segunda-feira, 23 de agosto de 2021

BRASIL PERDE 16% DE SUA ÁGUA EM 30 ANOS

 

  1. Sustentabilidade 

Estado mais afetado é o Mato Grosso do Sul, onde mais da metade do recurso foi perdido desde 1990; todas as regiões e biomas foram afetados segundo pesquisa do MapBiomas

Emílio Sant’Anna, O Estado de S.Paulo

Em 30 anos, 15,7% da superfície de água do Brasil desapareceu. No Estado mais afetado, o Mato Grosso do Sul, mais da metade (57%) de todo o recurso hídrico foi perdido desde 1990. Ali, essa redução ocorreu basicamente em um dos biomas mais importantes do País, o Pantanal

Todos os biomas brasileiros foram afetados e suas perdas mensuradas em pesquisa inédita do MapBiomas, projeto que reúne universidades, organizações ambientais e empresas de tecnologia. Ao todo, 3,1 milhões de hectares de superfície de água sumiram, o equivalente a mais de uma vez e meia de todo o recurso hídrico disponível no Nordeste em 2020. 

Impacto para o futuro
Queimada explica redução registrada pela pesquisa inédita e projeções indicam que até 2050 Brasil pode registrar perdas de 25%; na imagem, incêndio registrado no Pantanal em 2020  Foto: REUTERS/Amanda Perobelli

Das 12 regiões hidrográficas, oito revelam hoje os efeitos do desmatamento, da mudança climática e da destruição de mananciais, refletido na crise hídrica que afeta o meio ambiente e a geração de energia elétrica. “Nesse ritmo vamos chegar a um quarto (25%) de redução da superfície de água do Brasil antes de 2050”, afirmou Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas. 

Após Mato Grosso do Sul, completam as três primeiras posições da lista: Mato Grosso, com perda de quase 530 mil hectares, e Minas Gerais, com saldo negativo de mais de 118 mil hectares. Boa parte dos pontos de maior redução encontram-se próximos a fronteiras agrícolas, o que sugere que o aumento do consumo e a construção de represas em fazendas, que provocam assoreamento e fragmentação da rede de drenagem, trazem prejuízos para a própria produção. 

Para Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil, a pesquisa é um recado para os “tomadores de decisões de que é preciso mudar imediatamente essa trajetória de degradação que o Brasil tem escolhido”. Ele destaca que a criação de reservatórios em propriedades particulares é um dos pontos mais preocupantes. 

“Quando a gente vê a discussão no Congresso sobre a flexibilização dos requisitos de licenciamento ambiental, não estão sendo considerados os cuidados que precisam ao serem feitas barragens dentro de propriedades privadas que causam perdas (para as bacias)”, analisa Voivodic.

O estudo também mostra a relação entre regiões afetadas por queimadas redução de água. O município que mais pegou fogo entre 1985 e 2020, segundo o MapBiomas Fogo, e que mais perdeu água nesse período, foi Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Cáceres, o quinto que mais queimou no País, é o segundo em perdas. 

Além dos impactos ambientais, o problema detectado pela pesquisa implica perdas econômicas consideráveis. “Em algumas regiões de fronteira agrícola, como o Cerrado, chegar a um quarto de redução vai significar também o fim da safrinha”, diz Azevedo, se referindo às culturas anuais mais curtas e que têm grande peso financeiro para os produtores. 

Relação

O alerta do pesquisador converge com o relatório do IPCC publicado neste mês. O painel climático da ONU apontou que até 2040, uma década antes do que era previsto, a temperatura média da Terra deve chegar a 1,5 grau acima dos níveis pré-industriais. Entre as consequências para o Brasil estão a perda da capacidade de produção agrícola causada por estiagens no Centro-Oeste. O mesmo efeito climático se espera no Nordeste e na Amazônia. 

Por lá, o estudo do MapBiomas também mostra esses efeitos. Até mesmo a bacia do Rio Negro perdeu superfície de água. Considerando o início e o final da série, foram mais de 360 mil hectares, queda de 22%. A queda mais acentuada ocorreu entre 1999 e 2000, com redução de mais de 560 mil hectares, ou um pouco mais de 27% a menos.

O que aconteceu com essa bacia, inclusive, é um exemplo. Após reduções acentuadas, mesmo anos com mais chuvas não são capazes de recuperar o estado inicial. Ou seja, os rios recuperaram, no máximo, parte dessas perdas. 

Para o coordenador do MapBiomas, o trabalho reaqlizado pela ANA (Agência Nacional de Águas) é bom e as leis que regulam o uso da água no Brasil estão bem estabelecidas. O problema está mesmo no desmatamento, mudança climática e descaso com mananciais. 

A postura negacionista em relação aos ataques ao meio ambiente do governo Jair Bolsonaro (sem partido), que minimiza os impactos do desmatamento e fragiliza a fiscalização ambiental, preocupa especialistas.

