Deputado Daniel Silveira voltou a criticar o STF, desta vez na tribuna da Câmara.| Foto: Paulo Sérgio/Câmara dos Deputados
O deputado Daniel Silveira (União Brasil-RJ) subiu à tribuna da Câmara na semana que passou para reclamar do não cumprimento da Constituição por parte de ministros do Supremo Tribunal Federal. Foi um discurso ousado. É bom lembrar que ele já esteve preso, injustamente, por ordem do próprio STF.
Silveira foi detido um ano atrás, às 11 horas da noite, em casa, embora o artigo 5º da Constituição esteja escrito que a casa é o asilo inviolável do cidadão, a menos que ele esteja em flagrante delito. Mas o ministro Alexandre de Moraes inventou um tal de flagrante continuado, pelo fato de as ofensas feitas a ministros do STF estarem em um vídeo na redes sociais.
Na tribuna, Silveira usou uma linguagem muito dura, mas a Constituição diz, no artigo 53, que deputados e senadores são invioláveis por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos. Não estou dizendo que concordo com a linguagem dele, mas sim que a gente tem que defender a Constituição. Se não, estamos perdidos, não haverá nada mais para nos defender.
Ainda em seu discurso, o deputado perguntou se não entendiam o que significava a palavra “quaisquer”, porque ele foi preso mais de uma vez por suas opiniões, algo que a Constituição lhe assegura. Posso discordar do estilo e do que ele disse, mas está garantido na lei, o que é que se pode fazer? Temos que seguir a Constituição, ipsis literis, assim como está escrito, porque ela é cidadã, ela é muito clara.
Pois bem, depois dessa fala na tribuna, a subprocuradora da República Lindôra Araújo oficiou ao Supremo para que Silveira volte a usar a tornozeleira eletrônica e que não possa sair de Petrópolis, onde mora, ou de Brasília. O ministro Alexandre de Moraes, alvo das críticas do deputado, aceitou o pedido do MP.
Lindôra chegou a escrever no pedido que o parlamentar tenta abolir a democracia, o que é sem dúvida um exagero. Eu acho que a abolição da democracia pode se dar, pouco a pouco, quando não se respeita a Constituição, porque ela é o cerne da democracia.
Leis casuísticas
Tenho pena do Tribunal Superior Eleitoral que terá de aplicar nesse ano leis casuísticas, será uma loucura. A cada eleição surge uma lei especial. Está escrito na lei: não pode fazer propaganda eleitoral antes de 15 de agosto.
Com base nisso, o Partido Liberal reclamou que num festival de música lá em São Paulo foi mostrada uma bandeira do Lula e falado mal do presidente Jair Bolsonaro. Um juiz do TSE, que é também do Superior Tribunal de Justiça, proibiu manifestações políticas no festival e determinou multa de R$ 50 mil por vez que essa decisão seja descumprida.
Mas o que é propaganda eleitoral? Segundo os juristas, é pedir claramente voto para um candidato e recomendar que não se vote em outro candidato. Qualquer dessas duas opções é propaganda eleitoral e o resto não é. Fazer apologia de pessoas, de ideias, de doutrinas, etc, não é, mas é um negócio muito subjetivo.
Por exemplo, o ex-presidente Lula foi a Niterói (RJ) neste fim de semana comemorar o centenário do PCdoB. Estavam lá vários políticos: a presidente do PT, Gleisi Hoffmann; o ex-ministro Aloisio Mercadante; o ex-senador Lindbergh Faria; o deputado Marcelo Freixo; a ex-deputada Manuela D’Ávila; e o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, do PSB. O evento chamava-se festival vermelho e Lula fez discurso falando mal do adversário e bem do governo dele, enfim.
Ao mesmo tempo, no domingo, teve um evento do PL no Centro de Convenções de Brasília para filiação de apoiadores de Bolsonaro que serão candidatos. Também teve discurso de Bolsonaro, que disse que a luta neste ano não será entre a direita e a esquerda, mas entre o bem e o mal.
Estavam lá aliados dele que serão candidatos: João Roma ao governo da Bahia; Tarcísio Freitas ao governo de São Paulo; Gilson Machado ao Senado por Pernambuco; e Marcos Pontes a deputado por São Paulo. O ministro Braga Netto, provável vice de Bolsonaro, não foi ao evento para evitar qualquer enquadramento na lei.
