quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

LEGALIZAÇÃO DO ABORTO NA COLÔMBIA SERVE DE ALERTA PARA O BRASIL

 

Ativismo judicial
Por
Leonardo Desideri – Gazeta do Povo
Brasília

Maioria dos ministros do STF já sinalizaram tendência pró-descriminalização do aborto.| Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF

A descriminalização do aborto pela Corte Constitucional da Colômbia – que envolve bebês praticamente formados, com até seis meses de gestação – acende um sinal de alerta para o Brasil nos próximos anos. Com a tendência de ativismo judicial do Supremo Tribunal Federal (STF) e a existência da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) 442, que propõe descriminalizar o aborto no país, o Judiciário é, também aqui, a principal ameaça contra as vidas intrauterinas.

A Colômbia, que tem a terceira maior população da América Latina, seguiu o exemplo do México, que também descriminalizou o aborto pela via judicial recentemente, em setembro de 2021. Na Argentina, quarta maior nação latinoamericana, a prática foi legalizada pelo Congresso. Agora, entre os cinco maiores países da América, somente o Brasil não tem o aborto legalizado ou descriminalizado. Em três desses países, o Judiciário foi o caminho para facilitar o aborto.

Nos Estados Unidos, maior nação do continente, a via judicial foi tomada em 1973, com as decisões dos célebres casos Roe vs. Wade e Doe vs. Bolton. O momento limite para o assassinato do bebê é definido por cada estado, sem uma fronteira estabelecida pelo tribunal. Oregon, Colorado, Novo México, Alaska, Nova Jersey, Vermont e New Hampshire são, hoje, os estados que permitem o aborto em qualquer momento da gestação.

Na Europa, quase todos os países aprovaram o aborto pela via legislativa, em vez da judicial. A maioria deles não permite o aborto depois da 12ª semana de gestação. Mas, em junho de 2021, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que inclui o aborto na lista dos direitos humanos.


Maioria dos ministros atuais do STF tem tendência pró-descriminalização do aborto
No Brasil, a ADPF 442 pede a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Como já se tornou comum em questões de costumes, a ideia de judicializar o tema veio de um partido de esquerda: o PSOL. A tentativa da legenda de politizar o Supremo se deve ao fato de que, dentro do Congresso, a pauta não encontra eco.

Por distintas razões, a grande maioria dos parlamentares eleitos não tem interesse em legalizar o aborto no Brasil. A tendência do Congresso é, em parte, um reflexo daquilo que pensam quase 80% dos brasileiros sobre a questão.

Convicções da Gazeta do Povo: Defesa da vida desde a concepção
No Supremo, por outro lado, a tendência é diferente. E, levando em conta os casos recentes de atropelamento do Legislativo em suas decisões, não é exagero presumir que o tribunal agiria contra a vontade da maioria dos parlamentares e da população em um julgamento sobre o tema.

É verdade que o Plenário do STF rejeitou, em 2020, a descriminalização do aborto para grávidas infectadas pelo vírus da zika, mas isso diz pouco sobre o posicionamento dos ministros, já que não houve um julgamento de mérito – a ação foi considerada prejudicada por conta de uma questão processual.

O julgamento mais recente relacionado ao aborto é de 2012, quando o STF descriminalizou o aborto de anencéfalos no Brasil. Votaram a favor da descriminalização os ministros Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Luiz Fux e Rosa Weber. O único dos membros atuais da Corte que estava presente na época e votou contra a decisão foi Ricardo Lewandowski.

O ministro Luís Roberto Barroso já deu vários indícios de que é favorável à descriminalização. Embora não fosse ministro do STF em 2012, ele participou do julgamento sobre a permissão para o aborto de bebês anencéfalos como advogado da autora da ação, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Saúde (CNTS).

Nesse julgamento, ele cunhou uma espécie de slogan sobre o tema, ao dizer que as mulheres não são “úteros à disposição da sociedade”. Oito anos depois, em 2020, no julgamento sobre a possibilidade de aborto em casos de zika, ele repetiu o slogan, ao dizer que as mulheres não são “úteros a serviço da sociedade”. Ele já havia usado esse mesmo lema em 2016, quando foi relator de um caso julgado pela Primeira Turma do STF que liberou da prisão cinco funcionários de uma clínica clandestina de aborto no Rio de Janeiro.

O ministro Edson Fachin disse ser contrário ao aborto ao ser sabatinado pelo Senado em 2015. Por outro lado, acompanhou o voto de Barroso nesse julgamento da Primeira Turma de 2016.

Dias Toffoli, em entrevista de 2009 à revista Veja, disse que era “contra o aborto”, mas que a “criminalização não é a resposta”. Na época, Toffoli era advogado-geral da União (AGU). “Qual é a melhor maneira de diminuir o número de casos de aborto? A criminalização não é a resposta. Ela pode até ser importante do ponto de vista moral para dizer que é algo errado, incorreto, mas não resolve o problema. Não adianta alimentar uma polêmica de religião versus Estado ou de feminismo versus Igreja. É necessário que as pessoas pensem na melhor forma de combater o aborto. Resumindo: sou contra o aborto e contra sua criminalização”, afirmou. É importante ressaltar, no caso de Toffoli, que as declarações foram feitas há quase 13 anos.

