segunda-feira, 14 de março de 2022

NA UCRÂNIA EXISTE UM GRUPO NEONAZISTA

 

Antissemitismo

Por
Maria Clara Vieira – Gazeta do Povo

KIV01. Kiev (Ukraine), 24/12/2017.- Members of the Azov Civil Corps, Ukrainian nationalist’Äôs non-governmental organization, burn flares and hung a banner reading like ‘ÄòMikheil (Saakashvili) need to send to Georgia, Petro (President Poroshenko) need to send to Gagauzia’Äô during their rally on the Independence Square in Kiev, Ukraine, 24 December 2017. Activists protest against political fuss between Poroshenko and Saakashvili instead of real reforms in Ukraine. Gagauzia formally known as the Autonomous Territorial Unit of Gagauzia on the south of Moldova where Poroshenko lived formerly as local media report. (Protestas, Moldavia, Ucrania) EFE/EPA/SERGEY DOLZHENKO

Manifestantes do Batalhão Azov na Ucrânia: símbolos neonazistas e crimes de guerra| Foto: EFE

“O objetivo é proteger as pessoas que foram submetidas a bullying e genocídio nos últimos oito anos. E para isso lutaremos pela desmilitarização e desnazificação da Ucrânia”. Em seu discurso proferido em 24 de fevereiro, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, justificou nestes termos o início das invasões à Ucrânia.

“Dizem que somos nazistas. Mas poderia um povo que perdeu mais de 8 milhões de vidas na batalha contra o nazismo apoiar o nazismo?” questionou, em russo, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. “Como posso ser nazista? Explique isso ao meu avô, que passou por toda a guerra na infantaria do exército soviético e morreu como coronel em uma Ucrânia independente”.

Ocorre que a acusação da presença de grupos neonazistas na Ucrânia não é apenas mais uma invocação da “lei de Godwin” – segundo a qual “na medida em que uma discussão online cresce, a probabilidade de surgir uma comparação com o nazismo aproxima-se de 100%” -, mas está ancorada em problemas reais. E, para compreender a real dimensão da presença e influência destes movimentos no país do leste europeu, é preciso dar alguns passos atrás: mais precisamente, até a década de 1920, quando o Josef Stalin chegou ao poder.

“Quando Stalin chegou ao poder, as regiões onde os ucranianos habitavam sofreram com impostos extremamente altos. Insatisfeitos, eles se revoltaram, ao que o ditador respondeu aumentando ainda mais os impostos e confiscando a produção agrícola, o que acabou provocando o Holodomor”, explica o cientista político Késsio Lemos, pesquisador do INCT-INEU, em referência ao genocídio que ceifaria a vida de cerca de 3,3 milhões de ucranianos (mas que em algumas previsões chega a 12 milhões de pessoas).

Tudo isto fez com que, em 1941, as tropas alemãs assumissem o controle de Kiev recebidas por faixas “Heil Hitler”, uma recepção que logo culminaria no primeiro “ensaio” para o Holocausto: o Babi Yar. Enquanto a vasta população judia da Ucrânia era exterminada pelos nazistas, parte do povo se uniu aos novos invasores, movido pelo desejo de se ver livre do jugo soviético.

Foi nesta época que surgiram figuras proeminentes do nacionalismo ucraniano, como o líder Stepan Bandera, um dos primeiros a atuar para facilitar o domínio dos alemães e que, posteriormente, se voltaria contra eles, sendo enviado para um campo de concentração antes de ser assassinado por um agente da KGB.

Com o fim da guerra, em 1945, a Ucrânia seria novamente integrada à União Soviética. E, em 1991, com a dissolução do bloco, foi entregue às próprias lideranças – e a uma nova geração de conflitos.

Lei antissemitismo e repúdio ao nazismo e comunismo 
O rechaço ao comunismo levaria o Parlamento ucraniano a, em 2015, aprovar uma lei que iguala o comunismo ao nazismo, proibindo a disseminação de seus símbolos. “O regime comunista, como o regime nazista, infligiu danos irreparáveis aos direitos humanos porque durante sua existência exerceu total controle sobre a sociedade e perseguições e repressões politicamente motivadas, violou suas obrigações internacionais e suas próprias constituições e leis”, pontuou a corte, para quem os dois sistemas “implementaram políticas estatais repressivas”. A decisão foi ratificada em 2019.

Além disso, uma pesquisa de 2018 do Pew Research Center descobriu que a Ucrânia é o país que mais aceita os judeus entre todos os países da Europa central e do leste europeu. No ano passado, o Parlamento ucraniano aprovou uma lei criminalizando o antissemitismo, seguindo a definição proposta pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) – um modelo que entidades judaicas desejam espelhar no Brasil.

A IHRA define o antissemitismo como “uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação a eles. Manifestações retóricas e físicas de antissemitismo são orientados contra indivíduos judeus e não judeus e/ou contra os seus bens, contra as instituições comunitárias e as instalações religiosas judaicas”. Inclui também a negação ao povo judeu de seu direito à autodeterminação afirmações que invalidem a existência do Estado de Israel, ou considerem-na intrinsecamente racista.

O Batalhão de Azov 
Há que se lembrar, contudo, que, em meados de 2014, a Ucrânia estava às voltas com a guerra russa pela anexação da Crimeia. E foi nesta época que surgiu o Batalhão Azov, fundado por um supremacista branco declarado que afirmou que o objetivo nacional da Ucrânia era livrar o país de judeus e outras raças inferiores.

Ainda que não usem explicitamente a suástica, as inspirações nazistas do Azov não são nada sutis: seus emblemas apresentam um “Wolfsangel”, símbolo usado por voluntários da infantaria da SS, e um “Sol Negro”, desenhado por ninguém menos que Heinrich Himmler, um dos principais líderes do Partido Nazista alemão.

Em 2010, Andriy Biletsky, primeiro comandante do batalhão e ex-parlamentar ucraniano, afirmou que o propósito nacional da Ucrânia deveria ser “liderar as raças brancas do mundo em uma cruzada final contra os Untermenschen [subumanos] liderados pelos semitas”. O movimento conta, inclusive, com seu próprio partido político, o National Corps, que conseguiu 2,2% dos votos, elegendo apenas um representante no parlamento ucraniano.

