domingo, 20 de março de 2022

OS CONSTITUINTES NÃO PREVIRAM UM MINISTRO IGUAL ALEXANDRE DE MORAIS

 

Até 2043

Por
Paulo Polzonoff Jr. – Gazeta do Povo

Alexandre de Moraes se aposentará em 2043. Até lá, teremos de conviver com alguém que veste a toga carcomida pelas traças da arrogância revolucionária.| Foto: Abdias Pinheiro/TSE

Como um funcionário público enfadado no fim do expediente, o ministro Alexandre de Moraes, de forma monocrática e nada transparente, determinou o bloqueio do aplicativo de troca de mensagens Telegram em todo o território nacional. Não bastasse ser uma decisão arbitrária, fruto de uma mentalidade autoritária, ela é ainda uma decisão tão nebulosa que ministro mandou investigar até a pessoa que vazou detalhes do despacho. Graças a esse herói anônimo, ficamos sabendo que a Suprema Corte brasileira toma decisões com base em reportagens do “Fantástico” e que considera todos os usuários do Telegram criminosos em potencial.

Absurdo! Revoltante! Até o presidente Jair Bolsonaro, que está de mãos atadas e com certeza vai admitir a medida até que ela seja naturalmente revogada (sou otimista), se saiu com um lamento-coringa: “inadmissível!”. E, nessas horas em que o cidadão se sente impotente, porque de fato é impotente, não há muito o que fazer mesmo além de gritar sua revolta para as nuvens – aproveitando, claro, que Alexandre de Moraes ainda (ainda!) não proibiu esse tipo de manifestação.

Diante das seguidas afrontas de Alexandre de Moraes e de seus coleguinhas de Corte à Constituição, fiquei me perguntando como foi possível que tivéssemos, em termos práticos, um tirano de toga com legitimidade para fazer o que bem entender, quando bem entender, sem sofrer qualquer tipo de consequência por seus atos. Como a sociedade brasileira, traumatizada pelo Regime Militar e temerosa de ver um ditador novamente no Planalto, pôde construir um sistema capaz de depositar tanto poder nas mãos de um único homem?

Acho que já escrevi em algum dos meus muitos textos falando sobre o STF: os homens e mulheres que ocupam aquelas confortáveis poltronas e se deliciam com aquelas deliciosas lagostas têm apenas suas consciências como limitadoras de seus atos jurídicos. Não há, pois, nenhum tipo de oposição institucional eficaz aos ministros do STF, uma vez que o Senado é omisso e o único pedido de impeachment protocolado pelo presidente Jair Bolsonaro foi considerado “antidemocrático” por aqueles que clamam para si o monopólio da virtude democrática.

Para todos os efeitos, e por mais revolta que isso desperte em mim e em você, as arbitrariedades cometidas por Alexandre de Moraes & Cia. contam com a bênção silenciosa da nossa Constituição. Afinal, a legitimidade de Alexandre de Moraes reside no fato de ele ter sido indicado por Michel Temer e submetido a uma sabatina no Senado, que chegou à fatídica conclusão de que ele tinha notório saber jurídico e, até então, conduta ilibada para ocupar o cargo. Para o constituinte, isso bastava para darmos a uma pessoa o poder de decisão final até mesmo sobre o preço dos combustíveis. O caráter, os eventuais delírios autoritários e a submissão ao ativismo judicial deste e dos demais ministros nunca estiveram em jogo.

Credibilidade e respeitabilidade
O Brasil de 1986, quando a Assembleia Constituinte foi formada, era muito mais inocente. Muito mais simples. Tínhamos, à direita e à esquerda, lideranças que, embora muitas vezes defendessem ideias repugnantes, estavam inegavelmente imbuídas do etéreo “espírito público”. Era um tempo em que a palavra “política” tinha outra conotação. Se havia delírios de controle, e certamente havia, eles eram abafados pelo som de palavras e expressões sedutoras como “democracia”, “liberdade” e “Estado de Direito”.

Era um outro espírito, o que norteava os constituintes. Se, por um lado, havia a noção equivocada de um Estado capaz de prover tudo para os cidadãos, por outro a Constituição foi escrita partindo do pressuposto de que ninguém mais quereria exercer o poder arbitrário no país. Afinal, estávamos saindo de uma ditadura. E coisas como o projeto de poder lulopetista eram motivo de riso e escárnio.

Além disso, naquela época a cúpula do Poder Judiciário gozava de credibilidade e respeitabilidade. Ninguém poderia imaginar que uma pessoa almejasse ocupar um daqueles 11 lugares para fazer prevalecer sua vontade ou a vontade de seu grupo político. Juristas eram vistos com admiração pela sociedade. A inclusão, na Carta Magna, de instrumentos que limitassem o poder dos ministros do STF seria vista como um exagero. Talvez até como paranoia.

À nossa Constituição ultra-abrangente faltou, portanto, antevisão. Faltou prever que um dia um presidente, sabe-se lá por que, poderia indicar como ministro do STF alguém disposto a distorcer o “notório saber jurídico” e corromper a até então ilibada reputação a fim de promover uma agenda revolucionária. Faltou prever que um dia teríamos uma Suprema Corte agindo como partido de oposição – como um puxadinho do PT. Faltou prever que o STF um dia cederia à tentação de usurpar o poder do Executivo e Legislativo.

