sábado, 26 de fevereiro de 2022

METAVERSO UTOPIA FUTURISTA QUE BUSCA UNIR OS MUNDOS REAL E VIRTUAL

 

Guias InfoMoney

Após o Facebook mudar o nome para “Meta” em 2021, muitas empresas passaram a investir e querer saber mais sobre o assunto

O metaverso, utopia futurista que busca unir os mundos real e virtual, saiu das páginas dos livros de ficção científica e foi parar nas mesas dos investidores e das grandes empresas. O potencial que cerca essa ideia é tão grande que fez até o Facebook trocar seu nome para “Meta”.

Neste guia, o InfoMoney explica o que é o metaverso, quando ele surgiu e por que os grandes conglomerados querem surfar nessa onda. Revela também como investir nesse novo mercado e qual a relação desse universo com as criptomoedas.

• O que é metaverso

• Quando surgiu o metaverso

• Empresas que apostam no metaverso

• Tecnologias envolvidas

• Relação com o mercado de criptos

• Como investir no metaverso

• Criptomoedas do metaverso

• Críticas ao metaverso

O que é metaverso

Metaverso é uma espécie de nova camada da realidade que integra os mundos real e virtual. Na prática, é um ambiente virtual imersivo construído por meio de diversas tecnologias, como Realidade Virtual, Realidade Aumentada e hologramas.

Para visualizar o conceito, pense no filme Matrix, dirigido por Lilly e Lana Wachowski. No longa, as pessoas vivem em uma realidade virtual arquitetada por uma inteligência artificial assassina que usa seus corpos para produzir energia. O metaverso é mais ou menos por aí, mas sem as máquinas vilãs – pelo menos por ora.

Nesse universo, que ainda não é real em sua totalidade, as pessoas poderiam interagir umas com as outras, trabalhar, estudar e ter uma vida social por meio de seus avatares (bonecos virtuais customizados) 3D. Ou seja, o objetivo é que pessoas não sejam apenas observadores do virtual, mas façam parte dele.

Entusiastas veem no metaverso a evolução da internet. Outros enxergam nele um risco para a privacidade, e uma “droga” viciante. A implantação dessa utopia, no entanto, ainda depende do amadurecimento de algumas tecnologias, como o próprio 5G.

Como (e quando) surgiu o metaverso

Apesar de ter virado pop recentemente, o termo metaverso é antigo. Ele foi cunhado pelo escritor Neal Stephenson em seu livro de ficção científica “Snow Crash”, publicado em 1992. A obra conta a história de “Hiro Protagonist”, personagem que na “vida real” é um entregador de pizza, mas no mundo virtual – chamado na história de metaverso – é um samurai.

Em 2011, o escritor Ernest Cline também tratou do tema em seu romance futurista “Ready Player One” (Jogador Número 1 no Brasil)”, que em 2018 ganhou as telas do cinema pelas mãos de Steven Spielberg. Na obra, os personagens vivem em um mundo distópico e, para fugir da realidade, costumam passar horas e horas no OASIS, um simulador virtual que dá a eles a possibilidade de serem o que bem entenderem.

Primeiras tentativas de metaverso

Alguns projetos tentaram criar algo semelhante a um metaverso. Um dos principais exemplos é o jogo Second Life, lançado em 2003 pela empresa Liden Lab, baseada nos Estados Unidos. O game é um ambiente virtual 3D que simula a vida real. Ao entrar, os usuários podem criar avatares e socializar uns com os outros.

O jogo atraiu milhares de gamers, mas não conseguiu unir completamente os mundos real e virtual. Um dos motivos é que o projeto não foi capaz de criar uma economia digital, na qual as pessoas pudessem ganhar dinheiro ou mesmo ter uma propriedade virtual, algo que hoje em dia é possível.

Games como Roblox, Fortnite e Minecraft também bebem do conceito do metaverso, e apresentam alguns elementos desse novo universo. Nesses jogos, as pessoas têm seus próprios personagens, participam de missões, se relacionam uns com os outros e vão a eventos. A cantora norte-americana Ariana Grande fez um show dentro do Fortnite, por exemplo.

Vale lembrar, no entanto, que a proposta do metaverso vai além dos jogos online. A ideia é que todos os aspectos da “vida real” da pessoa – lazer, trabalho, relacionamentos, estudo e outros – sejam permeados de forma imersiva pelo digital, e vice-versa.

Mudança do nome do Facebook Inc para Meta

No meio do burburinho ao redor do termo, o Facebook Inc. anunciou em outubro de 2021 que a organização passaria a se chamar Meta (as redes sociais continuam com o mesmo nome). No anúncio, o fundador e presidente da companhia, Mark Zuckerberg, disse que a mudança se deve ao novo posicionamento do grupo:

“Hoje somos vistos como uma empresa de mídia social, mas em nosso DNA somos uma empresa que constrói tecnologia para conectar pessoas, e o metaverso é a próxima fronteira, assim como a rede social foi quando começamos”.

Em carta divulgada ao público, Zuckerberg detalhou o mundo virtual que a empresa, que está na mira da autoridade antitruste nos Estados Unidos, espera construir:

“No metaverso, você será capaz de fazer quase tudo que você possa imaginar – reunir-se com amigos e família, trabalhar, aprender, brincar, fazer compras, criar – bem como ter experiências completamente novas que realmente não se encaixam em como pensamos sobre computadores ou telefones hoje”.

O “namoro” do Facebook pelo metaverso é antigo, e o interesse comercial não é novidade. Em 2014, o grupo comprou a Oculus, empresa que fabrica headsets de realidade virtual. São equipamentos necessários para acessar essa nova realidade ainda em construção.

Em agosto de 2021, a empresa também lançou o Horizon Workrooms, uma ferramenta que dá aos usuários a possibilidade de criarem avatares e participarem de reuniões virtuais. Vale lembrar, também, que o Facebook trabalha no desenvolvimento da Diem (antiga Libra), sua própria criptomoeda – outra tecnologia necessária para o metaverso.

Empresas que apostam no metaverso

Não é só o Facebook que entrou de cabeça nessa nova onda. A Nvidia, por exemplo, anunciou em agosto o NVIDIA Omniverse, uma plataforma colaborativa de simulação. Nela, designers, artistas e outros profissionais podem trabalhar juntos na construção de metaversos.