O problema é que, na guerra pela Crimeia, o Batalhão Azov desempenhou um papel importante contra as forças russas, como na Batalha de Mariupol, ainda em 2014. Desde então, foram incorporados à Guarda Ucraniana – e não saíram mais.

“O batalhão de Azov é uma questão bem pontual, especialmente se levarmos em conta da localização dessas forças na região do Donbass e de Mariupol, onde há um cerco bastante incisivo”, explica a pesquisadora Larleciane Piccolli, doutora em estudos estratégicos internacionais e diretora de pesquisa do Isape.

“Além disso, apesar de a guerra de narrativas dificultarem a apuração do problema, há inúmeros relatos de tortura, crimes de guerra e crimes hediondos cometidos por soltados deste batalhão nas regiões onde eles dominam”.

“Quando houve o ataque à maternidade em Mariupol, o governo russo declarou que se tratava de uma estrutura utilizada pelo Azov, que estaria usando civis como estudo. Sabe-se também que é um grupo que reúne muitos estrangeiros – há alguns anos, a PF desmantelou uma célula do batalhão no Brasil”, explica a especialista.

Nos protestos ucranianos de 2013 e 2014, também foram avistados bandeiras e manifestantes com camisetas estampando o rosto do nacionalista Stepan Bandera. “Existe uma cultura anticomunista muito forte na Ucrânia, que tem como resposta o surgimento de uma ideologia nacionalista que tem esses elementos do nazifascismo. A Rússia se utiliza desse argumento e transfere para todo o contexto ucraniano. Há uma guerra de narrativa – ou, como se diz nas relações internacionais, uma infoguerra. Percebe-se que a Ucrânia é um Estado conservador no qual operam esses partidos, mas não podemos cair no risco da generalização”, diz Roberto Rodolfo Georg Uebel, professor de Relações Internacionais da ESPM Porto Alegre.

A conivência com este tipo de formação paramilitar, contudo, pode cobrar um preço alto. “Neste momento, é conveniente ao governo ucraniano ter ao seu dispor fortes combatentes ultranacionalistas, que nutrem o sentimento comum contra um inimigo comum. Um cálculo perigoso, que pode dar armas, recursos e prestígio a um grupo com interesses tão repugnantes e preconceituosos. A chegada de voluntários, armamentos, e suprimentos por parte do ocidente potencializa ainda mais essa realidade”, avalia Késsio Lemos.

“Ainda assim, a guerra de Putin é injustificada. O nazismo não é o modelo político/ideológico que governa a Ucrânia. No entanto, a política do ‘o inimigo do meu inimigo é meu amigo’ pode gerar frutos bastante preocupantes para a Ucrânia e para o Ocidente”.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/o-que-e-verdade-e-o-que-e-exagero-sobre-os-grupos-neonazistas-da-ucrania/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

PROJETO DE MINERAÇÃO DE POTÁSSIO PRÓXIMO A ÁREA INDÍGENAS ESTÁ EMPACADO

 

Por
Lúcio Vaz – Gazeta do Povo

O presidente Jair Bolsonaro defendeu a produção nacional de potássio.| Foto: EFE/Joedson Alves

A guerra na Ucrânia alertou o Brasil sobre o perigo da dependência do Brasil aos fertilizantes da Rússia. O presidente Jair Bolsonaro afirmou que vai faltar potássio – um dos ingredientes dos fertilizantes usados no agronegócio – e defendeu a aprovação do projeto de lei que permite a mineração em terras indígenas como solução. “Resolve-se um dos problemas”, disse o presidente. O maior projeto de mineração de potássio no Amazonas, próximo a terras indígenas, está empacado há cinco anos.

A empresa Potássio do Brasil, controlada pelo banco canadense Forbes & Manhattan, conseguiu as primeiras autorizações de pesquisa pelo governo brasileiro em Autazes (AM), distante 110 quilômetros de Manaus, em 2008. Pesquisas apontaram reservas de 450 milhões de toneladas de sais de potássio. A empresa canadense prevê investimentos de R$ 2,4 bilhões no projeto. Num vídeo de 2016, ainda como deputado federal, Bolsonaro afirmou que os direitos de mineração na Amazônia estavam “nas mãos de uma empresa canadense”. “Não podemos explorar nosso próprio potássio”, disse o então deputado.

Mas o Ministério Público Federal no Amazonas apurou que a empresa começou a realizar os estudos na região sem consultar as comunidades indígenas. Na análise do Estudo de Impacto Ambiental do projeto Potássio Autazes, os procuradores federais concluíram que a atividade é classificada como de porte “excepcional”, com a mina de sais de potássio com profundidade de 800 metros, rodovia e um porto para escoamento. O complexo será instalado a uma distância de 8 quilômetros do Rio Madeira.

Os procuradores descreveram, ainda, potenciais impactos negativos sobre a fauna e comunidades aquáticas: “As principais fontes de subsistência das comunidades indígenas da região, caça e pesca, restarão inservíveis em poucos anos. Tais danos sociais têm probabilidade de se estender sobre as aldeias próximas”.


Paralisação para ouvir indígenas
Em julho de 2016, o MPF recomendou que Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) cancelasse a licença já expedida e a Potássio do Brasil suspendesse as atividades de pesquisa até a realização das consultas previstas em lei. Os pedidos não foram atendidos. Depois que o Ministério Público acionou a Justiça, houve um acordo de suspensão dos trabalhos de pesquisa até a realização das consultas públicas.

O Ministério Pública afirma que as pesquisas de campo foram autorizadas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), para a identificação das jazidas dentro da terra indígena Jauary. O estudo de impacto ambiental previu interferência muito alta do empreendimento nos referenciais socioespaciais e culturais nas comunidades tradicionais e indígenas da região.

A Justiça Federal do Amazonas vai decidir agora a definição do Instituto de Meio Ambiente dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) como órgão competente para o licenciamento, considerando que a questão afeta terras indígenas. Essa questão precisa ser decidida antes de qualquer andamento na consulta, posição também defendida pelo povo indígena Mura na ação judicial.