Na gestão Bolsonaro, o número de focos de incêndios em regiões como Amazônia, Pantanal e Cerrado disparou. Em 2020, o Cerrado brasileiro assim como o Pantanal registraram as piores queimadas já captadas pelos satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia

De acordo com estudo do próprio MapBiomas, todos os anos, uma área maior que a Inglaterra pega fogo no Brasil. A área queimada desde 1985 chega a quase um quinto do território nacional. Foram 1.672.142 km², o equivalente a 19,6% do Brasil. O fogo e escassez hídrica acionam um sinal de alerta. “Isso reforça a mensagem aos tomadores de decisão de que é preciso mudar imediatamente essa trajetória de degradação que o Brasil tem escolhido. Os prejuízos que estamos causando ao planeta vão necessariamente impactar nossa economia”, diz o diretor do WWF-Brasil.

GRUPOS EMPRESARIAIS ASSOCIAM COM STARTUPS NA BUSCA DE INOVAÇÃO

Entre maio de 2020 e junho deste ano, acordos desse tipo saíram de 13,4 mil para 26,3 mil, e o número de empresas maiores que buscam essas parcerias passou de 2,8 mil para 4,9 mil

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

A aposta das empresas tradicionais em parcerias com startups para avançar no campo da inovação vem crescendo. Entre maio de 2020 e junho deste ano, o número de acordos desse tipo praticamente dobrou, saindo de 13.433 para 26.348. O valor total de contratos fechados subiu de R$ 800 milhões para R$ 2,2 bilhões – um crescimento de 175%, segundo a plataforma 100 Open Startups. “A aproximação das empresas com os empreendedores vem crescendo ano após ano, mas ganhou ainda mais impulso com a pandemia e a necessidade de digitalização”, diz o cofundador da plataforma de inovação, Rafael Levy.

Esses números mostram uma clara mudança de perfil. Se, no passado, o desenvolvimento de novos produtos e de soluções vinham de programas de P&D e laboratórios criados dentro das companhias, hoje boa parte das inovações adotadas vem de fora.

A velocidade das mudanças tecnológicas tem sido um dos motores desse movimento. Nos últimos anos, as empresas entenderam que, se ficassem fechadas em seus ambientes, teriam mais dificuldades para inovar e poderiam perder competitividade diante dos concorrentes. Normalmente, o tempo e o dinheiro gastos dentro dos centros de pesquisa das empresas são maiores quando comparados à exploração do ecossistema de startups, formado por mais de 15 mil empresas, dizem especialistas.

Neste ano, o número de companhias que buscou startups para fazer parcerias saltou de 2.825 para 4.982 – aumento de 76%. “Ficamos bem impressionados com o crescimento. E agora percebemos que não são só multinacionais e grandes corporações. Começamos a ver médias empresas iniciando esse processo”, diz Levy. Isso traz mais competitividade para o mercado, cria novas oportunidades e incentiva a abertura de startups. É um círculo virtuoso. 

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Horai, da Ambev: ‘É preciso portas abertas para inovação’ Foto: Felipe Rau/Estadão

Jornada. Os números evidenciam que, daqui para frente, a jornada da inovação não será feita mais sozinha. Os executivos e empresários descobriram que é mais fácil inovar junto do que separado, e que o caminho é mais curto. “Hoje acredito que quase a totalidade das empresas de médio porte para cima vai ter uma experiência com startup nos próximos meses”, avalia Luiz Ponzoni, sócio da PwC Brasil.

No caso da gigante das bebidas Ambev, essa experiência se repetiu mais de 200 vezes no ano passado, o dobro dos contratos fechados nos cinco anos anteriores. A empresa ficou em primeiro lugar no ranking da 6.ª edição do “100 Open Corps 2021”  como a companhia que teve o maior engajamento com as startups – em 2020, a campeã foi a Natura. “Essa liderança vem de um contexto de transformação dentro da companhia, seja digital ou cultural. Estamos num mundo em que precisamos ter as portas abertas para a inovação”, diz o diretor de tecnologia da Ambev, Eduardo Horai.

Ele afirma que a Ambev tem hoje 11 programas de parcerias, aceleração e inovação. Num deles, a estratégia foi ouvir o que as startups tinham a oferecer de soluções, sem limitações de áreas e temas. Em outro, chamado de Aceleradora 100+, o objetivo é focado em ESG – sigla em inglês para as práticas ambientais, sociais e de governança. As startups precisam trazer soluções envolvendo questões de mudanças climáticas, agricultura sustentável, embalagem circular e gestão de água. Só nos dois programa, 26 empresas foram escolhidas para continuar desenvolvendo as soluções, diz Horai.https://arte.estadao.com.br/uva/?id=QX7rGy

O executivo conta que a ideia de fazer as lives de música no ano passado, durante o isolamento social, surgiu da parceria com a startup Winnin. “Por meio de inteligência artificial, ela ajuda a dar insights que permitem acompanhar o que está ocorrendo no mundo. Foi a partir daí que tivemos a ideia de fazer as lives.” 

Contratação. Na Ambev, como em todo o mercado, não há um modelo padrão de parceria com as startups. Horai diz que, às vezes, as empresas só querem um suporte para desenvolver seus produtos e ideias. Mas pode ser uma cocriação e um acordo comercial também. Há ainda outras opções, como prestação de serviço e aquisição do produto.