Já a Microsoft colocou no mercado, no início de 2021, o Mesh, uma plataforma que permite a realização de reuniões com hologramas. Também criou avatares 3D para o Teams, sua ferramenta de comunicação.

Em novembro, em um aceno à utopia, a Nike criou a Nikeland, uma plataforma dentro do game Roblox. Já em dezembro, a multinacional americana adquiriu uma startup especializada em NFTs de moda.

E não são apenas empresas estrangeiras que apostam nesse mercado. O Banco do Brasil também entrou na “brincadeira”, e lançou no final de 2021 uma experiência virtual dentro do servidor do game GTA. No jogo, o gamer pode abrir na instituição bancária uma conta para seu personagem – é possível até trabalhar como abastecedor de caixa.

Metaverso é oportunidade de vários trilhões, diz CEO da Epic Games

Futuro da internet

Muitos entusiastas enxergam no metaverso um componente-chave da web 3.0. Esse termo é usado para se referir a uma internet mais imersiva, descentralizada e aberta.

No momento, pode-se dizer que o mundo está na web 2.0, cuja principal característica é ser um ambiente de iteração mediado por redes sociais.

Já a web 1.0, que ocorreu entre 1999 e 2004, é aquela “primitiva”, marcada por páginas estáticas. Foi por meio dela que as pessoas passaram a ter contato com o ambiente online.

O mercado bilionário do metaverso

A Bloomberg Intelligence estima que esse mercado deve chegar a US$ 800 bilhões (R$ 4,5 trilhões) em 2024, puxado principalmente pelos games de metaverso e por eventos realizados nessa nova camada de realidade.

A gestora Grayscale é um pouco mais otimista na previsão, e diz que o metaverso é um mercado com potencial para gerar US$ 1 trilhão (R$ 5,5 trilhões) em receita anual.

“O metaverso é um universo digital que vai além da internet que conhecemos hoje. Essa visão para o estado futuro da web tem o potencial de transformar nossas interações sociais, negociações comerciais e a economia da Internet em geral”, citou a empresa em relatório divulgado em novembro de 2021. 

Quais tecnologias estão envolvidas

Para dar vida ao metaverso, uma série de tecnologias precisam ser empregadas.

Realidade Virtual

A “VR”, sigla em inglês para Realidade Virtual, se refere a um ambiente tridimensional construído por meio de softwares. Para ter acesso a essa simulação da realidade, os usuários precisam de computadores, óculos de realidade virtual, fones de ouvido e outros equipamentos. Há consoles e games que usam essa tecnologia.

Realidade Aumentada

Diferente da VR, que leva o usuário para dentro do mundo virtual, a AR (sigla em inglês para Realidade Aumentada) faz o oposto, e insere dados virtuais no mundo real. Há vários games para smartphones que usam a tecnologia, como o Pokémon Go. Há também óculos de AR que mostram em suas lentes informações sobre o ambiente.

Blockchain e criptos

A blockchain (banco de dados público e descentralizado), as criptomoedas e os NFTs (sigla em inglês para tokens não fungíveis) também dão suporte para o metaverso. Por meio delas, é possível movimentar valores e realizar o registro de propriedades virtuais.

Qual a relação do metaverso com o mercado de criptos

A ideia é que o metaverso tenha uma economia virtual própria, e que as pessoas possam trabalhar, adquirir casas, comprar roupas, ir a festas, fazer reuniões e ter de fato uma vida online. A blockchain e as tecnologias que “rodam” nela – criptos, NFTs e outros – são essenciais para essa nova realidade.

A blockchain, por exemplo, pode ser a base da economia do metaverso. Essa tecnologia, que nasceu com o Bitcoin (BTC) no final de 2008, permite a criação de registros imutáveis sem a necessidade de uma terceira parte, e é uma ferramenta e tanto para governança. 

Já as criptomoedas seriam os meios de troca dessas plataformas. Há inclusive alguns projetos em andamento que utilizam cripto, como os games Decentraland (MANA), Sandbox (SAND) e Axie Infinity (AXS).

Os NFTs, por fim, servem para registrar e negociar propriedades e itens virtuais. Os tokens não fungíveis são certificados digitais que qualquer um pode ver e confirmar a autenticidade, mas ninguém pode alterar.

A economia cripto do metaverso

Já existe uma economia do metaverso construída em blockchain, com produtos e serviços. Veja alguns dos exemplos citados em relatório da Grayscale.

Música – Cantores e DJ’s já estão realizando eventos em ambientes digitais, e recebendo por isso. O show feito pela cantora Ariana Grande é um exemplo.

Publicidade – Proprietários de imóveis construíram outdoors, e passaram a vender esses espaços para jogadores que querem fazer algum tipo de anúncio.

Cassino – Existem cassinos em plataformas de metaverso, onde os gamers podem apostar em jogos de azar e levar – ou perder – algumas criptomoedas.

Arte – Artistas virtuais também comercializam suas obras de arte registradas em NFTs nesses ambientes digitais. Casas físicas de renome, como Sotheby’s, se renderam a esse tipo de negócio.

Como investir no Metaverso

Há diversas formas de investir no metaverso.

Criptomoedas – Uma das maneiras de participar dessa utopia futurista é comprando as criptomoedas associadas a ela. Decentreland (MANA), Sandbox (SAND) e Enjin Coin (ENJ) são algumas delas. Essas moedas digitais podem ser adquiridas por meio de exchanges. Geralmente há taxas de saques e transferências.

Fundos de investimentos – É possível também aplicar em fundos voltados ao metaverso. Em dezembro de 2021, a gestora brasileira Vitreo lançou o produto “Vitreo Metaverso”, que investe apenas em ações ligadas ao setor. O aporte mínimo é R$ 1.000. A empresa cobra 0,9% ao ano de taxa de administração e 10% de taxa de performance sobre o que exceder o índice S&P500 Total Return.

Terrenos virtuais – Outra forma de investir é adquirir terras virtuais no metaverso em plataformas e vendê-las no futuro. Em novembro, um terreno virtual de 566 metros quadrados de um game do metaverso foi vendido por US$ 2,4 milhões em criptomoedas.

