somente em julho. O ex-juiz, por exemplo, disse a pessoas próximas ainda hoje que sua candidatura se mantém e que ele apenas deu “um passo atrás” para dar “mais passos” a frente.

Com Moro filiado por São Paulo, o União Brasil acredita que vai filiar ainda mais quadros políticos para lançar à Câmara dos Deputados e ao Senado. Até 20 de julho, quando se inicia o prazo para a realização de convenções partidárias para deliberar sobre coligações e definir candidaturas à Presidência e a governos estaduais, a intenção da legenda é trabalhá-lo como candidato a deputado federal e montar sua relação de postulantes à Câmara.

A meta de Moro, porém, é viabilizar sua candidatura nesse período. Aliados e interlocutores afirmam que ele vai atuar internamente para se cacifar como candidato à Presidência e reduzir as rejeições existentes com a “ala do DEM” existente no União Brasil, chefiada pelo secretário-geral do partido, ACM Neto, pré-candidato à Presidência da República.

A abrupta saída de Moro para o União Brasil frustrou muitos eleitores. Aliados que o auxiliavam em sua coordenação relatam que apoiadores nos estados se sentem “órfãos” e ressentem da decisão, que, ao menos por ora, inviabiliza sua candidatura. Esse é um dos motivos pelo qual o ex-juiz não quer abdicar de sua campanha e vai trabalhar para revivê-la.

O acordo que selou a ida de Moro ao União Brasil também permite a ele fazer movimentos políticos que possam mantê-lo viável como presidenciável. O primeiro grande passo a ser feito por ele será uma viagem aos Estados Unido. Ele embarca neste fim de semana para uma agenda política em think tanks e organismos multilaterais.

Moro irá ao Capitólio, o Congresso norte-americano, onde tem agendas com lideranças dos partidos Republicano e Democrata. Ele também irá à Organização dos Estados Americanos (OEA), dará uma palestra no Atlantic Council, um think tank do campo das relações internacionais, terá reuniões com o Brazil-US Business Council, a principal organização empresarial dedicada ao fortalecimento da relação econômica e comercial entre Brasil e EUA, e participará do Brazil Conference, evento organizado por integrantes de instituições como Universidade Harvard, MIT e Universidade de Boston.

A agenda de Moro nos Estados Unidos foi organizada por Márcio Coimbra, coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília. O objetivo de aliados é mostrar as visões do ex-juiz para o Brasil nos EUA e demonstrar desenvoltura internacional, algo que, para interlocutores, ajudaria a qualificá-lo enquanto presidenciável.

As movimentações de Moro são defendidas por empresários que defendem a manutenção de sua candidatura. Aliados entendem que é legítimo ele tentar se viabilizar internamente no União Brasil e que ACM Neto e a “ala do DEM” deveriam pensar não apenas em suas chapas estaduais, mas também em uma configuração nacional. Para eles, João Doria, Eduardo Leite e Simone Tebet não conseguirão superar os dois dígitos nas pesquisas eleitorais.

O empresário Fábio Aguayo, diretor da Executiva Nacional da Confederação Nacional do Turismo (CNTur), é um dos que mantém a defesa da candidatura de Moro. “Ele tem que manter o discurso [de presidenciável]. Sendo democrático e respeitando os critérios que se estabelecem, ainda acho que é o mais forte para ser candidato. Vou manter essa postura, até as convenções tudo pode acontecer”, diz.

Como fica a relação no PSDB e quais as chances de uma chapa com o MDB
Movimentos à parte de Moro, o PSDB vai agir para tentar absorver os votos do ex-juiz. O problema, admitem tucanos, é como fazer isso a curto prazo em meio à queda de braço entre Doria e Leite. Os aliados do ex-governador de São Paulo entendem que ele tem preferência e que o ex-governador gaúcho deveria respeitar as prévias.