Então, são manifestações políticas e eleitorais. Mas a lei quer restringir o que está liberado pela Constituição, que fala na livre manifestação do pensamento, das ideias, da expressão, sem censura, e a lei tenta censurar. Esse vai ser um problema sério para o TSE, porque ele é o tribunal da apelação, que terá sempre que resolver esse tipo de conflito.
A democracia liberal e a globalização econômica enfrentam a sua maior prova desde o fim da guerra fria.Mas o destino do Brasil está nas mãos dos brasileiros
Notas & Informações, O Estado de S.Paulo
A guerra na Ucrânia é o evento geopolítico mais importante desde a queda do Muro de Berlim. A disseminação do liberalismo por meio da retroalimentação entre a democracia e a economia de mercado está ameaçada: em 30 anos, o mundo nunca esteve tão distante do Fim da História, na fórmula otimista de Francis Fukuyama, e tão próximo do Choque de Civilizações, na visão pessimista de Samuel Huntington. Como disse ao Estadão o economista Martin Wolf: “Começamos a nos mover para uma era de conflitos geopolíticos entre democracias e autocracias”. A questão é quão longos, amplos e profundos eles serão.
No pior cenário, o mundo será rachado em dois blocos, o democrático, liderado por EUA e Europa, e o autocrático, liderado por China e Rússia. A desconfiança, não só entre esses blocos, mas em seu interior, pode intensificar o populismo e a corrida nacionalista, balcanizando a economia global. As hostilidades podem escalar para uma 3.ª guerra mundial e, no limite, uma hecatombe nuclear: não o “Fim da História”, mas algo muito próximo do fim do mundo.
Por outro lado, os blocos podem se equilibrar. Sem abrir mão de seus regimes políticos, ambos poderiam combinar segurança e abertura econômica, e cooperar em objetivos como a paz mundial e o combate à crise climática ou à fome. No melhor cenário, a crise pode dar um novo senso de propósito à democracia, a ordem liberal pode ser revigorada no Ocidente e, gradualmente, as forças liberais nas potências autocráticas podem desencadear a erosão do totalitarismo.
O certo é que o liberalismo político e econômico terá de provar resiliência.
Há mais de uma década a democracia está em recessão e a autocracia em ascensão. China e Rússia expandem seu aparato de controle e se mostram mais desabridas em suas ambições imperialistas, enquanto as democracias no Ocidente têm sido vulneradas por aventuras populistas e autoritárias. A globalização sofreu golpes severos: a crise de 2008, as guerras comerciais de Donald Trump, a pandemia e, agora, a guerra.
A alta nos preços de energia e alimentos conduz a uma estagflação – mais ou menos prolongada, conforme o desfecho da guerra. “Acho que haverá uma ‘desglobalização’ entre os países ocidentais e Rússia e a China”, argumentou Wolf. “Os outros países terão de decidir como vão manter relações comerciais.”
A economia brasileira será relativamente pouco afetada. Nem EUA nem China vão querer interferir diretamente no País. A indústria do Brasil talvez siga pouco dinâmica e integrada, mas as suas commodities são importantes para ambos os lados. A exportação de alimentos é vital para o mundo e deve ser, na medida do possível, preservada.
Entre os desafios econômicos estão a estabilidade monetária e financeira e o controle da inflação e da dívida das empresas em dólar. “O País tem ido bem nessa área, mas não sei quanto isso vai durar com o populismo”, advertiu Wolf. “O Brasil precisa de uma liderança melhor.” A crise intensificou a importância das eleições. “Gostaria de ver um líder jovem, com as ideias certas, competente, que diz a verdade aos brasileiros e tenta uni-los para usar o imenso potencial que o Brasil tem.”
Como disse o analista geopolítico Gideon Rachman, para a crise na Ucrânia há três opções: “Uma guerra prolongada; um compromisso de paz; ou um golpe na Rússia. Conte com o primeiro, trabalhe pelo segundo e tenha esperança no terceiro”. Em relação à ordem mundial, pode-se dizer algo análogo: conte com o acirramento entre o bloco democrático e o autoritário, trabalhe por um compromisso entre eles e tenha esperança no reflorescimento das liberdades. Em todo caso, o Brasil tem grandes responsabilidades a assumir e muito trabalho à frente.