Empresa aguarda consulta
Segundo a empresa Potássio do Brasil, foi acordado na Justiça, em 2917, que havia quatro áreas dentro de terras indígenas. A Potássio afirma que abriu mão dessas áreas e remodelou o projeto para ficar totalmente fora das áreas indígenas. No caso de comunidades que estão na proximidade, ficou acertado que deveria haver uma consulta pública. A Potássio diz que atendeu todos os pedidos da Justiça, como financiamento para realizar a consulta pública ao povo Mura.

Porém, quando foi iniciado o processo da consulta, houve o início da pandemia da Covid-19. O Processo foi paralisado, para evitar a contaminação dos indígenas pelo coronavírus. Com o final da pandemia, a consulta será retomada. A Justiça determinou que ficasse parado enquanto o povo Mura não fosse ouvido.

A Potássio do Brasil afirma que a autorização de pesquisa nos seus projetos foi concedida em 2008. Somente em 2012 teria ocorrido a delimitação de uma Terra Indígena pela FUNAI. Como houve investimento em pesquisa mineral nestas áreas, a empresa pretende manter a titularidade até a conclusão da demarcação destas áreas.

A Potássio Brasil afirma que o projeto de Autazes não contempla mineração em terras indígenas. Essas comunidades estariam a oito quilômetros de distância. Segundo o MPF do Amazonas, a terra indígena Jauary está a 3 quilômetros do projeto, enquanto a terra Paracuhuba fica a 6,3 quilômetros. Sofreriam, portanto, o impacto das atividades de mineração.

“Não é permitida mineração”, diz ANM
Diante de algumas divergências entre afirmações do MPF e da Agência Nacional de Mineração (ANM), que sucedeu o DNPM no governo Bolsonaro, o blog enviou questionamentos à agência. Perguntou se a Potássio do Brasil possui hoje processos de pesquisa mineral ou lavra em terras indígenas, A agência respondeu que “não é permitida atividade de mineração em terras indígenas, em função de questões legais”.

Blog enviou, então, o número de sete requerimentos de autorização de pesquisa mineral da Potássio Brasil em Autazes e quatro em Borba (AM). A ANM respondeu que “nenhum requerimento para execução de atividade mineral prospera em áreas com bloqueio legal. O sistema de requerimento eletrônico da ANM não aceita áreas incidentes sobre unidades de conservação de proteção integral, sobre terras indígenas ou outras áreas bloqueadas, tais como áreas de hidrelétricas. Com relação às autorizações de pesquisa, trata-se de modalidade que não prevê exploração dos recursos minerários em nenhuma escala”.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/lucio-vaz/projeto-para-mineracao-de-potassio-proximo-a-area-indigena-empacou-ha-5-anos/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

FAMÍLIAS E AS POLÍTICAS PÚBLICAS

 

Editorial
Por
Gazeta do Povo

family of tourists walking at sunset across the field in summer silhouettes of dad mom and daughters. People walking on the horizon. Parents with children travel light. Happy family concept.

| Foto: Bigstock

A família é a base da sociedade e essa é uma verdade tão evidente que os autores da Declaração Universal dos Direitos Humanos não hesitaram em inclui-la no documento que foi assinado por 193 nações, há cerca de 74 anos. Na verdade, o artigo 16 daquele valioso texto vai mais longe e afirma que, por sua importância fundamental, a família tem direito à proteção do Estado. Assim, não é possível pensar em autêntico desenvolvimento de um país se a instituição familiar não receber por parte dos governantes o merecido e necessário cuidado.

Partindo desse fato, duas notícias recentes que dizem respeito à relação entre Estado e família merecem nossa atenção. A primeira delas foi o lançamento de um edital, fruto de uma parceria do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) com a Capes, para fomentar pesquisas sobre políticas públicas para as famílias nos programas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) das universidades. As áreas temáticas contempladas no edital incluem organização e modalidades de atendimento e cuidados aos membros idosos das famílias brasileiras; os impactos do engajamento das famílias no desenvolvimento escolar dos filhos na pandemia; relações familiares, geração e regeneração de capital social no Brasil; atitudes dos jovens brasileiros sobre a formação da família; a relação entre a qualidade dos vínculos familiares e a ocorrência de violência intrafamiliar, entre outros temas.

Essa tentativa de criar incentivos públicos para redirecionar prioridades na produção científica brasileira deve ser comemorada. É sabido que, naturalmente, o interesse acadêmico de competentes pesquisadores é atraído pelos recursos disponíveis para o desenvolvimento de seu trabalho. Por isso, fundações e ONGs internacionais têm exercido forte influência na agenda universitária, quase sempre partindo de seus próprios interesses, que frequentemente são dissociados das preocupações cotidianas reais dos brasileiros.

Na medida que iniciativas como essa adquiram mais escala e se insiram como parte normal da estrutura de incentivos da ciência brasileira, entrando também na agenda de coleta e análise de dados de instituições governamentais de pesquisa como o IBGE, o Ipea, entre outras, os problemas da família deixarão de ser tema de mera retórica eleitoral no Brasil, ganhando materialidade e fundamentando a elaboração técnica para soluções sociais que exijam participação do Estado.

A segunda notícia que despertou curiosidade e ânimo em muitos defensores da família vem do Leste Europeu mas, infelizmente, foi ofuscada pelas informações diárias sobre a violenta invasão russa à Ucrânia. Em meio à tensão do conflito, a Hungria, que faz divisa com o país invadido, acaba de escolher seu novo chefe de estado e, pela primeira vez na história daquele país, é uma mulher. Katalin Novák, de 44 anos, casada e mãe de três filhos, foi eleita pelo parlamento húngaro com 137 votos contra 51. Anteriormente, ela havia se destacado na vida pública por ter ocupado o cargo de ministra da Família, Juventude e Relações Exteriores, implantando políticas públicas de valorização da natalidade vistas como inovadoras, especialmente para o contexto europeu de crise demográfica.