Já o ministro Alexandre de Moraes não exibiu publicamente sua opinião sobre o tema nos últimos anos. Em seu livro Direito Constitucional, publicado no ano 2000 pela editora Atlas, ele afirmou que o direito à vida “é o mais fundamental de todos os direitos, já que se constitui em pré-requisito a existência e exercício de todos os demais direitos”. “A Constituição Federal, é importante ressaltar, protege a vida de forma geral, inclusive a uterina”, disse Moraes na obra.

O ministro André Mendonça já deu sinal de que é contrário à descriminalização do aborto em sua defesa da ilegalidade do aborto em casos de zika vírus, em julgamento do qual participou como AGU.

Já o ministro Nunes Marques foi evasivo quando questionado sobre o assunto na sabatina que aprovou sua indicação para o Supremo. Disse apenas que é um “defensor da vida”, mas ressaltou que não poderia se manifestar sobre a descriminalização do aborto por conta da existência da ADPF 442.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/descriminalizacao-aborto-colombia-via-judiciario-alerta-brasil/
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MINISTRO DO STF EDSON FACHIN QUE LIVROU LULA DOS PROCESSOS ASSUME O TSE

 

Período pré-eleitoral
Ministro que já militou na esquerda assume o TSE; e os novos planos de Randolfe para a eleição

Por
Alexandre Garcia – Gazeta do Povo

Ministro Edson Fachin toma posse como presidente do TSE, em 22 de fevereiro de 2022| Foto: Abdias Pinheiro/SECOM/TSE

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) desistiu de ser candidato ao governo do Amapá. Talvez ele tenha sentido que o futuro não está muito bom por lá. E aceitou um convite feito por Lula para coordenar sua campanha, certamente pensando que, se Lula ganhar, ele vira ministro. E Lula, é claro, está chamando alguém de outro partido para não ficar repetindo o PT.

O ex-presidente já convidou o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, que era do PSDB, para ser vice de sua chapa e, agora, chamou um nome da Rede. Marina Silva, fundadora do partido, está sendo sondada pela campanha de Ciro Gomes (PDT), e talvez esta seja uma indicação de que Lula esteja querendo atrapalhar o pedetista. Além disso, chamar nomes de fora do PT pode ser uma estratégia para a campanha do ex-presidente, porque o partido está marcado pelo Mensalão, pela Lava Jato e pelos escândalos consecutivos e frequentes em ações policiais.

Fachin assume a presidência do TSE

O novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é o ministro Edson Fachin, que foi o relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF) e quem teve a iniciativa de livrar Lula dos processos nos quais ele já havia sido condenado.

Numa entrevista publicada pela Jovem Pan, Fachin disse que foi muito marcado por um professor de português de Toledo, que era um fundador do Partido Comunista. A partir daquele período, segundo seu relato, ele passou a defender a reforma agrária, fez pichações e até cometeu alguns crimes. Também já disse que o PT é o partido mais autêntico que existe. Esse é o novo presidente da Justiça Eleitoral.

Fachin será presidente só até dia 17 de agosto. Ele terá que sair do órgão eleitoral por causa do limite de mandato de um ministro do Supremo no TSE, que é de dois anos, podendo ser renovado para mais dois. E quem assume a presidência é o ministro Alexandre de Moraes. O vice será Ricardo Lewandowski, o ministro que presidiu o julgamento da ex-presidente Dilma Rousseff no Senado, quando foi rasgado o parágrafo único do artigo 52 da Constituição ao condenar a presidente sem puni-la.

A ministra Cármen Lúcia também compõe o trio do STF entre os sete da Justiça Eleitoral. Esse é o quadro que vamos ter para a eleição. Juízes do Supremo que tem se manifestado como se advogados fossem. Todos eles são advogados de carreira e, advogado de carreira, é sempre parcial, em defesa de seu cliente. E um juiz tem que ser sempre imparcial, em defesa da lei. Mas eles já se manifestaram várias vezes fazendo pré-julgamento e dando opinião.

Aécio Neves, Paulo Guedes e o agro
Ainda falando sobre justiça, o Ministério Público Federal encaminhou à justiça uma denúncia contra o deputado federal Aécio Neves (PSDB), pedindo a perda do mandato dele e a devolução de R$ 2 milhões que recebeu da empresa JBS. Ele explicou, na época, que era um empréstimo. Só que o frigorífico não faz empréstimo, vende carne. Quem faz empréstimo é banco. O Ministério Público também pede a condenação da irmã, de um primo e de um assessor de Aécio.

Por outro lado, a ministra Cármen Lúcia no Supremo, mandou arquivar mais uma ação contra o ministro da Economia, Paulo Guedes, que o acusava de ter favorecido acionistas da Eletrobras ao propor a privatização da companhia. O processo tinha sido movido pelo Psol, pequeno partido, eu tenho dito e repetido, que não tem voto no Plenário e usa o Supremo como braço de atuação.