A consequência disso é que hoje o Brasil se vê impotente diante dos mandos e desmandos de um ou mais ministros que não têm pudor algum em colocar o Regimento Interno do STF acima da Constituição. Que não têm vergonha nenhuma de violar a imunidade parlamentar de opinião para perseguir adversários ideológicos. Que não enrubescem ao se confessarem promotores da Agenda 2030 da ONU. Que indecorosamente trabalham para destruir o pouco que temos de uma cultura verdadeiramente democrática neste país.

De acordo com o que determina essa mesma Constituição, se nada for feito Alexandre de Moraes se aposentará apenas em 2043. Até lá, teremos de conviver com alguém que veste a toga carcomida pelas traças da arrogância revolucionária. Impotentes, assistiremos a vários outros episódios como o de sexta-feira (ou os que antecederam o 7 de Setembro de 2021, lembram?). Diante dos quais só poderemos obedecer, ainda que alguns compreensivelmente insistam em gritar que é “absurdo!” ou “inadmissível”. Nesse ponto, a Constituição de 1988 nos prometeu liberdade, mas nos legou a escravidão.


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AINDA SOBRE O FILME "COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA"

 

Por
Thiago Rafael Vieira
e

Por
Jean Marques Regina – Gazeta do Povo

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, lança uma nova versão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Nova versão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).| Foto: Agência Brasil

A celeuma da última semana foi a cena do longa-metragem “Como se tornar o pior aluno da escola”, disponível na plataforma de streaming Netflix, entre outras. Como já é de amplo conhecimento, na cena em questão há simulação de abuso sexual quando um adulto, supostamente o ex-aluno procurado pelos adolescentes, tenta obter vantagens sexuais para evitar ligar aos pais porque o haviam procurado para pedirem dicas de como colar em provas para passarem de ano. O diálogo da cena é repleto de vinculações diretas ao ato libidinoso em si.

O filme não é novidade. Foi lançado em 2017, e recebeu classificação etária de 14 anos à época. Um dos atores mirins envolvidos na cena, cinco anos depois, comenta que a classificação etária deveria ser 16, ou seja, idade superior a que ele deveria ter quando da realização do filme: “Na minha opinião, uma classificação boa para o filme seria 16 anos”.

Mas, se o filme é de 2017, por que apenas agora surgiu o questionamento quanto à cena? Para vários, o sentimento foi de oportunismo político, ou “politicagem”. Nós, da coluna, não sabíamos da existência do filme, e, quando o fato veio à tona, assistimos. Importante frisar (dando um spoiler aqui) que o abusador acaba se dando mal.

O ponto, então, não é se o roteirista deixou de construir uma curva dramática em que o pedófilo fosse retratado como um vilão e que houvesse um desfecho ruim para si; a questão é que a cena envolvendo adolescentes aconteceu. Viveram a cena. Nossos filhos foram expostos – e muitos assistiram – ao filme. São fatos inegáveis.


Acreditamos que a maioria das pessoas que viram esta cena, dentro ou mesmo fora do contexto geral do filme, não tenham achado algo normal. E por que será que esta sensação foi sentida e repercutida por tanta gente ao longo da semana? Justamente por causa dos valores morais que permeiam em profundidade a nossa sociedade. Estamos inclinados ao que é bom, belo e verdadeiro.

Por óbvio que são aspirações por vezes inalcançáveis na prática, porém continuam lá como alvos a serem buscados. O fato de não lograrmos atingi-los mostram justamente que temos esta régua alta como aquilo que desejamos para nós, nossa família e para todos. É o tal do “bem comum”. E é o acúmulo temporal desses valores que vai moldando o povo, em seu conjunto, passando além de tribos para uma verdadeira civilização em construção, como já falamos na coluna, clique aqui , aqui e aqui.

Dito isso, é irrelevante se o filme é de 2017 ou 2022. Quando o assistimos, certamente o repugnamos. Outra questão importante a ser levantada é a leitura que fazemos daquela cena. Nós, enquanto adulto sabemos que é simulada, que se trata de uma ficção. E uma criança? E os próprios atores-mirins envolvidos? Óbvio que eles sabiam que estavam atuando, entretanto, e no nível de suas subconsciências? Perguntas que são respondidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Cenas que contenham sexo real ou simulado e conteúdo pornográfico não podem ser transmitidas para menores de 18 anos e não podem envolvê-los na cena. O ECA (Lei 8.069/90), estabelece:  Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade.

O artigo 240, da mesma lei, prescreve: Produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente. Continua o art. 241 e 241-A:   Vender ou expor à venda fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente. Art. 241-A.  Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, distribuir, publicar ou divulgar por qualquer meio, inclusive por meio de sistema de informática ou telemático, fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente.

Dito isso, é irrelevante se o filme é de 2017 ou 2022. Quando o assistimos, certamente o repugnamos

Por fim, o art. 241-E conceitua a expressão “cena de sexo explícito ou pornográfica”: Para efeito dos crimes previstos nesta Lei, a expressão “cena de sexo explícito ou pornográfica” compreende qualquer situação que envolva criança ou adolescente em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, ou exibição dos órgãos genitais de uma criança ou adolescente para fins primordialmente sexuais.

Primeira observação importante: Todos esses artigos foram inseridos no ECA pela Lei 11.829/2008, ou seja, muito antes do lançamento do filme em questão.

