quinta-feira, 3 de março de 2022

CENÁRIOS PARA O FIM DA GUERRA NA UCRÂNIA

 

  1. Internacional 

A batalha pode ser o acontecimento mais transformador na Europa desde 1945

Thomas L. Friedman, O Estado de S.Paulo

A batalha pela Ucrânia pode ser o acontecimento mais transformador na Europa desde a 2.ª Guerra e a confrontação mais perigosa para o mundo desde a Crise dos Mísseis em Cuba. Vejo três cenários possíveis para o fim desta história: um “desastre total”, “concessões sujas” e a “salvação”.

O cenário de desastre é o que se desenrola neste momento. A não ser que Vladimir Putin mude de ideia ou seja dissuadido, ele parece disposto a matar quantas pessoas for necessário, obliterar a Ucrânia enquanto Estado e cultura independentes e erradicar sua liderança. Esse cenário poderia ocasionar crimes de guerra numa escala não vista na Europa desde os nazistas – crimes que tornariam Putin, seus comparsas e a Rússia párias globais.

O mundo conectado e globalizado jamais teve de lidar com um líder acusado desse nível de crimes de guerra, cujo país detém um território que perpassa 11 fusos horários, é um dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás natural e possui um arsenal de ogivas nucleares maior do que qualquer outra nação.

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A cada vídeo de TikTok e imagem de celular que exibe a brutalidade de Vladimir Putin, fica cada vez mais difícil para o mundo ignorar o que está acontecendo. Foto: Alexander Ermochenko/REUTERS

A cada dia que Putin se recusa a parar nos aproximamos mais dos portões do inferno. A cada vídeo de TikTok e imagem de celular que exibe sua brutalidade, fica cada vez mais difícil para o mundo ignorar o que está acontecendo. Mas interferir arrisca detonar a primeira guerra na Europa envolvendo armas nucleares. E deixar Putin reduzir Kiev a cinzas – como ele fez com Alepo e Grozny – permitiria a ele criar um Afeganistão europeu, transbordando refugiados e caos.

Putin não tem capacidade de instaurar um fantoche na Ucrânia e deixá-lo por lá. Ele enfrentaria uma insurreição permanente. Então, a Rússia precisa estacionar milhares de soldados na Ucrânia para controlar o país – e os ucranianos vão atirar neles todos os dias. É assustador perceber o pouco que Putin pensou sobre como essa guerra vai acabar.

Gostaria que Putin estivesse motivado apenas pelo desejo de manter a Ucrânia fora da Otan, mas seu apetite cresceu para muito além disso. Ele se aferrou ao pensamento mágico. Como disse Fiona Hill, uma das principais especialistas em Rússia dos EUA, ele crê em algo chamado “Mundo Russo”: acredita que ucranianos e russos sejam “um só povo” e considera sua missão arquitetar “o reagrupamento de todos os russófonos, de todos os lugares, que em algum ponto pertenceram ao império czarista”.

Para concretizar essa visão, Putin acredita que é seu direito e dever desafiar um sistema com base em regras, em que os objetivos não são alcançados pela força. E, se os EUA e seus aliados tentarem impedi-lo, ele sinaliza que está pronto para cometer mais loucuras do que todos nós.

Ou, como Putin alertou, antes de colocar suas forças nucleares em alerta máximo, qualquer um que impeça seu caminho deve estar pronto para enfrentar “consequências jamais vistas”. Adicionando a isso o crescente relato que coloca em dúvida a sanidade de Putin, temos um coquetel assustador.

O segundo cenário é que, de alguma maneira, os militares e o povo da Ucrânia sejam capazes de resistir à blitzkrieg – e as sanções econômicas comecem a afetar a economia de Putin, para que ambos os lados se sintam compelidos a aceitar concessões sujas.

Em troca de um cessar-fogo e da retirada das tropas russas, os enclaves no leste da Ucrânia, atualmente sob controle russo, poderiam ser cedidos formalmente à Rússia, enquanto a Ucrânia se comprometeria a jamais aderir à Otan. Ao mesmo tempo, os EUA e seus aliados concordariam em suspender todas as sanções impostas recentemente.

Esse cenário é improvável, porque requereria que Putin admitisse que foi incapaz de concretizar sua visão de reabsorção da Ucrânia, depois de pagar um enorme preço em sua economia e com as vidas de soldados russos. Além disso, a Ucrânia teria de ceder parte de seu território e aceitar a condição permanente de uma terra de ninguém entre a Rússia e a Europa – apesar de manter nominalmente sua independência. Isso também requereria que todos ignorassem a lição já aprendida de que Putin jamais deixará a Ucrânia em paz.

Finalmente, o cenário menos provável, mas o melhor desfecho: que o povo russo demonstre bravura e comprometimento com a própria liberdade e opere a salvação depondo Putin. Muitos russos devem estar começando a se preocupar com a possibilidade de que, enquanto Putin for seu líder, eles não terão futuro.

Milhares estão tomando as ruas para protestar contra a guerra, arriscando a própria segurança. E, apesar de ser cedo para afirmar, sua reação faz a gente imaginar que a barreira do medo pode estar sendo rompida, e um movimento de massa poderia acabar com o reinado de Putin. Mesmo para os russos que estão quietos, a vida foi subitamente perturbada.

E há ainda a nova “taxa Putin” que cada russo terá de pagar indefinidamente pelo prazer de tê-lo como presidente. Estou falando dos efeitos das sanções. Na segunda-feira, o Banco Central da Rússia teve de fechar o mercado de ações para evitar um derretimento e foi forçado a elevar sua taxa básica de juro de 9,5% para 20%, para estimular as pessoas a manterem seus rublos. Mesmo assim, o valor do rublo caiu 30% em relação ao dólar – 1 rublo vale agora menos de US$ 0,01.