E para terminar, o agronegócio brasileiro fechou o ano passado contribuindo com 28% do Produto Interno Bruto (PIB). Este ano, apesar do mal tempo, o setor deve fechar com participação de 1/3 do PIB, no mínimo. Há ainda o potencial de que as obras hídricas no nordeste possam, por exemplo, turbinar a produção de frutas. Nesta segunda-feira uma nova obra do canal Sertão Baiano foi iniciada. Ela vai levar água do rio São Francisco para 44 municípios.


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ARAS PGR NÃO PODE SER PROCESSADO O CARGO DELE É EQUIVALENTE AO DO STF

Procurador-geral da República

Por
Thaméa Danelon – Gazeta do Povo

Representante do Ministerio Publico, Augusto Aras durante sessao plenaria do TSE. Brasilia-DF, 02/04/2019 Foto: Roberto Jayme/ Ascom /TSE (Representante do Ministerio Publico, Augusto Aras durante sessao plenaria do TSE. Brasilia-DF, 02/04

Procurador-geral da República, Augusto Aras| Foto: Roberto Jayme/TSE


Após a Polícia Federal (PF) ter concluído o inquérito que apurava o suposto crime de violação de sigilo funcional por parte do presidente da República, Jair Bolsonaro, a investigação foi encaminhada ao procurador-geral da República (PGR), Augusto Aras. Além do presidente, também estava sendo investigado um deputado federal. Como essas duas autoridades possuem foro privilegiado perante o Supremo Tribunal Federal (STF), coube ao PGR – que atua perante a Suprema Corte – analisar as conclusões deste inquérito policial.

A partir do momento em que Aras recebeu esse inquérito finalizado, ele poderia adotar um desse três caminhos:

Solicitar a realização de novas diligências – caso fosse necessário para a elucidação do crime;
Oferecer uma denúncia criminal, ou seja, processar criminalmente os investigados pela prática do crime de violação de sigilo funcional; ou
Realizar o arquivamento do inquérito.
O PGR adotou o terceiro caminho, pois entendeu que não houve a prática de violação de sigilo funcional. Segundo o chefe do Ministério Público da União, o inquérito policial que investigava o ataque hacker ao TSE não era sigiloso, pois não havia uma decisão que decretava o segredo de justiça, e também a investigação não estava inserida nos sistemas da Polícia que tornavam essa apuração sigilosa. Assim, não havendo um sigilo do procedimento, o crime de violação de sigilo profissional não poderia ter sido cometido.

Desta forma, por ter constatado a inexistência de prática de crime, o PGR requereu o arquivamento do referido inquérito policial. De acordo com a lei processual penal, o Poder Judiciário – e no presente caso o STF – terá que homologar esse pedido de arquivamento, pois a palavra final sobre o arquivamento de uma investigação sempre será do Ministério Público. Assim, a nossa Suprema Corte não poderá desconsiderar esse arquivamento e nem determinar que a Polícia Federal continue com as investigações.

Explicando melhor, se um procurador ou promotor que atua na primeira instância realiza o arquivamento de uma investigação criminal, o juiz que apreciará esse ato até poderá não concordar com o arquivamento, mas ele não poderá obrigar o membro do Ministério Público a processar quem quer que seja. O que o juiz poderá fazer será encaminhar o inquérito ao chefe do Ministério Público (o PGR ou o procurador-geral de Justiça) e ele irá determinar que outro membro do MP processe criminalmente o investigado ou irá manter o arquivamento, caso o chefe entenda que não há crime ou elementos que justifiquem a abertura de uma ação penal. Por conta disso, a palavra final sobre o arquivamento de um inquérito sempre será do MP.

No caso em análise, o procurador-geral da República é o chefe do Ministério Público da União, e como ele ocupa o mais alto nível da carreira, ele terá a palavra final sobre o arquivamento de uma investigação, cabendo, neste caso, ao STF homologar esse pedido.

Após a divulgação na imprensa do arquivamento realizado pelo PGR, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) requereu ao STF que o PGR fosse investigado pelo suposto crime de prevaricação, por conta do procurador-geral não ter processado o presidente da República e os demais investigados nessa apuração. Entretanto, esse requerimento viola o nosso Estado Democrático de Direito, vez que o Ministério Público é uma instituição independente e autônoma, de acordo com a nossa Constituição, e seus membros não podem ser punidos por exercerem o seu labor.

Assim, se um procurador processa criminalmente alguém por entender que houve a prática de um crime, este não poderá ser punido por estes fatos, da mesma forma que um membro do MP não poderá sofrer represálias por ter arquivado uma investigação, caso entenda que não houve a prática de crimes.

O Direito não é uma ciência exata, por conta disso há a possibilidade de entendimentos diversos por parte dos operadores do Direito, sejam eles procuradores, advogados ou juízes. Assim, não se pode responsabilizar um procurador por crime de prevaricação caso ele arquive uma investigação ou processe alguém, da mesma forma que um juiz não poderá ser punido por ter absolvido ou condenado alguém. Tanto o Magistrado como o integrante do MP exercem funções constitucionais de forma independente, e suas ações jurídicas são adotadas de acordo com a lei, a constituição e seu livre convencimento. Somente a demonstração cabal de má-fé poderá ensejar uma responsabilização desses operadores do Direito, mas essa eventual má-fé deverá estar amplamente amparada em evidências.