Quais são as criptomoedas impulsionadas pelo metaverso

Há diversas criptomoedas associadas à utopia. Algumas delas são as seguintes:

Descentraland (MANA)

É um ambiente virtual construído na blockchain do Ethereum (ETH). A MANA é a criptomoeda nativa da plataforma. O projeto tem atraído marcas e empresários interessados em criar negócios digitais. É um dos principais representantes do metaverso.

Enjin Coin (ENJ)

Essa plataforma disponibiliza ferramentas para criação de produtos em blockchain e NFTs sem taxas. O ENJ é seu token nativo. Em 2021, o projeto criou um fundo de US$ 100 milhões para apoiar iniciativas do metaverso, como jogos que mesclam as realidades física e virtual.

Sandbox (SAND)

Nasceu como um rival do Minecraft, mas depois passou por uma reformulação e mergulhou no universo da blockchain e das criptomoedas. É um ambiente virtual onde as pessoas podem jogar, construir casas e ter uma vida virtual.

Gala (GALA)

É um ecossistema de jogos play-to-earn (jogue para ganhar) para blockchains. O GALA é seu token nativo. O primeiro título lançado pela plataforma foi o Town Star, um simulador de ambiente rural. Outros games são Echoes of Empire, Mirandus, Spider Tanks e Fortified.

Axie Infinity (AXS)

É um jogo em blockchain que ajudou a popularizar o conceito de play-to-earn. Funciona de forma semelhante ao Pokémon. Os players criam personagens e batalham com monstros ou outros jogadores. O AXS é o token de governança do jogo, e dá para os detentores poderes de decisão dentro do ecossistema.

MyNeighborAlice (ALICE)

É um game em blockchain em que os jogadores podem construir ilhas virtuais, bem como coletar e construir itens. O ALICE é seu token nativo. Com o ativo, os usuários podem comprar objetos virtuais do ecossistema, fazer staking (emprestar as criptomoedas para a rede em troca de lucro) ou participar de decisões do jogo.

Críticas ao metaverso

Um futuro meio real e meio virtual não agrada a todo mundo. Centralização, privacidade e vício são alguns dos receios levantados por especialistas.

Centralização – O conceito do metaverso ainda está em construção, mas a ideia por trás da utopia, em especial aquela defendida por entusiastas do mercado de criptomoeda, é que ele seja descentralizado e aberto a todos. No entanto, a entrada de empresas como Facebook e Microsoft na jogada sugerem que as big techs vão fazer de tudo para controlar de alguma forma parte desse mercado.

Privacidade – Por causa da possível centralização do metaverso, a questão da privacidade também veio à tona. Se empresas como Facebook, Google e outras já detêm um mundaréu de dados dos usuários de seus produtos e serviços, imagine quando as pessoas passarem a viver 24 horas por dia conectadas.

Vício – Outro ponto que tem gerado críticas é o fato de o metaverso ser um tipo de tecnologia que vicia e faz as pessoas se desconectarem da realidade. No filme Jogador Nº1, o personagem James Donovan Halliday (Mark Rylance), criador do metaverso OASIS, disse no final do longa que se deu conta que criou uma realidade virtual porque tinha medo de se relacionar com as pessoas:

“Eu criei o OASIS porque nunca me senti à vontade no mundo real. Eu não sabia como me conectar às pessoas lá. Eu tive medo durante toda minha vida. Até o dia que soube que ela (vida) estava no fim. Foi quando eu dei conta de que por mais aterrorizante e dolorosa que a vida possa ser, é também o único lugar para se fazer uma refeição decente”.

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

O ELEVADO GASTO COM O CONGRESSO E O STF PARA A PRESERVAÇÃO DA DEMOCRACIA

 

O blog que fiscaliza o gasto público e vigia o poder em Brasília

Por
Lúcio Vaz

Foto externa do Congresso Nacional. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Prédio do Congresso Nacional (ao fundo) visto a partir da sede do Supremo Tribunal Federal. PEC da Bengala 2.0 eleva a idade máxima para ingresso no STJ e STF| Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Cada um dos 513 deputados federais custa R$ 11,3 milhões por ano, considerando o orçamento executado pela Câmara em 2021. Pode parecer muito, mas a despesa é ainda mais pesada no Senado Federal – 54 milhões por senador. No Supremo Tribunal Federal (STF), cada ministro custa R$ 60 milhões por ano ao contribuinte. Os valores incluem salários e aposentadorias de servidores, benefícios sociais, medidas de segurança, viagens, atividades legislativas e jurisdicionais e as mordomias de sempre.

O que mais pesa no orçamento das três casas é a despesa com pessoal. No STF, com orçamento de R$ 668 milhões, esse gasto representa 74% do total. Com orçamento de R$ 4,4 bilhões, o Senado gasta R$ 84% com servidores. Na Câmara, que consome R$ 5,8 bilhões por ano, a despesa com pessoal bate em 84,5%. Mas tem uma notícia boa: o orçamento das três casas caiu nos últimos 10 anos, em valores atualizados pela inflação. Em 2013, a Câmara gastou R$ 7,4 bilhões; o Senado, R$ 5,6 bilhões; e o Supremo, R$ 787 milhões.

Mas o STF é uma parte pequena da Justiça, apesar de ser a mais visível e polêmica. O ramo da Justiça mais dispendioso é Justiça dos Estados, com R$ 57,7 bilhões, sendo R$ 12 bilhões apenas para o Tribunal de Justiça de São Paulo, que conta com 65 mil servidores. Em seguida vem o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que custa R$ 6,4 bilhões por ano.

Desembargadores milionários
Reportagem recente do blog mostrou que desembargadores dos pequenos tribunais de Justiça receberam rendas acumuladas de até R$ 5 milhões nos últimos quatro anos, incluindo os penduricalhos. As sete maiores rendas ocorreram no Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO). Os pagamentos retroativos somaram R$ 3 bilhões em todos os tribunais. As indenizações de férias, mais R$ 2,2 bilhões. Todos os penduricalhos totalizaram R$ 8,3 bilhões.

Na Justiça da União, a maior despesa total é da Justiça do Trabalho, com R$ 19,9 bilhões por ano. São 24 tribunais regionais mais os juízes do trabalho. São Paulo conta com dois tribunais, um na capital (TRT-2) e outro em Campinas (TRT-15). Juntos, consomem R$ 4,6 bilhões por ano.