Por todas essas razões, tenho esperança de que neste exato momento alguns comandantes militares e graduados oficiais de inteligência russos próximos a Putin estejam se reunindo a portas fechadas no Kremlin e expressando o que devem estar pensando. Ou Putin perdeu a mão enquanto estrategista durante seu isolamento na pandemia ou está em negação sobre quão erroneamente calculou a força dos ucranianos, dos EUA, de seus aliados e da sociedade civil global como um todo.https://arte.estadao.com.br/uva/?id=21R4lz

Se Putin levar adiante a destruição das maiores cidades da Ucrânia, ele e todos os seus comparsas nunca mais verão os apartamentos que compraram em Londres e Nova York com as riquezas que roubaram. Não haverá mais Davos nem St. Moritz. Em vez disso, eles ficarão trancados em sua grande prisão chamada Rússia – livres para viajar apenas para Síria, Crimeia, Belarus, Coreia do Norte e China, talvez. Seus filhos serão expulsos de internatos, da Suíça a Oxford.

Ou eles colaboram para depor Putin ou todos compartilharão a mesma cela. O mesmo vale para a população. Imagino que este último cenário seja o mais improvável de todos, mas é o que atende melhor à promessa de alcançar o sonho que sonhamos quando o Muro de Berlim caiu, em 1989 – de uma Europa livre, das ilhas britânicas a Vladivostok. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

GUERRA E LIDERANÇAS POLÍTICAS

 

  1. Política 

A guerra na Ucrânia ressalta para os militares a importância da condução política

William Waack, O Estado de S.Paulo

Guerras oferecem excelentes lições sobre liderança política, algo que os militares brasileiros talvez estejam aprendendo com a invasão russa da Ucrânia. Na Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército), que forma os futuros generais, um ponto central estudado no presente conflito é a “guerra informacional”, diz um de seus docentes, o professor Tasso Franchi.

Trata-se de qual lado num conflito manipula melhor as informações ao público. E qual lado no conflito toma as melhores decisões baseado em quais informações, evitando ser levado por desinformação. O mundo da revolução digital acentuou brutalmente a gravidade do problema, mas não alterou a sua natureza.

Como “desinformação” entende-se também subestimar a capacidade de resistência do adversário, ou superestimar a própria força – o noticiário sugere que Vladimir Putin estava desinformado ao iniciar a invasão da Ucrânia. É algo que ainda pode corrigir, embora já esteja pagando um preço altíssimo.

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Guerras oferecem excelentes lições sobre liderança política Foto: Roman Pilipey/EFE/EPA

Muito mais importante é a liderança política, que remete a clássicos como Clausewitz (que por esse motivo continua sendo lido na Eceme e em academias militares pelo mundo). Guerras e a sua condução têm de ser entendidas no contexto político e histórico, sujeito ao acaso. Sim, ao acaso, o que torna consequências às vezes imprevisíveis.

Por razões que ele considera objetivas (mas seus adversários consideram irracionais), Putin se dedicou a assegurar pela força bruta um espaço de vital importância estratégica para ele (e de bem menos importância para seus adversários). Conseguiu até aqui aumentar a própria dependência estratégica da China – que detém a capacidade de controlar o conflito sem ser parte direta dele – e devolveu ao inimigo da aliança militar ocidental um sentido de existência.

Mesmo conseguindo “negar” a Ucrânia ao adversário, território que Putin já inviabilizou como país por muitos anos adiante, a “liderança política” do autocrata em Moscou o deixou em situação mais perigosa e vulnerável do que antes da guerra. Para oficiais-generais estudando decisões políticas, a invasão da Ucrânia é a mais recente lição de que prevalecer no campo de batalha (que se antecipa que os russos consigam) não significa vencer a guerra, nem resolver a questão estratégica.

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Presidente da Rússia Vladimir Putin, em Moscou; para oficiais-generais estudando decisões políticas, a invasão da Ucrânia é a mais recente lição de que prevalecer no campo de batalha (que se antecipa que os russos consigam) não significa vencer a guerra, nem resolver a questão estratégica. Foto: Mikhail Klimentyev/EFE/EPA/Kremlin Pool/Sputnik

Há debate fascinante sobre o tamanho da desinformação (ou visão de mundo equivocada, pois se julgaram “donos da História”) de sucessivos líderes ocidentais ao lidar com o dilema milenar do equilíbrio entre potências, e seu tratamento da Rússia. E do tamanho da desinformação de Putin ao lidar com dados da realidade.

Resta saber o que oficiais-generais brasileiros acham que é “liderança política” quando olham para o Palácio do Planalto.

*JORNALISTA E APRESENTADOR DO JORNAL DA CNN

EMPRESAS, DIVULGUEM O SEU WHATSAPP

 

Equipe WhatsApp no Meu Negócio

Não entendeu o que a gente quis dizer sobre sua empresa ser uma vitrine? Então, preste atenção nestes dados.

98% dos brasileiros utilizam o WhatsApp no seu celular como meio de comunicação. E segundo o site Ecommerce Brasil, 83% dos brasileiros que fazem compras digitais utilizam o WhatsApp.

Para corroborar ainda mais com essa informação, temos outro dado importante: As vendas através do digital cresceram 66% no ano de 2020.