Como disse Wolf, “minha visão sempre foi a de que 90% do que determina o sucesso do Brasil são as decisões feitas pelos brasileiros: a qualidade de seus líderes”. Dada a tradição diplomática do Brasil e sua posição na ordem geopolítica e econômica, esse diagnóstico é tão realista quanto alvissareiro. Mas, dada a qualidade dos líderes de intenção de voto, o prognóstico é extremamente desafiador.
Para um guerreiro em uma operação de sítio no século 16, a arte da escalada significava galgar altos muros fortificados de cidades evitando ser atingido por coisas desagradavelmente incandescentes ou afiadas. Para os homens que reescreveram as regras da estratégia segundo a era nuclear, a arte da escalada é o processo por meio do qual, pouco a pouco, uma guerra limitada se torna uma guerra ilimitada. Como nos cercos ancestrais, atualmente uma escada é crucial: mas uma escada conceitual, na qual cada degrau tanto eleva o nível do conflito quanto envia um sinal para o outro lado.
Herman Kahn, uma das várias inspirações para o personagem principal do inigualável tratado de Stanley Kubrick sobre dissuasão nuclear, Dr. Fantástico, concebeu uma escada de 44 degraus de escalada para estudar e analisar o fenômeno. O movimento do 9.º degrau (“Confrontos militares dramáticos”) para o 10.º (“Rompimentos provocativos de relações diplomáticas”), notou ele, é o passo no qual a guerra nuclear deixa de ser algo impensável.
Dr. Fantástico é uma comédia porque Kubrick considerou impossível colocar na tela de outra forma os absurdos desta conta escatológica e sua perturbadora teorização. Isso não significa que os conceitos da sistematização pela escada não tenham significado. A invasão da Ucrânia (12.º degrau: “grande guerra convencional”) sem dúvida elevou o mundo para além do nível em que a guerra nuclear deixa de ser algo impensável; nas palavras do secretário-geral da ONU, António Guterres, tais horrores “retornaram para o campo da possibilidade”. Os riscos de um conflito escalar para uma guerra nuclear são maiores hoje do que foram por mais de meio século.
Captura de vídeo divulgada pelo Ministério da Defesa da Rússia em 19 de fevereiro de 2022 mostra um míssil balístico intercontinental Yars sendo lançado durante um exercício de treinamento em um local indefinido na Rússia Foto: Russian Defence Ministry / AFP
Somente um dos lados na guerra possui armas nucleares. Apesar de a Ucrânia ter tido armamento atômico soviético estacionado em seu território até poucos anos depois de se tornar independente, em 1991, essas armas jamais estiveram sob seu controle político. E o país, ao contrário do que prega a propaganda russa, não empreende nenhum tipo de esforço para adquirir armas atômicas. Mas um adversário sem armas nucleares não garante contenção nuclear. E à Otan, que fornece armamento para a Ucrânia e reforça posições na região, não faltam ogivas atômicas.
Fantasma de guerra nuclear volta a assombrar
O presidente russo, Vladimir Putin, não deixou de alertar seus adversários a respeito dos riscos nucleares. Em um discurso na TV, no início da invasão russa, ele alertou as potências ocidentais que poderiam vir a tentar conter seu avanço a respeito de “consequências com as quais vocês jamais se depararam em sua história”. Em 27 de fevereiro, após a imposição de sanções bancárias sem precedentes pelos países do Ocidente (20.º degrau: “embargo ou bloqueio mundial”), Putin deu ordem para que as “forças de dissuasão” de seu país passassem para um “modo especial de prontidão de combate”.
O cenário nuclear mais simples prevê Putin, caso se veja diante de uma derrota na Ucrânia, tentando mudar a maré explodindo uma bomba nuclear (18.º degrau: “exibição ou demonstração de força espetacular”).
Christopher Chivvis, que serviu como chefe de inteligência dos EUA para a Europa entre 2018 e 2021, afirmou que, em vários jogos de guerra simulados após a anexação russa da Crimeia, em 2014, especialistas ocidentais e oficiais militares que faziam o papel dos russos escolheram certas vezes conduzir testes nucleares ou uma detonação de alta altitude que prejudica comunicações em uma ampla região – “Imagine uma explosão que faz apagar as luzes de Oslo”.
Um desdobramento disso poderia ser a Rússia usar um armamento nuclear menor na Ucrânia, justificando a ação enquanto um ataque preventivo contra armas de destruição em massa ucranianas não existentes ou alegando que foi a Ucrânia que explodiu a bomba. Isso seria seguido por uma exigência de rendição incondicional apoiada por ameaças de mais explosões similares.