A Justiça Federal custa R$ 12 bilhões, sendo R$ 2,5 bilhões com os tribunais regionais. A Justiça Eleitoral, mais R$ 6,3 bilhões; os Tribunais Superiores, R$ 3,9 bilhões. A Justiça Militar da União tem orçamento de R$ 571 milhões; a Justiça Militar dos Estados, maia R$ 163 milhões. Ao todo, são R$ 100 bilhões – 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, ou 11% dos gastos totais da União, estados e municípios. Os dados são relativos a 2020 e estão registrados na publicação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) “Justiça em Números”.

Com tanto dinheiro disponível, o STF vive um mundo paralelo, como mostrou o blog, com milhões de reais investidos em segurança armada, carros blindados, sala vip no aeroporto e jantares nababescos, com direito a bacalhau, lagosta, camarão, vinhos e espumantes com pelo menos quatro premiações internacionais, servidos em taças de cristal. As mordomias se estendem ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e até mesmo a pequenos tribunais dos sertões do país.


O peso das aposentadorias
As aposentadorias pesam nos orçamentos da Câmara e do Senado. Na Câmara, as aposentadorias e pensões custaram R$ 1,9 bilhão em 2021. A maior parte é de servidores efetivos aposentados – R$ 1,43 bilhão. Os pensionistas de servidores receberam mais R$ 346 milhões. Mas também foram pagos R$ 81 milhões a deputados aposentados e R$ 49 milhões a pensionistas de deputados. O antigo Instituto de Previdência dos Congressistas foi extinto em 1999 porque era deficitário. Mas a conta das pensões é paga pela Câmara, com dinheiro da União, ou seja, do pagador de impostos.

Mas tem mais. A Câmara paga R$ 2,4 bilhões por ano para servidores ativos, sendo R$ 1,3 bilhão para efetivos e R$ 1,1 bilhão para comissionados. Nessa última categoria estão 10,2 mil secretários parlamentares – os assessores que trabalham nos gabinetes dos deputados em Brasília e nos escritórios de apoio nos estados. Há ainda assessores das lideranças dos partidos, cargos da diretoria, comissões – são os cargos de natureza especial (CNEs), que chegam a R$ 20 mil.

O programa Siga Brasil, que informa a execução orçamentária dos órgãos públicos da União, mostra o peso das aposentadorias no orçamento do Senado. O valor total pago em 2021 foi de R$ 4,4 bilhões. O Orçamento fiscal ficou em R$ 2,1 bilhões, enquanto o orçamento da seguridade chegou a R$ 2,3 bilhões.


Cabide de empregos

O maior cabide de empregos no Senado está nos gabinetes dos senadores. Os 3,2 mil assessores – metade em Brasília e metade nos estados – receberam dos cofres públicos um total de R$ 418 milhões em 2021, como mostrou o blog. Em apenas um gabinete, com 83 assessores, os salários somaram R$ 9,25 milhões.

Na divisão por área de atuação (subfunção), os gastos do Senado com administração totalizaram R$ 1,5 bilhão, enquanto as despesas com previdência social alcançaram R$ 2 bilhões. A “ação legislativa”, que é a atividade fim do Senado, consumiu apenas R$ 353 milhões, muito próximo dos gastos com atenção à saúde dos servidores – R$ 329 milhões. Teve ainda a “previdência especial”, no valor de R$ 21 milhões. Trata-se, uma vez mais, das aposentadorias e pensões dos senadores. Parte do Legislativo, o Tribunal de Contas da União (TCU) consumiu mais R$ 2,1 bilhões no ano passado.

Assim como ocorre com o Judiciário, há também os legislativos dos estados. A Assembleia Legislativa de São Paulo teve despesas de R$ 1,27 bilhão em 2021. O Tribunal de Contas do Estado, mais R$ 1 bilhão. A Assembleia de Minas Gerais gastou R$ 1,5 milhão, enquanto o TCE de Minas consumiu mais R$ 866 mil. As 10 maiores assembleias e TCEs gastaram juntos um total de R$ 13,5 bilhões no ano passado. Um pouco mais da execução orçamentária da Câmara, do Senado e do TCU juntos – R$ 12,3 bilhões.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/lucio-vaz/quando-custa-ao-contribuinte-cada-deputado-senador-e-ministro-do-stf/
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CONTRADIÇÕES NAS DECLARAÇÕES DE ALGUNS PERSONAGENS

 

Por
Luís Ernesto Lacombe – Gazeta do Povo

Luiza Trajano, a megaempresária que diz ser socialista.| Foto: Benedikt von Loebell/Fórum Econômico Mundial/Flickr

Sempre gasto algum tempo pensando no tema desta coluna. Não por falta de assunto, pelo contrário. Há uma capacidade mundial absurda de produzir absurdos, e eles precisam ser apontados e contestados. Todos vêm carregados de contradições e incoerências. Nada se sustenta no discurso de enganação de quem tenta, principalmente, sinalizar virtudes. São pessoas afundadas na mais abjeta falta de bom senso, na mentira descarada lançada, no fim, contra todos nós. Ainda que não saibam (e muitas sabem), elas são diabólicas.

Começo pela entrevista da megaempresária Luiza Trajano. Como quase todo mundo que se diz socialista, ela não sabe o que isso significa. Renasceu na desigualdade promovida pelo capitalismo de Estado, que, no fundo, não é capitalismo, já que implode regras claras e concorrência leal. Jura que ser socialista é se preocupar com os mais pobres, fazendo questão de ignorar que só o capitalismo de verdade gera riqueza e diminui a pobreza. No fundo, ela sabe, e os números não negam. Na década de 1960, a porcentagem da população mundial na extrema pobreza chegava a 40%. Hoje, não passa de 10%. Seria mais baixa, se não fosse o combate tresloucado à pandemia, que derrubou a economia.

Cabe aqui um “parágrafo entre parênteses…” Jamais esquecerei de uma entrevista que fiz com Luiza Trajano, num antigo programa de tevê que eu apresentava. Era o início do “fecha tudo; a economia a gente vê depois…” Ela teve a desfaçatez de pedir a todos os empresários, em rede nacional, que não demitissem seus funcionários. Afirmou que suas empresas tinham condições de sobreviver por três anos sem receita e sem demissões. Suas empresas! Foi interpelada no ar pelo chef de cozinha do programa, Dalton Rangel, cujo restaurante, obrigado a fechar as portas, começava a acumular dívidas, no caminho inevitável da falência, com a demissão de 42 pessoas.

