Da esquerda para a direita, os senadores petistas Humberto Costa, Fabiano Contarato, Jaques Wagner e Paulo Rocha.| Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado
Diante da invasão russa à Ucrânia, a bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) no Senado parece ter decidido que era hora de lembrar aos brasileiros sobre o triste passado diplomático que o Brasil produziu durante os 13 anos em que o Itamaraty esteve sob o comando da sigla. Em nota assinada pelo líder dos petistas na casa, o senador Paulo Rocha, os parlamentares exibem sua adesão à tese disseminada por Moscou, de que a agressão à soberania e ao povo ucraniano seria uma resposta à “política imperialista” dos Estados Unidos, que motivaria uma contínua expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em direção às fronteiras russas.
O documento afirma também: “tal conflito, frise-se, é basicamente um conflito entre os EUA e a Rússia. Os EUA não aceitam uma Rússia forte e uma China que tende a superá-los economicamente”. Ainda que em alguns trechos tente fazer um aceno ao eleitor mais consciente, que tem horror à guerra, os autores não foram capazes de evitar uma omissão que salta aos olhos. O texto é encerrado sem fazer nem uma menção sequer aos ucranianos mortos e feridos nos bombardeios, nem aos milhares de civis que se amontoam nas fronteiras, buscando fugir desesperadamente com suas famílias da destruição iminente das cidades onde moravam.
Pelo desenrolar dos fatos, pode-se deduzir que o documento foi fruto da espontaneidade dos senadores, uma manifestação automática do pensamento petista sobre geopolítica, já que pouco tempo após a publicação a nota desapareceu das redes sociais e do site da bancada, sendo substituída por outro texto, mais ameno, assinado dessa vez não por um senador, mas pela presidente do partido, a deputada federal Gleisi Hoffman. Não nos parece absurdo supor que, num ano eleitoral e com Lula liderando as pesquisas de intenção de voto, alguém os alertou que tal nível de sinceridade seria inoportuno.
Contudo, para o brasileiro não são necessárias novas amostras de simpatia com governos autoritários por parte do PT para sabermos com o que lidamos. A diplomacia praticada durante as gestões de Lula e Dilma, elaborada principalmente pelo ex-ministro Celso Amorim, em 2003, deixou manchas indeléveis em nossa reputação internacional. Ela foi centrada na aproximação do país com ditaduras que navegavam na contramão de toda a tradição brasileira de alinhamento com os valores expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos e no Direito Internacional Público. Incluiu episódios lamentáveis como votações contra o Estado de Israel na ONU; alianças com regimes árabes totalitários; apoio ao ditador hondurenho Manuel Zelaya; vista grossa para abusos cometidos por governos da Bolívia e da Venezuela, além de movimentos terroristas como as Farc; aproximações inexplicáveis com o regime dos aiatolás iranianos; proteção para terroristas como Cesare Battisti; e investimentos duvidosos na economia de ditaduras comunistas como Cuba e Angola. Tudo isso, não raro, a despeito de derrotas diplomáticas evidentes, como nas eleições de membros brasileiros para o Banco Interamericano de Desenvolvimento e para a Organização Mundial do Comércio.
A diplomacia praticada durante as gestões de Lula e Dilma, elaborada principalmente pelo ex-ministro Celso Amorim, em 2003, deixou manchas indeléveis em nossa reputação internacional
Esta Gazeta do Povo acredita que fazer concessões à narrativa oficial de Moscou é o caminho contrário àquele que garante manutenção da paz e respeito às legítimas soberanias nacionais. Como destacamos anteriormente, estamos diante de um retrocesso na relação entre as nações, retornando às agressões expansionistas que vigoraram até a Segunda Guerra Mundial, com evidente desprezo pelos esforços diplomáticos para solução de conflitos.
É difícil não ver como mero pretexto a alegação de que a eventual entrada da Ucrânia na Otan é objetivamente um risco à segurança nacional da Rússia, ao ponto de justificar como única alternativa plausível a invasão armada. Basta ter em vista a tensa relação entre os dois países, desde 2014, após a chamada “Revolução Laranja”, quando a população ucraniana rejeitou maciçamente as decisões de um presidente simpático ao Kremlin, acusado de corrupção. Seguindo sua vocação antidemocrática, desde aquele momento, Putin nunca aceitou o desejo majoritário do povo ucraniano de sair da órbita de Moscou. Muito além de uma suposta ameaça às suas fronteiras, é isso o que incomoda o presidente russo e o impulsiona em seu ânimo belicoso: a perda de influência cada vez mais evidente sobre um ex-membro da União Soviética, cada dia mais próximo do Ocidente. E não se trata de qualquer país, mas sim um dos maiores celeiros da Europa, com reservas estratégicas de urânio.
É importante lembrar também que o sentimento de nacionalidade ucraniano e o desejo de distância da Rússia, nutrido por boa parte da população, tem raízes em lembranças dolorosas dos tempos de ocupação soviética, como o massacre do Holodomor, quando 12 milhões de pessoas morreram de fome e doenças correlatas devido a decisões desastrosas do governo soviético, entre 1932 e 1933. Esse componente está presente na resistência desesperada da população à invasão ora em curso, lamentavelmente sem o devido apoio das potências ocidentais.
O Partido dos Trabalhadores (PT), que possui quadros orgânicos na diplomacia brasileira, sabe muito bem o que está envolvido nesse jogo. Na encruzilhada civilizacional em que o mundo se encontra, esse grupo político escolheu um lado e assumiu posição clara. Ao relativizar um ato de guerra que já resulta em centenas de vítimas, promovido por um governo marcado pela arbitrariedade, os petistas mostram novamente ao público a que tipo de ordem global se filiam. Não será um apressado esforço para ocultar essa essência, com notórias razões eleitoreiras, o que fará o cidadão esquecer a que tipo de papel o Brasil se prestou enquanto foi regido por homens que pensavam dessa forma.