Logo, é importante termos em mente três fatores:

As mudanças que acontecem no mundo impactam nosso negócio diretamente;

As pessoas cada vez mais compram através do digital;

E a grande maioria dos brasileiros utiliza o WhatsApp para consumir.

Agora você deve estar se perguntando: Mas como posso estruturar esse canal de atendimento?

Primeiro precisamos garantir que as pessoas conhecem este canal de comunicação e o utilizam para falar com a sua empresa.

Algumas dicas para você fazer isto acontecer são as seguintes:

Crie um link de fácil acesso ao seu WhatsApp

Divulgue esse link nos perfis de suas redes sociais

Quando seu cliente estiver falando com você, seja por outro chat, telefone, ou mesmo dentro da sua loja, reforce que você atende pelo WhatsApp.

❗DICA EXTRA: Caso só haja espaço para um link, utilize as árvores de link como: LinkTree, Conecta Bio ou Conversation Pages como a que a Huggy disponibiliza. Elas irão te ajudar a organizar os links disponíveis para o seu cliente, como site, loja digital, link do Whatsapp, etc.

Vale lembrar que o WhatsApp Business, além de disponibilizar o link, também disponibiliza um QRCode para as pessoas começarem uma conversa com você a partir da leitura deste código.

Outra forma de fazer a captura dos leads é através da Conversation Page, uma solução gratuita para quem ainda não possui um site. Se quiser saber mais sobre ela, clique aqui abaixo e conheça.

Agora que você já capta seus clientes e já está usando o WhatsApp Business para fazer atendimentos, vamos falar de como utilizar os seus recursos para garantir agilidade no atendimento e ótimas experiência.

Gere uma ótima primeira impressão, disponibilizando as informações sobre o seu negócio e configurando o seu perfil → Identifique a sua empresa através da forma como você se comunica → Apresente seus produtos e soluções de forma profissional no WhatsApp utilizando os catálogos → Tenha agilidade no atendimento com as respostas rápidas para garantir boas primeiras impressões

Vantagens Competitivas da Startup Valeon

pandemia do Covid-19 trouxe consigo muitas mudanças ao mundo dos negócios. Os empresários precisaram lutar e se adaptar para sobreviver a um momento tão delicado como esse. Para muitos, vender em Marketplace como o da Startup Valeon se mostrou uma saída lucrativa para enfrentar a crise.

Com o fechamento do comércio durante as medidas de isolamento social da pandemia, muitos consumidores adotaram novos hábitos para poder continuar efetuando suas compras.

Em vez de andar pelos comércios, durante a crise maior da pandemia, os consumidores passaram a navegar por lojas virtuais como a Plataforma Comercial Valeon. Mesmo aqueles que tinham receio de comprar online, se viram obrigados a enfrentar essa barreira.

Se os consumidores estão na internet, é onde seu negócio também precisa estar para sobreviver à crise e continuar prosperando.

Contudo, para esses novos consumidores digitais ainda não é tão fácil comprar online. Por esse motivo, eles preferem comprar nos chamados Marketplaces de marcas conhecidas como a Valeon com as quais já possuem uma relação de confiança.

Inovação digital é a palavra de ordem para todos os segmentos. Nesse caso, não apenas para aumentar as possibilidades de comercialização, mas também para a segurança de todos — dos varejistas e dos consumidores. Não há dúvida de que esse é o caminho mais seguro no atual momento. Por isso, empresas e lojas, em geral, têm apostado nos marketplaces. Neste caso, um shopping center virtual que reúne as lojas físicas das empresas em uma única plataforma digital — ou seja, em um grande marketplace como o da Startup Valeon.

Vantagens competitivas que o oferece a Startup Valeon para esse Shopping:

1 – Reconhecimento do mercado

O mercado do Vale do Aço reconhece a Startup Valeon como uma empresa de alto valor, capaz de criar impactos perante o mercado como a dor que o nosso projeto/serviços resolve pelo poder de execução do nosso time de técnicos e pelo grande número de audiências de visitantes recebidas.

2 – Plataforma adequada e pronta para divulgar suas empresas

O nosso Marketplace online apresenta características similares ao desse shopping center. Na visão dos clientes consumidores, alguns atributos, como variedade de produtos e serviços, segurança e praticidade, são fatores decisivos na escolha da nossa plataforma para efetuar as compras nas lojas desse shopping center do vale do aço.

3 – Baixo investimento mensal

A nossa estrutura comercial da Startup Valeon comporta um baixo investimento para fazer a divulgação desse shopping e suas empresas com valores bem inferiores ao que é investido nas propagandas e divulgações offline.

4 – Atrativos que oferecemos aos visitantes do site e das abas do shopping

 Conforme mencionado, o nosso site que é uma Plataforma Comercial Marketplace que tem um Product Market Fit adequado ao mercado do Vale do Aço, agregando o mercado e seus consumidores em torno de uma proposta diferenciada de fazer Publicidade e Propaganda online, de forma atrativa e lúdica a inclusão de informações úteis e necessárias aos consumidores tem como objetivos:

  • Fazer Publicidade e Propaganda de várias Categorias de Empresas e Serviços;
  • Fornecer Informações detalhadas do Shopping Vale do Aço;
  • Elaboração e formação de coletâneas de informações sobre o Turismo da nossa região;
  • Publicidade e Propaganda das Empresas das 27 cidades do Vale do Aço, destacando: Ipatinga, Cel. Fabriciano, Timóteo, Caratinga e Santana do Paraíso;
  • Ofertas dos Supermercados de Ipatinga;
  • Ofertas de Revendedores de Veículos Usados de Ipatinga;
  • Notícias da região e do mundo;
  • Play LIst Valeon com músicas de primeira qualidade e Emissoras de Rádio do Brasil e da região;
  • Publicidade e Propaganda das Empresas e dos seus produtos em cada cidade da região do Vale do Aço;
  • Fazemos métricas diárias e mensais de cada aba desse shopping vale do aço e destacamos:
  • Média diária de visitantes das abas do shopping: 400 e no pico 800
  • Média mensal de visitantes das abas do shopping: 5.000 a 6.000