Nada se sustenta no discurso de enganação de quem tenta, principalmente, sinalizar virtudes.

Deixo claro: é preciso combater a extrema pobreza e a pobreza, não a desigualdade social, que sempre haverá. O mundo real derrubou todas as teorias socialistas, suas inconsistências, incongruências. Aliás, contradições e enganações são o tema da coluna de hoje. Por isso, não é digressão falar agora de uma desigualdade, disfarçada de discurso igualitário, que devemos combater. Temos um novo fenômeno na natação! Chama-se Lia Thomas e assumiu o primeiro lugar no ranking americano em todas as provas que disputa. Enquanto chamou-se William Thomas, competindo entre os homens, não figurava nem entre os quinhentos melhores nadadores dos Estados Unidos…

Mais engano, mais enganação: o assassinato de crianças no ventre das mães até os seis meses de gestação aprovado na Colômbia, sob aplauso de parlamentares brasileiras. A desculpa é que muitas mulheres morrem em cirurgias clandestinas para interromper uma gravidez. Melhor autorizar logo a matança dos bebês. A contradição humana não tem fim. Não comem carne nem derivados de animais, mas festejam vidas ceifadas no ventre. E como ficam os médicos, que juram “guardar respeito absoluto pela vida humana desde o seu início”? Hipócrates, pai da medicina, nasceu quase 400 anos antes de Cristo… Não é uma questão religiosa, mas, Deus, olhai por nós!

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APROVAÇÃO DOS CASSINOS E NEUTRALIDADE DE BOLSONARO NO CONFLITO RÚSSIA E UCRÂNIA

Jogos de azar

Por
Alexandre Garcia – Gazeta do Povo

Câmara aprovou projeto que legaliza cassinos, bingos e jogo do bicho. Proposta ainda precisa ser aprovada pelos senadores| Foto: Pixabay

Na madrugada desta quinta-feira (24) foi aprovado, na Câmara dos Deputados, o projeto para a reabertura dos cassinos no Brasil, resultado de um lobby muito forte que, no apagar das luzes da legislatura de 2021, conseguiu pôr urgência no projeto. E por causa dessa urgência, ele teve que ser votado agora. De novo, ao apagar das luzes, na madrugada.

O projeto foi aprovado por 246 deputados; 202 votaram contra. Evangélicos e católicos se aliaram para tentar barrar o projeto, mas não conseguiram. Foi aprovado o texto-base do deputado Filipe Carreras (PSB-PE). A proposta, se aprovada pelo Senado, pode permitir a reabertura dos cassinos, fechados por decreto do presidente Eurico Gaspar Dutra em 30 de abril de 1946. Na época havia cassinos famosos no Brasil, como o Hotel Cassino de Quitandinha, de Petrópolis, o cassino da Urca e tantos outros.

Depois disso, o brasileiro foi jogar no Conrad, em Punta del Este, no Uruguai. Acredito que haja um pouco de hipocrisia em torno do assunto, mesmo porque, os jogos de azar são proibidos no Brasil, mas as loterias continuam, bancadas pelo Estado brasileiro. Alguns argumentam que o jogo pode ser a ruína de um chefe de família viciado, ou que pode ser lavagem de dinheiro de atividades criminosas. Por outro lado, falam que pode movimentar a economia, evitar que o brasileiro vá jogar em cassinos no exterior, que gera emprego. Caberá ao Senado examinar o tema agora.


Bolsonaro mantém neutralidade sobre conflito entre Rússia e Ucrânia
Muitas pessoas esperaram que o presidente Jair Bolsonaro (PL) falasse alguma coisa sobre Ucrânia e Rússia. Ele foi o último presidente a ter um encontro bilateral com o presidente russo Vladimir Putin, antes da operação militar. Mas o Brasil se dá bem com a Ucrânia também, são nossos parceiros comerciais. Então isso representa a neutralidade do Brasil, o desejo de paz.

O Brasil tem uma cadeira, mais uma vez, temporária no Conselho de Segurança da ONU. Se o assunto for para lá, são 15 integrantes, sendo que 5 são membros permanentes, que tem direito a veto. Mas qualquer coisa que as Nações Unidas decidam, é só lembrar que Rússia e China tem direito a veto, então não vai adiantar nada levar o assunto para a ONU. É um assunto para ser decidido entre Rússia e Ucrânia.

Os países esticaram demais a corda, ficaram cercando a Rússia com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que é um tratado militar de defesa que servia na Guerra Fria contra a União Soviética, e agora está servindo para constranger a Rússia, deixá-la isolada e abafada. E o Putin decidiu que a segurança da Rússia está em primeiro lugar, então vamos ver o que vai acontecer.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/camara-aprova-legalizacao-de-cassinos-apos-forte-lobby-e-o-conflito-entre-russia-e-ucrania/
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BANCOS FAVORÁVEIS A LULA PREVEM DESASTRE ECONÔMICO NO LANÇAMENTO DE SEUS BÚZIOS

 

Previsões econômicas

Por
J.R. Guzzo – Gazeta do Povo

Banco projetou queda de 0,5% na economia brasileira em 2022| Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Um dos grandes bancos brasileiros chegou à conclusão, já em fevereiro, que o Brasil vai fechar este ano com recessão – mais exatamente, a economia vai recuar 0,5% até o mês de dezembro. Como é que eles sabem isso, se o ano nem começou? É o tipo de pergunta que não adianta nada fazer, porque nunca dão uma resposta coerente para ela; são previsões da ciência econômica, diriam os autores da profecia, coisa que é privativa dos economistas de grandes bancos e a respeito da qual não cabe ao leigo se manifestar.

Tudo bem, mas o que realmente interessa saber, nessa espécie de adivinhações, é o seguinte: elas são feitas sem nenhuma responsabilidade, sem nenhum compromisso e, sobretudo, sem nenhuma consequência para quem as coloca em circulação junto ao público pagante. Têm de ser recebidas, assim, com o grau de confiança que se reserva para os búzios do Pai João e as cartas de tarô da Mãe Joana.