Sua atuação no governo foi determinante para o alcance de números surpreendentes para um país que poucas décadas atrás estava sob domínio soviético. Entre 2010 e 2018, a taxa de abortos na Hungria caiu 33,5%; o número de casamentos aumentou 43% e o índice de divórcios também diminuiu significativamente. Foi reduzido em 22,5% entre 2010 e 2017.

“As políticas pró-família não são um gasto, mas um investimento do futuro”, declarou a então ministra, em mais de uma ocasião, quase sempre completando com a afirmação de que “ter filhos é o caminho viável para sobreviver como sociedade”.

Não é possível pensar em autêntico desenvolvimento de um país se a instituição familiar não receber por parte dos governantes o merecido e necessário cuidado

Em seu discurso de posse, Katalin Novák reforçou o protagonismo feminino em sua função. “Nós, mulheres, criamos filhos, cuidamos dos doentes, cozinhamos, estamos em dois lugares ao mesmo tempo se for preciso, ganhamos dinheiro, ensinamos, ganhamos prêmios Nobel e limpamos janelas. Conhecemos o poder das palavras, mas sabemos ficar em silêncio e ouvir quando necessário, defendendo nossas famílias com uma coragem maior do que a dos homens se o perigo ameaçar”, disse a nova chefe de Estado, também a mais jovem da história do país.

A nova presidente da Hungria está certa em muito do que diz, mas se há algo em sua trajetória que devia receber atenção dos políticos brasileiros são os resultados que pode mostrar. É triste constatar que a retórica em defesa de valores familiares se tornou banal no Brasil e frequentemente serve para camuflar a ausência de projetos e ou realizações objetivas que promovam e protejam de fato os direitos da família.  A escassez de aprovações legislativas no Congresso Nacional que sejam convergentes com esse objetivo, por exemplo, põe em dúvida a real priorização da família por parte da atual elite política, ao menos quando esses temas precisam disputar espaço com projetos que atendam melhor a interesses corporativos e fisiológicos.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/familia-politicas-publicas-e-o-autentico-desenvolvimento/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

IMPOSTOS VÃO FINANCIAR CAMAPANHAS ELEITORAIS

 

Brasília

Por
Alexandre Garcia – Gazeta do Povo

Congressistas aprovaram o uso dos impostos para custear campanhas eleitorais sem consulta à população.| Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Sabia que parte dos seus impostos vai ser usada pelos partidos políticos para pagar as despesas de campanha eleitoral deste ano? Alguém perguntou para você se podia usar o imposto para isso?

Quando você paga impostos, sabe que eles vão para educação, saúde, infraestrutura, funcionalismo público, segurança pública… Mas talvez não saiba que eles servem para financiar campanha eleitoral de partidos que você detesta ou nem conhece.

Para o jurista Modesto Carvalhosa, deveria haver no mínimo um referendo sobre isso, para perguntar a nós, pagadores de impostos: “Você quer mesmo que o seu imposto seja usado para custear campanha eleitoral?”

Os congressistas aprovaram isso. Houve um recurso ao Supremo, que disse que está tudo bem, por 9 a 2. Esse é o desprezo dos congressistas e do Supremo ao pagador de impostos que sustenta toda a festa, incluindo o Congresso e o Supremo.

Novo ICMS, preço da gasolina e guerra na Ucrânia
Falando em imposto, o presidente sancionou o ICMS uniformizado. Não tem mais essa história de a gasolina em Santa Catarina ser mais barata que a do Rio Grande do Sul. O preço no Rio Grande do Sul vai ter que diminuir. No Rio de Janeiro, também. Vai ser igual.

E não tem mais aquele cálculo esquisito sobre o preço estimado dentro de 15 dias. Agora é sobre o litro de combustível, com uma alíquota única.

Não há mais imposto federal sobre gás de cozinha, diesel e gasolina. Mesmo assim, a Petrobras elevou o preço do combustível. O presidente voltou a dizer que não concorda, mas não vai se meter, para não interferir no mercado.

Certamente o preço do petróleo vai cair, assim que se resolver a situação na Ucrânia. Faz oito anos que o Zelensky persegue as etnias russas do país, com repressão e prisões. Há acusações de tortura, inclusive. E ele estava querendo botar a arma americana apontada para Moscou.

Ainda agora, no fim de semana, os russos bombardearam uma base militar onde os americanos despejavam armas e munições. Aliás, a notícia aqui no Brasil diz que foi um atentado. Não, foi um ato de guerra, de defesa da Rússia. Mas essa é uma outra questão.

As conversações estão evoluindo. O Zelensky deve desistir das maluquices dele como comediante, e o preço do petróleo vai cair. Mesmo assim, uma juíza deu 72 horas para o governo brasileiro explicar por que aumentou o preço do combustível. Ela vai ter que encaminhar um pedido, também, para o Biden, o Zelensky e o Putin, para saber por que o preço do petróleo aumentou.

Refugiados no Alvorada
O presidente Bolsonaro, no fim de semana, foi visitar um acampamento de refugiados afegãos que o Brasil recebeu de braços abertos em Luziânia, a uma hora de Brasília de carro. Ele os convidou para almoçar no Palácio Alvorada.

Ontem chegaram dois ônibus com mais de 70 afegãos – inclusive a Maria, um bebezinho que nasceu já no Brasil e ficou no colo da primeira-dama quase o tempo todo. Tiveram um bom almoço: arroz, feijão, carne, frango, batata frita e salada.

Depois, usaram a piscina do Palácio Alvorada. Foi uma recepção que o presidente quis dar a estes cristãos que seriam mortos pelos fanáticos talibãs. As mulheres que vieram não podiam mais trabalhar por lá, tinham sido proibidas. Agora, estão todos querendo aprender português e ficar por aqui – com muita saudade, claro, de sua terra natal.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/voce-vai-pagar-as-campanhas-eleitorais-e-nem-foi-consultado-sobre-isso/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA E SUAS ALIANÇAS

Eleições 2022
Por
Wesley Oliveira – Gazeta do Povo
Brasília

Os pré-candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sergio Moro (Podemos), Jair Bolsonaro (PL) e Ciro Gomes (PDT)| Foto: Mohammed Badra/EFE; Saulo Rolim/Podemos; Alan Santos/PR; Reprodução/Twitter

Faltando cerca de sete meses para o primeiro turno das eleições, pré-candidatos ao Palácio do Planalto já começam a definir suas alianças e possíveis nomes para vice na corrida presidencial. Neste cenário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende oficializar seu nome na disputa no começo de abril, logo depois do prazo final da janela partidária.