Segunda observação: não somos julgadores, mas juristas e professores de Direito. Ao vermos a cena e lermos o ECA, temos a impressão de que o caso concreto pode ser tutelado por tais normas penais no sentido de proteger as crianças/adolescentes envolvidos e que assistiram ou podem assistir a dita cena. O papel de tipificar condutas não é nosso e sim do juízo criminal, devidamente provocado.

Terceira observação: muitos estão falando de censura. Não é o caso. As restrições a qualquer direito devem estar objetivamente previstas em lei. Lei stricto senso, ou seja, aquela aprovada pelo Congresso Nacional. O legislador entendeu proteger os menores de cenas que não possuem capacidade de entendimento, tipificando penalmente a conduta daquele que, mesmo assim, insistir em praticá-las. Não se trata de censura, e sim de uma restrição legal de natureza penal do ano de 2008! Censura é impedir a liberdade de expressão de alguém sem nenhum parâmetro objetivo legal, mas por “achômetros”, que, infelizmente tem acontecido muito no Brasil.

Quarta observação: por ter “política” envolvida, devemos deixar de nos manifestar? Entendemos que não. A cena é abjeta, viola a dignidade dos atores-mirins envolvidos e de todas as crianças/adolescentes que assistirem. Ainda, parece-nos, em tese, que pode ser tutelada penalmente. Nosso dever cívico é de protestar e denunciar. Alguém poderá usar para fins políticos? Pode. Lamentamos. Contudo não será por isso que vamos jogar fora a água suja com o bebê.

Ser cidadão é cumprir nossos deveres cívicos, pouco importa o governo do dia. A democracia precisa de cada um de nós.


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BRASIL NO COMÉRCIO GLOBAL DE ARMAMENTOS

 

Ranking mundial
Por
Gazeta do Povo

HOLLOMAN AIR FORCE BASE, N.M. (Aug. 1, 2017) A Embraer EMB 314 Super Tucano A-29 experimental aircraft flies over White Sands Missile Range. The A-29 is participating in the U.S. Air Force Light Attack Experiment (OA-X), a series of trials to determine the feasibility of using light aircraft in attack roles. (U.S. Air Force Photo by Ethan D. Wagner)

Uma aeronave Embraer EMB 314 Super Tucano A-29 é testada pela Força Aérea dos EUA, em 2017| Foto: Divulgação/Força Aérea dos Estados Unidos

O Brasil é o 21º maior exportador de armamento militar do mundo, segundo relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri) divulgado na segunda-feira passada (14). O ranking, que considera os maiores vendedores de equipamentos militares nos últimos cinco anos, é encabeçado por Estados Unidos e Rússia, que dominam 39% e 19% das exportações de armas pesadas (aviões de combate, tanques, veículos armados, helicópteros, artilharia, mísseis, sistemas de radar, entre outros) no mercado global.

Entre 2017 e 2021, França, Nigéria e Chile foram os países que mais fizeram negócios com o Brasil. As compras destes países representaram, respectivamente, 23%, 13% e 11% do total de exportações de armamentos do Brasil no período. O país também aparece como um dos principais fornecedores para o Afeganistão.

Só no ano passado, o Brasil entregou ou recebeu pedidos de 20 aeronaves EMB-314 Super Tucano, turboélice de ataque leve e treinamento da Embraer; 7 aviões de transporte logístico C-390; e 39 veículos militares blindados VBTP Guarani, desenvolvido pelo Exército brasileiro, segundo a base de dados do Sipri.

Em relação ao ranking de 2020, o país caiu uma posição, mas ainda é o único da América Latina a figurar entre os maiores exportadores.

O Brasil também aparece no ranking dos 40 maiores importadores de equipamentos militares do mundo, ocupando a 33ª colocação, uma acima de Taiwan e logo abaixo da Jordânia. Nos últimos cinco anos, os principais parceiros foram Reino Unido, Suécia e França.

Parte dessas compras são de sistemas de radar e navegação para equipar e modernizar aeronaves e navios que são usados no Brasil ou vendidos por companhias brasileiras. Mas também foram assinados contratos de compra ou entregues ao país neste período helicópteros militares de transporte, submarinos, fragatas, aeronaves não tripuladas e mísseis antitanques e torpedos antissubmarino.

Também foram incluídos na lista do Sipri os caças de combate supersônicos F-39E Gripen, comprados da empresa sueca Saab ainda no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Os quatro primeiros, dos 36 negociados, foram entregues ao Brasil no ano passado. Com esse acordo, o Brasil representou 15% das exportações da Suécia entre 2017 e 2021 – tornando-se o terceiro maior importador de armamentos da nação escandinava neste período.

De acordo com o instituto, Brasil foi o maior importador de armamentos da América do Sul, respondendo por 37% das importações de armas para a região entre 2017 e 2021. Embora as compras tenham diminuído 17% na comparação dos últimos cinco anos com o período de 2012 a 2016, o país é o único da América do Sul com entregas substanciais de armamentos a receber, as quais incluem pedidos de mais de 1.100 veículos blindados, cinco submarinos, quatro fragatas e 31 aviões de combate.


Comércio global de armas diminui, mas importações da Europa crescem
Os cinco maiores exportadores de armamentos nos últimos cinco anos foram os Estados Unidos, Rússia, França, China e Alemanha, entre 60 países analisados pelo Sipri. Juntos, eles representaram 77% das exportações no mercado global de equipamentos militares. Já os países que mais importaram foram a Índia, Arábia Saudita, Egito, Austrália e China.