Já os aliados de Leite dizem que, até o momento, Doria não conseguiu se viabilizar nas pesquisas e que ele deveria ter o desprendimento político para recuar. Uma leitura feita entre alguns tucanos é de que, na disputa entre ambos, o ex-governador do Rio Grande do Sul pode sair fortalecido.

O “blefe” de Doria não foi bem aceito no tucanato. Quando o ex-governador de São Paulo deu sinais de que permaneceria no governo paulista e iria à reeleição, aliados de Rodrigo Garcia (PSDB), que assume o governo paulista com a proposta de pré-candidatura, chegaram a ameaçar Doria de impeachment em “tempo recorde” na Assembleia Legislativa, segundo informou o jornal O Globo.

A Gazeta do Povo apurou que houve muita “lavagem de roupa suja” até que o PSDB se acertasse internamente, o que resultou no anúncio de renúncia de Doria e a confirmação de sua pré-candidatura. O problema, diz um tucano paulista, é que o ex-governador paulista irritou caciques do partido e impulsionou a candidatura de Leite.

O senador Izalci Lucas (PSDB-DF), pré-candidato ao governo do Distrito Federal, analisa que “só o tempo dirá” quem será o candidato tucano à Presidência. Ele defende, contudo, que as prévias sejam respeitadas e que, pela lógica, a preferência seja por Doria. “Precisa pacificar, unir e acertar com outros partidos. Quem tiver a capacidade de fazer isso que vai ganhar a eleição”, destaca.

Os aliados de Leite e dissidentes de Doria, agora, trabalham para isolar o vencedor das prévias tucanas e atuam para construir uma composição com a emedebista Simone Tebet. O líder do MDB na Câmara, deputado Isnaldo Bulhões Jr. (AL), entende que haverão muitas conversas e debates no centro político, mas sustenta que seu partido manterá sua pré-candidatura à Presidência.

“A gente tem que respeitar o calendário, o MDB colocou uma pré-candidatura e vai discutir até mais a frente. Terá muito debate, muitas conversas, e essas decisões e todos esses fatos gerados em torno da renúncia do governador Doria ficam para julho”, pondera. “Eu costumo respeitar sempre o calendário eleitoral”, acrescenta Bulhões Jr.

Como o governo espera desidratar o centro e manter a polarização
A esperada reorganização do centro ligou um sinal de alerta no governo. A coordenação eleitoral de Bolsonaro mantém a confiança de vitória, mas reconhecem que os desdobramentos desta quinta demandarão ainda mais esforços para a construção de uma ampla base eleitoral.

O governo articula a construção de uma base que vai além de PL, PP e Republicanos. Além de conversas para trazer partidos menores, como PSC, PTB, PROS e PRTB, o Planalto também atua para inserir PSD, MDB e União Brasil.

À medida em que o centro tenta se reorganizar entre PSDB, MDB e União Brasil, o governo trabalha para desidratar a terceira via e a promessa é de intensificar as conversas com alguns desses partidos, principalmente o PSD, que assumiu o Ministério da Agricultura com Marcos Montes, ex-deputado federal e filiado ao partido de Gilberto Kassab.

Para tornar isso possível, o governo negocia estruturas na Esplanada dos Ministérios, estatais e até a vice-presidência da República. O agora ex-ministro da Defesa, Walter Braga Netto, segue como franco favorito para ser vice de Bolsonaro na chapa à reeleição. Contudo, a depender da evolução do presidente nas pesquisas, um novo nome pode entrar em pauta.

A coordenação eleitoral de Bolsonaro definiu que o melhor é definir um vice em julho, quando chegar o período das convenções partidárias. Até lá, existe a expectativa de que ele evolua nas pesquisas e reduza seus índices de rejeição. Caso isso ocorra, aliados defendem que ele poderia escolher um político para ser vice.

Suas ex-ministras da Agricultura, Tereza Cristina (PP), e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves (Republicanos), são nomes que voltam a ser citados no Planalto como opções para compor como vice de Bolsonaro na chapa presidencial. Seria uma estratégia para ajudar a reduzir a rejeição junto ao eleitorado feminino e puxar votos de outros públicos.