A expectativa do partido do petista é lançar a candidatura em um evento em São Paulo já com a indicação do ex-governador Geraldo Alckmin como vice de Lula. Alckmin está com filiação acertada com o PSB e deve oficializar sua entrada na sigla nos próximos dias. Até lá, Lula pretende consolidar também o apoio do PSol, sigla da esquerda que ainda apresenta entraves para fechar uma aliança com o PT.

Crítico da composição de Lula com Alckmin, o PSol elencou uma série de exigências consideradas relevantes para a militância de esquerda como forma de estar na coligação petista. Entre as demandas, os integrantes do PSol defendem a revogação do teto de gastos, da reforma trabalhista e a taxação de grandes fortunas. Até o momento, Lula já sinalizou que pretende alterar a lei do teto de gastos e da reforma trabalhista caso seja eleito.

Paralelamente, Lula pretende negociar com o PSol para que a sigla retire a pré-candidatura de Guilherme Boulos para o governo de São Paulo. O objetivo do petista é angariar o máximo de apoio para a candidatura do ex-prefeito Fernando Haddad na disputa estadual.

“Vamos buscar até o último minuto uma convergência entre os partidos de esquerda para a disputa estadual, desde que o acordo não anule o PSol”, argumenta Boulos. Nos bastidores, líderes do PT admitem que Lula deve indicar apoio ao nome de Boulos na disputa pela prefeitura de São Paulo na disputa de 2024.

Nesta estratégia, Boulos sairia neste ano como candidato para a Câmara dos Deputados, fortalecendo a bancada da legenda. Em 2020, Boulos chegou ao segundo turno da disputa municipal da capital paulista, mas acabou sendo derrotado por Bruno Covas (PSDB).

O PT pretende ainda consolidar a criação de uma federação com outros partidos de esquerda como o PV e o PCdoB. O PSB chegou a discutir a entrada no grupo, mas acabou desistindo depois de entraves com a cúpula petista.

Bolsonaro busca vice enquanto tenta manter aliança com o Republicanos 
Filiado ao PL, o presidente Jair Bolsonaro deve indicar um nome aliado para a vaga de vice na chapa presidencial. Até o momento, o ministro da Defesa, Braga Netto, é o nome mais cotado para o posto. Para isso, o chefe da pasta precisa deixar o cargo até 1º de abril.

O nome da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, vinha sendo apontado pelos partidos do Centrão como uma opção para o posto. A ministra, que é deputada federal licenciada, vai trocar o União Brasil pelo PP, sigla que pleiteia a indicação de vice na chapa de Bolsonaro.

Apesar disso, Tereza Cristina pretende disputar uma cadeira no Senado pelo Mato Grosso do Sul. De acordo com aliados da ministra, a eleição para o Congresso é um projeto pessoal e que ela só abriria mão caso houvesse um pedido de Bolsonaro.

Até o momento, Bolsonaro já conta com acordo para ter, além do PL, o apoio do PP e do PTB na coligação de reeleição. Aliado do governo do presidente desde o início do mandato, o Republicanos vive um racha sobre a participação na coligação deste ano. Para amarrar o apoio do partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, Bolsonaro pretende contemplar líderes do Republicanos com alguns ministérios durante a reforma ministerial, prevista para ocorrer no próximo mês.

Até o momento, Bolsonaro já confirmou que oito ministros irão deixar o governo para disputar cargos eletivos neste ano. De acordo com integrantes do Planalto, o Republicanos deve manter a gerência do ministério da Cidadania, que atualmente está com João Roma, além da indicação para o ministério da Mulher, da ministra Damares Alves.

Na chamada terceira via, pré-candidatos como o ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro (Podemos), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e a senadora Simone Tebet (MDB) vivem um impasse sobre a unificação das candidaturas do grupo. Até o momento, os três nomes ainda patinam nas pesquisas e passam por resistências dentro de suas siglas diante do cenário de polarização entre Lula e Bolsonaro.

Nesta sexta-feira (11), um levantamento do instituto Ipespe trouxe o ex-presidente Lula na liderança com 43% das intenções de voto, seguido do presidente Bolsonaro, com 28%. O ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) está empatado com o ex-juiz Sergio Moro em terceiro, ambos com 8%. Na sequência aparece Doria, com 3%, seguido por Tebet, que somou 1%.

No Podemos, o principal entrave enfrentado por Moro diz respeito ao uso do fundo eleitoral para custear a candidatura presidencial do ex-juiz. A bancada de deputados defende que a maior parte do montante, de cerca de R$ 230 milhões, da sigla seja empregado na renovação dos seus mandatos.

Além disso, o ex-juiz enfrenta dificuldades para construir palanques estaduais, como em São Paulo, onde o deputado estadual Arthur do Val acabou retirando sua pré-candidatura ao governo paulista depois da divulgação do áudio em que ele diz que refugiadas ucranianas “são fáceis porque são pobres”. O episódio acabou resultando na saída de do Val do partido do ex-juiz.

Assim como Moro, o governador de São Paulo, João Doria, também enfrenta resistências dentro do ninho tucano por conta do fundo eleitoral. Parte dos deputados do partido defende que o fundo da sigla seja usado para eleição de nomes para o Congresso, diante do desempenho de Doria nas pesquisas. Como forma de se contrapor à candidatura, deputados do partido defendem que o pré-candidato banque a campanha com recursos próprios.

Apesar disso, aliados do governador paulista acreditam que a pré-candidatura possa ganhar musculatura a partir do próximo mês, quando Doria vai deixar o Palácio dos Bandeirantes para rodar o país em pré-campanha. O objetivo de Doria é explorar a campanha de vacinação contra a Covid e os índices da economia paulista para dar visibilidade para a candidatura.