É simples: se der tudo errado, e a realidade mostrar-se o contrário da previsão, não acontece nada para o economista-previsor. Não perde o emprego. Não é nem chamado para uma pequena conversa na sala do chefe. Na verdade, ninguém vai se lembrar em dezembro o que ele disse em fevereiro – com um pouco de jeito, o cidadão pode até ir dizendo, aqui e ali, que previu outra coisa, ou mesmo o contrário. Em seguida, parte para a próxima previsão.

Vinda de onde vem, a estimativa de 0,5% de recessão não deveria, pensando um pouco, surpreender ninguém. Curiosamente, no Brasil de hoje, temos bancos de esquerda – e faz parte de seu compromisso social, sobretudo num ano de eleições, dizer que a economia nacional está em ruínas e dar a entender que o “campo progressista” vai devolver ao sistema econômico a felicidade que ele perdeu com o governo de direita. São bancos assim que fazem previsões como essa. Ou, então, pagam campanhas de publicidade contra a pecuária brasileira. Ou têm, na voz de gente que está em suas vizinhanças, candidatos à presidência da República.

A saída possível, para o cidadão comum, é olhar para a realidade do dia a dia e acreditar naquilo que vê, e não naquilo que lhe dizem os economistas dos grandes bancos. Pode anotar, por exemplo, que justamente em janeiro de 2022, junto com a previsão de recessão, o investimento estrangeiro direto no Brasil foi de 5 bilhões de dólares, o maior desde 2018; as contas mostram que podem ser 10 bilhões em fevereiro. Se o país está morto, por que gente de fora está investindo tanto dinheiro aqui? Não dá para entender – mas leigo não tem mesmo que entender essas coisas, certo? Esperemos, então, pelos fatos.


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ATÉ ONDE VAI O PUTIN?

 

  1. Internacional 

A História julgará com severidade o presidente russo, que lançou um ataque contra país vizinho

The Economist, O Estado de S.Paulo

Ao momento em que começou, no início de uma lúgubre manhã cinzenta, ontem, o ataque contra a Ucrânia ordenado pelo presidente russo, Vladimir Putin, havia adquirido uma repugnante inevitabilidade. Ainda que nada sobre essa guerra fosse inevitável. Trata-se de um conflito completamente fabricado por ele. Nos combates e no sofrimento que estão por vir, muito sangue ucraniano e russo será derramado. Cada gota sujará as mãos de Putin.

Por meses, enquanto o presidente russo permanecia recluso, reunindo aproximadamente 190 mil soldados russos nas fronteiras da Ucrânia, uma dúvida pairou: o que este homem quer? Agora que está claro que ele almeja a guerra, a dúvida é: onde ele vai parar?

Putin
Ao agir, o presidente russo Vladimir Putin descartou o cálculo cotidiano de riscos e benefícios políticos, avalia The Economist. Foto: Sputnik/Alexei Nikolskyi/Kremlin via REUTERS

A julgar pelas palavras de Putin na véspera do ataque, sua intenção é que o mundo acredite que nada o impedirá. Em seu discurso de guerra, gravado no dia 21 e transmitido enquanto ele lançava as primeiras saraivadas de mísseis de cruzeiro contra seus companheiros eslavos, o presidente russo vociferou contra “o império de mentiras” que é o Ocidente. Gabando-se de seu arsenal nuclear, ele ameaçou diretamente “esmagar” qualquer país que tentar impedi-lo.

Relatos iniciais, alguns não confirmados, apenas sublinharam a escala de sua ambição. Especulou-se que o presidente russo poderia se satisfazer com o controle sobre Donetsk e Luhansk, regiões do leste da Ucrânia que contêm pequenos enclaves apoiados pela Rússia e foram objeto de diplomacia de último minuto. Mas tudo isso desmoronou em face ao vasto ataque.https://arte.estadao.com.br/uva/?id=z7R5n2

Os relatos deram conta de que forças russas atravessaram as fronteiras da Ucrânia pelo leste, na direção de Carcóvia, a segunda maior cidade ucraniana; pelo sul, a partir da Crimeia, na direção de Kherson; e pelo norte, a partir de Belarus, a caminho de Kiev, a capital. Não ficou claro a que ritmo as forças russas estão se movendo. Mas Putin aparentemente cobiça toda a Ucrânia, conforme afirmam desde o início dados de inteligência dos americanos e dos britânicos. Ao agir, o presidente russo descartou o cálculo cotidiano de riscos e benefícios políticos. Em vez disso, está motivado pela perigosa e alucinada ideia de que tem um encontro marcado com a História.

É por este motivo que, se Putin conquistar uma grande fatia da Ucrânia, o ceifador de territórios, não parará em suas fronteiras para fazer paz. Ele poderá não invadir países da Otan que integraram o império soviético, pelo menos não num primeiro momento. Mas, insuflado pela vitória, ele os sujeitará a ciberataques e guerra de informação que beiram o limite do conflito.

Inimigo

Putin ameaçará a Otan dessa maneira porque veio a acreditar que a aliança ameaça a Rússia e seu povo. Discursando esta semana, ele se enfureceu com a expansão da Otan ao leste. Posteriormente, denunciou um “genocídio” fictício na Ucrânia, segundo ele financiado pelo Ocidente. Putin não pode dizer aos russos que seu Exército está lutando contra irmãos e irmãs ucranianos que conquistaram liberdade. Então, ele lhes diz que a Rússia está em guerra contra os Estados Unidos, a Otan e seus aliados.

A abominável verdade é que Putin lançou, sem provocação, um ataque contra um país vizinho soberano. Ele está obcecado com a aliança defensiva a oeste. E está atropelando os princípios que fundamentam a paz no século 21. É por isso que o mundo deve infligir um custo pesado sobre sua agressão. PARA ENTENDEREntenda a crise entre Rússia e Otan na UcrâniaO que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

Isso começa com amplas sanções punitivas contra o sistema financeiro da Rússia, suas indústrias de alta tecnologia e sua elite endinheirada. Pouco antes da invasão, quando a Rússia reconheceu as duas repúblicas, o Ocidente impôs apenas sanções modestas. Agora, não deve hesitar. Mesmo que a Rússia tenha estabelecido uma economia fortificada, ainda é conectada ao mundo e, conforme demonstra a queda inicial, de 45%, no mercado de ações russo, o país sofrerá.