Segundo a “100 Open Startup”, cerca de 80% dos acordos de inovação aberta (com parcerias) implicam transferência de recursos da empresa maior à startup. O valor médios dos contratos aumentou de R$ 140 mil em 2020 para R$ 270 mil neste ano. “Esse processo é simples, genial e dinâmico. Mas exige não só acompanhamento como uma integração maior com a startup”, diz Marcus Ayres, diretor de indústria e inovação da consultoria Roland Berger

Segundo ele, a inovação aberta tem um caminho de forte crescimento no Brasil nos próximos anos. Isso porque, até então, esse era um mundo limitado a grandes corporações e que agora começa a ser descoberto por mais empresas. Para muitas delas, no entanto, o modelo terá de ser um pouco diferente, diz Ayres. Nem todas as companhias têm condições de montar estruturas grandes para isso. “Mas temos Sebrae, Fapesp e Senai, além das câmaras de comércio, que podem ser um canal para encontrar parceiros.” Além disso, completa ele, é possível procurar outros grupos que tenham o mesmo problema e tentar uma solução em conjunto. O importante é buscar a inovação.

Rodolfo Santos, presidente do BMG Uptech, braço de inovação do Grupo BMG, concorda. “Temos de unir forças e aproveitar o melhor de cada um. Uma grande empresa é como um transatlântico, difícil de manobrar. A startup é como um iate, mais flexível.” A empresa, que ocupa a terceira posição do ranking da 100 Open Corp pelo segundo ano consecutivo, já investiu em mais de 80 startups. E deve continuar nesse ritmo nos próximos anos.

Essa também é a previsão da siderúrgica ArcelorMittal. A empresa manteve a segunda posição no ranking com soluções focadas nos problemas dos clientes, como crédito; em logística para varejo; e também na área de saúde para os funcionários. Segundo Paula Harraca, diretora de Estratégia, ESG, Inovação e Transformação do Negócio da companhia na América Latina e Mineração Brasil, hoje 70% das inovações feitas em parcerias são voltadas para o “core business” da empresa. Outros 30% estão relacionados a novos mercados e fronteiras de negócios.

 

AGÊNCIAS DE INFLUENCIADORES DE MARKETING NO BRASIL

 


Prêmio iBest 2021 reconhece as maiores agências de influenciadores do país

18 DE AGOSTO DE 2021 – Há dez anos o termo influenciador sequer existia na forma como é usado hoje. Agora, o marketing de influência alcança números significativos e modificou a forma de vender ideias, serviços e produtos, seja na internet ou fora dela. Um estudo do instituto de pesquisa Nielsen mostra que 92% dos consumidores têm mais confiança em recomendações de outras pessoas do que nas indicações feitas pelas marcas. Outra pesquisa, esta da PwC, aponta que 77% dos consumidores brasileiros entrevistados afirmam que informações coletadas nas redes sociais influenciaram suas compras.

Diante de dados tão relevantes, a presença de agências especializadas em influenciadores se tornou uma realidade relevante e necessária na dinâmica do mercado. A lista divulgada hoje pelo prêmio iBest mostra as dez que estão se destacando mais no setor, pelo sucesso de seus agenciados. A premiação seleciona e pontua as melhores baseada na classificação e resultados obtidos por seus clientes, parceiros e canais no Prêmio iBest 2021. Em outubro serão anunciadas as três melhores do Brasil (as Top3) e em novembro serão conhecidas as vencedoras.

Top10

Confira as Top10 Agências de Influenciadores no Brasil:

•             Loud

•             Mattoni

•             Melina Tavares

•             Mudah

•             Mynd 8

•             MZ.id

•             Non Stop

•             Play 9

•             Talismã Digital

•             ZYB

•             Startup Valeon no Vale do Aço

Para Marcos Wettreich, CEO do iBest, os influenciadores são as novas mídias, e as agências são as responsáveis pelo crescimento organizado deste novo mercado. “Ao reconhecer as melhores agências de influenciadores, de acordo com o sucesso de seus agenciados, o iBest viabiliza uma real certificação da qualidade do trabalho destas, para que estas tenham a visibilidade e reconhecimento merecidos”, complementa Wettreich.

História

O iBest foi realizado pela primeira vez em 1995 e aconteceu até 2008, período em que foi não somente o maior prêmio da internet do Brasil, mas também do mundo. Em 2003, foi adquirido pela Brasil Telecom (atualmente Oi). Em 2020, Marcos Wettreich assumiu, novamente, o controle da marca e relançou a premiação, ampliada e focada em todo o universo digital.

A Startup Valeon um marketpplace do Vale do Aço através do site da sua Plataforma Comercial é também um influenciador do comércio, do lazer, do entretenimento e do turismo da região para os empresários e consumidores.

QUEM SOMOS

A Plataforma Comercial da Startup ValeOn é uma empresa nacional, desenvolvedora de soluções de Tecnologia da informação com foco em divulgação empresarial. Atua no mercado corporativo desde 2019 atendendo as necessidades das empresas que demandam serviços de alta qualidade, ganhos comerciais e que precisam da Tecnologia da informação como vantagem competitiva.

Nosso principal produto é a Plataforma Comercial ValeOn um marketplace concebido para revolucionar o sistema de divulgação das empresas da região e alavancar as suas vendas.

A Plataforma Comercial ValeOn veio para suprir as demandas da região no que tange à divulgação dos produtos/serviços de suas empresas com uma proposta diferenciada nos seus serviços para a conquista cada vez maior de mais clientes e públicos.