Na esteira do grupo, a cúpula do MDB tem apostado nos baixos índices de rejeição de Simone Tebet para alavancar a candidatura emedebista. A estratégia é dar visibilidade para o nome de Tebet até o período de registro das candidaturas, previsto para ocorrer em junho.

“É a hora de os candidatos se apresentarem. Eu mesma sou muito pouco conhecida, mas em compensação tenho o menor índice de rejeição entre todos os pré-candidatos [à Presidência]. Lá na frente vamos ver se vamos nos unir ou não. Eu estou convicta que eu tenho condições de ser essa candidatura da convergência do centro democrático”, disse Simone durante evento da XP Investimentos.

PDT tenta atrair Datena para vice na chapa de Ciro Gomes 
Como forma de manter a candidatura de Ciro Gomes, a cúpula do PDT busca filiar o apresentador José Luís Datena para indica-lo como vice na chapa do partido. “Reiterei o convite para ele vir para o PDT. Ele tem forte apelo popular e ajudaria em qualquer caminho”, avaliou o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi.

O apresentador da TV Band já ensaiou diversas vezes entrar para a política, mas sempre acabou recuando da disputa. Em janeiro, afirmou que seria candidato ao Senado, mas ainda não havia definido sua filiação. Até então, Datena estava filiado ao PSL, mas decidiu deixar o partido depois da fusão com o DEM para criação do União Brasil.

Paralelamente, o PDT tenta atrair a ex-senadora Marina Silva para a campanha, junto com o partido Rede Sustentabilidade. Marina chegou a ser cotada para vice na chapa do pedetista, mas acabou declinando do convite. Os aliados de Ciro Gomes desejam quem ela ocupe um posto na estrutura de campanha.

Sem Pacheco, Kassab busca alternativa para ter um nome na corrida presidencial
Cortejado por Lula, o presidente do PSD, o ex-ministro Gilberto Kassab ainda busca uma alternativa para a disputa ao Planalto neste ano. O cacique chegou a trabalhar para que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG), entrasse na corrida presidencial, mas o mineiro acabou recuando da pré-candidatura.

O objetivo de Kassab é evitar uma debandada de deputados do partido, que se dividem entre o apoio ao nome de Lula e de Bolsonaro na disputa. Com candidatura própria, o PSD ofereceria uma neutralidade na disputa do primeiro turno. Além disso, o presidente do partido pretende liberar os seus diretórios para construção de alianças de acordo com os interesses estaduais.

Como alternativa ao nome de Pacheco, Kassab tenta atrair o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB). O gaúcho foi derrotado por Doria nas prévias tucanas e tem se movimentado contra a candidatura do governador paulista.

Leite, que está nos Estados Unidos, pretende se reunir com Gilberto Kassab na próxima semana para uma tentativa de acordo. “O convite já foi feito e o prazo para a filiação é o fim da janela partidária, [1º de abril], porque ele terá que renunciar ao governo do Rio Grande do Sul”, afirma o líder do PSD no Senado, Nelsinho Trad (MS).

O encontro entre Kassab e Leite deve ocorrer na próxima terça-feira (15), em Porto Alegre. Nesta data, o presidente do PSD estará na capital gaúcha para a filiação da secretária extraordinária de Relações Federativas do governo Leite, Ana Amélia Lemos.

VEJA TAMBÉM:
Qual é a estratégia do PT para desgastar a candidatura de Moro à Presidência
PSD minimiza desistência de Pacheco, mantém tese de candidatura própria e vê Leite como plano A
Metodologia de pesquisa citada na reportagem

O levantamento do instituto Ipespe, encomendado pela XP Investimentos, ouviu, por telefone, 1mil eleitores entre os dias 7 e 9 de março. A pesquisa tem margem de erro de 3,2 pontos percentuais para mais. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o número BR-03573/2022.
Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2022/candidatos-vices-aliancas-o-que-ja-foi-e-o-que-falta-ser-definido-para-a-corrida-presidencial/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

 

NO BRASIL SÓ O STF QUE DIZ A VERDADE E AI DAQUELES QUE SÃO CONTRA

 

Artigo
Por
Pedro Henrique Alves, especial para a Gazeta do Povo

O ministro do STF Luís Roberto Barroso: cada dia mais o STF engole as funções dos demais poderes sob a luz do sol, na cara de todos| Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Entre todas as formas de autoritarismo que “vira e mexe” recobrem a mentalidade social brasileira, aquela que julgo ser a mais ameaçadora trata-se da sede constante dos tribunais superiores, mídias e políticos em ser mediadores da verdade, dos fatos e da realidade dos indivíduos.

Em ‘A cultura do cancelamento”, livro lançado recentemente no Brasil, o sensato e polêmico democrata Alan Dershowitz comenta: “Nem a liberdade de expressão nem o devido processo legal são garantidores da liberdade, da democracia ou da verdade, pois ambos contam com a inteligência, e a boa vontade, de seres humanos falíveis”. A liberdade de expressão e as demais liberdades fundamentais de um indivíduo não são geradas nem praticadas a partir de instituições e pessoas de poder.

Se é verdade, como bem disse Roger Scruton em ‘Conservadorismo: um convite à grande tradição’, que a liberdade não nasce de um vácuo, mas depende de uma estrutura social que lhe dê fundamento, é tão verdade quanto que não são tais esteios sociais que geram e lhe dão praticidade. Quem pratica e vive a liberdade são os indivíduos, as instituições apenas garantem ou – mais comumente – atrapalham os indivíduos no ato de exercê-la. As liberdades, a consciência individual, o julgamento e as escolhas pessoais não são terceirizáveis a instituições e juízes. A verdade que todos parecem ter esquecido é que, ou os indivíduos são livres, conscientes e capazes de escolherem seus caminhos, ou a liberdade não passa de uma cilada ideológica, uma lenda tosca que contamos para dar sentido a vidas patéticas, uma esperança de proveta feita para acalentar moribundos.

Aos poucos, juízes, políticos e seus agentes elaboram mecanismos jurídicos, midiáticos e políticos para censurar, punir e até prender pessoas, porque elas não agem tal como suas deliberadas vontades julgam corretas.