Presidente Jair Bolsonaro foi criticado por presidenciáveis por sua postura neutra no conflito| Foto: EFE/Joedson Alves
A guerra entre Rússia e Ucrânia possibilitou a abertura de um palanque político no Brasil para opositores ao governo criticarem a política externa e o presidente Jair Bolsonaro (PL). Municiados pelo posicionamento de neutralidade diplomática do Itamaraty, pela viagem de Bolsonaro à Rússia e pela perspectiva de aumento da inflação com a guerra, opositores dão sinais de que vão incorporar os acontecimentos recentes no leste europeu para engrossar as críticas.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) citou o conflito para colocar em xeque a política externa de Bolsonaro. Pelas mídias sociais, disse que um presidente da República precisa “conversar” e ser um “maestro da orquestra chamada Brasil” para que o país possa “viver em harmonia”. “Se você tem um presidente que briga com todo mundo, ele serve para que? Até em coisas sérias ele mente, disse que tinha conseguido a paz ao viajar para a Rússia”, declarou. Em entrevista a uma rádio, sugeriu que Bolsonaro deveria ir à Ucrânia “resolver o problema lá”.
Pré-candidato à Presidência pelo PDT, o ex-governador cearense Ciro Gomes foi um dos que usou as redes sociais para criticar Bolsonaro. Disse que o Brasil precisa se preparar para os reflexos do conflito, “muito especialmente” por ter “um governo frágil, despreparado e perdido”. O pedetista citou que o barril de petróleo superou os US$ 100 e cravou que esse aumento vai “atingir em cheio” a economia brasileira. “Por termos uma política absurda de preços rigidamente atrelada ao mercado internacional”, disse.
O ex-juiz Sérgio Moro (Podemos) foi outro pré-candidato a questionar o presidente da República, embora também tenha citado o PT, que, no Senado, fez críticas aos Estados Unidos. “É muito preocupante o apoio de Bolsonaro e do PT ao governo Putin. Eles apoiam o lado errado. O lado do agressor e do autoritarismo. Este não é e nunca será o lado escolhido pelos brasileiros. Somos pela paz e pelo respeito à soberania da Ucrânia e de todos os países”, declarou.
Encontro de Bolsonaro e Putin foi alvo de críticas de presidenciáveis, a exemplo de Lula| VYACHESLAV PROKOFYEV/KREMLIN/SPUTNIK/POOL A pré-candidata do MDB, senadora Simone Tebet (MS), foi outra a usar as redes sociais para questionar o governo. “O Itamaraty precisa prestar assistência imediata aos brasileiros, garantir sua segurança e tirá-los da área de conflito. E o governo federal precisa deixar claro que nosso respeito é à soberania e aos princípios de não intervenção territorial e que estaremos lutando por uma solução de paz, através do diálogo e da diplomacia”, ponderou.
Como o governo encara as críticas da oposição sobre a neutralidade As críticas de opositores não surpreendem o governo, que calculou os impactos políticos que poderiam surgir desde a viagem de Bolsonaro à Rússia e permaneceu monitorando a escalada do conflito diplomático entre russos e ucranianos mesmo antes de a guerra eclodir. O discurso interno, contudo, não é de preocupação. A estratégia adotada é dar as respostas internas e manter as políticas planejadas em diferentes setores.
O governo está seguro de que a política externa adotada é correta e desdenha dos opositores. O Itamaraty tomou conhecimento, por meio de seus diplomatas em missão na Europa, de que na França, por exemplo, onde haverá eleições presidenciais em abril, todos os candidatos pregaram posições mais duras que as adotadas pelo presidente Emmanuel Macron. Alguns até sugeriram que o governo francês não adotasse apenas sanções, mas também se envolvesse militarmente.
“O que vemos no Brasil é o mesmo paralelo com a França. É fácil dizer o que pensa quando está fora do governo, outra é quando é governo e tem que tomar uma decisão”, sustenta um diplomata ao defender a posição adotada pelo governo. “Não sei se haveria espaço para irmos muito além disso, tomar um partido e seguir muito às vezes por aqueles impulsos da imprensa internacional. Os dois países são amigos do Brasil com quem temos relações de comércio”, complementa.
Interlocutores da chancelaria brasileira ponderam que, do ponto de vista da política externa, o Brasil não é um ator relevante no cenário do leste europeu e ponderam que o conflito está além da influência da diplomacia brasileira. “Somos um país relevante no contexto internacional, mas a repercussão na Europa oriental para nós já é bastante reduzida e, por outro lado, a nossa repercussão e capacidade de influenciar em um conflito dessa natureza é zero. Qualquer coisa que façamos em política exterior não terá qualquer repercussão em relação a essa situação”, diz um interlocutor do Itamaraty.
Na política exterior, insiste o interlocutor, é preciso medir a relação “custo-benefício”. “Podemos ter uma relação um pouco mais, digamos, definida, mas qual é o custo disso? Vamos nos indispor com esses atores e qual é o benefício que vamos obter disso? Praticamente nenhum. É preciso ter um olhar estratégico”, explica. “Agora, é claro que, na política interna, posições A ou B vão usar o cenário para tentar desgastar o governo. É sempre muito mais difícil ser governo, porque você tem responsabilidades pelo que diz”, acrescenta.
Itamaraty não deve adotar discurso crítico a Putin A possibilidade de o Brasil adotar sanções ou uma postura mais contundente contra a Rússia é afastada no Itamaraty, a despeito de pressões internas e externas. Representantes de embaixadas do G7, por exemplo, esperam que o Brasil condene as ações da Rússia na ONU. Um interlocutor diz que o governo não tem uma posição equidistante do conflito e tem condenado o uso da violência em fóruns internacionais, mas entende que uma postura mais contundente não será adotada.
“Temos posição definida de contrariedade à guerra e em favor do entendimento, sobretudo da discussão dos temas que enfrentam Ucrânia e a Rússia nos organismos multilaterais, nas Nações Unidas e no Conselho de Segurança. Estamos bem definidos em relação a isso. Agora, eu não vejo o Brasil fazendo declaração forte contra a Rússia. É inócuo, não temos como adotar sanções, mandar forças [militares], e, obviamente, não faria o menor sentido”, sustenta uma fonte do Ministério das Relações Exteriores.
No Palácio do Planalto, a repercussão quanto às críticas também não é diferente. “A campanha já começou, então, qualquer coisa vai ser motivo para tentar desgastar o presidente, mas isso não vai para frente”, analisa um interlocutor que não prevê impactos políticos ou eleitorais a Bolsonaro. “O que podemos ter de enfrentar é a inflação, que pode subir pressionado pelos combustíveis”, pondera o assessor.