De um modo geral, segundo o levantamento do Sipri, houve uma queda de 4,6% no volume de transferências internacionais de grandes armamentos no período entre 2017 e 2021, quando comparado ao período entre 2012 e 2016.

Contudo, o pesquisador do Sipri Pieter D. Wezeman destaca que essa diminuição no comércio global esconde grandes variações entre as regiões. “Enquanto houve alguns desenvolvimentos positivos, incluindo as importações de armamentos da América do Sul atingindo seu nível mais baixo em 50 anos, o aumento ou a continuidade das altas taxas de importação de armas para lugares como Europa, Ásia Oriental, Oceania e Oriente Médio contribuíram para o acúmulo preocupante de armas”, disse ao analisar o relatório.

As importações dos países da Europa cresceram 19% nos últimos cinco anos. O crescimento da demanda, em parte, ocorre devido à deterioração das relações entre a maioria das nações europeias e a Rússia. “Enquanto alguns países europeus maiores podem recorrer às suas indústrias nacionais de armas para atender a maioria de suas necessidades, para muitas nações da região as importações são a principal fonte de armamentos pesados”, diz o relatório. Os três maiores importadores de equipamentos militares na Europa entre 2017 e 2021 foram o Reino Unido, Noruega e Holanda.

Exportações de armamento dos EUA aumentam e as da Rússia diminuem
As exportações dos Estados Unidos aumentaram 14%, fazendo a participação do país saltar de 34% para 39% das vendas de armamentos militares. A França, que também é membro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), viu suas exportações subirem 59% nos períodos analisados, puxadas pela venda de aeronaves militares.

A Rússia, por outro lado, observou uma queda de 26% nas vendas internacionais, decorrente, principalmente, de uma diminuição das exportações para a Índia e para o Vietnã. Contudo, o país de Vladimir Putin aumentou as vendas para a China em 60% nos últimos cinco anos, quando comparado aos cinco anos anteriores. A participação da China no mercado de exportação de armamentos é de 4,6%.

Como foram as transferências de armas para a Ucrânia

A transferência de armas para o Ucrânia entre 2017 e 2021 não foi expressiva, tendo um significado mais político do que militar. Nesse período, o Sipri cita como a transferência de maior impacto militar a entrega de 12 veículos aéreos não tripulados armados, comprados da Turquia.

“O baixo nível de transferências de armas para a Ucrânia em 2017-21 é parcialmente explicado por seus recursos financeiros limitados e pelo fato de ter suas próprias capacidades de produção de armamentos e um grande arsenal de armas pesadas”, diz o relatório. Além disso, até fevereiro de 2022, vários dos maiores estados exportadores de armas restringiam as exportações de armas para a Ucrânia devido a preocupações de que tais transferências pudessem contribuir para a escalada do conflito.

Como o ranking do comércio de armamento militar é feito
Para elaborar o relatório, o Sipri leva em consideração o volume das importações e exportações de equipamentos militares pesados em 60 países, incluindo vendas, doações e produção sob licença. Os dados refletem o volume de entregas de armas, e não o valor financeiro dos negócios. Como o volume de transferências pode flutuar significativamente a cada ano, o Sipri faz suas análises considerando períodos de cinco anos, o que fornece uma medida mais estável das tendências.


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LEIS MARCIANAS PARA OS HUMANOS

 

  1. Cultura 

Lei negativa geral: quando um humano anunciar que deseja ser breve na fala, será excessivo

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

Antropólogos marcianos estavam em um congresso interplanetário. Conheciam a tribo humana. A abertura foi feita pela doutora Thavas, renomada especialista de lá: 

“Sugiro um Manual de Instruções. Após anos de observações, identifiquei cinco princípios gerais importantes. Quantos colegas, baseados em estudos isolados, ficaram perdidos diante de ações contraditórias dos humanos? Com estas Cinco Leis Gerais, pretendo eliminar parte do equívoco. 

Marte
Concepção artística da sonda Mars Express em Marte Foto: ESA, INAF

1 – Lei geral do duplo sentido. Diferentemente de Marte, quando um humano diz que ama a família, isso não deve ser lido como afeto real. Constitui um desejo, uma projeção, uma frase importante de aceitação social. Quando submetidos a festas familiares ou viagens, brigam o tempo todo. Assim, devemos entender que o que sai da boca humana não corresponde a um sentimento de fato. 

2 – Lei humana da causa oculta: todas as brigas entre os terráqueos não têm como causa real o objeto da discussão. Quando eles discutem no trânsito, não discutem a ultrapassagem perigosa. Estão debatendo a insatisfação sexual e econômica. É fundamental entender essa premissa para saber falar com eles. 

3 – Lei do espelho: os povos do terceiro planeta não conseguem se ver. Existe uma membrana no olho que impede a percepção de si. Sua única capacidade é a projeção nos outros. Toda fala é sobre algo deles que foi projetado na imagem alheia. Levanto a hipótese de ser uma tática evolutiva que criou essa disposição genética. 

4 – Lei da crítica invertida: este axioma se relaciona com o anterior. Cheguei a considerá-lo como uma divisão interna do terceiro. Todavia, tem sua especificidade. A crítica de um humano a outro é um elogio de si. Sempre. “Você é preguiçoso” implica dizer “eu sou trabalhador”. “Você nunca chega na hora” é igual a “veja como sou pontual”. É uma espécie de vaidade com vetor trocado. 