Finalizando, por criarmos um projeto de divulgação e propaganda adequado à sua empresa, temos desenvolvido intensa pesquisa nos vários sites do mundo e do Brasil, procurando fazer o aperfeiçoamento do nosso site para adequá-lo ao seu melhor nível de estrutura e designer para agradar aos mais exigentes consumidores. Temos esforçado para mostrar aos srs. dirigentes das empresas que somos capazes de contribuir com a divulgação/propaganda de suas lojas em pé de igualdade com qualquer outro meio de divulgação online e mostramos o resultado do nosso trabalho até aqui e prometemos que ainda somos capazes de realizar muito mais.

                                                               Site: https://valedoacoonline.com.br/

quarta-feira, 2 de março de 2022

PUTIN É BILIONÁRIO?

 

Fortuna
Por
Jones Rossi – Gazeta do Povo

O presidente russo, Vladimir Putin (no centro da foto), e o bilionário Arkady Rotenberg (segundo da esquerda para a direita), posam para uma foto durante a visita as obras de construção da ponte da Crimeia sobre o Estreito de Kerch, na Rússia, no dia 14 de março de 2018.| Foto: EFE / Yuri Kochetkov

A se acreditar na versão oficial do governo russo, o presidente Vladimir Putin é um homem de posses modestas, que vive frugalmente, quase um asceta: ganha um salário anual de US$ 140 mil (R$ 722 mil), tem um apartamento de 74 metros quadrados, três carros e um trailer. Extraoficialmente, no entanto, diferentes fontes estimam sua fortuna na casa dos bilhões, dos muitos bilhões de dólares.

O economista sueco Anders Aslund é professor na respeitada Universidade Georgetown, em Washington D.C. Em 2019 escreveu o livro “Russia’s Crony Capitalism: The Path from Market Economy to Kleptocracy” [O Capitalismo Camarada da Rússia: O Caminho da Economia de Mercado para a Cleptocracia], publicado pela editora da Universidade de Yale. No livro, ele explica como o domínio da máquina estatal russa ajudou Putin e seus amigos a enriquecerem absurdamente, usando para isso informações privilegiadas, manipulação de ações nas bolsas, e extorsão pura e simples.

“À medida que a Rússia se tornou mais cleptocrática e autoritária, outra forma de enriquecimento da elite tornou-se mais importante – a saber, a extorsão pelo Kremlin e a aplicação da lei sobre os verdadeiramente ricos”, escreve. “Bill Browder argumenta que, após a condenação de Mikhail Khodorkovsky em 2005, Putin exigiu 50% da riqueza dos outros oligarcas. ‘Ele não estava dizendo 50% para o governo russo ou a administração presidencial, mas 50% para Vladimir Putin pessoalmente. A partir desse momento, Putin se tornou o maior oligarca da Rússia e o homem mais rico do mundo.” Isso é possível, mas não comprovado. O que sabemos de muitas entrevistas é que a extorsão do Kremlin é um procedimento padrão, e é pelo menos na casa das dezenas de milhões de dólares em doações para “caridade” de cada oligarca individual. As visitas ao Kremlin são caras, então a maioria dos oligarcas fica no exterior a maior parte do tempo. Grande parte da riqueza pertencente oficialmente aos oligarcas russos pode ser de propriedade ou pelo menos controlada por Putin.”

A fonte citada no livro de Aslund é o investidor americano Bill Browder, que comandou um fundo de investimentos na Rússia por 14 anos, onde lucrou bastante, até entrar em conflito com o governo Putin. Seu advogado, o russo Sergei Magnitsky, não viveu para contar a história. Foi preso, torturado e morto. Autor do livro “Alerta Vermelho – Como me tornei inimigo número 1 de Putin”, lançado no Brasil pela editora Intrínseca, Browder testemunhou no senado americano em 2017. “”O objetivo do regime de Putin tem sido cometer crimes terríveis para obter dinheiro”, afirmou. No mesmo depoimento ao senado, Browder, disse que a fortuna de Putin pode chegar aos US$ 200 bilhões (valor que se convertido daria a incrível soma de mais de R$ 1 trilhão), transformando Putin no homem mais rico do mundo, à frente de Bill Gates, Jeff Bezos e Elon Musk.

Apoio e traição
 Mikhail Khodorkovsky durante julgamento por evasão de divisas, em Moscou, em 2009. Ele acabaria condenado e posteriormente solto antes das Olimpíadas de Sochi, em 2016. EFE/Sergei Chirikov
Outro personagem citado é Mikhail Khodorkovsky, um ex-magnata do petróleo russo que ajudou Putin a se eleger presidente em 2000 junto com outros oligarcas à época, como Roman Abramovich (dono do clube de futebol Chelsea, da Inglaterra), e Boris Berezovsky (o homem por trás do dinheiro que montou o supertime do Corinthians campeão brasileiro de 2005, que tinha no elenco jogadores como Carlos Tevez e Javier Mascherano).