A vontade pessoal de Bolsonaro, porém, segue em emplacar Braga Netto como vice. “É um homem cotado para qualquer coisa”, disse o presidente na quinta-feira. O general deixou o Ministério da Defesa e assume um posto de assessor especial no Planalto e vai despachar diretamente com o presidente. Interlocutores palacianos apontam que ele tem capacidade para contribuir e agregar na estratégia de campanha.

Aliados alertam, porém, para a importância de Bolsonaro evitar temas polêmicos e sensíveis. Existe um cálculo político feito de que evitar “esticar a corda” com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) é uma tática eficaz para atrair apoio de políticos e partidos aliados. Nesta quinta, ele defendeu a ditadura militar e sugeriu que ministros da Suprema Corte “calem a boca”.

“Nós aqui temos tudo para sermos uma grande nação. Temos tudo, o que falta? Que alguns poucos não nos atrapalhem. Se não tem ideias, cala a boca. Bota a tua toga e fica aí. Não vem encher o saco dos outros”, declarou. Ele mencionou duas vezes o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ), que foi à cerimônia sem tornozeleira eletrônica e a colocou na tarde de quinta ao atender uma determinação do ministro Alexandre de Moraes.

O presidente admitiu que é aconselhado a evitar temas polêmicos e deixou escapar a irritação com o tipo de decisão de Moraes. “Não pode conselheiros o tempo todo [dizerem]: ‘calma, espera o momento oportuno’. Calma é o cacete, pô”, disse Bolsonaro. “É muito fácil falar: ‘Daniel Silveira, cuida da tua vida’. Não vou falar isso. Fui deputado por 28 anos. E lá dentro daquela Casa, com todos os possíveis defeitos, ali é a essência da democracia também”, declarou.

Apesar do desabafo de Bolsonaro, aliados minimizam as declarações e entendem que isso não causará problemas à candidatura. “Não ajuda, mas também não atrapalha”, analisa o deputado Capitão Augusto, vice-presidente do PL. Para ele, em “alguns dias” as falas do presidente estarão superadas.

PT desdenha da terceira via e avalia que centro ajuda campanha de Lula
Os acontecimentos desta quinta foram bem recebidos pelo PT. Para o partido, a retirada da candidatura de Moro e o blefe de Doria são sinais de que a eleição vai se polarizar entre Lula e Bolsonaro, uma análise que é comemorada por lideranças petistas.

“Os movimentos de hoje mostram um certo desespero do centro, dessa chamada terceira via, e até um certo desaparecimento do Ciro. É um processo natural e uma tentativa de sobrevivência de alguns como o próprio Moro, que não decolou e não decola”, avalia o deputado federal Zé Neto (PT-BA), vice-líder do partido na Câmara.

Mesmo a reforma ministerial do governo e a expectativa criada no Planalto de como Bolsonaro pode crescer a partir de agora nas pesquisas não é uma situação que preocupam os petistas. Para Zé Neto, mesmo candidaturas estaduais como a de Tarcísio de Freitas, ex-ministro da Infraestrutura, não tem chances de emplacar e se mostrar robusta o suficiente para ajudar a transferir votos à chapa presidencial.

“Acho que eles vão ter muitas dificuldades para emplacar essas candidaturas. Serão movimentos para administrar danos, porque o governo não tem palanque e vai ter problemas na execução do governo, que já não está bom”, avalia o vice-líder do PT. “Tarcísio, por exemplo, saiu dos quadros do PT, foi do Dnit [Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes] quando Dilma era presidente e trazia um certo trânsito junto ao setor. Agora que vai sair eu acho que vai enfrentar dificuldade grande”, acrescenta.

O petista entende que a eleição já está polarizada e acredita que a tendência é permanecer assim. “A polarização existe porque tem dois candidatos que se firmaram nas suas posições. Mas agora, com a diluição dos campos mais conservadores, a tendência do Bolsonaro é esfriar”, avalia. “E do outro lado, a terceira via a cada hora demonstra clara dificuldade e fragilidade para se viabilizar”, pondera.