5 – Lei negativa geral: quando um humano anunciar que deseja ser breve na fala, será excessivo. Toda vez que alguém enunciar na tribo de lá “sem querer atrapalhar”, a pessoa atrapalhará. “Não quero ser invasivo”, “Deus me livre fazer fofoca”, “Não desejo abusar da sua paciência” significam, necessariamente, que tudo isso que está sendo negado será levado adiante. 

A doutora Thavas foi ovacionada. Era uma inovação científica bem fundamentada. As cinco regras logo se ampliaram e eu decidi compartilhar com você. Podem ajudar na próxima reunião ou almoço de família. A antropologia marciana ainda tem esperança na gente.

OUTUNO É UMA BOA ESTAÇÃO PARA SE LER

  1. Cultura 

Escolha alguém bom e pesquise sobre duas ou três melhores obras. É uma viagem maravilhosa

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

Os calores começam a amenizar, lentamente. No Centro-Sul do País, batem ventos que clamarão, em breve, por mangas compridas. Chegamos a mais um outono, época de criatividade e introspecção. Que tal ler um pouco? Lemos para analisar o real, para ter companhia e, inclusive, para conseguir olhar um pouco além do rema-rema cotidiano. 

Estamos no ano do bicentenário da Independência. Muita gente dará opinião, surgirão reportagens e o tema pode aparecer de muitas formas. Não perca tempo: uma boa maneira de estar preparado para a data é ler o recente Independência do Brasil, de João Paulo Pimenta (Ed. Contexto). Obra geral, bem-feita para ter uma visão ampla que o professor da USP oferece ao grande público. Se você não conhece, aproveite também para explorar 1822, de Laurentino Gomes (Globo Livros). Sempre gostei muito da trilogia (1808, 1822 e 1889), bem como os recentes sobre Escravidão. Por fim, se quiser estar “afiado” para o evento, também pode conhecer duas biografias de protagonistas do processo de emancipação política: D. Pedro I, de Isabel Lustosa, e José Bonifácio, de Miriam Dolhnikoff (ambos da Cia das Letras). Boas biografias são fascinantes e parecem prender a pessoa que lê de uma forma muito positiva. 

Homem lê livro em janela na muralha da cidade velha de Cartagena
Homem lê livro em janela na muralha da cidade velha de Cartagena Foto: Felipe Mortara/Estadão

Se o outono trouxe o desejo de boas narrativas literárias, Herança (Miguel Bonnefoy, ed. Vestígio) fará você passar horas agradáveis. O livro conheceu enorme sucesso na França. O autor faz um diálogo com as tradições da América e da Europa e mostra como a história afeta a percepção do mundo. Sempre gostei de autores com pés em dois mundos: Camus, Orwell, Carpentier… 

Está com pensamentos densos sobre a busca da serenidade, o sentido da vida ou a necessidade de reorientar objetivos? Então, minha reflexiva leitora e meu meditabundo leitor: é hora de encarar três breves obras filosóficas. Estou falando de Grandes Mestres do Estoicismo (Edipro). Você vai descobrir muitas coisas bebendo das ideias Sobre a Brevidade da Vida (Sêneca); Meditações (Marco Aurélio) e o célebre Manual de Epicteto. Os estoicos quase sempre são muito práticos. A oportuna publicação da trilogia serve para amantes da Filosofia e para o público em geral. 

Comemos muito, pensamos sobre alimentação e usamos a boa mesa como fonte de sociabilidade. Jacques Attali traz ideias muito inovadoras no texto A Epopeia da Comida, Uma Breve História da Nossa Alimentação (ed. Vestígio). Com frequência, volumes de história da alimentação trazem informações algo aristocráticas sobre as origens de um prato ou quando passamos a comer trufas. Grandes manuais do tema parecem ter um toque aristocrático-decadentista. O autor foge desse estereótipo. É uma viagem sobre a história da distribuição e elaboração de hábitos alimentares com partes analíticas da fome. Faz repensar a comida como fato geográfico, social e político. 

O tema do machismo é fundamental para qualquer ideia educacional e de grupos de trabalho. Sugiro que as escolas, escritórios e as famílias façam grupos de estudos com o livro de Ruth Manus: Guia Prático Antimachismo para Pessoas de Todos os Gêneros (Sextante). Debater o machismo e a questão da mulher é uma aposta na civilização e na melhoria do nosso mundo. Ler o livro da Ruth, claro e contundente, é um ponto de partida. 

Existe uma opção muito interessante. Só conhecemos um autor ou uma autora se entrarmos mais fundo no seu universo criativo. Que tal escolher um livro clássico e explorar mais obras de quem o concebeu? Deseja aceitar o desafio de entrar no cérebro de Clarice Lispector? Prefere Conceição Evaristo? Vai nadar de braçadas nos contos de Chekhov? Aceita o desafio de entender mais Ana Maria Gonçalves ou Itamar Vieira Júnior? Escolha alguém bom e pesquise sobre duas ou três melhores obras. Vá fundo! É uma viagem maravilhosa. Você verá repetição de alguns pontos e transformações de outros. Sua maneira de ler será transformada. 

Quando eu estava no fim da minha graduação em História, a coletânea de Amin Maalouf foi uma descoberta. Ela apresentava as Cruzadas vistas pelas leituras de documentos árabes. Foi uma grande lição sobre fontes e a subjetividade das narrativas. Em 2011, o autor ingressou na Academia Francesa. Na obra O Naufrágio das Civilizações (Vestígio), ele analisa os conflitos identitários, o islamismo radical e o ultraliberalismo como riscos à civilização. O livro deu-me muitas pistas analíticas sobre o mundo que vivemos. Concordando ou discordando, torna-se, desde o lançamento, obra fundamental para debater onde estamos na eterna encruzilhada da história. 