Sai a economia, entra a cultura
Para entender isso, precisamos recuar um pouco e compreender a filosofia jurídica que abarca tudo isso. Helen Pluckrose e James Lindsay, em ‘Teorias cínicas’, explicam como o pós-modernismo nutriu na mentalidade social da esquerda a mudança de polo da economia para a cultura, e como o marxismo deixou de ser uma espécie de teoria filosófica passiva, de espera da queda do capitalismo, para se tornar um progressismo ativo, gerador de mudanças sociais profundas.

Descendo das puras teorias ortodoxas do marxismo acadêmico do século XIX, o progressismo pós-modernista é antes um facilitador de ações. Ativistas, militantes e políticos de convicções progressistas, agora, são vistos em pé de igualdade com aqueles que produzem teorias a fim de fundamentar tais percepções.

No início do século XX, o marxismo se viu em uma leve crise existencial, pois havia uma crença arraigada – quase catequética – de que o capitalismo e a propriedade privada deveriam colapsar em algum momento, e justamente nesse instante o comunismo surgiria como o príncipe no cavalo branco para salvar a humanidade.

Mas o capitalismo estava se fortalecendo ao invés de degringolar, e o pior, os indivíduos não só não odiavam o capitalismo e suas propriedades, como pareciam gostar, cada vez mais, das benesses que o livre mercado criou. A Escola de Frankfurt, por exemplo, nasce com a convicção de que o marxismo tradicional devia ser revisado, bem como a sua estratégia de passividade ser revogada, adotando agora uma postura ativa de mudança social através de ativismos, pedagogias e a tomada de espaço cultural e político.

Em ‘A ideologia alemã’, escrito mais emblemático e que, pessoalmente, mais gosto de Karl Marx, o alemão disserta sobre o seu conceito de alienação e conclui que a moral conservadora da sociedade cria uma espécie de bruma sintética que anestesia as percepções dos indivíduos, fazendo com que eles não percebam suas condições de oprimidos e, por isso, não se revoltem imediatamente contra seus patrões e contra o sistema de mercado livre. É justamente aqui que entra a sanha de mediação das liberdades, opiniões e percepções da realidade dos juízes e políticos.

Ungidos
Em ‘Rumo à juristocracia: as origens e consequências do novo constitucionalismo’, o cientista político canadense Ran Hirschl mostra-nos como o conceito de “mediação constitucional”, papel das Cortes Supremas, tornou-se uma prática de mediação cultural, política e até de discernimento individual. Embebecidos na crença progressista de que o povo, alienado em moralidades conservadoras, não percebe o que é melhor para si mesmo, que não compreende a importância e os desafios da democracia contemporânea e de outros dispositivos institucionais do país, os juízes se sentem no direito de se tornarem mediadores, ungidos, sacerdotes não eleitos das escolhas da população. Sobre isso, diz Thomas Sowell em ‘Os Ungidos’:

As definições mais ambiciosas de liberdade e justiça, por exemplo, na visão dos ungidos, são consistentes com a extensa tomada das capacidades humanas que eles assumem. […] Não é meramente o fato de que o engenheiro não pode realizar uma cirurgia, o juiz, em suas decisões, não pode aventurar-se muito longe de sua expertise limitada da lei, sem a possibilidade de criar desastres ao tentar se tornar um filósofo social que pode transformar a lei em um instrumento de alguma visão maior do mundo.

E é justamente isso o que Luís Roberto Barroso denomina de “novo iluminismo”, essa tentativa de verter juízes em especialistas supremos sobre tudo, deuses da República, homens que têm livre trânsito entre as regras sociais que todos os outros mortais devem seguir sem contestar. Por isso que assistimos, cada vez mais, as quebras das regras da própria corte por seus magistrados; quando Alexandre de Moraes se torna acusador, inquiridor e juiz no mesmo processo, ele o faz em nome de uma intervenção NECESSÁRIA e HETERODOXA nas regras do jogo.

O STF então cria leis tal como xamãs criam doutrinas; baseado no argumento de que a não deliberação do legislativo sobre um tema cria uma brecha jurídica para que a Suprema Corte possa fazer leis à revelia dos representantes diretos da população, cada dia mais o STF engole as funções dos demais poderes sob a luz do sol, na cara de todos. E, vejam, tudo isso quem diz são eles mesmos, os homens de toga. Luis Roberto Barroso, em um artigo escrito para a Folha de São Paulo, em 23 de fevereiro de 2018, diz: “Cortes constitucionais, porém, desempenham também uma função representativa, quando atendem demandas sociais que não foram satisfeitas a tempo pelo Legislativo”.

Em suma, juízes e políticos, cada vez mais, rompem o véu da democracia ao avançarem violentamente contra a representatividade, a repartição dos poderes, e, o mais importante de todos, sobre as garantias constitucionais de liberdade dos indivíduos. Mark Victor Tushnet, professor da Harvard Law School, em seu livro ‘Taking the Constitution away from the courts’, mostra-nos como o ativismo judicial transformou o mundo moderno numa autarquia cada vez mais dura e hipócrita.

Se as opiniões dos indivíduos se tornam cada vez mais irrelevantes, dado que uma corte pode interferir em sua vontade política, expressa através de seus mandatários políticos, a democracia vai se tornando algo vazio de significado. No fim, uma lei criada a partir dos representantes populares pode ser simplesmente revogada e reescrita, sem nenhum apreço ao processo legal; e, após isso, outra ideia rigidamente contrária à ideia inicial dos representantes, subitamente criada à revelia da vontade popular direta ou indireta, pode passar a vigorar, porque alguns juízes assim o querem. No fundo, estamos falando da própria morte da democracia.

Dos políticos vem o controle de acesso à informação da mídia, a pré-interpretação e condução dos fatos; das cortes, a criação de instrumentos de repressão às liberdades individuais e o rompimento com as estruturas republicanas. Tudo isso está acontecendo agora, neste instante, e não se trata de teoria da conspiração, tudo é verificável.

Em nome da eleição que está por chegar, o TSE já baniu contas que eles consideram ser propagadoras de notícias falsas, irá punir, como numa corte inquisitorial, a vadiagem opinativa de pessoas que não concordam com eles.