Para que a segurança jurídica prevaleça e o Brasil seja de fato reconhecido como um Estado Democrático, e de Direito, as instituições devem ser independentes, fortes e respeitadas, e esse respeito decorre principalmente da observância do que está previsto na Constituição, pois somente ela poderá balizar qualquer atitude das autoridades públicas, sejam estas integrantes do Ministério Público, do Poder Judiciário, do Poder Executivo, ou do Poder Legislativo. Cada um cumprindo seu papel, sem querer invadir ou exorbitar poderes e prerrogativas de outras instituições, estaremos de fato dando vida à democracia. O contrário somente trará atraso, instabilidade e caos.


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FALTAM POLÍTICAS PÚBLICAS PARA EVITAR TRAGÉDIAS COMO PETRÓPOLIS

 

Prof. José Ricardo Bandeira – Perito em Criminalística e Psicanálise Forense

People try to rescue items from cars destroyed by a flash flood in Petropolis, Brazil on February 16, 2022. – At least 55 people were killed in devastating flash floods and landslides that hit the picturesque Brazilian city of Petropolis, turning streets into torrential rivers and sweeping away houses, officials said Wednesday. (Photo by CARL DE SOUZA / AFP) (Photo by CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)

“Logicamente, a culpa sempre recai sobre a mãe natureza, mas certamente um olhar mais atento e imparcial pode revelar a crueldade social que se esconde por trás de uma tragédia[…]”

O mundo inteiro sofre com tragédias causadas por eventos climáticos como furacões, tempestades, terremotos e tantos outros, porém, na grande maioria dos países, essas tragédias normalmente não causam nada além de prejuízos materiais. Já no Brasil, tragédias como a que ocorreu em Petrópolis causam centenas de mortos, em sua maioria de cidadãos pobres que habitam em áreas de risco.

Logicamente, a culpa sempre recai sobre a mãe natureza, mas certamente um olhar mais atento e imparcial pode revelar a crueldade social que se esconde por trás de uma tragédia aparentemente “natural” e, mais do que isso, para a falta de políticas públicas e incompetência dos governos municipais, estaduais e federal para impedir que isso ocorra.

Tudo começa por falta de políticas públicas que deveriam abranger a geração de emprego e renda, projetos habitacionais, educacionais, de saúde e de melhoria dos transportes, e por isso famílias pobres ocupam ilegalmente áreas de risco para construírem suas habitações.

Isso mesmo, geralmente as favelas se formam para que o trabalhador e suas famílias possam ficar mais próximos dos locais de trabalho e dos serviços públicos essenciais que lhe são negados nas áreas mais distantes, deixando exposto o primeiro erro da administração pública, que é a ausência total de políticas públicas sérias que possam reverter este fenômeno. 

Depois, o gestor público comete o crime de omissão, pois não cumpre o seu papel de fiscalização impedindo tais ocupações de acontecerem, permitindo a criação dessas comunidades em áreas de alto risco, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, uma tragédia acontecerá, porém “desde que a tragédia ocorra no governo de seu sucessor” isso não é um problema para ser pensado agora.

E assim, entra mandato, sai mandato e as comunidades vão crescendo em velocidades alucinantes, sem ordenação, sem saneamento básico, sem um plano de prevenção e controle de catástrofes e sem medidas que poderiam minimizar os efeitos dos eventos climáticos.

Infelizmente, até hoje no Brasil inexistem dispositivos legais para que o judiciário possa penalizar a administração pública por tais tragédias e pelos mortos, ressarcindo as suas famílias e obrigando os gestores a promover a realocação dessas comunidades para locais seguros, e logicamente tais dispositivos inexistem porque os políticos sequer apresentam ou aprovam leis capazes de punir a si próprios pela omissão, descaso e morte de cidadãos.

Todos esses fatores fazem com que a verdadeira tragédia no Brasil seja ser pobre e privado dos serviços básicos, ser invisível aos olhos dos políticos, que somente visitam essas áreas em busca de votos a cada dois anos, sempre com falsas promessas e que se escondem em seus gabinetes quando a tragédia ocorre.

E de tragédia em tragédia vamos escrevendo essas cruéis páginas de sangue, dor e sofrimento na história de nosso país.

RESTAURANTES E COMIDAS EXÓTICAS

 


  1. Cultura
     

Sob a aparência oval, jaziam camadas sucessivas de caldos gelatinosos com sabores exóticos

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

No início deste ano, na Europa, fui a vários restaurantes bem cotados de Lisboa, Barcelona e Madri. A experiência solidificou uma questão muito pessoal sobre o que gosto ou não à mesa. Vou expor, querida leitora e estimado leitor, para que todo mundo faça seu próprio julgamento. 

Em alguns lugares, não existe a escolha de pratos, porém, de um ou dois “menus-degustação”. Imaginei ir a um teatro shakespeariano e poder optar entre ver um pequeno trecho de nove comédias ou um pedaço de todas as peças históricas. Sempre preferi uma peça inteira. O quadro me anima mais do que pinceladas. 