Khodorkovsky era dono da Yukos, a principal companhia petrolífera russa, ex-estatal, e junto com os outros oligarcas investiu dinheiro na eleição de Putin por temerem o adversário Gennady Zyuganov, que quase havia vencido Boris Yeltsin em 1996, e cuja principal plataforma era reimplantar o comunismo na Rússia — o que incluía reestatizar empresas como a Yukos, obviamente indo contra os interesses dos oligarcas.

Após vencer as eleições de 2000, Putin, no entanto, voltou-se contra seus financiadores. Khodorkovsky foi pra cadeia acusado por sonegação de impostos e assassinato, de onde só saiu em 2014, às vésperas das Olimpíadas de Inverno de Sochi, quando Putin o anistiou por causa da pressão da União Europeia. A prisão de Khodorkovsky, que hoje vive exilado em Londres, ajudou Putin a consolidar seu poder na Rússia. Depois do episódio, nenhum grande empresário russo mais ousaria se opor a ele.

“A vida de um escravo das galés”
Um dos mais ferrenhos adversários de Putin nas últimas décadas foi Boris Nemtsov, que escreveu, junto com Leonid Martynyuk, um relatório com os bens de Vladimir Putin, ao qual deram o título satírico “A vida de um escravo das galés”. De acordo com Nemtsov e Martynyuk, Putin tem à sua disposição 20 mansões, quatro iates de luxo (um deles, o Graceful, ficava ancorado na Alemanha, mas voltou para a Rússia duas semanas antes da invasão da Ucrânia), e uma coleção de relógios que vale US$ 600 mil. O livreto colocou os dois autores na mira de Putin. Nemtsov foi assassinado em plena luz do dia perto do Kremlin, em 2015. Martynyuk vive desde 2014 em Nova York.

Stanislav Belkovsky, ex-consultor do governo do governo russo, afirmou que o acúmulo de uma quantia tão grande de dinheiro e propriedades é uma forma de manter o poder. “Este é o princípio da plutocracia, o poder do dinheiro, que existe na Rússia hoje.” Aslunda complementa em seu livro: “Como os direitos de propriedade não são seguros na Rússia, você precisa de poder político ou fortes conexões políticas para manter a propriedade, o que exige muito dinheiro. Na Rússia de hoje, dinheiro é poder, e poder é dinheiro. Se você perder um, você pode perder muito. Pergunte a Khodorkovsky! Portanto, o grupo de Putin tenta manter ambos.”

De fato, Putin, após se livrar dos oligarcas que desejavam uma Rússia mais liberal e democrática, como Khodorkovsky, escolheu pessoas de confiança para tomarem o lugar da velha oligarquia. De acordo com Belkovsky, Putin amealhou US$ 40 bilhões nos primeiros oito anos de poder, principalmente por meio de seus camaradas, como Arkady Rotenberg, que ganhou contratos de mais de US$ 7 bilhões nas Olimpíadas de Sochi. Os irmãos de Arkady, Boris e Igor, também são bilionários. Rotenberg é dono de um resort em Sochi que vale, de acordo com estimativas, US$ 1,5 bilhão. Alexey Navalny, opositor de Putin que foi envenenado em 2020 e agora está preso, publicou um vídeo sobre a mansão no ano passado, que viralizou nas redes sociais russas, a chamando de “Palácio de Putin”.

“Presente” de milhões de dólares
Um dos maiores exemplos de que o Kremlin mente sobre o patrimônio de Putin foi revelado no escândalo dos Panama Papers. Foi identificado um “presente” do empresário Suleiman Kerimov para Putin no valor de US$ 259 milhões de dólares. Não se sabe se Kerimov foi extorquido por Putin ou faz negócios com ele. De qualquer forma, Aslund estima em seu livro que se as saídas totais de capital da Rússia para o exterior (bancos estrangeiros, offshores e paraísos fiscais) desde 1991 totalizaram US$ 780 bilhões, o próprio Putin teria se apropriado mais de um quarto.

Por causa das sanções levantadas pelas potências ocidentais na semana passada, muito do patrimônio que Putin mantém fora da Rússia deve ficar congelado. Mas aparentemente ele ainda tem muita lenha – e dólares – para queimar.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/putin-e-bilionario-o-que-se-sabe-sobre-o-patrimonio-do-lider-russo/
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O AGRONEGÓCIO DEVE SER PROTEGIDO DE TODAS AS FORMAS

 

Editorial
Por
Gazeta do Povo

| Foto: Confederação Nacional da Agricultura/Wenderson Araújo

A invasão da Ucrânia pela Rússia traz a necessidade de lidar com preocupações internas que vão além dos graves problemas que o conflito já comporta. Como dissemos anteriormente, enquanto o conflito no Leste Europeu não tomar proporções globais, ainda é possível manter previsões relativamente otimistas quanto às oportunidades econômicas que 2022 pode trazer ao país. Ainda assim, um setor vital para o país merece atenção especial: o agronegócio.

Nos últimos 40 anos, o agronegócio brasileiro fez a maior revolução tecnológica registrada no setor em todo o mundo, tornando o país um dos mais importantes atores mundiais na produção e exportação de alimentos. Para se ter uma ideia do que isso significa, calcula-se que o agronegócio tenha respondido por cerca de 28% de todo o PIB brasileiro, considerando os três primeiros trimestres de 2021. Em 2020, essa fatia foi de 26,6%.

Com a economia ainda em recuperação após os estragos causados pela pandemia, a produção agrícola brasileira tende a ser a principal responsável pelo Brasil não encerrar o ano com uma queda do Produto Interno Bruto (PIB). O setor deve fechar o ano com um crescimento de 3%, de acordo com a maior parte das análises, mas chances de chegar a 5,2% nas previsões mais otimistas.  Nesse cenário, o agro despontaria como o único segmento com crescimento expressivo, em contraste com a retração de 0,6% da atividade industrial e a tímida alta de 0,5% no setor de serviços.