A consolidação da chapa de Jerônimo Rodrigues (PT) com Geraldo Júnior (MDB) como pré-candidato a vice-governador é, para Zé Neto, uma demonstração de força do partido. Segundo o deputado, é um movimento que pode ser replicado a nível nacional, sendo, inclusive, articulado dentro do Senado pelo senador Jaques Wagner (PT-BA) com lideranças emedebistas.

“Lula marca ponto, a tendência é que a gente consiga avançar na conversa com MDB nacionalmente. Na Bahia, saímos das cordas, estava todo mundo preocupado com o movimento do PP [que, no estado, desembarcou da base petista e migrou para a pré-candidatura de ACM Neto], e as coisas se inverteram”, avalia Zé Neto. “No ‘lado de lá’, eles não conseguem se encontrar e, a nível nacional, vai se concentrando com a saída dos ministros para fazer palanque com Bolsonaro uma polarização que a gente consegue ver uma viabilidade de vitória no nosso campo”, acrescenta.

O líder do MDB na Câmara, deputado Isnaldo Bulhões Jr. (AL), lembra que, em Alagoas, seu partido tem afinidade histórica com o PT, mas ele evita cravar que arranjos estaduais possam garantir o embarque de sua legenda a uma chapa política ou outra.

“O MDB é muito plural, desde seu nascedouro foi formado por frentes de pensamentos diferentes, então, carece de uma discussão maior, não apenas nessas questões de arranjos locais, mas, sim, dentro do seu funcionamento e da programática do partido”, pondera. “Tem frentes que pensam mais próximo à esquerda, e uma pequena ala mais próxima a direita, minoritária”, diz.

A coordenação eleitoral de Bolsonaro mantém diálogo com a ala do MDB mais alinhada à direita. Um dos nomes que apoia a liberação da bancada nos estados e o apoio à candidatura presidencial é o prefeito de Duque de Caxias (RJ), Washington Reis, segundo-secretário da Executiva Nacional emedebista.


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JURISTAS MOSTRAM QUE AS DECISÕES DE ALEXANDRE DE MORAIS SÃO INCONSTITUCIONAIS

Medidas abusivas
Por
Gabriel Sestrem – Gazeta do Povo

Para juristas ouvidos pela reportagem, há decisões inconstitucionais por parte do STF desde a prisão de Daniel Silveira, em fevereiro de 2021| Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

Diversas decisões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em relação ao deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) têm extrapolado os limites da Constituição Federal. A avaliação é unânime entre juristas ouvidos pela reportagem.

Moraes determinou a prisão em flagrante por crime inafiançável do deputado carioca em 17 de fevereiro do ano passado, um dia após Silveira divulgar um vídeo com ofensas e ameaças a ministros do STF. Segundo fontes ouvidas pela Gazeta do Povo, desde o pedido de prisão há aspectos inconstitucionais nas decisões do ministro. Um dos apontamentos centrais é que as falas do deputado, embora condenáveis e até mesmo passíveis de punição pela Câmara dos Deputados em processo de quebra de decoro, estão inquestionavelmente acobertadas pela imunidade parlamentar.

Multa e bloqueio de bens não estão previstos na legislação criminal
Nesta terça-feira (29), Silveira prometeu “morar” nas dependências da Câmara dos Deputados por tempo indeterminado para que não fosse cumprida a ordem de Moraes de colocar tornozeleira eletrônica no parlamentar. O ministro alega que o deputado descumpriu ordem judicial ao comparecer a um evento em São Paulo no qual teve contato com outros investigados no chamado “inquérito das milícias digitais”.

Diante da conduta de Silveira, na noite desta quarta-feira (30) Moraes definiu multa diária de R$15 mil por desobediência caso o parlamentar continue se recusando a colocar o equipamento de monitoramento eletrônico. Na mesma decisão, o ministro ordenou o bloqueio das contas bancárias de Silveira. De acordo com especialistas em Direito, tal medida não encontra previsão legal.