Uma pequena explosão nuclear pode parecer uma contradição em termos. Mas tanto a Rússia quanto a Otan possuem armas nucleares “não estratégicas” ou “táticas”, que causam muito menos danos do que as bombas arrasadoras, capazes de destruir cidades inteiras. Essas bombas nucleares estratégicas têm potência aferida normalmente na casa das centenas de quilotons: suas detonações equivalem a explodir no mesmo momento milhares de toneladas de fortes explosivos.
A potência das armas nucleares táticas equivale a poucos quilotons. O poder da bomba B61, um armamento americano com potência variável, pode ser “diminuído” para até 0,3 quiloton, caso o objetivo for utilizá-la como arma tática. A explosão de alguns milhares de toneladas de nitrato de amônio mal armazenado em Beirute, em agosto de 2020, mostrou quão terríveis essas explosões podem ser. Mas elas são muito menos devastadoras do que as bombas usadas em guerras totais.
Acredita-se que a Rússia possua milhares de armas nucleares não estratégicas; o país as considera um modo de compensar a força da Otan em avançados armamentos convencionais. A Otan mantém entre 100 e 200 bombas B61, apesar de as Forças Armadas americanas considerarem que esse armamento tem pouco valor no campo de batalha. A presença dessas bombas é mantida para dar aos aliados europeus relevância direta sob o guarda-chuva nuclear dos EUA.
A disponibilidade dessas bombas é parte do que torna assustadora a segunda rota, que é indireta, para o uso de armas nucleares. Esse caminho implica em Putin ampliar a guerra para um conflito em que as forças da Otan se envolvam diretamente, de uma maneira que a aliança tem resistido até aqui – e uma importante razão para isso é o risco nuclear inerente a esse confronto.
Em imagem de 2019, Vladimir Putin treina com equipe de judô em Sochi Foto: MIKHAIL KLIMENTYEV
Um temor é que a Rússia possa atacar diretamente armazéns ou carregamentos de armas em território de países-membros da Otan. Se o país atacado conclamar seus aliados a tratar a agressão como gatilho do Artigo 5.º, a cláusula de proteção mútua, a Otan poderá decidir responder contra as forças russas na Ucrânia – ou mesmo dentro da Rússia.
Pior medo
Outra possibilidade é que os países ocidentais possam agir fomentando pressão interna para acabar com o derramamento de sangue, especialmente se a guerra na Ucrânia escalar, por exemplo, com o uso de armas químicas. A Rússia poderia usar suas alegações de que a Ucrânia possui esse tipo de armamento para justificar uma retaliação. Tais táticas espalhariam terror entre os civis ucranianos e sinalizariam para a Otan que a Rússia pretende ir até o fim.
Ao mesmo tempo, isso colocaria uma “imensa pressão sobre a Otan para obrigar a Rússia por meio da força a parar com esses ataques”, afirmou Oliver Meier, do Instituto para Pesquisas de Paz e Política de Segurança, em Hamburgo.
Meier vê uma “escalada descontrolada como resultado de atropelos, operações de bandeira falsa ou sinalizações mal interpretadas” – as rotas mais prováveis para o desastre. Atropelos, afinal, acontecem, e pessoas em guerra tendem a ficar nervosas. Em 9 de março, como se provesse um exemplo prático, um erro durante manutenções de rotina fez um míssil indiano com capacidade nuclear (mas neste caso não carregado) ser disparado contra o Paquistão, vizinho da Índia que também possui armas atômicas. Se as tensões estivessem elevadas entre os países, o encabulado pedido de desculpas dos indianos teria chegado tarde demais.
Qualquer que seja a cadeia de eventos que ocasione isso, uma irradiação até mesmo de uma pequena lasca da Ucrânia chocaria o mundo. Governos ocidentais seriam pressionados a reagir. Mas responder à Rússia na mesma moeda (27.º degrau: “ataque exemplar contra militares”) equivaleria a abrir caminho para um ataque contra cidades americanas e europeias (29.º degrau: “ataque exemplar contra civis”).
Khan definiu outros 15 degraus em que adversários trocam ataques e arrasam cidades com ainda mais descuido. A doutrina da aniquilação mútua garantida sugere que, uma vez que cidades estão sendo destruídas, as coisas escalam rapidamente para o 44.º degrau: “espasmo ou guerra insensata”.