Diferenciais

•             Eficiência: A ValeOn inova, resolvendo as necessidades dos seus clientes de forma simples e direta, tendo como base a alta tecnologia dos seus serviços e graças à sua equipe técnica altamente capacitada.

•             Acessibilidade: A ValeOn foi concebida para ser utilizada de forma simples e fácil para todos os usuários que acessam a sua Plataforma Comercial , demonstrando o nosso modelo de comunicação que tem como princípio o fácil acesso à comunicação direta com uma estrutura ágil de serviços.

•             Abrangência: A ValeOn atenderá a todos os nichos de mercado da região e especialmente aos pequenos e microempresários da região que não conseguem entrar no comércio eletrônico para usufruir dos benefícios que ele proporciona.

•             Comprometimento: A ValeOn é altamente comprometida com os seus clientes no atendimento das suas demandas e prazos. O nosso objetivo será atingir os 766 mil habitantes do Vale do Aço e poder divulgar para eles os produtos/serviços das empresas das diversas cidades que compõem a micro-região do Valeo do Aço e obter dos consumidores e usuários a sua audiência.

Missão:

Oferecer serviços de Tecnologia da Informação com agilidade, comprometimento e baixo custo, agregando valor e inovação ao negócio de nossos clientes, respeitando a sociedade e o meio ambiente.

Visão:

Ser uma empresa de referência no ramo de prestação de serviços de Tecnologia da Informação na região do vale do aço e conquistando relacionamentos duradouros.

Valores:

•             Integridade – Ética e Transparência

•             Responsabilidade – Profissional, ambiental e social

•             Inovação – Busca pelo melhor

Nossos contatos: Fones: (31) 3827-2297 e (31) 98428-0590 (Wpp)

E-MAIL: valeonbrasil@gmail.com

Site: https://valedoacoonline.com.br/

MINISTRO DE TOGA NOVA

 

Contos de fadas

Por
Paulo Polzonoff Jr. – Gazeta do Povo

Quando Hans Christian Andersen escreveu “A Roupa Nova do Rei”, ele não esperava que sua história fosse virar realidade num reino tropical.| Foto: Reprodução/Wikipedia

Era uma vez um bandido muito malvado, mas muito inteligente, cujo nome se perdeu no lodo da história. Uns o chamam de José, outros de Daniel . Condenado e preso, mas depois solto porque tinha como carcereira uma Justiça que além de cega não batia muito bem das ideias, por algum motivo o bandido veio parar no Bananão (apud Ivan Lessa), um reino governado pelo Conselho de 11 Ministros.

Chegou de mansinho, o bandido. E já foi tratar com o ministro que ele sabia o mais vaidoso e, portanto, suscetível a seus encantos diabólicos. Por meio de um intermediário, ele ofereceu seus serviços de consultoria política. Mas, como o ministro não concordasse com o valor, o bandido resolveu incluir no pacote seus talentos de alfaiate. No que o vaidoso ministro concordou de pronto, crendo estar fazendo um negócio da China.

Não que o ministro precisasse de uma toga nova. Vaidoso como era, ele tinha todo um armário cheio de togas em tons de preto os mais variados e que ele usava de acordo com o humor do dia. Quando estava possesso, furioso mesmo, e queria prender alguém por ofender sua frágil dignidade, o ministro usava um preto mais básico. Quando queria posar de defensor da democracia, no entanto, ele optava por um preto cintilante que muitos confundiam com vermelho-comuna.

A toga que o bandido-alfaiate ofereceu a esse ministro como brinde no pacote de consultoria política era diferente. Ela era feita com um tecido especial, cujo tom preto-trevas só poderia ser admirado em toda a sua plenitude pelas pessoas mais inteligentes do Bananão. “Essa toga também o fará tomar decisões mais democráticas, constitucionais e de acordo com os mais elevados padrões do Estado Democrático de Direito Inc.”, disse o bandido-alfaiate naquele tom melífluo dos grandes estelionatários.

Durante a negociação, e diante da hesitação do ministro, o bandido-alfaiate abriu uma maleta e dela tirou uma amostra do tecido com o qual confeccionaria a toga. Ou melhor, A Toga. O ministro, obviamente, não viu nada. Mas jamais admitira isso. “Que lindo!”, disse, olhando para as mãos vazias do bandido-alfaiate e, por um instantenzinho de nada, questionando a própria inteligência. A dúvida o deixou ainda mais ansioso para ter em volta do corpo magro a toga que o tornaria o supremo entre os supremos.

Faltam uns poucos retoques
O tempo passou. Instalado numa mansão no Lago Sul que fazia as vezes de ateliê, o bandido-alfaiate se dedicava aos conluios nada republicanos, ao mesmo tempo em que dizia estar dando os últimos retoques na toga mágica. Um dia o ministro, sem aguentar de ansiedade, foi à casa do bandido-alfaiate conferir como estavam os trabalhos. Um repórter fotográfico que passava por ali viu e tirou uma foto. Que, infelizmente, nunca ganhou a luz do dia, porque o Conselho de 11 Ministros tratou logo de abafar o caso, decidindo que a realidade era fake news.