Nas Forças Armadas, onde também há a avaliação de que o posicionamento do Itamaraty foi correto, a análise é de que o governo não sai impactado pelas críticas a Bolsonaro. “O povo está preocupado é com segurança, saúde, educação. Poderão vir a se preocupar se a economia piorar, mas o governo está atento a isso”, sustenta um oficial militar que não faz parte do governo Bolsonaro.
Como a política interna do governo vai reagir ao conflito na Ucrânia
Na noite de quinta-feira (24), o presidente da República se reuniu com o ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França, com o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, e outros auxiliares para “dimensionar” o conflito armado e discutir as estratégias possíveis de serem adotadas.
No campo das relações exteriores, o governo está focado em resgatar todos os brasileiros e sul-americanos em segurança. Interlocutores do Itamaraty sustentam que o governo vai fazer o possível, mas alertam que a missão não será simples.
Na tarde desta sexta-feira (25), a embaixada do Brasil em Kiev anunciou aos brasileiros que estão na capital ucraniana que há uma opção de sair de trem da cidade, a qual está sob ataque russo. O destino é Chernivtsi, no oeste do país, que fica nas proximidades da fronteira com a Romênia.
No campo econômico, o discurso no Ministério da Economia é de manter o foco nas políticas concentradas e trabalhar em termos de melhorar as condições do desenvolvimento da economia neste ano de eleição onde o empenho do ministro Paulo Guedes é de manter a política de austeridade fiscal e não arrombar os cofres por conta do período eleitoral, dizem interlocutores.
A leitura feita por alguns na equipe econômica é de que o conflito armado pode se arrefecer e mitigar os impactos à economia global. De toda a forma, a meta é adotar as políticas econômicas previstas para evitar maiores danos à atividade econômica brasileira. “Diante dos fatos, nós estamos concentrados no alívio e no impacto das contas de energia e dos combustíveis”, diz um interlocutor de Guedes, em referência às medidas estudadas para reduzir o preço de combustível e energia.
“Estamos concentrados para aliviar o impacto de tudo que é essencial na economia, melhorar a situação na indústria e reduzindo o imposto, a exemplo do IPI. E lançando o programa de crédito para micro e pequenas empresas, mantendo as diretrizes do Pronampe [Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte], do FGO [Fundo de Garantia de Operações] e do FGI [Fundo Garantidor de Investimentos]”, diz um assessor da equipe econômica.
O programa de crédito para as micro e pequenas empresas deve ser lançado após o carnaval e prevê uma injeção de R$ 100 bilhões à economia. Outra medida que deve ser anunciada após o feriado nacional é o anúncio da liberação de novos saques de R$ 1 mil do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
A equipe econômica está comprometida a monitorar a economia global, mas interlocutores ponderam que o governo vai se ater a encontrar soluções internas. “O restante não é nosso domínio, nesse caso [do conflito], não somos músicos, somos dançarinos. Nós temos que cuidar do nosso quintal e aguardar os efeitos dessas movimentações lá fora”, sustenta um assessor.
A perspectiva de aumento dos combustíveis em decorrência da alta do barril de petróleo, no entanto, não será um fator que levará o governo a defender uma alteração à política de preços dos combustíveis. “O que discutimos é incidência de carga tributária em cima de combustíveis, que é uma discussão antiga e está agravada agora. Não há espaço para querer fazer medidas artificiais. Toda a facilidade gera dificuldade no tempo, mexe agora para pagar a conta depois”, alerta um interlocutor.
Nas relações comerciais do agronegócio, o governo também está ciente dos eventuais impactos e se movimenta para evitar o encarecimento de produtos no mercado interno. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse na quinta-feira que a pasta monitora o conflito e tem procurado alternativas aos fertilizantes importados da Rússia, caso as importações sejam inviabilizadas.
O que dizem deputados da base e independentes sobre o conflito e seus impactos
A leitura feita por deputados da base governista e independentes em relação ao Planalto é mais comedida que a feita pelos presidenciáveis e opositores de Bolsonaro sobre a posição do governo acerca da guerra na Ucrânia. O presidente nacional em exercício do PP e presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Rússia, deputado federal Cláudio Cajado (BA), entende o posicionamento do Itamaraty.
“A política externa brasileira é essa. Ela tem como princípios a autodeterminação dos povos, a não intervenção sobre assuntos externos e tem sido ao longo dos anos a política adotada e a política reconhecida. Então, o Brasil há tempos demonstra uma certa neutralidade que não se confunde com a missão, e, diante disso, a nota do Itamaraty não poderia ter sido diferente. Me parece que o Itamaraty agiu segundo esse princípio e histórico do que reza nossa tradição”, diz.
Embora compreenda o posicionamento pragmático adotado pelo Itamaraty, Cajado defende, contudo, uma posição mais firme à investida russa sobre a Ucrânia. “Como presidente do grupo parlamentar, eu penso diferente, a Rússia excedeu os limites do que poderia ser aceitável ao partir para uma guerra que deixou clara a intenção dela desde o início. Entendo que ao menos opiniões pessoais poderiam ser expressadas de forma mais clara sobre o excesso que a Rússia praticou”, pondera.
Do ponto de vista da política interna, Cajado não identifica impactos político ou eleitorais a Bolsonaro. “Não sai fortalecido, nem enfraquecido, pelo menos até o momento não vejo relação de prejudicá-lo”, analisa. O presidente em exercício do PP também faz uma leitura sobre como Lula e outros presidenciáveis usaram o conflito para se posicionar. “Tentar politizar internamente é algo que até não caberia, até porque a população, nesse caso específico, não está muito preocupada com quem vai defender a posição de Putin ou não. O que ela quer saber é sobre o Auxílio Brasil e se haverá ajuda às pessoas que precisam e que estão vulneráveis nesse momento, se temos o controle da inflação e se os empregos estão voltando, como, de fato, estão”, avalia.
O deputado federal Evair de Melo (PP-ES), vice-líder do governo na Câmara, é outro a entender como correta a postura adotada pelo Itamaraty. “Realmente, o Brasil não tem que se meter nisso, o país precisa exportar, nós precisamos, inclusive, dos fertilizantes da Rússia. Temos que construir uma agenda olhando para o nosso próprio negócio”, defende.