Nos últimos 40 anos, o agronegócio brasileiro fez a maior revolução tecnológica registrada no setor em todo o mundo, tornando o país um dos mais importantes atores mundiais na produção e exportação de alimentos

Até aqui, o cenário global positivo para o agro também decorre do boom das commodities que veio na esteira da pandemia. Grandes nações como a China procuraram aumentar suas reservas de grãos significativamente. A desorganização da cadeia de distribuição global aumentou a escassez em vários mercados. Esse crescimento de demanda, aliado à diminuição da oferta, dada a falta de chuvas provocada pelo fenômeno La Niña, contribuíram para a alta nos preços, incrementando o lucro dos produtores nacionais. É por isso que as estimativas da Conab apontam para aumento de até 29% na colheita de grãos como milho, com 112,34 milhões de toneladas previstas em 2021/2022.

É nesse ponto que nosso potente agronegócio faz intersecção com o que ocorre no Leste Europeu. Apesar da grande produção de nossas fazendas, o Brasil depende da importação maciça de fertilizantes, chegando a 85% o adubo utilizado nas lavouras brasileiras que vem de fora do país. A metade desse montante vem justamente da Rússia e de Belarus. Se especificarmos o tipo de fertilizante, notaremos que os russos fornecem 99% de todo o nitrato de amônio que usamos no país, além de 29% do potássio.

Antes da guerra, economistas já se preocupavam com uma alta de 180% no preço médio dos fertilizantes, que até então estava apenas no horizonte, mas que poderia afetar diretamente a produtividade brasileira ou mesmo a área plantada da safra 2022/2023. O risco de desabastecimento, portanto, já existia, mas agora, com uma guerra absolutamente desnecessária provocada pelo governo Putin, perigosa para a estabilidade internacional em numerosos aspectos, é praticamente certo que o preço dos fertilizantes será afetado, a distribuição do produto em nível global também e até mesmo o cumprimento da promessa feita pelos russos ao Brasil de ampliação no fornecimento, agora, provoca dúvidas.

Assim como o corolário do livre comércio entre nações é a paz, a guerra frequentemente precede à escassez e à fome. É muito importante que o governo e os empresários brasileiros estejam em sintonia, para proteger a sociedade das consequências que virão das ações irresponsáveis de Moscou. O agronegócio é hoje nossa principal garantia, não só de estabilidade econômica, como também de comida na mesa dos brasileiros. Portanto, é indispensável o empenho na busca de alternativas, não apenas para a questão dos fertilizantes, mas de todos os demais produtos que, ao que tudo indica, terão a distribuição afetada pela guerra.

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/planejamento-e-protecao-ao-agronegocio/
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OTAN CONTINUOU EXISTINDO APÓS A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

 

Por
Filipe Figueiredo – Gazeta do Povo

A Representante Permanente dos EUA na OTAN, Julianne Smith, participa de uma conferência de imprensa na sede da Aliança em Bruxelas, Bélgica, 15 de fevereiro de 2022.| Foto: EFE/EPA/STEPHANIE LECOCQ

Um dos motivos alegados pelo governo russo para invadir a Ucrânia seria impedir que o país vizinho se torne um integrante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Mesmo após a dissolução da União Soviética, a Federação Russa repetidas vezes afirmou que a OTAN é uma ameaça aos seus interesses e à sua segurança. Com o assunto ganhando ampla repercussão com o novo conflito, comentários foram feitos, inclusive por jornalistas e analistas profissionais, de que a OTAN teria perdido sua razão de existir com o fim da Guerra Fria, já que ela foi criada com a URSS como antagonista. Torna-se interessante, então, responder a pergunta: por que a OTAN continuou existindo após a Guerra Fria?

Antes disso, é essencial frisar que a argumentação de que a OTAN deveria ter deixado de existir após a Guerra Fria pode, em última instância, ser um apoio indireto à invasão de um país soberano, a Ucrânia, por outro, a Rússia, a potência agressora. Podem existir também pessoas que genuinamente pensem dessa maneira, que a organização teria cumprido sua missão durante a Guerra Fria e, ao ser mantida após 1991, contribuiu para tensões posteriores, como a sua expansão ao leste. Devido a essa linha tênue entre apologia de uma guerra e um debate intelectual válido, é importante deixar claro que entender ou explicar a OTAN não implica em legitimar todas suas ações e a atual ação russa.

Premissa falsa
O problema do argumento de que a OTAN teria perdido sua razão de ser com o fim da Guerra Fria é o de que ele parte de uma premissa comum, mas falsa, de que a Guerra Fria foi um fenômeno próprio. Não, a Guerra Fria é um capítulo, é um trecho, de um conflito mais amplo, interpretado pelas teorias clássicas da geopolítica. Em suma, dentre as grandes potências, duas seriam protagonistas. A que tiver o domínio do poder naval e a que tiver a hegemonia da vastidão terrestre Eurasiana. No século XIX, após a consolidação de uma ordem internacional centrada em potências, com o Congresso de Viena de 1815, essas potências eram, respectivamente, o Reino Unido e o Império Russo.

Naquele momento, os Estados americanos ainda se estabeleciam. Na Europa, a Espanha estava decadente em seu poder internacional, a França enfraquecida após as Guerras Napoleônicas e Áustria e Prússia disputavam a primazia no mundo alemão. A África estava fragmentada em uma miríade de reinos e, na Ásia, a postura era de isolamento total no Japão, de isolamento político na China, grande centro comercial, e a Índia e o sudeste asiático eram progressivamente subordinados aos europeus. Finalmente, o vasto, multicontinental e multinacional império Otomano passava por repetidas crises, com uma estrutura que não conseguia modernizar a economia do império.