Mas a alternativa de tentar derrotar Putin usando apenas armas convencionais não o faria necessariamente atender a um similar, especialmente se a tentativa de colocá-lo para correr parecer próxima do sucesso em torno daqueles degraus iniciais. Mas não fazer nada pode muito bem se provar impossível; a necessidade de demonstrar que armas nucleares não permitem impunidade poderia se provar inevitável.
Jogos de guerra
Uma série de jogos de guerra realizados durante o governo de Barack Obama sugeriu uma gama de respostas possíveis. Em The Bomb: Presidents, Generals, and the Secret History of Nuclear War, o jornalista Fred Kaplan descreve a reação dos jogadores de guerra a um cenário no qual a Rússia invade um país báltico e dispara uma arma nuclear tática contra uma base alemã para impedir o contra-ataque da Otan.
Quando um grupo de generais simulou esse cenário, Colin Kahl, conselheiro de segurança nacional do então vice-presidente Joe Biden, argumentou que seria melhor continuar lutando com armas convencionais e isolar a Rússia diplomaticamente. Seu conselho foi seguido no jogo. Quando secretários de gabinete e comandantes militares fizeram a mesma simulação um mês depois, eles decidiram jogar uma bomba nuclear em Belarus, mesmo que o país não tivesse envolvimento na guerra.
EUA consideram que exército russo cometeu crimes de guerra na Ucrânia
O secretário de Estado americano, Antony Blinken, afirmou que Washington chegou à conclusão de que o exército russo cometeu ‘crimes de guerra na Ucrânia’.
Nisso tudo, é importante distinguir risco relativo de risco absoluto. Os riscos de uma escalada no confronto que leve ao uso de armas nucleares na Europa estão mais altos agora do que estiveram desde 1962. Isso não significa que esse desdobramento é provável. Para Putin, escalar a guerra de maneira que a Otan entre no conflito representaria uma abertura para uma derrota definitiva na Ucrânia; planejar impedir sua derrota com recursos nucleares seria arriscar uma retaliação em massa.
Mas os riscos são maiores – talvez até mesmo existenciais – para Putin do que para seus oponentes ocidentais. “Um confronto direto entre a Otan e a Rússia será a 3.ª Guerra Mundial”, alertou o presidente americano, Joe Biden, no dia 11. Isso faz dessa possibilidade “algo que temos de nos esforçar para evitar”. Putin pode considerar que há recompensas a serem conquistadas parecendo menos comprometido com essa prevenção.
Dissuasão
Thomas Schelling, economista e estrategista nuclear, observou certa vez que ameaças para dissuasão eram “questão de determinação, impetuosidade e obstinação clara”. Não é fácil fingir essas qualidades, notou ele: “Não é fácil mudarmos nosso caráter. E tornar-se fanático ou impetuoso seria um alto preço a pagar para tornar nossas ameaças convincentes”.
Um homem que invade a Ucrânia sem avisar a maioria de seus ministros e comandantes militares que está prestes a fazê-lo já estabeleceu esse personagem.
Para algumas autoridades ocidentais, essa assimetria de caráter e recompensa sublinha a necessidade de um rápido acordo, mesmo que isso favoreça o Kremlin. Outros notam que simplesmente dizer essas coisas dá a Putin uma vantagem de pressionar firme até que seja repelido com firmeza. “Putin valeu-se implacavelmente do medo da Otan de uma guerra nuclear como (o fim de linha) inevitável”, lamenta John Raine, ex-diplomata britânico. “Ele usou isso para criar um espaço muito amplo, no qual poder travar uma guerra convencional na Europa sem uma resposta militar da Otan.” O perigo é que Putin tente ampliar esse espaço ainda mais – ou se equivoque sobre esses limites. TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO
Domingo está acabando e nada melhor do que aproveitar o tempo livre para ver um – ou mais filmes com um balde de pipoca no colo. Mais do que diversão, o cinema também pode ser uma ótima forma de ganhar repertório.
Seja para conhecer uma história de resiliência, entender o mercado ou estudar as estratégias que levaram uma empresa ao sucesso, a sétima arte pode dar aquele empurrãozinho extra para tirar um projeto do papel. Opções para inspirar não faltam, de drama até comédia ou um ótimo enredo biográfico.