Já sabemos: em algum momento surgirá uma espuma, uma nuvem de nitrogênio e uma louça tão exótica que necessite de reflexão para procurar o sentido. O impacto é mais importante, uma espécie de Cirque du Soleil competente e variado que deve manter a plateia inundada de sensações variadas. 

Obá restaurante
Pad thai goong no delivery do Obá  Foto: Henrique Peron

Quando criança, achávamos graça nas coisas que eram flambadas à nossa frente. Hoje, o maçarico virou peça universal e os auxiliares de mesa transformaram-se em perfeitos “soldadores”. Fogo é sempre lúdico e, talvez, dialogue com uma infantilização do público sedento de pirotecnia.

Ah! O mundo das aparências… O prestativo garçom perguntava o que achávamos que era aquilo? Sim, parecia um ovo cozido. Um trivial ovo colocado na água quente por algum tempo. Ledo engano! Sob a aparência oval, jaziam camadas sucessivas de caldos gelatinosos com sabores exóticos. Pasmem comensais: aqui estamos no mundo de Alice no País do Espelho e tudo pode ser distinto do que penso ser. 

Lembrando-me de um episódio de Porta dos Fundos (Restaurante Moderno), tive medo de um tapa no rosto para, segundo o esquete cômico, estimular as papilas gustativas para perceber melhor o sabor da baunilha. 

Gosto de inovação e não considero a porção gigantesca o indicativo de qualidade. Adoro chefs ousados que buscam cruzar tradições e mostrar que o mundo é, cada vez mais, fusion. Valorizo a boa apresentação. Confesso: depois do quarto restaurante bem estrelado com pratos contemporâneos em louças de design futurista, tive um profundo desejo de comida quente, “garfável”, com aroma forte e que seja melhor na boca do que no Instagram. Seriam as redes as responsáveis pelo novo conceito de comer? Seriam, como na crítica conservadora de Monteiro Lobato, uma estética que consagra um “furúnculo de cultura hipertrofiada”? Sempre tenho esperança que cozinhar seja um ato sacramental de prazer. Esperança de gente que cozinhe para mim e não para o celular…

CEO DA PLATAFORMA DE DESIGN DO CANVA UMA STARTUP DAS MAIS RENTÁVEIS DO MUNDO

Fonte: Entrevista à Forbes em 5 de agosto de 2019

Saiba como pensa a liderança por trás da plataforma de mais de 60 milhões de usuários ativos em 190 países.

Considerada uma das startups mais rentáveis do mundo, o Canva, a plataforma de design digital online que nasceu na Austrália, recebeu no final de 2021 um investimento de US $ 200 milhões e atingiu o marco de US$ 40 bilhões em valor de mercado. A plataforma possui mais de 60 milhões de usuários ativos em 190 países, desde autônomos e pequenas empresas até grandes organizações como PayPal, American Airlines e Salesforce. Razão boa o bastante para o Ghost Interview dar um pulo, literalmente, no outro lado do globo, em terras australianas para falar com Melanie Perkins, CEO e cofundadora da plataforma.

Antes do Canva, Melanie (Mel, para os íntimos!) abriu a Fusion Books, quando tinha apenas 19 anos, a ideia era parecida com a da plataforma de design, mas voltada para anuários – os Yearbooks – de colégios australianos. A empresa deu certo e, um pouco menos de 3 anos depois, Mel resolveu expandir o mercado: de colégios para, bem, qualquer tipo de usuário. Esse é o mote por trás do Canva: levar o design para não-designers  (assim como na semana retrasada, falamos sobre o IFTTT e a sua missão de levar inteligência artificial para não programadores). O resultado foram os números acima. Como ela chegou até ele? É o que você vai descobrir…

A Ghost Interview é um formato de storytelling criado pelo Morse, onde reunimos as principais entrevistas, vídeos e conteúdos de ícones que com certeza você gostaria de convidar para um jantar! Tentamos ao máximo manter as palavras e o contexto das entrevistas, mas as traduções ou mesmo adaptações podem gerar interpretações diversas. Por esse motivo compartilhamos sempre o link da íntegra das entrevistas e textos de onde extraímos os conteúdos.

Melanie Perkins, CEO do Canva (foto: divulgação)

Melanie, o que te deu a ideia inicial para o Canva e como foi o começo?

Quando estava na universidade em Perth [cidade no sudoeste da Austrália] em 2008, eu ganhava um dinheiro extra dando aulas de programas de design. Neste momento, eu percebi o quanto aquelas ferramentas que ensinava eram difíceis e complicadas de usar. E pensei o quanto era bobo que elas fossem apenas ferramentas para desktop e também percebi o quão absurdo era que mesmo profissionais tivessem que demorar tanto para aprender a ferramenta, para depois ela mudar de linguagem. Queria fazer um software de design simples, online e colaborativo. 

No lugar de lançar o programa, eu me juntei ao meu namorado [atual cofundador e também noivo de Mel] para aplicar esse conceito aos anuários. Minha mãe era professora e eu sempre fui responsável por fazer o design dos Yearbooks da escola dela, e sabia quantas horas isso levava de trabalho. De maneira geral, o coordenador dos anuários era um professor organizando esse projeto enorme, e sem nenhuma experiência de design. A necessidade para uma solução melhor era óbvia. Lançamos a Fusion Books direto da sala da minha mãe! 