Quanto aos impactos políticos que a guerra pode gerar ao Brasil, Melo entende que Bolsonaro e o governo não serão impactados. “Só ver as pesquisas [eleitorais], ele acertou nesta pauta [política externa]. Mostram que ele está em ascendência crescente fruto das decisões que têm tomado”, diz.
O deputado federal Sérgio Souza (MDB-PR), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), também entende como correta a abordagem do governo sobre o conflito e afasta qualquer especulação sobre o posicionamento estar atrelado a uma intenção do Itamaraty em preservar o agronegócio brasileiro, como foi aventado no governo.
“A gente não pode colocar isso nesta conta, não é por aí. É uma posição de diplomacia brasileira histórica. Lógico que o Brasil é um país dependente de fertilizantes do leste europeu, da Bielorússia, Ucrânia, da Rússia, que são grandes produtores de fertilizantes, tanto é que o presidente da República, com uma agenda recente, foi lá e reforçou a necessidade do Brasil para garantir que a gente tenha a garantia de produção do país”, destaca. O presidente da FPA entende como coerente a posição de neutralidade adotada e concorda que o governo não deve adotar uma postura mais firme e condenar os ataques russos. “Não tem por que entrarmos de cabeça em uma confusão que não é necessária agora”, diz Souza.
O deputado federal Hildo Rocha (MDB-MA), primeiro-vice-líder do partido e membro titular da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, concorda com a posição de neutralidade tomada pelo governo, mas defende que o Itamaraty deva ser mais firme na defesa de paz. Para ele, é necessário um pronunciamento mais incisivo do ministro Carlos França sobre a situação.
“É preciso um discurso mais contundente pela paz que reforce que o Brasil não vai aceitar a interferência de um país sobre o outro”, diz. Para ele, com dosagem no tom, é possível condenar os ataques e ainda manter uma postura neutra. “Cada país tem a sua autonomia e sua soberania, que não pode ser quebrada por outro país”, complementa.
Coordenador da comissão de relações internacionais da FPA, Rocha alerta para o risco que a guerra pode gerar ao Brasil em toda a cadeia produtiva e no agronegócio. “O preço do barril de petróleo subindo impacta o custo de produção da agropecuária, porque nós temos uma cultura muito mecanizada e dependente do óleo diesel”, diz. Outro fator que também pode encarecer os custos de produção é a previsão de alta do milho. “A guerra traz impactos a grandes produtores de milho, como a Croácia, e isso vai afetar, sem dúvida nenhuma, na produção de milho, que é base de alimentação dos animais”, adverte.
Que peso a política externa pode ganhar na corrida eleitoral
Embora os adversários eleitorais de Bolsonaro tenham colocado a política externa em seus discursos em virtude da guerra na Ucrânia, é improvável que esse tema ganhe os holofotes na corrida eleitoral. O analista político Ricardo Mendes, diretor da consultoria Prospectiva, prevê pressão de jornalistas e de parte da sociedade, mas avalia que não é um tema que vai polarizar e ter destaque no debate eleitoral.
“Ele acaba não ganhando a tração que algumas pessoas gostariam que tivesse no debate público, fora que isso não dá voto. É um tema que, sim, pode ser usado na ‘guerra eleitoral’, vão usar a viagem do Bolsonaro e falar sobre, mas a repercussão disso é muito pequena”, analisa Mendes. “O que importa mesmo é a segurança, saúde pública, economia e geração de emprego, que são as principais preocupações do eleitor, que vão figurar no topo da agenda eleitoral”, acrescenta.
O presidente nacional em exercício do PP, deputado Cláudio Cajado, concorda que a política externa tende a não ganhar os holofotes políticos ao longo da disputa presidencial. “Sempre haverá uma parte dos planos de governo focada na política externa, isso sempre é abordado, mas não creio que isso seja um tema que será absorvido na eleição de forma generalizado”, avalia.
O presidente em exercício do PP e do Grupo Parlamentar Brasil-Ucrânia também endossa a análise de que a agenda eleitoral será pautada pelas pautas tradicionais. “A política externa não vai se sobrepor em detrimento a pautas como segurança, educação, saúde, infraestrutura e a condução da economia, sobretudo. A política externa sempre será importante, abordada, debatida, mas não com essa amplitude sobre ser uma diretriz de o candidato melhorar ou piorar nas pesquisas”, pondera.
Campanha eleitoral de 2022 promete enxurrada de notícias falsas e boatos.| Foto: Divulgação/TRE-PR
Preparem-se, o ano eleitoral de 2022 vai ser cheio de emoções. Se já tivemos três anos com as preliminares que nos deixaram de cabelo em pé, imaginem o que vai ser esta final. Desde a surpreendente eleição do deputado do baixo-clero, está no ar a vontade de uma desforra pelo lado que perdeu, e a vontade de ser confirmado no quarto ano, pelo que ganhou.
Todas as tentativas de tapetão até agora foram vãs. Chegou a haver uma CPI claramente eleitoreira, mas o resultado foi desolador. O esforço da mídia adversária saiu pela culatra – ela acabou perdendo audiência e leitores e só fez repetir o nome do presidente milhares de vezes, marcando ainda mais o seu nome.
Neste ano de reta final para renovar ou não o seu mandato, o desespero tem sido mau conselheiro, porque acabaram consagrando o nome do presidente como centro de todas as discussões. Nem mesmo os que desejam derrotá-lo acreditam nas pesquisas, porque se acreditassem, estariam tranquilos com o resultado da eleição.
Na ausência de notícias ruins sobre o governo, até o tamanho de sapato do presidente virou destaque na cobertura internacional direto do Kremlin. O desespero bloqueou a percepção, e a ingenuidade deu margem à correção de piadas e memes. A checagem e o desmentido ficaram ainda mais divertidos que as montagens, como aconteceu na visita à Rússia.
O inusitado também aconteceu. Ministros da Suprema Corte, juízes do Tribunal Superior Eleitoral, desceram para a política eleitoral ao criticar um dos candidatos a presidente, deixando aflorar sua natureza de advogados. Como se sabe, a vocação do advogado é trabalhar a favor de alguém e contra alguém ou algo. Advogado é sempre parcial, a favor de seu cliente; já o juiz tem que ser sempre imparcial, ao lado da lei e da justiça.