Enquanto isso, o Reino Unido se isolava dos distúrbios continentais em sua política de “Isolamento Esplêndido” e tornava-se a potência hegemônica dos mares e do comércio mundial. Um enorme império colonial foi conquistado e o Reino Unido vitoriano era a “Oficina do Mundo”, um centro comercial e industrial. A Rússia, por sua vez, continuava sua expansão territorial no Cáucaso, na Ásia Central e no Extremo Oriente, além de expandir sua influência política sobre os povos eslavos do Cáucaso. Lembremos também que, naquele momento, o Império Russo incluía os atuais países bálticos, a Finlândia, Moldova e partes da Polônia.

Disputa por influência
Reino Unido e Rússia inclusive buscavam um deter a influência do outro. O apoio britânico aos otomanos, cujo grande exemplo é a Guerra da Crimeia, e a disputa pela Ásia Central no Grande Jogo são talvez os exemplos mais conhecidos. Outro, menos conhecido e ainda mais importante, é o fato de que a primeira aliança militar assinada pelos britânicos em quase cem anos foi “mirando” a Rússia, a aliança com o Japão, em 1902. Caso a Rússia atacasse um dos dois, o outro viria em defesa, colocando os russos em uma guerra em duas frentes. O Japão, aproveitando essa vantagem, derrotou a Rússia na guerra Russo-Japonesa de 1905, que projetou o país asiático como uma nova potência.

Na véspera da Grande Guerra, o Reino Unido dominava um quarto do território mundial, de forma não contínua. A Rússia dominava outros 17%, no maior império contínuo e centralizado da História. O cenário naquele momento, entretanto, era outro. Via Relação Especial, o Reino Unido começava a “passar o bastão” de potência marítima para os EUA, também “insulado” dos conflitos europeus em seu próprio continente. A unificação alemã criou uma potência econômica e militar no centro da Europa, cuja hegemonia industrial se projetava sobre fatia considerável do continente. A diplomacia britânica, temendo uma aproximação entre Alemanha e Rússia, o que criaria um titã territorial e econômico, se movimentou.

Em 1904, a criação da Entente Cordial aproximou britânicos e franceses, inimigos históricos, em uma aliança contra a Alemanha. Via França, foi construída a Tríplice Entente com a Rússia, uma aliança de ocasião. O objetivo britânico era impedir a aproximação entre Rússia e Alemanha. Depois da Grande Guerra, essa aproximação voltou a ocorrer, entre a República de Weimar e a URSS, dois países então excluídos da ordem internacional da Liga das Nações, aproximação que é encerrada pela Segunda Guerra Mundial e os planos nazistas de tomar os territórios soviéticos, além do antagonismo ideológico com o comunismo internacional e o Pacto Anticomintern.

Guerra Fria
Vem a destruição da Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, um conflito geopolítico por influência entre EUA, potência marítima, e a URSS, a potência territorial. Agora com um toque ideológico, em que cada superpotência tinha um alinhamento ideológico claro, cobrado de seus aliados. Ou seja, a Guerra Fria foi apenas um capítulo ideológico dentro de uma disputa mais ampla e mais longeva, que remetia ao início do século XIX. Com a Guerra Fria, veio a criação da OTAN, cuja semente inicial foi o quê? O Tratado de Dunquerque, de 1947, que basicamente foi uma renovação da Entente Cordial, a aliança entre Reino Unido e França, criada décadas antes da Guerra Fria.

Essa aliança foi expandida para incluir o Benelux, no Pacto de Bruxelas e, em 1949, é assinado o Tratado do Atlântico Norte, que adiciona Itália, Portugal, Dinamarca, Canadá e, principalmente, os EUA à defesa coletiva da Europa ocidental. Naquele momento, apenas duas potências tinham armas nucleares, URSS e EUA. Em 1952, Grécia e Turquia entram na aliança e, em 1955, a Alemanha ocidental. Esse processo de expansão foi conduzido por Lorde Hastings Ismay, primeiro Secretário-geral da organização. Ele é autor de uma célebre frase para definir a OTAN, lembrada por um amigo diplomata da coluna em meio ao conflito na Ucrânia. Segundo ele, a aliança foi criada para “para manter os russos fora, os americanos dentro e os alemães abaixo”.

A preocupação quando da criação do pacto de defesa coletiva não era necessariamente a URSS, era a Rússia, em qualquer encarnação, modelo de Estado ou ideologia que fosse, e seus objetivos são atrelar a defesa da Europa ocidental ao poderio dos EUA, independentemente de inimigo, e impedir que a Alemanha possa tornar-se, novamente, um pólo próprio que represente um desafio dentro da ordem internacional. Seja na década de 1950, na década de 2000 ou na década de 2050. Os propósitos da OTAN não se limitavam à Guerra Fria, assim como o fim da Guerra Fria não encerrou a disputa geopolítica, foi apenas o fim de um capítulo ideológico. O fim da Guerra Fria, ao contrário do que ingenuamente dito por Francis Fukuyama, não foi o “fim da História”.