Fonte: Respostas a perguntas feitas no fórum Sydney Startups em 14 de janeiro de 2018

Da Fusion Books em 2008 para o investimento de US$ 3 milhões em 2013 foram alguns anos, e alguns passos. Entre eles, o de conhecer Bill Tai, um grande VC que acabou fazendo vocês conhecerem os investidores. Conta um pouco de como foi esse caminho…

Em cinco anos, a Fusion Books se tornou a maior companhia de anuários na Austrália, expandimos para a França e para a Nova Zelândia. A gente viu que a tecnologia que criamos para esse setor poderia ser aplicada de maneira mais ampliada, e foi assim que surgiu o Canva.

Um momento-chave para mim foi conhecer Lars Rasmnussen, cofundador do Google Maps. Foi Tai que me apresentou a ele, e, até então, eu nunca tinha conhecido alguém que tinha lançado este tipo de programa. Mudou radicalmente a minha perspectiva e a minha visão de escala para o Canva. Lars também foi muito importante, já que foi a partir dele que conseguimos montar nosso time de tecnologia e também achar o nosso terceiro cofundador, o cofundador técnico, Cameron Adams, um ex-Googler.

Fonte: Entrevista ao Entrepreneur em 12 de junho de 2019

Mesmo assim, não foi super fácil levantar capital, né?

Tomamos muitos nãos. Toda vez que nós recebíamos uma pergunta difícil de um possível investidor ou toda vez que eles nos falavam a razão por que não investiriam no Canva, a gente mudava alguma coisa do pitch. Eu revisei tanto nosso pitch que acho que passou das 100 vezes, a cada vez eu acrescentava informações que os investidores pareciam mais interessados e mudava as partes que sofriam rejeições. O normal seria você desistir depois do centésimo não, mas a gente perseverou.

Fonte: Entrevista ao Entrepreneur em 12 de junho de 2019

O Canva “demorou” para ser lançado, você comentou aqui em cima de quantas vezes levaram um não de investidores. Logo depois que lançaram, em 2013, no entanto, vocês levaram poucos meses para atingir o primeiro milhão de usuários, quais foram as lições que este crescimento trouxe para você na maneira de ver o negócio ?

Aprendi muitas coisas. Entre elas: Oferecer um produto de graça que traz valor para os usuários. Se você consegue oferecer algo de graça que traz algum valor para ele, ele vai voltar e o produto será compartilhado mais rápido.

Começar de um nicho e depois crescer foi outro ensinamento. Ao começarmos de um nicho com a Fusion, depois abrindo para o Canva, nós realmente conseguimos entender os problemas dos nossos consumidores e também conseguimos resolver este problema. Outro ensinamento de extrema importância: aprenda a amar todo tipo de dado. Nós começamos com um teste A/B, até mesmo para testar a nossa visão. Foi importante para a gente usar o tipo correto de dados para cada ocasião, desde o teste A/B, até pesquisas e o “usertesting.com”.

Fonte: Respostas a perguntas feitas no fórum Sydney Startups em 14 de janeiro de 2018

Usertesting.com? O que é isso? Como usaram?

É um site onde você consegue ver como os usuários utilizam a sua plataforma. A gente fez isso antes mesmo de lançar, num teste Beta. E foi extremamente perspicaz. Percebemos que os usuários tinham medo de clicar muito e que eles usavam o site meio “sem rumo”, não usavam todas as ferramentas, criavam algo bem mediano e deixavam aquilo sem mexer. Ou seja: estava bem longe da experiência criativa e divertida que nós esperávamos que as pessoas tivessem na plataforma. Percebemos que não eram exatamente as ferramentas que faziam com que as pessoas tivessem receio de explorar mais o Canva, mas a própria crença internalizada delas de que elas não entendiam de design. 

Por isso, descobrimos uma forma de tornar a experiência e o onboarding mais “gamificado”, exatamente para capturar a emoção das pessoas.

Fonte: Respostas a perguntas feitas no fórum Sydney Startups em 14 de janeiro de 2018

(De acordo com a Business Insider, citando jornalistas do The Moscow Times, essa foi a resposta de Durov para essas pessoas na época)

Você acredita que o mundo está ficando mais visual? Mais profissionais irão se preocupar com a sua comunicação e design? 

Pelo mundo, existe uma tendência forte para a comunicação visual. Nós estamos vendo quase toda indústria precisar de design – pessoas em vendas, que antes criavam cartas, e agora precisam fazer apresentações completamente visuais, jornalistas que agora precisam fazer gráficos para ilustrar suas matérias e profissionais de marketing que devem fazer ilustrações bonitas para as mídias sociais. Até mesmo em escolas vemos a necessidade maior de comunicação visual. O crescimento do Canva nos últimos anos acabou se apoiando nisso.

Fonte: Entrevista ao blog da AWS em 1 de fevereiro de 2018

Vocês têm a proposta de integrar as várias ferramentas de design, o que isso significa para o mundo Mobile?