Graças ao avanço do streaming, assistir às produções ficou mais fácil. Veja, a seguir, as recomendações do Startups com filmes sobre startups e empreendedorismo que você precisa conhecer:
Upstarts
Lançado em 2019, o filme indiano conta a história de 3 amigos universitários que decidem criar uma startup para solucionar alguns dos problemas que afetam a sociedade, levando remédios a lugares distantes e promovendo o acesso à saúde.
No entanto, à medida em que encontram um investidor e o negócio floresce, os jovens assumem mais trabalho e as demandas do dia a dia desgastam a amizade do grupo. Disponível na Netflix.
Steve Jobs
Como o nome já diz, o filme estrelado por Michael Fassbender traz os momentos marcantes e decisivos na vida do inventor, empresário e fundador da Apple.
O drama biográfico aborda os bastidores do lançamento do computador Macintosh, da empresa NeXT e do iPod, em 2001, além de trazer a tumultuada relação entre Jobs e sua filha Lisa. Disponível na Netflix até 31 de março e (claro) no Apple TV.
Startups.com
Lançado em 2001, nos Estados Unidos, o documentário acompanha a trajetória da govWorks.com, empresa que criou um software para ajudar clientes do governo dos EUA a rastrear contratos e funções de compra.
O filme retrata os momentos de maior sucesso da startup, criada em 1998, até chegar em sua falência, em 2001, causada pela explosão da bolha da internet. Disponível no YouTube.
Fome de Poder
O filme dirigido por John Lee Hancock conta a história da ascensão do McDonald’s. Na trama, o vendedor Ray Kroc, interpretado por Michael Keaton, adquire uma participação nos negócios da lanchonete dos irmãos Richard e Maurice “Mac” McDonald.
O ambicioso comerciante faz de tudo para assumir o controle do fast-food e, livrando-se dos outros sócios, transforma a rede no império alimentício que conhecemos hoje. Disponível no HBO Max.
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A mesa dos brasileiros será afetada pelos conflitos no Leste Europeu. Desde o aumento dos combustíveis neste mês, essa certeza já vem se materializando no orçamento doméstico de muita gente, mas efeitos piores ainda estão por vir. A subida no preço do diesel deve ter impacto inflacionário em cadeia, com a alteração no preço do frete sendo jogada para os produtos finais. Porém, já nas próximas semanas, é no preço dos panificados que os brasileiros irão sentir os efeitos da crise.
Nos 12 meses anteriores a fevereiro, o preço dos panificados viu um incremento de 9,28%. Até o dia 23 de março, o preço do contrato futuro de 5 mil bushels (136,1 toneladas) aumentou 75% em dólares em um ano, uma alta que chegou a quase 20% somente no mês passado. Alguns moinhos já estão observando altas na casa dos 40% no preço médio do grão.
Não se pode dizer que esse impacto era imprevisível. Ucrânia e Rússia exportam juntas mais de um quarto do trigo do mundo, alimentando milhões de pessoas que consomem pão, massa e alimentos embalados. Também são fornecedoras de cevada, óleo de sementes de girassol e milho, entre outros produtos.
Nos últimos dias, o preço dos produtos agrícolas tem flutuado acentuadamente à medida que as tensões em torno do Mar Negro ameaçam perturbar os carregamentos globais de muitos desses produtos. Essas perturbações, assim como o custo dos combustíveis e dos fertilizantes tem estressado os mercados e contribuem para o crescimento nos preços. Nos próximos três ou quatro meses, quando começa a colheita de trigo, o impacto pode ser ainda maior se o conflito se prolongar ou se houver danos ainda mais severos às instalações portuárias e ferrovias ucranianas.
É claro que a guerra agravou tudo, mas desde o ano passado a Rússia já vinha limitando os seus próprios carregamentos de trigo com uma taxa de exportação destinada a conter os preços internos dos alimentos. Uma vez que os mercados de produtos agrícolas são globais, qualquer redução na oferta afeta a procura e os preços do trigo cultivado noutras partes do mundo, incluindo a Austrália, a Argentina e os Estados Unidos
Com uma guerra longa, não há muitas opções para amenizar seus efeitos por aqui. Uma delas tem a ver com os estoques da indústria moageira, providenciados na colheita doméstica no final de 2021. Eles têm contribuído para o retardamento da alta dos preços nos supermercados brasileiros frente aos praticados nas bolsas globais. Na medida que o Real continuar ganhando força frente ao dólar, isso também impacta positivamente para reduzir o percentual de aumento esperado no mercado local.