“A decisão de aplicar multa não apenas não é comum, como é ilegal. Essa seria uma medida cautelar (decisão que visa a assegurar o cumprimento de outra decisão), contudo ela não está prevista no rol do art. 319 do Código de Processo Penal (CPP). Logo, ela seria uma cautelar que chamamos atípica. E o próprio STF tem julgado recusando essa possibilidade”, explica André Borges Uliano, procurador do Ministério Público Federal (MPF) e professor de Direito Constitucional.

Conforme explana o advogado criminalista Geraldino Santos Nunes Júnior, conselheiro da OAB/DF, multas e bloqueio de bens estão previstos no Código de Processo Civil (CPC) para casos específicos, como para impedir que alguém se desfaça de bens enquanto há dívidas a serem pagas. “A aplicação dessas medidas em um processo criminal é uma manobra, uma novidade total. Essas decisões têm sido tomadas ao arrepio do Código de Processo Penal”, afirma.


STF fere a Constituição ao proibir Daniel Silveira de dar entrevistas, dizem juristas
Há decisões inconstitucionais desde a prisão de Daniel Silveira, dizem juristas
A prisão do deputado, em fevereiro do ano passado, foi determinada por Alexandre de Moraes no âmbito do Inquérito 4.781, que apura supostas ameaças, ofensas e divulgação de fake news contra ministros do STF e seus familiares. O chamado “inquérito das fake news” foi aberto em 2019 sem alvo determinado e por iniciativa do próprio STF – ação que é vista por juristas como ilegal por, entre outros motivos, concentrar na Corte o papel de acusador, juiz e vítima. Usualmente, o Supremo age quando é provocado, seja a pedido do Ministério Público, da Procuradoria-Geral da República ou de autoridade policial. Há ainda críticas de advogados dos investigados nesse inquérito, que alegam que passados dois anos de sua abertura, o Supremo ainda não concedeu acesso dos autos na íntegra, inviabilizando as defesas.

Sobre a punição a parlamentares, o artigo 53 da Constituição determina que deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos. Segundo o texto constitucional, parlamentares só podem ser presos em flagrante – como ocorreu no caso de Silveira – quando tiverem cometido crime inafiançável.

Para garantir que a prisão se desse em flagrante, Alexandre de Moraes por meio de uma manobra jurídica, inovou ao trazer para a internet o conceito de “infração permanente”. Na argumentação do ministro, a disponibilização do vídeo nas redes sociais do deputado permitiria a prisão em flagrante, uma vez que no momento da prisão a publicação permanecia disponível.

Por outro lado, para configurar o delito como crime inafiançável, Moraes citou artigos da Lei de Segurança Nacional, da época da ditadura militar, que não correspondiam à conduta do parlamentar no vídeo. O artigo 17, por exemplo, falava em “tentar mudar, com emprego de violência ou grave ameaça, a ordem, o regime vigente ou o Estado de Direito”. Já o artigo 22 coibia a propaganda “de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social”.

“Em primeiro lugar, houve um enquadramento forçado em delitos contra a Segurança Nacional a fim de contornar o fato de que o Código de Processo Penal só admite as medidas cautelares mais severas a delitos graves. Em segundo lugar, houve a ficção de flagrante e um contorcionismo jurídico para enquadrá-lo inafiançável, visto que esse é o único caso em que cabe prisão em flagrante contra parlamentares”, afirma Uliano.

Para agravar o caso, a Lei de Segurança Nacional foi revogada em setembro do ano passado. “Como a lei foi revogada, operou-se o abolitio criminis, ou seja, não é mais possível atribuir pena por artigos que nela constavam. Ele não poderia mais sequer responder a respeito daquilo. Existe, no meu entender, um vício a respeito disso”, afirma o advogado criminalista Márcio Engelberg.