Na mansão, o bandido-alfaiate apontou para um manequim nu. “Taí. Uma beleza, não é? Faltam uns poucos retoques. Não estou muito satisfeito com essa parte aqui, ó”, disse ele, fingindo pegar a toga com todo o cuidado do mundo. A fim de não ser visto pelo que era, o ministro sorriu e meneou a cabeça como se entendesse tudo de moda. “Não precisa se preocupar, não. Para mim está ótima assim. Não gosto de gente perfeccionista”, disse o ministro ao bandido-alfaiate. Que não era bobo nem nada e respondeu: “O senhor é quem sabe, excelência”.

Assim saiu da mansão no Lago Sul o ministro, levando consigo um pacote de vento que ele acreditava ser uma toga mágica. Na sacola, um folheto o instruía a vestir o traje sempre que lhe coubesse tomar uma decisão daquelas capazes de afetar as bases da democracia. Como prender arbitrariamente pessoas com opiniões estúpidas, por exemplo.

No dia seguinte, o ministro vaidoso apareceu no Conselho para dar expediente, levando consigo a toga mágica, mas disposto a só usá-la nos casos especiais em que precisasse demonstrar toda a sua inteligência, saber jurídico e moral elevada. Tudo corria bem, até que entrou esbaforido no gabinete dele um outro ministro. “Você não sabe o que aconteceu!”, disse ele ao vaidoso-sem-nome, mas que todo mundo sabe quem é. “Atacaram a nossa dignidade! Com fake news! Olha só a mancha aqui na minha toga”, choramingou.

O ministro vaidoso não viu nada. Mas, pensando talvez que fosse assim uma mácula invisível na frágil dignidade do Conselho, levantou-se, foi até o armário, pegou a toga mágica, pensando: “Agora eu se consagro!”. Vestindo o nada diante do outro ministro, que neste momento já havia se encolhido em posição fetal, murmurando “Tadinha da democracia, tadinha da harmonia entre poderes”, ele tomou ali mesmo a decisão de abrir um inquérito sobre fake news. Mas só no dia seguinte, porque o STF, digo, Conselho não paga hora extra.

E deixaram para lá
E foi o que ele fez. De ofício, como se diz, e passando por cima da Constituição, ele mandou prender e censurou opositores, tudo em nome do bem comum, da defesa de democracia e da dignidade das instituições. Os demais ministros, ao verem o vaidoso cometer todas essas barbaridades, a princípio se preocuparam. Mas daí lembraram que ele usava a toga mágica cujo negror só podia ser admirado pelos mais inteligentes. E deixaram para lá.

O ministro estava todo pimpão, peticionando a si mesmo, investigando e julgando, e não percebeu quando por uma portinhola lateral do Conselho entrou um menino chamado Bob. Para ser bem sincero, Bob era uma espécie de idiota da aldeia. Mas isso não vem ao caso. O que importa é que o menino meio tantã entrou no plenário do Conselho e, vendo o ministro fazer o que fazia, não perdeu tempo, gritando: “É inconstitucional! É inconstitucional!”.

Diante da obviedade da constatação, os demais ministros se entreolharam. E, talvez um tiquinho tarde demais, perceberam que o vaidoso-sem-nome não vestia toga mágica coisa nenhuma. O próprio ministro se encolheu, lembrando de seus tempos de constitucionalista e se dando conta, pela primeira vez, que havia manchado sua biografia com o preto-trevas da toga mágica inexistente.

Tudo caminhava para um desfecho de Disney quando o ministro se levantou e, surpreendendo a todos, mandou prender Bob. Enquanto o menino era levado para a Masmorra de Bangu I, o ministro dizia aos demais para não se espantarem. “Esses são os poderes constitucionais a mim conferidos pela toga mágica. Não adianta explicar. Vocês não entenderiam”, disse, rindo e limpando uma única gota de suor que escorria da calva.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/polzonoff/a-toga-nova-do-ministro-um-conto-de-hans-christian-andersen-adaptado-a-esses-tempos-bicudos/
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SUPREMO FEDERAL E O PROCESSO LEGAL

 

STF

Por
Alexandre Garcia – Gazeta do Povo

O governo federal pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão da ordem para pagamento de R$ 16,1 bilhões em precatórios no próximo ano.| Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF

Já chegou a Porto Príncipe, no Haiti, o KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira que foi carregado com dez toneladas de auxílio, principalmente medicamentos e equipamentos hospitalares. Além de 32 bombeiros especializados em buscas e cães farejadores para ajudar em mais um terremoto no pobre Haiti. É a solidariedade brasileira humanitária mais uma vez presente no Caribe.

Pelo tamanho do Brasil na América Latina, fazendo fronteira com quase todos os países da América do Sul, o Brasil deveria ocupar um lugar ainda mais proeminente, com mais protagonismo, e com a liderança econômica e política na região.

Pedido de impeachment de Moraes
O presidente Bolsonaro, cumprindo o que havia prometido, vetou o fundo eleitoral de R$ 5,7 bilhões. Também cumprindo com a sua palavra, mesmo correndo o risco de uma derrota, o presidente mandou para o Senado a proposta de impeachment contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.

O risco de que a proposta não seja escolhida é muito grande. Mas talvez ele tenha avaliado que o risco maior é de ser tido como não cumpridor da palavra.