Em resumo, minha sedenta leitora e meu ávido leitor: ler é uma chave que abre o mundo e útil, igualmente, quando o mundo perde sentido ou sabor. Leia para mudar tudo, leia para entender o que está acontecendo e leia, enfim, para sobreviver ao naufrágio das coisas e do sentido. As pessoas que amam o mundo e querem mudá-lo devem buscar livros. Aqueles que detestam o mundo necessitam isolar-se, igualmente, lancem-se aos autores. Leia sempre e cada vez mais. Invista em si. Um bom livro aberto é uma lufada de esperança.

 

NO MERCADO DE TECNOLOGIA AS EMPRESAS PRECISAM SE REINVENTAR

 

João Gustavo Pompeo, CEO da Eyemobile

Com a volatilidade e a competitividade do mercado atual, a evolução das empresas deixa de ser uma opção e passa a se tornar uma imposição para aquelas que querem permanecer ativas com seus negócios. A pandemia reforçou ainda mais a questão, comprovando que é necessário estar pronto para se reinventar a qualquer momento.

Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 700 mil empreendimentos que fecharam as portas na pandemia não devem reabrir.  Agora, mesmo com a retomada econômica, é importante que os empreendedores permaneçam atentos ao contexto para reconhecer as oportunidades e demandas por inovação. “Em um mundo marcado pela transformação digital acelerada, as empresas precisam se reinventar de forma contínua, acompanhando as mudanças nas tecnologias e nos hábitos dos seus consumidores,  se querem permanecer vivas”, comenta João Gustavo Pompeo, CEO da Eyemobile, empresa de tecnologias para vendas.  Esse retrato já começa a refletir na média de vida dos negócios globais, que caiu de 58 anos, em 1958, para cerca de 22 anos atualmente, segundo pesquisa da consultoria McKinsey.

Confira três lições de empreendedores que precisaram reinventar suas operações, processos, mentalidades, produtos ou serviços para permanecer no mercado.

Esteja preparado para se fortalecer em novos mercados

As consequências drásticas da pandemia de Covid-19 não impactaram somente o mercado de eventos, como também todo o ecossistema que dá suporte ao setor. Um exemplo foi o da empresa Eyemobile, que oferecia uma solução de vendas móvel que ajudava a acelerar a experiência de consumo em grandes eventos.  Criado em 2013, o software da startup permitia que o vendedor fizesse a operação sem estar no caixa — inovação que ajudava principalmente a reduzir as filas —, reunindo no portfólio cases como Jogos Olímpicos e Rock in Rio. Com a pandemia, porém, a empresa perdeu 95% do faturamento e acabou precisando reduzir o time de 100 para 15 colaboradores.

Diante do cenário, o CEO, João Gustavo Pompeo, decidiu fortalecer a atuação no varejo, área em que a empresa dava os primeiros passos à época. Ele, que havia se reinventado como empreendedor após uma trajetória de atleta e de músico no passado, percebeu que era o momento de recomeçar. “Mesmo que nós já houvéssemos iniciado nossa trajetória no varejo, precisamos mudar toda a estrutura para focar nesse segmento e, sobretudo, atuar também no ambiente virtual, que crescia exponencialmente”, explica João. A empresa passou a oferecer novos produtos focados em jornadas de compras digitais, com tecnologias para autoatendimento por QR CODE, delivery e take-away, por exemplo.

Além de superar as adversidades, a Eyemobile chamou a atenção de grandes marcas com seu modelo de negócio promissor e, em 2021, acabou sendo adquirida pela Getnet, braço de tecnologia de pagamentos do Grupo Santander. Hoje, a empresa oferece um sistema completo para vendas físicas e digitais, que integra frente de caixa (PDV), comandas eletrônicas, software de gestão, notas fiscais, meios de pagamento e relatórios de vendas. Desde a aquisição, o ritmo é de crescimento acelerado, com expectativas de ampliação do time para mais de 120 pessoas e de internacionalização das atividades neste ano.

Encontre uma dor real do mercado e desenvolva a solução

Foram mais de 10 MVPs até que o sonho de empreender levasse seis jovens recém-formados a uma solução escalável, criada para resolver uma dor real da área de trade marketing. A história da Involves, retail tech que desenvolve soluções para indústria e varejo, começou em 2008, em um quarto emprestado pelos pais de um dos sócios. André Krummenauer, co-fundador e CEO da empresa, conta que, inicialmente, a Involves era uma fábrica de softwares. “Nós tínhamos o sonho de empreender em tecnologia e começamos desenvolvendo portais, sites e sistemas específicos para atender as necessidades de alguns clientes”, relembra André.

Em paralelo, desde o primeiro dia da Involves já se colocavam esforços para ter um produto SaaS (Software as a Service) como o foco da empresa. “Buscando mais informações sobre indústria e varejo, identificamos os desafios enfrentados pelo setor  para fazer a gestão de trade marketing. Foi aí que decidimos investir em um produto que solucionasse esses problemas”, explica André. Nascia então o Involves Stage, solução completa para a execução, gestão e inteligência em trade marketing.