Ao se tratar de deputados e senadores, ainda que houvesse elementos que justificassem a prisão em flagrante por crime inafiançável, de acordo com a Constituição, “nesse caso, os autos serão remetidos dentro de vinte e quatro horas à Casa respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão”, diz a Constituição.

Para se justificar de não ter oficiado a Câmara para que deliberasse sobre o pedido de prisão em 24 horas, Moraes afirmou, no julgamento em que o plenário da Corte manteve a decisão de prender Silveira, que “atentar contra as instituições, contra o Supremo, contra o Poder Judiciário, contra a democracia, contra o Estado de Direito não configura exercício da função parlamentar a invocar a imunidade constitucional do artigo 53, caput. As imunidades surgiram para a preservação do Estado de Direito”.

Para Engelberg, um dos problemas centrais do caso Daniel Silveira está justamente na tentativa, por parte de Moraes, de afastar o deputado das prerrogativas da imunidade parlamentar. “A questão toda orbita em cima da imunidade parlamentar. O artigo 53 diz que os deputados e senadores são invioláveis civil e criminalmente por quaisquer opiniões, palavras e votos. Ainda que o Daniel Silveira tenha se excedido em sua fala – e isso é indiscutível, ele próprio confessou ter se excedido –, não poderia de forma nenhuma ter sua conduta criminalizada, como vem fazendo o Supremo”, afirma o advogado criminalista.

Para Nunes Júnior, caso o ministro tenha se sentido ofendido com as declarações de Silveira, o caminho correto seria entrar com um processo por crime contra a honra. “Agora, no caso do ministro, não existe uma base legal para amparar essas decisões. Ele criou uma ficção jurídica para poder justificar a decisão do Daniel de não se submeter à tornozeleira”.

Por fim, conforme apontam os juristas, a determinação de medidas cautelares que restringem o direito de comunicação impostas pelo ministro – como proibição de fazer publicações nas redes sociais e conceder entrevistas – também ferem os artigos 5º, 53 e 220 da Constituição Federal, que abordam, respectivamente, a liberdade de expressão, a imunidade parlamentar e a liberdade de informação, e constituem censura prévia.

“O processo contra o deputado Daniel Silveira tem sido tratado, basicamente, como uma vingança pessoal, em virtude das ofensas de cunho pessoal proferidas contra os ministros. O fato é que a fala do deputado, embora reprovável, do ponto de vista penal é quase irrelevante, visto que o ilícito consistiu essencialmente em agressões à honra subjetiva e objetiva dos ministros, e delitos contra a honra comportam tratamento penal bastante benigno”, explica Uliano.

“Como os ministros pretendem atingir consequências incompatíveis com um delito dessa natureza – o qual nem seria punível, pois estaria acobertado pela imunidade –, forçaram um enquadramento inadequado e passaram a impor uma série de medidas desproporcionais e descabidas”, complementa.


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A RÚSSIA ESTÁ MESMO DIMUINDO SUAS AÇÕES DE GUERRA NA UCRÂNIA?

 

Intensificação da ofensiva
Por
Gazeta do Povo, Agência EFE

Kiev mantém barricadas nas ruas, nesta quinta-feira: moradores desconfiam de promessa russa de reduzir ataques à capital| Foto: EFE/Clàudia Sacrest

A movimentação das tropas russas no território ucraniano, nesta quinta-feira (31), indica que Moscou não está diminuindo a ofensiva sobre as cidades de Kiev e Chernigov, como havia anunciado após o avanço das negociações em Istambul. Segundo o serviço de inteligência da OTAN, “as unidades russas não estão se retirando, mas sim se reposicionando” na região.

“A Rússia mentiu repetidamente sobre suas intenções, assim como só podemos julgar a Rússia por suas ações, não por suas palavras”, declarou o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, nesta quinta-feira.

O norueguês afirmou que Moscou “está tentando reagrupar, reabastecer e reforçar a ofensiva na região do Donbass”, de acordo com a inteligência da Aliança. “Ao mesmo tempo, a Rússia mantém pressão sobre Kiev e outras cidades, assim, podemos esperar ações ofensivas adicionais, que gerarão, inclusive, mais sofrimento. A Rússia deve terminar essa guerra sem sentido, retirar as tropas e se envolver em conversações de boa fé”, defendeu.