Fiquei pensando se não se deveria alterar a composição do Supremo, para evitar essa novidade de ministros da Corte, advogados profissionais, se manifestarem como advogados. Que o tribunal fosse composto só por juízes de carreira, depois de passarem por todas as instâncias e então, no topo, no Superior Tribunal de Justiça, ser escolhido o mais brilhante, para ser submetido ao Senado como juiz supremo.
Estudantes de Direito certamente estranham, quando não se escandalizam, que juízes do Supremo emitam sem parar opiniões, suposições e pré-julgamentos, justo no ano em que terão que ser juízes de uma eleição. Isso também faz parte das emoções de 2022.
Enfim, preparemos nossos olhos e ouvidos para notícias falsas, sofismas, boatos, fofocas, suposições, insinuações, invenções – escritas, faladas, desenhadas, filmadas, fotografadas, editadas e até carimbadas como checadas e verdadeiras. Preparemo-nos para não comprar a verdade já embrulhada. Aceitar assim é como um ato de fé, mas isso é para as questões espirituais, não para decidir o futuro dos nossos filhos, nossos empregos, nossos empreendimentos, nosso país.
Desembrulhemos o que oferecem para nossos olhos e ouvidos, sem a emoção da fé, mas com o ceticismo da razão e submetamos as novidades ao nosso filtro, nosso escrutínio, porque este é um ano em que vai chover desinformação.
“O leão comerá palha como o boi. A criança de peito brincará sobre a toca da cobra, e a desmamada porá a mão na cova da víbora.” (Isaías 11.7-8)
A jurista de Harvard Mary Ann Glendon abre seu indispensável livro “A World Made New” (2002), sobre Eleanor Roosevelt e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, lembrando a história da invasão de Melos em 418 A.C. pelos Atenienses. Os habitantes de Melos tentaram inutilmente persuadir os agressores pela diplomacia, recebendo a exasperadora resposta de que “o direito vale apenas para aqueles iguais em poder”. Manda quem pode, e obedece quem tem juízo, em outras palavras.
Os atenienses assassinaram todos os homens adultos de Melos e escravizaram as mulheres e as crianças.
O abuso dos poderosos contra os fracos é uma regra na história, mas isso passou por uma grande mudança depois da Segunda Grande Guerra, com a criação da ONU e a DUDH de 1948. Cito as palavras da jurista:
“Séculos depois, em uma onda de atrocidades além da imaginação dos gregos, as mais poderosas nações da terra se ajoelharam diante das demandas de países menores pelo reconhecimento de um padrão comum a todos pelo qual os direitos e erros no comportamento de cada nação poderiam ser medidos. O terreno moral das relações internacionais foi para sempre alterado numa noite em Paris, em 10 de dezembro de 1948, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos sem nenhum mesmo um voto contrário.” (Mary Ann Glendon)
A Revolução Afetiva e a substituição do racional pelo emocional Como já foi tantas vezes destacado, a declaração de 1948 requalificou severamente o sistema de estado-nação soberano sacramentado na Paz de Westfália em 1648, 300 anos antes, e introduziu uma verdadeira novidade política no mundo, com estados nacionais se comprometendo a seguir uma lógica de regras moralmente fundamentadas, tanto na sua relação mútua quanto no trato da pessoa humana. Era como se de repente a possibilidade de existir em um mundo moralmente ordenado se tornasse possível.
Mas aqui estamos nós: 73 anos depois, Putin, após garantir que não invadiria a Ucrânia, atacou o país com o claro propósito de derrubar o governo e substituí-lo por um fantoche pró-Rússia. Alegou até mesmo que o atual regime ucraniano teria se nazificado – ao que o presidente Zelenskiy, que é judeu, retrucou: “como eu poderia ser nazista?”
Autocracia, mentiras, invasão militar, reticência das potencias ocidentais; como vários analistas notaram, a receita lembra Hitler em 1939. Não é que Putin seja mau como Hitler foi, mas o ex-membro da KGB segue a cartilha dos antepassados. Não é também que a OTAN seja uma virgem pura e incompreendida; poderia haver certa plausibilidade no argumento de expansão injustificada rumo às fronteiras russas. Mas os fatos das últimas horas berram em uníssono: autocratas tem mesmo que ser vigiados, e de perto.
Autocracia, mentiras, invasão militar, reticência das potencias ocidentais; como vários analistas notaram, a receita lembra Hitler em 1939
E assim voltamos aos anos 1930; ou a um estado de coisas similar, ao menos em alguns aspectos. Não apenas o sistema unipolar pós 1989 se desfez, como observou Oliver Stuenkel, mas a ideia de uma ordem moral e legal internacional sofreu um abalo histórico. Não foi demais a declaração do secretário geral da OTAN, Jens Stoltenberg, de que “será uma nova realidade, uma nova Europa, após a invasão”. Alguma coisa se quebrou de fato na ordem internacional. Na mesma toada, Os líderes do G7 emitiram uma declaração eloquente a esse respeito ontem (24/02) mencionando o problema explicitamente:
“Esta crise é uma séria ameaça à ordem internacional baseada em regras, com ramificações muito além da Europa. Não há justificativa para alterar fronteiras internacionalmente reconhecidas pela força. Isso mudou fundamentalmente a situação da segurança Euro-Atlântica. O Presidente Putin reintroduziu a guerra no continente Europeu. Ele se colocou do lado errado da história.”
Mas existe mesmo um “lugar certo da história”? Historicistas, se forem honestos, cederão esse assento aos vitoriosos, inevitavelmente. Os realistas políticos com ânimos niilistas também. Mas para os Cristãos existe algo maior que a história, naturalmente. Não é a própria história quem define qual seria o seu “lado certo”, o que seria uma pura e simples tautologia. O lado certo da história se define extra-historicamente.
A metafísica de armário do G7 nos ajuda a pôr em contexto a leitura cristã dessa crise internacional. Cristãos acreditam mesmo – sem esconder suas bases metafísicas – em ordens baseada em regras justas e compassivas. A expectativa de uma ordem social na qual a justiça e a misericórdia prevaleçam sobre o poder está no coração da Esperança Bíblica.