Devido processo legal
O Supremo reagiu, dizendo que é preciso observar o devido processo legal. Eu me pergunto: o Supremo tem observado o devido processo legal? Esse inquérito do fim do mundo, por exemplo, mistura tudo: não tem devido processo legal, não tem Estado democrático de Direito. É um inquérito puramente totalitário, monocrático, e baseado em uma falsidade.

O artigo 43 do Regimento Interno diz que, se o crime for cometido dentro das dependências do STF, o Supremo investiga. Mas não foi dentro das dependências do Supremo, todo mundo sabe.

O fato desse inquérito ter sido confirmado no Supremo não significa que ele seja legal. Ele continua sendo ilegal. Basta vermos que o mesmo órgão é a (suposta) vítima, o queixoso, o investigador, o promotor, o juiz e o executor.

Rendimentos bloqueados
A Justiça Eleitoral mandou bloquear os rendimentos de vários canais de notícia. Um jurista me disse que é possível fazer uma denúncia à Organização Internacional do Trabalho, porque não se pode bloquear os rendimentos de alguém que depende deles para viver.

É a mesma coisa do que dizer para um empregador: “não pague mais o salário desse funcionário, para que ele não continue mais nos criticando”. Foi o que disse a Justiça Eleitoral.

Sítio de Atibaia
Uma juíza de Brasília não aceitou a reabertura do inquérito contra Lula sobre o sítio de Atibaia. Ela alegou que não há prova suficiente, que o caso já prescreveu e que Lula tem mais de 70 anos.

A juíza escreveu que “não cabe ao Poder Judiciário atuar como investigador nem como acusador” – está dando um recado também para o Supremo. Ela disse que o juiz é o “fiador do devido processo legal e o garantidor da ampla defesa e do contraditório”.

Essas pessoas que foram envolvidas no inquérito do fim do mundo não tiveram isso.

Giro de Lula pelo Nordeste
O ex-presidente Lula está encerrando um giro pelo Nordeste. Não teve povo, ele foi falar com lideranças políticas para avaliar as suas chances. Até agora, Lula está na moita. Ele não está acreditando nas pesquisas de opinião. Ele prefere acreditar nas ruas, e não é o que as coisas estão mostrando.

A gente se pergunta, até que ponto lideranças políticas representam um povo? Com esse voto proporcional, eles ficam distantes do povo. Se houvesse um sistema de voto distrital, as lideranças ficariam próximas.

Eu vejo toda hora políticos dizendo em entrevistas: “o povo brasileiro quer isso” ou “o povo brasileiro não quer aquilo”. Será que é isso mesmo? Será que eles são realmente porta-vozes de cada um de nós?


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GOVERNO FEDERAL PREPARA NOVA RODADA DE CONCESSÕES

 

“Infra Month”

Por
Célio Yano – Gazeta do Povo

Trecho da Via Dutra em Jacareí (SP): leilão da nova concessão da rodovia deve garantir R$ 14,8 bilhões em investimentos privados| Foto: Clóvis Rossi/CCR Nova Dutra

Depois de leiloar com sucesso 28 ativos na chamada Infra Week, em abril, o governo federal prepara uma nova rodada de concessões de ativos de infraestrutura. Chamado até aqui de “Infra Month” ou de “mês das superconcessões”, o período entre outubro e novembro deve concentrar 20 leilões de concessão e arrendamento portuário, além do lançamento de mais dois editais de transferência de ativos públicos à iniciativa privada.

Com isso, devem ser garantidos ao menos R$ 41,3 bilhões em investimentos na infraestrutura de transportes, de acordo com o governo federal.

O calendário dos leilões ainda não foi confirmado, mas deve ter início no dia 29 de outubro com a concessão da Via Dutra, trecho de 625,8 km das BRs 116 e 101 que liga São Paulo a Rio de Janeiro, e para o qual são estimados cerca de R$ 14,8 bilhões em investimento privado. O contrato original, assinado em 1996, venceu em março, mas foi prorrogado até fevereiro de 2022 após o novo leilão ter sido adiado em meio à crise provocada pela pandemia do coronavírus.

A atual concessão, a maior do país em rodovias em volume de tráfego, com a passagem de 42 mil veículos por dia, tem 402 km. O novo contrato, de 30 anos, vai prever a construção de uma nova pista de subida, com viadutos e um túnel, para o trecho da Serra das Araras, além de faixas adicionais, vias marginais, duplicação de trechos, túneis, dispositivos de passagem em desnível, passarelas e passagens de fauna.

A disputa será pelo modelo híbrido de concorrência, no qual é estabelecido um valor máximo da tarifa e um teto de desconto. Ganha o leilão quem oferecer o menor custo ao usuário dentro do limite permitido, com o valor da outorga utilizado como critério de desempate entre os concorrentes.

Outra entrega rodoviária, também com licitação por modelo híbrido, é do trecho de 670,6 km das BRs 381 e 262, entre Minas Gerais e Espírito Santo, que deve atrair outros R$ 7,2 bilhões. O contrato, também de 30 anos, prevê 590,5 km de duplicação, 131,3 km de vias marginais, 138,1 km de faixas adicionais, a implantação de um contorno de 9,7 km na cidade de Manhuaçu (MG), além de 45 dispositivos de interseção em desnível, três túneis e 50 passarelas.