A cada década, a indústria editorial passa por uma mudança radical puxada pela tecnologia. Quando a máquina de escrever surgiu, a digitação e a colagem vieram e substituíram completamente a impressão de páginas de metal. Então, quando surgiram os computadores de mesa, a edição de desktop substituiu completamente a composição de texto e colagem. Estamos vendo a mesma mudança acontecendo no momento com a internet, o HTML5, o Mobile e os Tablets, impulsionando a transformação do setor, em que o design editorial eletrônico está nos trazendo para a ‘nova era do design’, onde tudo nasce na web.

Se você olha para o processo de design para a web: você precisa pagar o Adobe, estudar design por alguns anos, encontrar um banco de imagens, fazer downloads de fotos, comprar fontes, comprar layouts, criar a imagem vetorizada usando Photoshop ou Illustrator, receber tudo isso por email, depois você pode, de fato, começar a criar algo com esses elementos. Depois finalizado, você manda em PDF por email para o cliente, talvez usando o Dropbox. Uma vez aprovado, você prepara o design para web. Muitas empresas foram construídas neste ecossistema. Para o Canva, tudo pode ser simples e integrado, com um clique você deve conseguir acessar ao banco de imagem e a biblioteca de fontes. Você deve ser capaz de colaborar online e você deve poder exportar a criação direto para as redes sociais, ou em PDF e PNG. O Canva integra esse ecossistema de design.

Fonte: Entrevista à Marketingmag em 29 de julho de 2015

Muitos veem o Canva como um competidor da Adobe, mas não é exatamente a Adobe que estava na cabeça de vocês quando criaram o Canva, não é? Qual era o programa e que tipo de usuário pensavam?

Queremos também entrar na concorrência com o PowerPoint. Vamos melhorar nossas ferramentas para apresentações. Atualmente, a área de criar apresentações é uma das mais usadas no Canva, mas tem espaço para crescer neste mercado. O PowerPoint tem um domínio grande do mercado, mas ele foi criado antes da Web. O Canva, por exemplo, tem ferramentas para se criar uma apresentação de TED Talk. Nós estamos pegando o poder dos produtos da Adobe e colocando ele nas mãos daqueles que estavam usando produtos da Microsoft.

Fonte: Entrevista ao TechCrunch em 2 de janeiro de 2018

Olhar para a Microsoft e para a Adobe também mudou o modelo de negócio de vocês? Como e por que se tornaram “freemium”?

Um dos nossos objetivos era fazer o design acessível a todos, e quando falamos todos, falamos todos mesmo, toda e qualquer pessoa, independente de renda e de onde vive no mundo. É por isso que começamos a oferecer parte do produto de graça. 

Queríamos ter certeza de que pequenas e micro empresas poderiam acessar esse mercado. 

(…) Existe uma forma diferente de pensar no nosso modelo de negócio [que é ir além do freemium]. No lugar do usuário pagar por um software, ele está pagando pelos ingredientes para o produto final. 

Fonte: Entrevista ao podcast The Small Business Big Marketing Show em 18 de julho de 2019

Você falou um ponto importante aí, que é o de como as pessoas acreditam que não entendem de design. E isso tem a ver com o que muitas outras empresas estão fazendo em outros mercados, como o IFTTT na automação ou a Tableau com a visão de dados. Como o Canva olha para esse tipo de visão de que o setor não pode se abrir para quem não entende dele? 

Havia um problema em criar design gráfico profissional, bonito, e capaz de engajar quando a empresa ou a pessoa não tinha dinheiro para pagar um software ou passasse anos estudando. E isso precisava ser resolvido. O design não pode ser apenas um conhecimento de nicho, que pode ser feito por poucos selecionados: todas as profissões precisam de design para comunicar as suas mensagens.

O mundo está rapidamente se tornando visual e o design se tornou uma parte mais e mais importante no nosso dia a dia.

 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

CONGRESSO NÃO DÁ A MÍNIMA ATENÇÃO PARA AS REFORMAS

 

Editorial
Por
Gazeta do Povo

| Foto: Pedro França/Agência Senado

BIE – Fachada do Palácio do Congresso Nacional, a sede das duas Casas do Poder Legislativo brasileiro, durante o amanhecer do dia. As cúpulas abrigam os plenários da Câmara dos Deputados (côncava) e do Senado Federal (convexa), enquanto que nas duas torres – as mais altas de Brasília, com 100 metros – funcionam as áreas administrativas e técnicas que dão suporte ao trabalho legislativo diário das duas instituições. Obra do arquiteto Oscar Niemeyer. Foto: Pedro França/Agência Senado

Os seres humanos dispõem de fantástico instrumento de comunicação, que é a linguagem expressa por palavras e sua estrutura de significados derivados das próprias palavras reunidas em frases, orações e períodos, cuja finalidade é expressar raciocínios, juízos, vontades, afirmações, negações, dúvidas e informações sobre qualquer coisa que se queira comunicar. Para que a comunicação por meio verbal ou escrito entre dois ou mais seres humanos seja possível, as palavras têm significado e função dentro da frase e da estrutura do discurso. Quando uma palavra começa a ser usada de forma abusiva, com sentido ampliado fora de sua significação real, a comunicação empobrece e passa a ser fonte de confusão.