Na quarta-feira (30), o porta-voz do Ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov, havia prometido diminuir a pressão ofensiva sobre Kiev e Chernigov, após o avanço nas negociações entre os dois países.

Segundo ele, estava programado “um reagrupamento de tropas” em torno das duas cidades, por considerar que os principais objetivos da campanha iniciada em 24 de fevereiro haviam sido cumpridos.

De acordo com Konashenkov, durante a primeira etapa do conflito, o objetivo era forçar a Ucrânia “a concentrar suas forças, recursos e equipamentos na defesa das grandes cidades”, o que incluía a capital, tirando a atenção do “principal alvo de nossas Forças Armadas, o Donbass”.

No mesmo dia, no entanto, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, denunciou uma “concentração de tropas russas” para lançar novos ataques no Donbass, e disse não acreditar “em ninguém”, ao mencionar a promessa de retirada de tropas invasoras de Kiev e Chernigov.

“Sobre a suposta redução da atividade dos ocupantes nessas frentes, sabemos que isso não é um desvio, mas as consequências do exílio. Consequências do trabalho de nossos defensores. Mas também vemos que ao mesmo tempo há um reforço de tropas russas para novos ataques no Donbas. E estamos nos preparando para isso”, afirmou Zelensky.

O presidente ucraniano acrescentou que as negociações em curso “ainda são palavras” e que prefere não acreditar “em nenhuma construção verbal bonita. Há uma situação real no campo de batalha. E agora isso é o mais importante. Não vamos dar nada de presente. E vamos lutar por cada metro da nossa terra”.

No cenário internacional, o clima também é de ceticismo acerca das disposições do Kremlin de pôr um fim à guerra. O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, afirmou que “não houve progresso em nenhum assunto” nas negociações entre Moscou e Kiev.

“Acredito em ações, não em palavras. Se o presidente Putin determinar amanhã de manhã que se desista do cerco de Mariupol, que permita a entrada de ajuda humanitária e permita que a população civil circule livremente. Aí então direi: ‘Sim, há progresso'”, declarou em entrevista à emissora France 24.

Mercenários

Os Estados Unidos também informaram, na quarta, que há “indícios” de que a Rússia esteja recrutando “cerca de mil mercenários” na Síria e em países do Norte da África, como a Líbia, para que sejam enviados ao leste da Ucrânia. O objetivo é intensificar a ofensiva na região do Donbas, considerada prioritária pelo Kremlin.

O porta-voz do Pentágono, John Kirby, disse em entrevista coletiva que há sinais de que a Rússia procura essas pessoas através do chamado “Grupo Wagner”, uma empresa de segurança privada que emprega mercenários e forças paramilitares especiais chechenas, apoiada pelo governo russo.

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DESISTÊNCIA DA CANDIDATURA DE MORO FRUSTA O PARTIDO E OS SEUS ELEITORES

 

Fiasco eleitoral

Por
Alexandre Garcia – Gazeta do Povo

O ministro da Justiça, Sergio Moro, em Curitiba, para inaugurar uma delegacia modelo para investigações de crimes financeiros e de corrupção na Superintendência da Polícia Federal. com a presença do governador do Paraná Ratinho Junior, do Diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo, Luciano Flores de Lima, superintendente da Policia Federal do Paraná e Coronel Romulo Marinho Soares, secretário de segurança Publica do Paraná.

Sergio Moro se viu sozinho no projeto de disputar a Presidência da República e desistiu.| Foto: Arquivo/Gazeta do Povo

O último dia de março foi uma correria política entre os prováveis candidatos nas eleições de outubro. De manhã, no Palácio do Planalto, os ministros que tiveram que se despedir dos ministérios para serem candidatos apresentaram os seus substitutos, que já tomaram posse.