Nos próximos três ou quatro meses, quando começa a colheita de trigo, o impacto pode ser ainda maior se o conflito se prolongar ou se houver danos ainda mais severos às instalações portuárias e ferrovias ucranianas
Também é possível que o aumento na área plantada na próxima safra possa ajudar. O país teve uma produção nacional recorde de 7,8 milhões de toneladas na última safra. É esperado que a crise possa levar a um aumento ainda maior da produção nacional neste ano. Outros países também podem seguir o mesmo caminho, como a Índia, a Austrália, que tiveram ótimas colheitas nos últimos anos, a um preço competitivo.
Entretanto, o fenômeno climático La Ñina e as alterações nos preços dos fertilizantes, dado o papel central da Rússia nesse mercado, são os elementos de incerteza no desempenho dessas alternativas. Ademais, existe muita dificuldade no mercado para precificar a commodity sem a produção do Mar Negro e a tendência é que o pessimismo impere.
No curto prazo, dependendo do tamanho do impacto na mesa dos brasileiros, talvez seja preciso cogitar reforços nos programas de transferência de renda para garantir a segurança alimentar dos mais pobres.
No médio e no longo prazo, o Brasil pode se beneficiar da expansão da área destinada ao trigo, com estímulos para o plantio de grão em áreas do Nordeste e no norte do cerrado, apontadas como promissoras pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Assim como no caso das máscaras, dos fertilizantes, dos combustíveis e de outros produtos afetados pelas crises globais, o preço do pão vem lembrar ao país a importância de uma política econômica soberana, que não deixe a população tão à mercê de forças econômicas globais cuja lógica nem sempre é a do funcionamento normal do mercado.
Evento do PL Bolsonaro lança pré-candidatura à reeleição neste domingo. Saiba como será
Por Rodolfo Costa – Gazeta do Povo Brasília
Bolsonaro vai anunciar campanha à reeleição em solenidade do PL na manhã deste domingo (27), em Brasília.| Foto: Alan Santos/PR
O presidente Jair Bolsonaro (PL) lança sua pré-candidatura à reeleição neste domingo (27), às 10 horas, em um evento mais simbólico do que formal, em Brasília. São esperados discursos que apontem para a busca por um segundo mandato. Mas, para evitar punições da Justiça Eleitoral por uma eventual campanha antecipada, a solenidade deve ser mais marcada pela apresentação de novos filiados ao PL, das propostas da legenda para o país e das realizações do governo.
Advogados do PL e demais assessores jurídicos ligados à coordenação da campanha presidencial alertaram para os riscos de a solenidade incorrer em crime eleitoral. A lei das eleições veda o lançamento de pré-candidatura. Campanhas eleitorais, com comícios e eventos oficiais de candidatos, só podem ocorrer a partir de 16 de agosto. Antes disso, é permitido apenas eventos internos sobre filiação e debates acerca da definição de candidatos.
Por esse aspecto jurídico, a solenidade ganhou um aspecto de “Encontro Nacional do PL”. O partido, agora, trabalha a divulgação como o lançamento do “Movimento Filia Brasil” – que, segundo a legenda, tem como objetivo “fortalecer e ampliar a base eleitoral do partido, com ações para que o público eleitor conheça mais sobre o PL e as medidas defendidas pela legenda.
O PL ainda informa que o “o partido compreende a força dos jovens do nosso país e os convoca para fazer parte desse movimento”. “Se você tem mais de 16 anos e quer lutar por uma sociedade democrática, este Movimento é para você!”, informa o partido em comunicação sobre o evento divulgada na quarta-feira (24).
Que autoridades estarão no lançamento da pré-candidatura Mesmo que apenas simbólico, o lançamento da pré-candidatura de Bolsonaro vai contar com a presença de deputados e senadores aliados da base governista no Congresso Nacional e ministros de Estado, inclusive aqueles que devem se desincompatibilizar até a próxima sexta-feira (1º) para concorrer nas eleições de outubro – a lei exige que autoridades com cargos públicos (como o de ministro) que queiram disputar o pleito têm de deixar a função seis meses antes do primeiro turno.
O deputado federal Bibo Nunes (PL-RS), vice-líder do partido na Câmara e aliado da base mais ideológica de Bolsonaro, diz que a expectativa é de que o evento conte com o apoio maciço de aliados congressistas e de todos os ministros.