Um dos casos em que uma palavra já não serve para se referir àquilo que era sua função original vem ocorrendo com a palavra “reforma”. Reformar poderia ser definido, simplificadamente, como dar nova forma a algo. Atualmente, no âmbito político, de Estado e de governo, fala-se tanto em reformas que já não dá para saber exatamente o que isso significa. As estruturas estatais, os códigos de convivência (penal, civil, tributário etc), e os grandes programas governamentais existem a partir de um princípio geral, seguido da definição sobre o que se deseja com eles, qual é sua estrutura, que fins pretendem atingir, a quem beneficiar ou punir – fase que pode ser chamada de “concepção”, a qual é seguida por normas operacionais para seu funcionamento.

Uma instituição, estrutura ou programa deve ter duas partes essenciais: a concepção, conforme referida acima, e execução. As grandes questões nacionais, estruturadas, discutidas, aprovadas pelo parlamento e uma vez funcionando como programas, projetos, atividades e outras ações diversas, recebem o impacto da realidade e devem passar por ajustes para adequar seu funcionamento àquela estrutura definida e aos objetivos e resultados esperados em sua execução. Tomando como exemplo, a estrutura da Previdência Social e todo seu conjunto de normas funcionais compõem um gigantesco instrumento para cumprir o objetivo de obrigar a sociedade a pagar contribuições a fim de prover proteção em forma de aposentadoria, pensão, auxílio acidente etc.


A elevada complexidade dessas estruturas recomenda que, uma vez aprovada e posta em funcionamento, aquela estrutura somente deva passar por reforma quando identificadas falhas ou omissões de natureza sistêmica ou funcional. Porém, problemas meramente operacionais devem merecer ajustes, porém não reforma. Aqui entra o problema com as palavras. Reforma significa dar nova forma, nova estrutura, novas regras, nova razão de ser, novos objetivos e alterações de sua configuração. Reforma é alteração profunda que muda a concepção e os fins de determinada estrutura, programa, projeto ou atividade e, justamente por isso, a prática de fazer reforma não deve ser banalizada, no mínimo porque são coisas financeiramente onerosas em sua elaboração e implantação, e demoram anos para maturação, consolidação e estabilização e cumprimento de sua função.

A Previdência Social é um exemplo notório dessa realidade, e estruturas e políticas com essas características, ainda que possam sofrer ajustes para correção de rumos operacionais, não devem passar por reformas o tempo todo, sob pena de se tornarem verdadeiros monstros disformes e, por isso mesmo, falidos e incapazes de cumprir adequadamente seus objetivos e propósitos. Uma das razões que levam o Brasil a ser visto com desconfiança pelos investidores, sobretudo os estrangeiros, é que tudo vive ameaçado de reformas o tempo todo, todos os candidatos e os governos falam que tudo precisa de reforma, e isso demonstra duas coisas: ou o Brasil nunca reforma aquilo que está funcionando mal ou as reformas feitas são sempre ruins e precisam ser substituídas por outras.

Agora mesmo, o Partido dos Trabalhadores (PT) por meio de seu líder maior, seus dirigentes e seus candidatos a cargos no executivo e no legislativo, vem dando uma contribuição à ideia de que tudo vai mal e, por isso, falar em desfazer algumas reformas e fazer outras. O PT vem criticando algumas reformas feitas ultimamente, como a reforma trabalhista, a reforma da Previdência Social, a autonomia do Banco Central, além de outras. O Brasil já vem sofrendo com a desconfiança dos agentes econômicos – o que reduz investimentos em empresas e negócios no país – por uma reforma que não fez: a reforma tributária que é anunciada todos os anos e assim ajuda a piorar o ambiente de negócios.

A estrutura tributária brasileira é nitidamente uma coisa arcaica, onerosa e prejudicial à atividade econômica, tanto para empresários quanto para empregados e profissionais autônomos, além de ser um dos fatores determinantes da desigualdade de renda. Apesar de ser praticamente consenso que a estrutura tributária brasileira é péssima e de a reforma dela ser prometida todos os anos, por todos os governos, o máximo que tem sido feito são alguns remendos que, além de não resolverem o problema principal, pioram o que já é ruim. Agravando tudo, em todas reformas tributárias (ou meias reformas) feitas desde 1974, a carga tributária aumentou. Esse é outro problema: reforma tributária no Brasil virou sinômino de aumento da carga tributária.

Uma das marcas dos países desenvolvidos é que suas estruturas principais são estáveis e duráveis. Ainda que os governos mudem e tenham programas diferentes, existe segurança jurídica quanto à manutenção das estruturas, programas e políticas que permitiram ao país alcançar o desenvolvimento, e não se fica jogando o tempo todo com aquilo que é moldura institucional, como é caso das leis que regulam as relações entre o capital e o trabalho; a carga tributária e o arcabouço de impostos; e a configuração da previdência social. A banalização da ideia de reformas no Brasil e o fato de que as reformas realmente necessárias não serão feitas são costumes que continuarão em cena, sobretudo em anos eleitoral, e continuarão prejudicando o crescimento econômico e o desenvolvimento de que tanto o país precisa.


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