Não se trata, aqui, de nenhuma flutuação ingênua sobre uma boa vontade natural dos poderosos para respeitar e acolher os mais fracos, mas da crença de que o reino Messiânico colocará todos os poderes nos seus lugares. O livro do profeta Isaías anuncia que o Messias “julgará os pobres com justiça e defenderá os humildes da terra sem parcialidade; ferirá a terra com palavras de juízo e matará o ímpio com o seu sopro”; e, então, “o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito. O bezerro, o leão e o animal de engorda viverão juntos; e um menino pequeno os conduzirá… Naquele dia a raiz de Jessé será como uma bandeira aos povos, para onde as nações recorrerão; o seu descanso será glorioso.” (Isaías 11.4,5,10).
O que o trecho bíblico quer comunicar é a ideia hebraica de Shalom, que significa paz, segurança e justiça. Em tal situação a criança não precisa temer as feras. Trata-se de um texto apocalíptico, que não deve ser interpretado literalmente; o ponto não é imaginar o fim da agressividade animal, mas a submissão definitiva da força bruta à justiça moral. O reino messiânico será um tempo em que crianças não precisa temer adultos, mulheres não precisam temer homens, minorias étnicas não precisam temer maiorias nacionais, e países pequenos não precisam temer países grandes; Melos não precisaria temer Atenas, nem a Kiev temer Moscou.
Alguém poderia pensar que essa fala não passa de utopia piedosa, de um inexistente mundo herbívoro e sem dentes; mas quero insistir no meu ponto, pois os judeus e cristãos nunca foram ingênuos a esse respeito. Como indica o trecho de Isaías, é claro que a justiça será estabelecida por meio de um rei poderoso, levantado por Deus, e que “matará o ímpio”. Não há nenhuma clivagem entre poder e justiça aqui. A questão é a ordem das coisas: não é que o poder instaure a justiça por seu arbítrio, mas é governado pela justiça e a representa.
O Cristianismo nasce da crucificação de um homem desamparado pelos amigos e entregue nas mãos do poder absoluto do Império Romano. Os cristãos sabem o que é enfrentar o poder puro e amoral, que o livro de Apocalipse chama de “A Besta”, e ser esmagado por ele. A razão por que os cristãos seguem, assim mesmo, perseverando na esperança é que os selos romanos não foram capazes de prender o Jesus morto e sepultado. Deus tornou o poder imperial uma força inferior ao bem e à justiça.
Os cristãos sabem o que é enfrentar o poder puro e amoral, que o livro de Apocalipse chama de “A Besta”, e ser esmagado por ele
O leitor pode não crer na ressurreição de Cristo, mas os cristãos primitivos, que dela testemunharam em primeira mão, de algum modo perderam o medo da Besta. Perderam a fé no poder puro e na ultimidade de suas determinações. Descreram do poder e passaram a crer no amor. Morreram os inimigos de Cristo; morreu Nero; e a ideia de que amar e fazer justiça vale mais a pena que ganhar o jogo nunca mais deixou a face da terra. Milhões a desprezam; mas milhões vivem por ela.
Foi assim que se constituiu a tarefa cristã: não temos o poder do Messias, de introduzir essa nova ordem; mas em Esperança, devemos nos alimentar dela e viver por ela. E isso sinaliza o futuro divino no presente humano. Cristo disse a seus discípulos que eles deveriam ser o “sal da terra”. Nem progressistas utópicos, pretendendo um mundo perfeito, nem conservadores cínicos, mais comprometidos com a prudência do que com a justiça.
E isso nos leva à outra razão por que essa esperança não é utópica: é que, de fato, já vimos emergir historicamente uma ordem internacional que, com todas as suas imperfeições, iniciou uma jornada em direção a um mundo moral, no qual os pequenos não precisem temer os grandes. E uma das fontes dessa ordem foi visão cristã da pessoa e do poder, como, por exemplo, mostrou recentemente o historiador Tom Holland em seu livro Dominion.
Isso foi observado pela Dra Mary Ann Glendon e por muitos outros antes dela, como o filósofo e teólogo cristão Charles Habib Malik, primeiro Presidente da Comissão de Direitos Humanos da recém-fundada ONU e um dos compositores da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, o filósofo católico Jacques Maritain, que contribuiu decisivamente com sua visão elevada da pessoa humana, ou o advogado judeu René Cassin, seu organizador final.
É triste ver essa ordem entrar em colapso. Os Atenienses massacraram Melos. Hitler produziu o Holocausto. Mas diferentemente daqueles tempos, o Ocidente provou algo de uma ordem baseada na consciência, especialmente a partir de 1948. Nesse sentido, se a situação sair do controle na Europa, é possível que a nossa perda seja muito maior e mais dolorosa.
Mas não precisamos nos tornar cínicos. A história já nos ensinou que o poder com consciência moral não é só uma utopia. Pode ser algo difícil e instável, mas é algo possível; algo que se pode experimentar na história e por meio de nossas imperfeitas instituições, mesmo que a pedagogia para nos levar até lá seja o sofrimento da guerra.
Mas para os que compartilham da Esperança Cristã, que aprenderam a desacreditar do poder e a acreditar no bem, há razões ainda maiores para não desanimar e não entregar os pontos, na luta em defesa da pessoa humana e da justiça internacional. A ressurreição nos diz que os atos e sistemas perversos que os homens constroem finalmente se espatifarão no muro de pedra da lei moral universal, e que o poder político não terá a última palavra.
Existe um lado certo da história, e ele já está ocupado.
O presidente russo acusou falsamente o governo eleito democraticamente da Ucrânia de ‘genocídio’
Eugene Robinson, O Estado de S.Paulo
O brutal e trágico ataque de Vladimir Putin contra aUcrâniaexpressa mais que suas ilusões de grandeza. É também uma lição para o povo russo a respeito do que acontece com aqueles que insistem em buscar a democracia em estilo ocidental.
Putin realmente pareceu um doido esta semana, passando sermão em seu time de segurança nacional como um capitão Queeg em busca de seus morangos e dirigindo-se ao mundo num digressivo solilóquio de uma hora repleto de invenções históricas e autocomiseração paranóica. Ele acusou falsamente e absurdamente o governo eleito democraticamente da Ucrânia de “genocídio”, usando essa falácia como justificativa para o maior ataque militar na Europa desde a Segunda Guerra.