Só para lembrar: Tarcísio de Freitas vai ser candidato ao governo de São Paulo; Tereza Cristina ao Senado pelo Mato Grosso do Sul; Damares Alves ao Senado pelo Amapá; Gilson Machado ao Senado por Pernambuco; Marcos Pontes, deputado federal por São Paulo; João Roma, governo da Bahia; Rogério Marinho, governo do Rio Grande do Norte; Onyx Lorenzoni, governo do Rio Grande do Sul; Flávia Arruda, que deve tentar um novo mandato de deputada pelo Distrito Federal; e Walter Braga Netto, que vai ser assessor do presidente da República, esperando o momento de entrar na chapa como candidato a vice.

Saíram também os secretários da Cultura Mario Frias; da Pesca Jorge Seif Júnior; da Fundação Palmares, Sergio Camargo; e o chefe da Abin, Alexandre Ramagem. Todos eles serão candidatos a deputado federal.

O fiasco de Doria
O rei do fiasco foi João Doria, governador de São Paulo. Foi um carnaval. Ele disse que ia sair, depois voltou, já não sabia se ficava ou não, e anunciou a aliados de madrugada que não seria mais candidato e ficaria como governador. Aí deixou o Rodrigo Garcia, o vice-governador, na mão, porque estava tudo pronto para ele assumir o governo do estado e se candidatar em outubro.

Aí a presidência do PSDB disse para ele ficar, ser o candidato deles, que ele tinha total apoio e Doria acabou ficando. O PSDB saiu em frangalhos desse 31 de março e tudo indica que é Eduardo Leite o candidato preferido da sigla. Mas é assim mesmo. Doria está colhendo o que plantou.

O fiasco de Moro

Outro fiasco do dia foi de Sergio Moro, mas não só dele. Foi também um fiasco dos meus coleguinhas de imprensa que fizeram grandes apresentações do “futuro presidente da República”, do candidato que acabaria com a polarização Bolsonaro e Lula. Mas não adiantou nada. Moro desistiu. Ele deixou na mão o Podemos e foi para o União Brasil, mas o pessoal do DEM no novo partido não o apoiou como candidato a presidente. Só restou se candidatar como deputado federal, é a chance que restou a ele.

O PDT, claro, vibrou com a notícia, porque aí Ciro Gomes fica meio sozinho, como regra três. Se bem que Eduardo Leite ainda está na esperança de se candidatar e Simone Tebet, do MDB, segue na disputa, por enquanto. Mas uma coisa é certa: pelo que está se encaminhando a eleição será Bolsonaro ou Lula.

O fiasco de Daniel Silveira
E outro fiasco foi o deputado Daniel Silveira (União Brasil-RJ), que fez uma onda ameaçando se rebelar contra a ordem de uso da tornozeleira eletrônica. Ficou lá na Câmara dizendo “daqui não saio, daqui ninguém me tira”, que está do lado da Constituição, mas no fim também desistiu. Silveira foi até a Polícia Federal e botou a coleira no tornozelo. Mais um ponto para o ministro do STF Alexandre de Moraes diante da Câmara e do Senado.

Decisão acertada
Luciano Hang estava eleito como senador por Santa Catarina se quisesse. Mas ele deu uma aula de política, aquela do chão, de realismo. Disse que não será candidato. Pensou nos 22 mil funcionários e na família, e decidiu continuar como empresário militante. E acho que ele tem razão. Porque como empresário e militante, ele tem uma tribuna bem mais ampla e com maior alcance que se fosse ficar confinado no plenário do Senado. Acho que fez bem.

Judiciário prostituído
Assisti a uma aula de quase uma hora do ministro Ives Gandra da Silva Martins, do Tribunal Superior do Trabalho, sobre ativismo judicial. E cito só uma frase dele: “Judiciário politizado é Judiciário prostituído. O epicentro da crise brasileira está no poder Judiciário, quando desborda de julgar para legislar ou traçar políticas públicas”.


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AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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