Com a solução já consolidada no mercado e o conhecimento acumulado durante vários anos, a Involves decidiu ampliar e apostar em produtos que resolvessem também problemas dos varejistas, como o Involves Doors, que identifica e ajuda a corrigir uma das principais dores no varejo: a ruptura nas gôndolas. Atualmente, as soluções da Involves estão presentes em mais de 20 países, sendo usadas por clientes como L’Oréal, Fini, Unilever, Playstation, Motorola, Seara, Danone e 3 Corações.

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A Valeon é uma caixinha de possibilidades. Você pode moldar ela em torno do negócio. O que é muito importante. O nosso é colocar o consumidor no centro e entender o que ele precisa. A ValeOn possibilita que você empresário consiga oferecer, especificamente para o seu consumidor, a melhor experiência. A ValeOn já é tradicional e reconhecida no mercado, onde você empresário pode contar com a experiência e funcionalidades de uma tecnologia corporativa que atende as principais operações robustas do mundo essencial e fundamental. A ValeOn além de trazer mais segurança e credibilidade para o seu negócio, também resulta em muita troca de conhecimento e ótimos resultados para ambos os lados, como toda boa parceria entre empresas deve ser. Lembrem-se que a ValeOn é uma Startup Marketplace de Ipatinga-MG que tem a responsabilidade de levar o cliente até à sua empresa e que temos potencial para transformar mercados, impactar consumidores e revirar empresas e indústrias onde nossos produtos e serviços têm capacidade de escala e de atrair os investimentos corretos para o nosso crescimento.

A Startup Valeon um marketplace aqui do Vale do Aço volta a oferecer novamente os seus serviços de prestação de serviços de divulgação de suas empresas no nosso site que é uma Plataforma Comercial, o que aliás, já estamos fazendo há algum tempo, por nossa livre e espontânea vontade, e desejamos que essa parceria com a sua empresa seja oficializada.

A exemplo de outras empresas pelo país, elas estão levando para o ambiente virtual as suas lojas em operações que reúnem as melhores marcas do varejo e um mix de opções.

O objetivo desse projeto é facilitar esse relacionamento com o cliente, facilitando a compra virtual e oferecer mais um canal de compra, que se tornou ainda mais relevante após a pandemia.

Um dos pontos focais dessa nossa proposta é o lojista que pode tirar o máximo de possibilidade de venda por meio da nossa plataforma. A começar pela nossa taxa de remuneração da operação que é muito abaixo do valor praticado pelo mercado.

Vamos agora, enumerar uma série de vantagens competitivas que oferecemos na nossa Plataforma Comercial Valeon:

  • O Site Valeon é bem elaborado, com layout diferenciado e único, tem bom market fit que agrada ao mercado e aos clientes.
  • A Plataforma Valeon tem imagens diferenciadas com separação das lojas por categorias, com a descrição dos produtos e acesso ao site de cada loja, tudo isso numa vitrine virtual que possibilita a comunicação dos clientes com as lojas.
  • Não se trata da digitalização da compra nas lojas e sim trata-se da integração dos ambientes online e offline na jornada da compra.
  • No país, as lojas online, que também contam com lojas físicas, cresceram três vezes mais que as puramente virtuais e com relação às retiradas, estudos demonstram que 67% dos consumidores que compram online preferem retirar o produto em lojas físicas.
  • O número de visitantes do Site da Valeon tem crescido exponencialmente, até o momento, tivemos 83.000 visitantes.
  • O site Valeon oferece ao consumidor a oportunidade de comprar da sua loja favorita pelo smartphone ou computador, em casa, e ainda poder retirar ou receber o pedido com rapidez.
  • A Plataforma Comercial da Valeon difere dos outros marketplaces por oferecer além da exposição das empresas, seus produtos e promoções, tem outras formas de atrair a atenção dos internautas como: empresas, serviços, turismo, cinemas e diversão no Shopping, ofertas de produtos dos supermercados, revenda de veículos usados, notícias locais do Brasil e do Mundo, diversão de músicas, rádios e Gossip.

                                                                                                                                                                   Nós somos a mudança, não somos ainda uma empresa tradicional. Crescemos tantas vezes ao longo do ano, que mal conseguimos contar. Nossa história ainda é curta, mas sabemos que ela está apenas começando.

Afinal, espera-se tudo de uma startup que costuma triplicar seu crescimento, não é?

Colocamos todo esse potencial criativo para a decisão dos senhores donos das empresas e os consumidores.

E-Mail: valeonbrasil@gmail.com

Site: https://valedoacoonline.com.br/

Fones: (31) 98428-0590 / (31) 3827-2297

sábado, 19 de março de 2022

PROJETO DAS FAKE NEWS NO CONGRESSO NECESSITA DE VÁRIAS MODIFICAÇÕES

Editorial
Por
Gazeta do Povo

O relator da PL das Fake News na Câmara, Orlando Silva (PCdoB-SP).| Foto: Agência Câmara

Até esta sexta-feira (18), uma das razões apontadas por analistas para explicar a pressa da esquerda no Congresso em aprovar o Projeto de Lei 2630/20, o PL das fake news, era a de criar uma justificativa legal para o bloqueio do Telegram, aplicativo que tem moderação mínima de conteúdo e no qual grupos de direita levam evidente vantagem de engajamento. Ao que parece, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, decidiu que não precisava da lei para eliminar o aplicativo da vida pública do brasileiro. Numa decisão que será objeto de nossa análise nos próximos dias, o ministro determinou que provedores e plataformas adotem mecanismos para inviabilizar o funcionamento do Telegram. O episódio é a evidência mais recente do quanto a regulação das redes sociais e serviços de mensagens instantâneas é tema crucial para o futuro da liberdade de expressão no país.