Da perspectiva distorcida de Putin, o ataque não ocorreu sem provocação. Duas vezes desde a virada deste século, o povo ucraniano teve a ousadia de se levantar contra e depor lideranças que desejaram a Ucrânia pós-soviética como vassala permanente da Rússia de Putin. A última coisa que Putin quer é que os russos percebam que tal heresia — que poderia ameaçar seu próprio poder — possa passar impune.
Presidente Vladimir Putin concede entrevista coletiva no Kremlin, em 22 de fevereiro Foto: Mikhail Klimentyev, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
Então, Putin tem motivos tanto racionais quanto irracionais para o abominável crime que está cometendo. No curto prazo, é quase certo que ele “vença” sua guerra. No longo prazo, porém, sua aventura na Ucrânia poderá se provar nem “inteligente” nem “astuta”, apesar do que possa pensar o ex-presidente Donald Trump.
Acredito que Putin quer que as futuras gerações o vejam como uma das grandes figuras da história russa, juntamente com Ivan, o Terrível; Pedro, o Grande; Catarina, a Grande; Lênin; e Stálin. Até 2005, ele afirmava que “o fim da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século”. Ele descreveu como tragédia o fato de “dezenas de milhões de nossos cidadãos e compatriotas terem se visto excluídos além dos limites do território russo”.
Segundo tudo indica, o líder russo quer ser lembrado como Putin, o Grande, o que reverteu a “catástrofe” e restaurou o Império Russo — primeiramente czarista, depois soviético e depois desmembrado — à glória que lhe é de direito. E na visão de Putin, a joia mais preciosa, arrancada injustamente da coroa imperial, é a Ucrânia.
Sanções econômicas, como as que estão sendo aplicadas pelos Estados Unidos e nossos aliados, são eficazes para fazer líderes recalcularem custos e benefícios de suas ações. Mas podem surtir pouco ou nenhum efeito sobre fantasias messiânicas ou cruzadas megalomaníacas.
O fato de haver método na loucura de Putin pode tornar as sanções ainda menos capazes de mudar seu comportamento, especialmente porque ele buscou fortalecer a economia russa contra tais punições. Uma ameaça à posição do líder russo em relação à história é uma coisa; uma ameaça à sua contínua permanência no poder é coisa bem diferente.
Em 2004, milhões de ucranianos tomaram as russas no levante que ficou conhecido como Revolução Laranja e evitaram a presidência de Viktor Yanukovich, o candidato apoiado pela Rússia eleito numa votação repleta de fraudes. Yanukovich tornou-se presidente posteriormente em 2010, mas acabou deposto do cargo por protestos massivos, em 2014, em razão de sua recusa em assinar um acordo que forjava laços políticos e econômicos mais próximos com a União Europeia.
Essas demonstrações do poder popular impressionaram Putin — e não de maneira positiva. Ele assumiu a posição de que a Revolução da Dignidade em 2014 na Ucrânia não passou de um golpe ilegal. Como sinal concreto de seu descontentamento, ele tomou a Crimeia à força e ajudou separatistas russófonos a estabelecer dois enclaves — Donetsk e Luhansk — no leste da Ucrânia, que na segunda-feira ele reconheceu como repúblicas independentes.
A bizarra e falsa alegação de Putin de que o governo do presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, está repleto de “nazistas” parece uma justificativa inventada para enviar tropas a Kiev, onde ele sem dúvida tenciona dissolver o governo eleito democraticamente e instaurar autoridades leais à Mãe Rússia. Imagens transmitidas pela CNN na manhã da quinta-feira mostraram um aeroporto militar a 32 quilômetros de Kiev já tomado pelos russos.
Mas meios de comunicação internacionais também transmitiram imagens de manifestantes em Moscou e outras cidades russas sendo presos e repelidos. Ver soldados russos travando guerra contra ucranianos, com quem os russos possuem laços históricos e com frequência familiares, é um tipo de choque que tende a levantar dúvidas entre os russos a respeito do juízo de Putin. E, talvez, sobre seu futuro.
Em vez de confundir e enfraquecer a Otan, Putin parece ter unido seus membros. Em vez de apagar a noção do estatuto nacional da Ucrânia independente, ele parece tê-lo reforçado.
E ainda que cerca de 200 mil soldados equipados com armamentos modernos possam ser suficientes para derrotar o Exército ucraniano, não são suficientes para conquistar permanentemente um país com mais de 43 milhões de pessoas que não querem ser objeto de uma ocupação. Putin não fez uma jogada corajosa de xadrez, ele virou o tabuleiro. E não pode estar certo de onde as peças irão cair. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
*Eugene Robinson escreve uma coluna bissemanal sobre política e cultura e participa de um chat semanal com leitores. Em três décadas de carreira no Washington Post, Robinson cobriu o governo municipal como repórter, foi editor de cidades, correspondente estrangeiro em Buenos Aires e Londres, editor de internacional e secretário-assistente de redação encarregado da seção Style do jornal.
A indústria de tecnologia ganha cada vez mais dinheiro com ideias que surgiram há mais de uma década, e novidades, como computação quântica e carros autônomos, podem demorar a se tornar realidade
Por Cade Metz – The New York Times
Computador quântico do Google apresentado em 2019
No outono de 2019, o Google disse ao mundo que tinha alcançado “supremacia quântica”. Foi um marco científico importante que alguns compararam com o primeiro voo controlado na cidade de Kitty Hawk. Aproveitando os misteriosos poderes da mecânica quântica, o Google construiu um computador que precisou de apenas três minutos e 20 segundos para realizar um cálculo que computadores normais não conseguiriam concluir em 10 mil anos.
No entanto, mais de dois anos após o anúncio do Google, o mundo ainda está à espera de um computador quântico que faça algo útil de verdade. E é provável que seja preciso esperar muito mais tempo. O mundo também está aguardando os carros autônomos, carros voadores, a inteligência artificial avançada e os implantes cerebrais que permitirão controlar dispositivos usando nada além de seus pensamentos.
As empresas do Vale do Silício gostam de fazer alarde e há muito são acusadas de causar agitação antes de algo se tornar realidade. Mas, nos últimos anos, os críticos da indústria de tecnologia notaram que suas maiores promessas – as ideias que realmente poderiam mudar o mundo – parecem cada vez mais distantes de se tornarem realidade. A grande fortuna gerada pelo setor nos últimos anos costuma ser fruto de ideias que surgiram há alguns anos, como o iPhone e os aplicativos para celulares.