Deve ser lançado ainda o edital de concessão do trecho das BRs 116 e 493 que liga o Rio a Minas, com previsão de se captar mais R$ 9,01 bilhões em leilão programado para o início de 2022.

Portos: privatização e arrendamento de 16 terminais
Para o mesmo período estão previstas também a venda da Companhia de Docas do Espírito Santo (Codesa), com a concessão do Porto de Vitória e do Terminal Barra do Riacho, em Aracruz; e o arrendamento de outros 16 terminais, nos portos de Santana (AP), Mucuripe (CE), Salvador (BA), Santos (SP), Areia Branca (RN), Maceió (AL), Itaguaí (RJ), Imbituba (SC), Porto Alegre (RS), Cabedelo (PB) e Paranaguá (PR), totalizando mais R$ 2,97 bilhões de recursos contratados.

O conjunto de entregas será a maior licitação portuária dos últimos 15 anos, segundo o Ministério da Infraestrutura. Somente o arrendamento por 25 anos dos terminais STS-08 e STS-08A, do Porto de Santos, para movimentação de granéis líquidos, têm uma expectativa de cerca de R$ 1 bilhão em investimentos. A área atualmente é operada pela Transpetro, subsidiária da Petrobras.

Ferrovias: renovação de contrato da Malha Regional Sudeste
No modal ferroviário, a pasta pretende renovar o contrato da Malha Regional Sudeste, que interliga os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo com 1.643 km de ferrovias. Assinada em 1996, a atual concessão tem duração até 2026 e deve ter o prazo prorrogado para 2056.

O novo edital prevê investimentos de R$ 15,9 bilhões em 30 anos. Entre as obrigações estão a expansão do modal, com aumento da capacidade e melhorias de desempenho, além de contrapartidas para as comunidades que convivem com a linha férrea. Estão previstos ainda uma nova matriz de dormentes, modernização das locomotivas e vagões, compra de equipamentos, entre outras medidas.

No mesmo período entre outubro e novembro, o Ministério da Infraestrutura quer lançar o edital de concessão da Ferrogrão, novo corredor ferroviário que ligará Sinop (MT) às margens do Rio Tapajós, em Itaituba (PA), ao longo de 933 km. A ideia é criar uma rota ferroviária de escoamento de grãos, sobretudo soja e milho, da região Centro-Oeste pelo chamado Arco Norte, na Amazônia.

Hoje esse trajeto é feito pela BR-163, enquanto mais de 70% da safra mato-grossense é escoada pelos portos de Santos (SP) e de Paranaguá (PR), a mais de dois mil quilômetros da origem. O projeto prevê investimentos iniciais de R$ 8,4 bilhões, e o leilão deve ocorrer no início de 2022.

Aeroporto de São Gonçalo do Amarante (RN) será relicitado
Finalmente, deve ser feita ainda a relicitação do contrato de ampliação, manutenção e exploração do Aeroporto de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte, com a perspectiva de se captar mais R$ 295,8 milhões.

O equipamento, localizado na região metropolitana de Natal, foi o primeiro do país concedido pela Infraero à iniciativa privada, em leilão realizado em 2011. O contrato assinado com a concessionária Inframérica, de controle argentino, teria duração de 28 anos, mas foi rompido unilateralmente pela empresa em março de 2020 diante do número de usuários muito abaixo da expectativa.

Governo quer encerrar 2021 com R$ 100 bilhões em investimentos contratados
Com a nova rodada, o governo espera repetir os resultados da Infra Week, que, em três dias, conseguiu R$ 10 bilhões de investimentos para o setor e outros R$ 3,56 bilhões em outorgas. O montante representa metade de tudo o que foi contratado em 2021, de acordo com o Ministério da Infraestrutura.

A meta do governo é fechar o ano de 2021 com R$ 100 bilhões em investimentos privados contratados e 2022 com R$ 250 bilhões, considerando o período desde o início da atual gestão. Desde 2019, foram 71 ativos concedidos e 96 autorizações para concessão de terminais de uso privado, o que soma mais de R$ 72 bilhões contratados.

Para o ano que vem, está programada a sétima rodada de concessões de aeroportos e desestatizações portuárias, entre elas a do Porto de Santos, além dos leilões da Ferrogrão e da concessão de mais de 12 mil quilômetros de rodovias. Segundo o governo, essa agenda deve render ao menos R$ 146 bilhões de investimentos privados em 2022.


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PROGRAMAS DE AJUDA DEFEITOS E MÉRITOS

 

Editorial
Por
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Beneficiários sacando o Bolsa Família na agência da Caixa Econômica, em Sobradinho. Brasília/DF 30/05/2017. Foto: Rafael Zart/ASCOM/MDSA

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Conforme informações oficiais divulgadas nos últimos meses, da população total de 213,4 milhões, o Brasil tem 54 milhões de pobres, 14 milhões de miseráveis, 14 milhões de desempregados e 6 milhões de desalentados. Os desempregados devem ser comparados com a população economicamente ativa (aquela em condições de trabalhar), que está em torno de 106 milhões. Os desalentados, segundo o IBGE, são aqueles que têm condições de trabalhar, mas desistiram de procurar emprego – logo, estão fora dos 14 milhões de desempregados. O país entrou na pandemia em março do ano passado, fez o isolamento social e, aos que já estavam sem renda, ou na condição de pobres ou miseráveis, se juntaram os que perderam renda por terem de ficar em casa, entre os quais estavam 40 milhões de profissionais autônomos.