Aprovada pelo Senado Federal em junho de 2020, a proposta institui a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Recordando o histórico dessa proposta, embora ainda estejamos caminhando em terreno delicado, e ainda haja ameaças reais à livre manifestação de ideias no texto sobre o qual os deputados se debruçam, convém frisar que a mudança de foco ocorrida no Senado foi positiva, já que o projeto original consistia numa prepotente tentativa de combater a “desinformação” – ou fake news, de onde vem o apelido do projeto -, partindo de um conceito vago o bastante que poderia ser usado arbitrariamente para enquadrar nessa categoria um sem número de manifestações meramente opinativas, que nada tivessem de difamatórias ou propositalmente enganadoras.

O texto original, na verdade, trazia um vício ainda pior que esse. Colocava sob responsabilidade do Estado o estabelecimento de um sistema de governança da informação e de sua veracidade, operacionalizado por meio das chamadas agências de checagem de fatos. Tratava-se de uma ideia constrangedoramente orwelliana, que comprometia a atividade jornalística em si, subvertia vários princípios da liberdade de expressão e criava um ente de raiz estatal supostamente dotado de mais sabedoria do que qualquer outro cidadão, empresa ou grupo civil para analisar e decidir quais manifestações mereceriam o carimbo de “verdade” e quais deveriam ser punidos com o de “mentira”.

Na Câmara, esse texto e mais 80 apensados passaram pela análise de um grupo de trabalho que teve como relator o deputado federal Orlando Silva (PCdoB). A proposta que chegou às suas mãos priorizava a regulação de disparos em massa e o trabalho dos robôs, mas também regras para os provedores de redes sociais e ferramentas de busca. No entanto, o parecer apresentado ao grupo de trabalho em dezembro de 2021 trazia mais problemas do que os notados no texto moderado que chegou do Senado. Além disso, o noticiário político informa que as pressões por mudanças – sejam mais liberalizantes ou restritivas – não pararam e até que seja colocado em pauta, o texto ainda pode ser modificado pelo relator. O próprio Orlando Silva, aliás, foi autor de um requerimento de urgência que, se aprovado, dispensaria o texto de prosseguir tramitando em outras comissões, levando-o direto para o plenário.

O texto original, na verdade, trazia um vício ainda pior que esse. Colocava sob responsabilidade do Estado o estabelecimento de um sistema de governança da informação e de sua veracidade, operacionalizado por meio das chamadas agências de checagem de fatos

A julgar pela última versão do parecer apresentada ao grupo de trabalho, não há muito a comemorar. Embora tenha resistido à tentação de retomar a ideia de criação de um “ministério da Verdade”, um dos pontos mais problemáticos estaria na criminalização generalizante do que é chamado de “disparos massivos”. O substitutivo condena tanto a promoção como o financiamento da difusão de mensagem “que [se] sabe inverídica”, que causem dano à “integridade física das pessoas ou sejam capazes de comprometer a higidez do processo eleitoral”. Para os infratores, o projeto prevê pena de um ano a três anos de reclusão.

Se isso se confirmar na versão que o relator protocolar como apta à votação em plenário, estaremos, de novo, diante de uma proposta capaz de inibir severamente a divulgação de conteúdos que questionam posições supostamente consensuais. Isso serviria, por exemplo, para coação em discussões sobre a eficácia de medidas restritivas adotados na pandemia ou para calar quem expõe dúvidas sobre a segurança das urnas, apenas para citar temas que aqueceram o debate público nos últimos meses. Não nos parece exagero supor, contudo, que o leque de posicionamentos estabelecidos sobre os quais não seria aceitável se contrapor cresceria exponencialmente, afetando, por exemplo, aqueles que denunciam o aborto como um ato abominável ou os que criticam pontos da agenda LGBT.

A correção desses equívocos é indispensável e se não ocorrer, os aspectos positivos no texto proveniente do Senado seriam apequenados, a ponto de tornar discutível se a aprovação da matéria ainda compensaria, tendo em vista o necessário equilíbrio entre o respeito à liberdade de expressão e a coibição de verdadeiros crimes praticados na internet.

Um desses pontos bem-vindos é o que exige mais clareza nos critérios usados por grandes plataformas, como Instagram, Facebook e Twitter, nos casos em que há exclusão de conteúdo ou contas de usuários. O Legislativo realmente não pode ignorar as numerosas denúncias de tratamento seletivo, particularmente contra perfis e páginas de viés conservador, tanto no Brasil quanto no exterior.

Se é verdade que certo nível de regulação da internet convém à democracia, é igualmente verdadeiro o fato de que errar a mão na medida das restrições pode desfigurá-la, tornando o próprio conceito de liberdade de expressão mera formalidade, já que ninguém será realmente livre para compartilhar suas opiniões sobre certos assuntos de determinadas maneiras, mesmo que o faça de modo totalmente respeitoso, com embasamento e sem ferir a honra de ninguém. A caçada às fake news não pode ser usada como pretexto para nos transformar num país com instrumentos muito próximos daqueles com governos totalitários, nos quais as únicas verdades compartilháveis são as autorizadas por comitês.


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