É verdade que as sanções também prejudicarão o Ocidente. Os preços do petróleo ultrapassaram US$ 100 o barril com a invasão. A Rússia é o maior fornecedor de gás à Europa. Exporta minérios como níquel e paládio e, assim como a Ucrânia, exporta trigo. Tudo isso ocasionará problemas num momento em que a economia mundial luta contra inflação e perturbações em cadeias de fornecimento. E ainda assim, na mesma medida, o fato de os países ocidentais estarem preparados para sofrer com sanções manda a Putin a mensagem de que o Ocidente se preocupa com suas transgressões.

Otan

Uma segunda tarefa é reforçar o flanco oriental da Otan. Até agora, a aliança buscou agir dentro dos parâmetros do pacto que assinou com a Rússia em 1997, que limita operações da Otan no antigo bloco soviético. A Otan deve rasgá-lo e valer-se da liberdade que isso engendra para guarnecer o leste com tropas. Isso levará tempo. Enquanto isso, a Otan deve comprovar sua união e seu intento, enviando imediatamente sua força de reação rápida, de 40 mil soldados, para os países na linha de frente. Essas tropas adicionarão credibilidade à sua doutrina de que um ataque contra um membro é um ataque contra todos. E também sinalizarão para Putin que, quanto mais ele se aprofundar na Ucrânia, mais provável será que ele acabe fortalecendo a presença da Otan em suas fronteiras – exatamente o oposto do que ele pretende.

E o mundo deveria ajudar a Ucrânia a defender-se e ao seu povo, que arcará com o ônus do sofrimento. Poucas horas após o início da guerra vieram os primeiros relatos de mortes de militares e civis. Volodmir Zelenski, o presidente, conclamou seus compatriotas a resistir. Eles devem escolher como e onde repelir Putin, seu Exército e seus apoiadores caso o russo instaure um governo fantoche em Kiev. A Otan não está acionando tropas para a Ucrânia imediatamente – o que é correto, pelo temor de um confronto entre potências nucleares. Mas seus membros devem dar assistência à Ucrânia provendo armas, dinheiro, abrigo a refugiados e, caso necessário, um governo no exílio.

Riscos

Alguns dirão que é arriscado demais desafiar Putin nesses termos – porque ele perdeu contato com a realidade; ou porque ele escalará o conflito, errará cálculos ou abraçará a China. Isso, em si, seria um erro de cálculo. Depois de 22 anos no topo, até mesmo um ditador com um senso exagerado a respeito do próprio destino tem faro para sobreviver e lidar com as idas e vindas do poder. Muitos russos, confusos com a crise que apareceu do nada, podem não estar entusiasmados a respeito de travar uma guerra mortífera contra seus irmãos e irmãs na Ucrânia. Esse é um elemento que o Ocidente pode explorar.

Conciliar-se com Putin na esperança de que ele passará a se comportar gentilmente seria ainda mais perigoso. Até mesmo a China deveria perceber que um homem que avança violentamente através de fronteiras é uma ameaça à estabilidade que Pequim busca. Quanto mais livre Putin estiver para agir hoje, mais determinado estará para impor sua visão amanhã. E mais sangue será derramado para finalmente fazê-lo parar./TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

O OUTRO LADO DE PUTIN

 

  1. Internacional 

O autocrata que controla a Rússia há 22 anos foi aceito por muitos russos pelo que eles percebiam como sua racionalidade e uma astuta gestão de riscos. Essa imagem ruiu.

Anton Troianovski, The New York Times

MOSCOU — Os russos achavam que conheciam seu presidente. Estavam errados. E nesta quinta-feira parecia tarde demais para fazer qualquer coisa a respeito. 

Ao longo da maioria de seus 22 anos no poder, Vladimir Putin transpareceu uma aura de calma determinação domesticamente — uma habilidade de administrar riscos astutamente e conduzir o maior país do mundo por águas repletas de traiçoeiros bancos de areia. Seu ataque contra a Ucrânia negou essa imagem e revelou-o um líder completamente diferente — que arrasta a superpotência nuclear que conduz para uma guerra sem conclusão previsível, que, segundo todas as aparências, acabará com as três décadas de tentativas da Rússia pós-soviética de encontrar lugar numa ordem global pacífica. 

Os russos despertaram em choque ao saber que Putin, num discurso ao país transmitido antes das 6h, havia ordenado um ataque total contra o que russos de todos os campos políticos com frequência se referem como sua “nação irmã”. Figuras públicas de inclinação liberal que por anos tentaram abrir concessões e se adaptar ao crescente autoritarismo de Putin viram-se reduzidas a postagens em redes sociais a respeito de sua oposição a uma guerra que não têm como impedir.

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Durante a pandemia, analistas notaram uma mudança em Putin — que isolou-se numa bolha de distanciamento social sem paralelo entre líderes ocidentais, mais descontente e mais emocional. Foto: Sputnik/Aleksey Nikolskyi/Kremlin/Reuters

E vários observadores da política externa de Moscou, analistas que caracterizavam majoritariamente a concentração militar de Putin em torno da Ucrânia nos últimos meses como um blefe astuto e elaborado, admitiram na quinta-feira que tinham avaliado de maneira absolutamente equivocada o homem que passaram décadas estudando. 

“Tudo em que acreditávamos estava errado”, afirmou um desses analistas, insistindo no anonimato porque não sabia o que dizer. “Não entendo as motivações, os objetivos nem os possíveis resultados”, disse outro. “É muito estranho o que está acontecendo.” 

“Sempre tentei entender Putin”, refletiu uma terceira analista, Tatiana Stanovaya, da firma de análise política R. Politik. Mas agora, afirmou ela, a utilidade da lógica parece ter chegado a um limite. “Ele se tornou menos pragmático e mais emocional.”

Na TV estatal, a mais poderosa ferramenta de propaganda de Putin, o Kremlin tentou projetar um ambiente de normalidade. Os meios de comunicação estatais caracterizaram a invasão da quinta-feira não como uma guerra, mas como uma “operação militar especial”, limitada ao leste da Ucrânia. Putin apareceu encontrando-se com o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, em visita à Rússia, como se ainda cuidasse de maneira prudente de seus afazeres cotidianos.