Contudo, ele não acredita que o evento marcará a desincompatibilização dos ministros, nem a confirmação do ministro da Defesa, Braga Netto, como vice de Bolsonaro. “Eu acredito que não haja esses anúncios.” Segundo Bibo, os ministros tendem a ficar na Esplanada até o prazo-limite.
O aspecto jurídico é outro fator apontado por Nunes como motivo pelo qual ele espera gestos políticos mais tímidos no evento. “O presidente tem que se portar como pré-candidato, mas vai ter que se cuidar muito para não transparecer que faz uma campanha antecipada”, diz.
Por esse motivo, o que pode ocorrer é a filiação de alguns ministros ao PL, situação permitida pela legislação. É esperado que três ministros aproveitem o evento para se filiar ao PL: João Roma, da Cidadania; Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia e Inovações; e Gilson Machado, do Turismo.
Atualmente filiado ao Republicanos, Roma é pré-candidato ao governo da Bahia e selou sua ida ao PL após reunião na quinta-feira (24), no Palácio da Alvorada, com Bolsonaro e o presidente nacional de seu partido, deputado federal Marcos Pereira (SP). O presidente do PL no diretório baiano, Vitor Azevedo, confirmou ao site bahia.ba que o ministro e a esposa, Roberta Roma, vão se filiar à legenda.
Já Marcos Pontes está sem partido e vai sair candidato à Câmara dos Deputados por São Paulo. Gilson Machado vai disputar o Senado por Pernambuco na chapa com o prefeito de Jaboatão dos Guararapes (PE), Anderson Ferreira (PL), pré-candidato ao governo de Pernambuco.
Outros ministros também serão candidatos à eleição, mas não se filiarão ao PL. Alguns porque já se filiaram ao partido no ano passado, a exemplo dos ministros do Trabalho e Previdência, Onyx Lorenzoni, e do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. A ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, foi eleita pela legenda e permanecerá na sigla.
Os demais ministros que se candidatarão serão candidatos por outras legendas. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, vai sair candidata ao Senado pelo PP. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, e a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, sairão candidatos pelo Republicanos. E o ministro Braga Netto pode se filiar a uma dessas duas siglas.
Outros nomes com influência entre o eleitorado conservador também estarão no evento. Segundo apurou a Gazeta do Povo, ativistas como Amanda Teixeira Dias, filha do ex-ministro Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG), e os youtubers Victor Lucchesi e Robson Calabianqui, conhecido como “Fuinha”, são alguns dos que estarão na solenidade e que podem se filiar ao PL.
O que esperar do discurso de Bolsonaro no evento De Bolsonaro, é esperado durante a solenidade um discurso alinhado e semelhante ao que ele já vem fazendo em eventos recentes – tais como os esforços do governo para gerar emprego e renda, inclusive durante a pandemia, quando ele evitou o fechamento total da atividade econômica.
A defesa de ações adotadas pelo governo, como a entrega de obras da transposição do Rio São Francisco, e gestos ao agronegócio e a outros setores, também são esperados por interlocutores. Está ainda no radar um discurso sobre o combate à corrupção, além da preocupação com a segurança pública, a defesa dos direitos das mulheres e a titulação de terras.
O discurso dos ministros também pode ir na mesma linha. Segundo um interlocutor, é “certeza” que boa parte deles vai discursar. É incerto, contudo, se aliados congressistas terão oportunidade para se expressar ao público.
“Eu não sei como vai ser a distribuição da palavra, que, pelo nosso regimento [da Câmara], no plenário só pode falar líder e vice-líder. Não sei se vai seguir isso lá. Se for assim, aí eu poderei falar”, pondera o deputado Bibo Nunes.
O parlamentar aposta em um discurso de “muito improviso” por parte de Bolsonaro e com falas sobre “união”. “Principalmente em relação aos partidos que o apoiam. Tem que valorizar bem os partidos. Isso é vital no meu ponto de vista”, analisa. Nunes também tem a expectativa de que o presidente apresente um discurso “empolgante”.
“Tem que ter informação para empolgar, de que a pandemia está terminando, de que o Brasil vai superar a guerra [na Ucrânia e seus efeitos]. Só empolga quem está empolgado e só convence quem está convencido. E sei que o presidente está totalmente empolgado e convencido”, diz o aliado.