Se não o primeiro, mas um dos primeiros órgãos que expuseram a grave situação e o desespero que acometeu milhões de famílias foi o Banco Central, inclusive por meio de live feita por seu presidente, o economista Roberto Campos Neto, que já em abril de 2020 listava um extenso conjunto de informações e medidas para enfrentar a situação. Era um momento em que a pandemia se alastrava, demonstrava que a doença era grave e nem se falava na possibilidade de existir vacina que pudesse pôr fim ao flagelo que já atingia praticamente todos os países do mundo. O programa social robusto com o qual o Brasil contava era o conhecido Bolsa Família, cujo início é anterior ao primeiro governo Lula – sua origem estava no Bolsa Escola, do governo de Cristovam Buarque no Distrito Federal, e nos programas sociais do presidente Fernando Henrique Cardoso, como o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação e o Auxílio Gás.

A ajuda aos pobres e aos miseráveis não deve ser retirada, mas as políticas e os programas podem ser melhorados, inclusive um de seus aspectos, que é o foco

A gravidade da pandemia e a interrupção de grande parcela das atividades econômicas, com o fechamento das empresas e isolamento dos trabalhadores em casa, agravaram o quadro social em número e intensidade, de forma que era preciso adotar alguma providência para evitar inclusive uma catástrofe alimentar. Goste-se ou não do governo, é preciso reconhecer que a implantação do auxílio emergencial de R$ 600 – que é pouco se observado isoladamente, mas é expressivo se considerar que foi pago a 67 milhões de pessoas – foi uma medida acertada e necessária. O tempo passou, o auxílio emergencial foi renovado (com um valor menor), a vacina surgiu e, embora o cenário esteja melhorando, a vida está longe de retornar ao período pré-pandemia, o que recomenda à sociedade e ao governo que trate como prioridade a retomada do crescimento – para gerar produto, emprego, renda e impostos – e a formulação de um plano capaz de reduzir progressivamente o quadro de miséria, pobreza e desemprego.

Na prática, o melhor programa social é o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) e a geração de empregos. Porém, enquanto isso não acontece, o país precisa socorrer os desvalidos e os indefesos diante da gravidade revelada pela pandemia e do agravamento da pobreza. Mas, como política libertadora e de longo prazo, o país precisa reconhecer que programa governamental de ajuda não é capaz de reduzir a pobreza de forma permanente, que a redução dos chamados “bolsões de miséria” somente é possível quando as pessoas forem capazes de ajudar a si mesmas, e que a redução estrutural da pobreza depende essencialmente do crescimento econômico e da respectiva elevação da renda por habitante. A ajuda aos pobres e aos miseráveis não deve ser retirada, mas as políticas e os programas podem ser melhorados, inclusive um de seus aspectos, que é o foco.


Vale lembrar que a ideia de garantir uma renda mínima a todo cidadão, por meio dos impostos, não foi concebida por nenhum socialista, mas pelo economista liberal e monetarista Milton Friedman, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. A renda mínima seria paga pelo chamado “imposto de renda negativo”, isto é, a alíquota do imposto vai baixando à medida que baixa a renda do cidadão até o ponto de, para rendas nulas ou muito baixas, a alíquota se tornar negativa e, em vez de receber imposto das pessoas de renda zero ou abaixo de determinado valor, o governo pagaria ao cidadão, de forma que nenhum indivíduo nacional viveria abaixo daquele mínimo necessário. É sabido que, como máquina de produzir, o capitalismo é superior aos modos de produção concorrentes, mas, não sendo perfeito, tem entre seus problemas os ciclos econômicos – expansão e recessão – e deficiências na distribuição da renda nacional. As deficiências na distribuição da renda são agravadas pela ineficiência do “pedaço socialista do capitalismo”: o Estado, que é falho como instrumento de distribuição e cria suas próprias castas e privilégios.

Assim, a ajuda aos pobres e aos miseráveis é defensável e necessária, mas precisa vir com instrumentos que permitam ao beneficiado também fazer algo para melhorar a própria situação, sobretudo a inserção em programas de educação e qualificação profissional, como meio de libertar-se da dependência do auxílio governamental. Em um discurso no parlamento dos Estados Unidos, o presidente Franklin Roosevelt, que governou de 1933 a 1945, fez afirmação memorável: “A dependência continuada de ajuda induz a uma desintegração moral e espiritual do cidadão e, fundamentalmente, da fibra da nação”, disse ele. Não se questiona, por óbvio, a proteção e o auxílio eterno aos incapacitados definitivos por qualquer razão; esses devem continuar recebendo ajuda para sua sobrevivência, e provavelmente precisarão dela por toda a vida. Mas há provas vindas de outros países demonstrando que a ajuda continuada, quando oferecida sem redução e sem nenhuma contrapartida do beneficiário, acaba se tornando uma forma de emprego, como é o caso da rica Alemanha. O Brasil precisa fazer essa discussão com mais profundidade do que tem sido visto por aí, pois há muito o que melhorar em relação aos programas sociais de transferência de renda.


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