Os grandes pensadores da tecnologia perderam seus superpoderes de encantar as pessoas?
Eles são rápidos em responder que “de jeito nenhum”. Mas os projetos com os quais estão trabalhando são muito mais difíceis do que desenvolver um novo aplicativo ou prejudicar outras empresas com irregularidades. E se você olhar em volta, as ferramentas que lhe ajudaram a lidar com quase dois anos de pandemia – os computadores pessoais, os serviços de videoconferência, o Wi-Fi e até mesmo a tecnologia que auxiliou os pesquisadores no desenvolvimento de vacinas – provam que a indústria não perdeu mesmo seu encanto.
“Imagine o impacto econômico causado pela pandemia se não houvesse a infraestrutura – o hardware e o software – que permitiu tantos funcionários de escritório trabalharem de casa e que tantas outras partes da economia fossem conduzidas por meios digitais”, disse Margaret O’Mara, professora da Universidade de Washington especializada na história do Vale do Silício.
Quanto à próxima grande novidade, os criadores dizem para darmos tempo ao tempo. Pense na computação quântica, por exemplo. Jake Taylor, que supervisionou as iniciativas de computação quântica para a Casa Branca e é o atual diretor de ciências na startup de tecnologia quântica Riverdale, disse que construir um computador quântico talvez seja a tarefa mais difícil já realizada. Esta é uma máquina que desafia a física da vida cotidiana.
Um computador quântico depende das maneiras estranhas como alguns objetos se comportam no nível subatômico ou quando expostos ao frio extremo, como metal resfriado a quase 460 graus abaixo de zero. Se os cientistas apenas tentarem ler as informações desses sistemas quânticos, eles tendem a parar de funcionar.
Segundo Taylor, enquanto se constrói um computador quântico, “você está constantemente trabalhando contra a tendência fundamental da natureza”.
Os avanços tecnológicos mais importantes das últimas décadas – o microchip, a internet, o computador que recebe instruções do mouse, o smartphone – não desafiavam a física. E eles tiveram permissão para serem desenvolvidos durante anos, até mesmo décadas, dentro das agências governamentais e dos laboratórios de pesquisa das empresas antes de finalmente serem usados em massa.
“A era da computação móvel e em nuvem criou muitas novas oportunidades de negócios”, disse Margaret. “Mas atualmente há problemas mais complicados.”
Mesmo assim, as vozes mais influentes do Vale do Silício costumam discutir a respeito desses problemas mais complicados como se eles fossem apenas mais um aplicativo de smartphone. Isso pode aumentar as expectativas.
Pessoas que não são especialistas a par dos desafios “podem ter sido enganadas pela propaganda exagerada”, disse Raquel Urtasun, professora da Universidade de Toronto que ajudou a supervisionar o desenvolvimento de carros autônomos no Uber e agora é CEO da empresa de veículos autônomos Waabi.
Tecnologias como carros autônomos e inteligência artificial não enfrentam os mesmos obstáculos físicos que a computação quântica. Mas, assim como os pesquisadores ainda não sabem como construir um computador quântico viável, eles ainda não sabem como criar um carro que possa dirigir sozinho com segurança em qualquer situação ou uma máquina que possa fazer qualquer coisa que o cérebro humano possa fazer.
Mesmo uma tecnologia como a realidade aumentada – óculos que podem sobrepor imagens digitais ao que você visualiza no mundo real – precisará de anos de pesquisa e engenharia adicionais antes de ser aperfeiçoada.
Andrew Bosworth, vice-presidente da Meta, holding do Facebook, disse que desenvolver tais óculos com menor peso era uma tarefa semelhante à criação dos primeiros computadores pessoais controlados por mouse na década de 1970 (o próprio mouse foi inventado em 1964).
Empresas como a Meta devem criar uma maneira completamente nova de usar computadores, antes de colocar todas as suas peças em um pacote minúsculo.
Nas últimas duas décadas, empresas como o Facebook desenvolveram e implantaram novas tecnologias em uma velocidade que não parecia ser possível antes. Mas, como disse Bosworth, essas eram predominantemente tecnologias de software construídas apenas com “bits” – pedaços de informação digital.
Construir novos tipos de hardware – trabalhando com átomos físicos – é uma tarefa muito mais difícil. “Como indústria, nós quase esquecemos como é isso”, disse Bosworth, chamando a criação de óculos de realidade aumentada de um projeto “único na vida”.
Especialistas em tecnologia como Bosworth acreditam que superarão esses obstáculos em algum momento e estão mais abertos em relação à dificuldade disso tudo. Mas nem sempre é assim. E quando uma indústria passou a gradualmente fazer parte de tudo na nossa vida cotidiana, pode ser difícil separar um passo em direção ao desenvolvimento de uma tecnologia da realidade – sobretudo quando grandes empresas como o Google e personalidades conhecidas como Elon Musk ficam chamando atenção para isso.
Muitos no Vale do Silício acreditam que fazer esse alarde é uma parte importante de levar as tecnologias para o público em geral. A divulgação exagerada ajuda a atrair o dinheiro, o talento e a crença necessários para desenvolver a tecnologia.
“Se o resultado é o almejado – além de tecnicamente possível –, então tudo bem se estivermos atrasados em três ou cinco anos ou o tanto que for”, disse Aaron Levie, CEO da empresa Box, empresa do Vale do Silício. “Você quer que os empreendedores sejam otimistas – que tenham um pouco daquela distorção da realidade de Steve Jobs”, que ajudou a convencer as pessoas a comprarem suas grandes ideias.
A propaganda exagerada também é uma forma de os empreendedores gerarem interesse no público. Mesmo que novas tecnologias possam ser desenvolvidas, não há garantias de que as pessoas e as empresas irão querê-las, adotá-las e pagar por elas. Eles precisam convencê-las. E talvez de mais paciência do que a maioria das pessoas dentro e fora da indústria de tecnologia admitirá.
“Quando ouvimos falar de uma nova tecnologia, leva menos de 10 minutos para nossos cérebros imaginarem o que ela pode fazer. Nós instantaneamente compactamos toda a infraestrutura e inovação reunidas e necessárias para chegar a aquele resultado”, disse Levie. “É com essa dissonância cognitiva que estamos lidando.”