“Não se trata do início de uma guerra”, afirmou na TV a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Maria Zakharova. “Nosso desejo é evitar desdobramentos que poderiam escalar para uma guerra global.”

Enquanto isso, o mercado de ações russo despencava 35%, e os dólares dos caixas eletrônicos escasseavam. Na internet do país, ainda quase totalmente censurada, os russos viram seus celebrados militares semeando carnificina num país em que milhões deles têm parentes e amigos. 

Muitos tinham comprado a narrativa do Kremlin de que sua Rússia é amante da paz e Putin, um líder cuidadoso e perspicaz. Afinal, ainda acreditam muitos russos, foi Putin que tirou seu país da pobreza e do caos dos anos 90 e fez dele um lugar com um padrão de vida decente e merecedor do respeito internacional. 

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Tanques russos se movimentam na região de Rostov, na fronteira com a Ucrânia  Foto: YURI KOCHETKOV/EFE

“É tão estranho que a Rússia pudesse atacar quem quer que fosse”, afirmou uma pensionista de 60 anos na quinta-feira, enquanto caminhava pelo deslumbrante Parque Zaryadye, em Moscou, que arquitetos internacionais projetaram anteriormente à Copa do Mundo que a Rússia organizou em 2018. “Isso jamais aconteceu na história.” 

Como muitos entrevistados na quinta-feira, ela preferiu não revelar seu nome, com medo de que a irrupção da guerra possa trazer nova repressão às liberdades individuais. 

Marina Litvinovich, uma ativista por direitos humanos — cujos defensores encontram-se em números cada vez menores no país — convocou um protesto contra a guerra, a ser realizado em Moscou na noite da quinta-feira, e foi prontamente presa. Ônibus da polícia e policiais antidistúrbio ocuparam a Praça Pushkin, onde ela havia convocado as pessoas a se reunir. Um ator postou uma diretriz do teatro estatal onde trabalha afirmando que “qualquer comentário negativo” sobre a guerra poderá ser considerado “traição” pelas autoridades. 

Nos últimos três meses, enquanto autoridades americanas alertaram que a concentração de tropas de Putin era o prelúdio de uma invasão, os russos rejeitavam essa narrativa, qualificando-a como um fracasso do Ocidente em entender a determinação fundamental de seu presidente em gerir risco e evitar manobras duras com consequências imprevisíveis. E com proeminentes figuras da oposição presas ou exiladas, havia poucas novas figuras com influência suficiente para organizar um movimento antiguerra.  

Algumas figuras públicas ligadas ao governo mudaram de rumo, apesar de reconhecer que era tarde demais. Ivan Urgant, o mais proeminente comediante da TV estatal com programa tarde da noite, tinha feito piada com a ideia de uma guerra iminente este mês. Na quinta-feira, ele postou um quadrado negro no Instagram juntamente com as palavras: “Medo e dor”. 

Ksenia Sobchak, outra celebridade da TV, cujo pai foi prefeito de São Petersburgo e mentor de Putin nos anos 90, postou no Instagram que, daqui adiante apenas acreditará “nos piores cenários possíveis”. Dias antes, ela havia elogiado Putin, qualificando-o como “um homem maduro, um político adequado”, em comparação aos seus homólogos da Ucrânia e dos Estados Unidos

“Agora todos estamos encurralados nesta situação”, escreveu ela na quinta-feira. “Não há saída. Nós, russos, passaremos muitos anos tentando nos livrar das consequências deste dia.”

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Manifestante carrega cartaz com dizeres ‘Putin – Nuremberg. Não a guerra’, durante protesto após Rússia anunciar operação militar contra Ucrânia. Foto: Evgenia Novozhenina/Reuters

Durante a pandemia, analistas notaram uma mudança em Putin — que isolou-se numa bolha de distanciamento social sem paralelo entre líderes ocidentais. No isolamento, ele pareceu mais descontente e mais emocional. E falou cada vez mais a respeito de sua missão em termos históricos absolutos. Suas declarações públicas descambaram para historiografias distorcidas, à medida em que ele falava da necessidade de reparar o que percebia como injustiças históricas sofridas pela Rússia ao longo dos séculos, impingidas pelo Ocidente. 

O cientista político Gleb Pavlovski, conselheiro próximo a Putin até desentender-se com ele em 2011, afirmou ter ficado impressionado com a sombria descrição do presidente a respeito da Ucrânia enquanto uma terrível ameaça à Rússia, em seu discurso de uma hora ao país na segunda-feira. 

“Não tenho ideia de onde ele tirou isso tudo, ele parece ter um entendimento totalmente bizarro”, afirmou Pavlovski. “Ele se tornou um homem isolado, mais isolado do que Stálin.”

Stanovaya, a analista, afirmou que agora sente que a obsessão amplificada de Putin com a história nos últimos anos tornou-se um elemento crucial para entender sua motivação. Afinal, a guerra com a Ucrânia parecia impossível de se explicar, já que não continha nenhuma justificativa clara e inevitavelmente apenas aumentaria o sentimento anti-Rússia no exterior e intensificaria o confronto da Rússia com a Otan.

“Putin colocou-se num lugar que vê como mais importante, mais interessante, mais premente para lutar por reparação histórica em vez prioridades estratégicas da Rússia”, afirmou Stanovaya. “Nesta manhã, percebi que uma mudança ocorreu.” 

Ela afirmou que, aparentemente, a elite governante em torno de Putin não se deu conta de que a guerra chegaria na quinta-feira e não soube como reagir. Além de personalidades da TV estatal e políticos pró-Kremlin, poucos russos proeminentes manifestaram publicamente apoio à guerra. 

Mas isso, afirmou ela, não significa que Putin arrisca tomar algum tipo de golpe palaciano, dado seu firme controle sobre o abrangente aparato de segurança do país e sua expansiva repressão contra a dissidência no ano passado. 

“Ele ainda é capaz de atuar por muito tempo”, afirmou Stanovaya. “Dentro da Rússia, ele não corre praticamente nenhum risco político.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

Alina Lobzina e Oleg Matsnev colaboraram de Moscou e Ivan Nechepurenko, de Rostóvia do Dom, Rússia.

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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