O TSE está comemorando a parceria com grandes players midiáticos para o combate a fake news; em suma Twitter, TikTok, Facebook, WhatsApp, Google, Instagram, YouTube e Kwai irão verificar e, porventura, excluir mensagens que eles denominam de fake news.

O que significa isso?

Significa que o Orwell profético mais uma vez acertou: o Ministério da Verdade foi criado. Centenas de pessoas contratadas por agências de checagem, na sua maioria de tendência abertamente progressista, irão dizer a todos os brasileiros qual notícia é falsa e qual é verdadeira, vão punir pessoas por espalhar links que eles consideram mentirosos e também profissionais que produzirem conteúdos que não se adequem às diretrizes do Kremilin… quero dizer, do TSE.

Já mediadores da nossa vontade política, os togados agora estão virando mediadores da consciência. Desde o advento da primeira célula nesse planeta, nunca tivemos tão perto de voltarmos a ser amebas.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/stf-um-ministerio-da-verdade-para-chamar-de-seu/
Copyright © 2022, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

PETROBRAS QUER EXPLORAR O PRÉ-SAL MAIS RÁPIDO ANTES DA CHEGADA DE UMA NOVA ERA

 

  1. Opinião 

Compromisso é não permitir que recursos repousem no fundo do mar enquanto aguardamos a chegada de uma nova era.

Joaquim Silva e Luna, O Estado de S.Paulo

O mundo vive um período de mudanças e um desafio coletivo. Para que os impactos mais graves da mudança do clima sejam evitados, é necessário que ocorra uma profunda redução das emissões de gases de efeito estufa – provocadas, em parte, pela produção e pelo consumo de energia fóssil. Ao mesmo tempo, o crescimento populacional segue acelerado e é necessário garantir acesso à energia para o desenvolvimento social e humano.

Neste cenário, é consenso que ocorrerá uma mudança na matriz energética mundial para o uso de fontes menos poluentes – a chamada transição energética. As divergências estão no intervalo de tempo que ainda levará até que o petróleo deixe de ser a principal fonte mundial de energia – hoje, ele ainda é responsável por mais da metade de toda a energia produzida e, mesmo nos cenários que preveem uma transição mais acelerada, continuará sendo utilizado por muitos anos.

Em razão disso, a indústria de óleo e gás está constantemente traçando cenários e investindo em estratégias para a transição. Nenhuma empresa do mundo, no entanto, está na mesma posição que a Petrobras para essa mudança: somos os maiores produtores e grandes conhecedores da principal fronteira exploratória do mundo, o pré-sal. Quanto tempo temos pela frente para produzir e encontrar mercados para esse petróleo?

A certeza da transição leva a Petrobras a ter pressa no pré-sal. O petróleo vindo dessa camada já é responsável por mais de 70% da produção de petróleo da companhia. É muito, mas sabemos que ainda há relevantes reservas abaixo do oceano e da camada de sal, que podem se transformar em recursos passíveis de ser convertidos em ganhos para toda a população.

O investimento realizado pela indústria do petróleo retorna em grande escala para a sociedade, já que a tributação petrolífera no Brasil representa aproximadamente 70% da renda da atividade, bem acima da carga tributária média no País.

Só em 2021, a Petrobras arrecadou para os cofres públicos R$ 203 bilhões em tributos. As participações governamentais, por exemplo, aumentaram mais de 70% no ano passado, em relação ao ano anterior.

Além disso, estudos indicam que cada R$ 1 bilhão investido em negócios de exploração e produção gera cerca de 10 mil empregos diretos e indiretos. São recursos e oportunidades das quais o País não pode prescindir e que são importantes para financiar a própria transição energética no Brasil.

A produção do pré-sal contribui para a transição: isso porque o petróleo do pré-sal emite muito menos gases de efeito estufa (medidos em CO2 equivalente, CO2e) para cada barril produzido do que a média mundial: 17 kg CO2e por barril produzido no mundo, ante 10 kg no pré-sal. Consumir petróleo produzido com menos emissão é uma oportunidade imediata de reduzir emissões.

Por alguns anos, a Petrobras precisou limitar seus investimentos e, consequentemente, atrasar o desenvolvimento do pré-sal, porque precisava direcionar boa parte de seus recursos para o pagamento de dívidas. Agora, que a empresa tem suas finanças recuperadas, estamos preparados para aproveitar a janela de oportunidade da transição energética e estamos investindo na aceleração do desenvolvimento do pré-sal.

Até 2026, vamos investir quase US$ 40 bilhões em projetos nesta camada. Das 15 novas plataformas de produção que vamos instalar no Brasil neste período, 12 são para produção de óleo do pré-sal. Estamos falando de uma nova geração de plataformas, resultado de mais de uma década de aprendizado no pré-sal. Os novos projetos trarão aumento de capacidade produtiva, mais eficiência e redução de emissões de gases de efeito estufa.

Ao fim, 79% de nossa produção de petróleo equivalente virá do pré-sal. Temos, nesta região, o maior ativo em águas ultraprofundas do mundo, o Campo de Búzios, que estará produzindo 1,7 milhão de barris de petróleo em 2026.

Todo este petróleo vai atender de forma mais competitiva à demanda persistente durante a transição energética. Com o pré-sal, estamos em condições de aumentar nossa participação na oferta mundial de petróleo, oferecendo, ao mesmo tempo, uma fonte de energia menos intensa em carbono. Além disso, os recursos vindos desse petróleo permitirão a nossa preparação para o futuro.

Já anunciamos a ambição de atingir a neutralidade das emissões em nossas operações em prazo compatível com o Acordo de Paris, o que inclui meta de reduzir emissões absolutas em 25% até 2030. E estamos investindo em projetos de descarbonização enquanto avaliamos novas possibilidades de negócio em mercados de baixo carbono.

As oportunidades que o pré-sal nos proporciona são tão grandes como são grandes nossas reservas nesta região. Nosso compromisso público com a sociedade é não permitir que esses recursos repousem no fundo do mar enquanto aguardamos a chegada de uma nova era. É responsabilidade desta geração garantir, enquanto há tempo, os benefícios econômicos e sociais decorrentes da produção de petróleo no País.

*

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...