Ascensão da China
É justo pelo caráter ideológico da Guerra Fria que é tentador achar que ela foi um processo próprio, e seu fim representou uma euforia com a possível “nova era”, de otimismo, ambientalismo e defesa dos Direitos Humanos. Oras, até hoje existem pessoas que automaticamente ligam a Rússia ao comunismo, mesmo no governo Putin. Lembremos, entretanto, que a Guerra Fria durou apenas pouco mais de quarenta anos, o que historicamente significa muito pouco. O fim da Guerra Fria, não sendo o fim de uma disputa mais ampla, foi apenas a transformação dessa disputa.

Em uma ordem multipolar, estamos vendo a ascensão de novas potências, como a Índia. Um mundo economicamente mais interligado. A expansão da OTAN para o leste, com países antigamente na esfera de influência russa. Também há uma maior integração em defesa dentro da Europa e, como consequência da invasão da Ucrânia, o governo alemão anunciou maior orçamento militar. Inclusive, é interessante lembrar que a aproximação entre Alemanha e Rússia nas últimas décadas, com projetos de energia, por exemplo, não agradava Washington.

Se cem anos atrás o Reino Unido passou o bastão de potência marítima para os EUA, hoje é a Rússia que transfere o posto de potência territorial para a China. Não por acaso, em agosto de 2019, o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, afirmou que a aliança precisa se adaptar para conter a influência chinesa. Acreditar que a OTAN deveria ter acabado junto com a Guerra Fria é ingenuamente comprar um discurso ideológico de achar que o mundo realmente se tratava apenas de uma disputa entre capitalismo e comunismo. É ignorar que, no cenário internacional, vivemos uma realidade cuja origem está, em boa parte, no século XIX. Passando por transformações e capítulos específicos, mas, ainda assim, marcada por bandeiras originadas naquele período. Principalmente, por disputas e interesses de longo prazo. A OTAN é apenas uma encarnação desses interesses.


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GUERRA RÁPIDA DE PUTIN NÃO FUNCIONOU

Opinião
Por
Guilherme Macalossi – Gazeta do Povo

Presidente da Rússia, Vladimir Putin| Foto: Sergei Ilnitsky/EFE

Se tudo tivesse corrido como o Kremlin esperava, a essa altura dos acontecimentos a Ucrânia já estaria prostrada e subjugada. A mobilização militar que precedeu o ataque russo reuniu um contingente de dezenas de milhares de soldados e veículos bélicos. O objetivo era chegar a Kiev o mais rápido possível, depor o governo democraticamente eleito e, mediante o domínio aéreo e territorial, impor um acordo que beneficiasse exclusivamente o intento expansionista de Moscou. Fica claro agora que se subestimou a capacidade de resistência dos ucranianos. Os avanços obtidos até aqui foram tímidos. A blitzkrieg de Vladimir Putin fracassou, e isso poderá determinar o rumo da guerra, que caminha para um resultado bastante diferente daquele que o ex-espião da KGB projetava.

Se Kiev tivesse caído em 36 horas, a Ucrânia como se conhece hoje já não existiria mais. O país se converteria num Estado fantoche, controlado por um lugar-tenente que respondesse às diretrizes da Rússia. Seria uma nova República de Vicky. Ou, para ficar com um exemplo mais próximo, uma nova Bielorrúsia. A neutralidade em relação à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) valeria como cassação permanente do direito à autoderminação da Ucrânia, que, assim como as demais nações do antigo bloco soviético, vem passando por incontestável processo de ocidentalização.

Sim, Putin ainda pode prevalecer pelas armas. Continua sendo o cenário mais provável. Mas o custo já o torna um derrotado. A demora em dominar um país com defesas frágeis e com menor aparato tecnológico evidenciou que o grande exército que ele controla tem deficiências e fragilidades. A cada dia de incursão no território estrangeiro vão se contabilizando prejuízos materiais e humanos. O fluxo de caixões sendo enviados de volta para a Rússia tende a aumentar a pressão interna contra política do governo. E, apesar de Putin e seus lacaios manterem a oposição permanentemente asfixiada, fica cada vez mais difícil estancar o descontentamento de parte de sua população, que já toma as ruas em manifestações contra a guerra.

A demora da Ucrânia em capitular ante a ação de uma superpotência nuclear acabou ajudando o Ocidente a encontrar um rumo. Antes vacilantes dos tipos de retaliações a que recorreriam, países como Estados Unidos, França, Alemanha e Grã-Bretanha, bem como demais integrantes da OTAN e da União Europeia, acabaram montando o maior conjunto de sanções econômicas da história moderna. Além do Banco Central Russo, os alvos envolvem a elite financeira e econômica da Rússia. Os barões bilionários que, junto com antigos operadores e dirigentes soviéticos, controlam o simulacro de democracia que se erigiu das ruínas do comunismo.

Só na última segunda-feira (28/02), o rublo desvalorizou 30%. A taxa de juros da Rússia precisou ser elevada de 9,5% para 20%. Tudo isso numa vã esperança de amortizar o impacto das restrições globais que tendem a destruir as fontes de financiamento do país. As sanções alcançaram tal dimensão que Putin chegou a colocar em alerta o seu sistema de mísseis balísticos, responsável por deslocar o arsenal nuclear. Tentou forçar uma escalada de conflito que, até o momento, não foi seguida pelas potências ocidentais.

Depois da incursão na Geórgia e da anexação da Criméia, o projeto expansionista do Kremlin voltou suas atenções para a Ucrânia. Mas dessa vez a resistência se mostrou vigorosa. Parece claro que para alcançar seu objetivo no país, Putin terá de usar um poder de fogo ainda maior. As consequências de tal ato, entretanto, tendem a ser profundas para a Rússia. No fim das contas, o tão sonhado novo império Czarista poderá se adonar de um monte de escombros e ficar com uma devastação social sem precedentes.


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