domingo, 27 de junho de 2021

VACINAÇÃO CONTRA O COVID AVANÇA NO BRASIL

Futuro da pandemia

Quando o Brasil volta à normalidade como nos EUA e na Europa

Por
Jean Pecharki – Gazeta do Povo

Brasil tem cerca de 70 milhões de pessoas vacinadas com a primeira dose contra a Covid-19, o que dá em torno de um terço da população.| Foto: Jonathan Campos/AEN

O Brasil tem visto um aumento no número de doses de imunizantes contra a Covid-19 aplicadas na população. Isso traz otimismo sobre uma possível aceleração na vacinação e que o país, em breve, possa controlar a pandemia e começar a voltar à normalidade — como ocorre atualmente na Europa e nos EUA.

Entretanto, exemplos de países vizinhos próximos, como Chile e Uruguai, mostram que nem uma imunização ampla garante o controle efetivo das mortes e contaminações causadas pela Covid-19.

Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil tem cerca de 70 milhões de pessoas vacinadas com a primeira dose da vacina contra a Covid-19 — o que dá em torno de um terço da população. Cerca de 25 milhões de pessoas já tomaram também a segunda dose, pouco mais de 11% dos brasileiros. Isso é muito distante de EUA, Europa, Chile e Uruguai.

Para o médico infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a vacinação já se mostrou eficaz contra a Covid-19 em várias partes do mundo, mas no Brasil essa proporção ainda não garante uma proteção adequada contra a doença. “A vacinação se mostrou efetiva, capaz de reduzir os desfechos, principalmente mais graves de mortalidade e hospitalizações por um tempo sustentável com duas doses. Uma dose só, sem dúvida, não nos dá a sustentação da proteção prometida pelos estudos”, diz.

Ele lembra que no primeiro semestre o país recebeu poucas doses dos imunizantes, o que prejudicou o andamento do processo de imunização da população. Já o segundo semestre promete uma aceleração na velocidade de vacinação, com uma quantidade maior de doses distribuídas.

Com relação à porcentagem da população brasileira que precisaria ser vacinada para garantir uma proteção mínima adequada contra a Covid-19, Kfouri evita fazer projeções e mesmo qualquer tipo de comparação com outros países que já imunizaram grandes parcelas de seus cidadãos.

“Não há um número mágico. Esse número depende da vacina utilizada, da velocidade com que você atinge essas coberturas vacinais. Depende também do surgimento de variantes ou não que possam escapar da eficácia dessas vacinas. Então aquele que arrisca um número está fadado a muitas subjetividades e erros, porque é imprevisível”, diz. “É esse conjunto que forma um cenário mais otimista ou não”.

Apesar disso, vários outros especialistas estimam que, para que a pandemia acabe, é preciso que pelo menos 70% da população esteja vacina. E o Brasil está muito longo desse porcentual.

Exemplos do Chile e do Uruguai mostram que é importante ter cautela
Chilenos e Uruguaios enfrentam uma nova onda de casos da doença, mesmo depois de atingirem níveis de imunização em massa da população comparáveis aos de nações da Europa e dos EUA quando começaram a relaxar as medidas restritivas.

De acordo com dados do Ministério da Saúde do Chile, até o dia 22 de junho, 64% da população já havia tomado as duas doses da vacina contra a Covid-19. Por lá, o imunizante mais utilizado é a Coronavac, responsável por mais de três quartos das doses aplicadas. A Coronavac tem uma eficácia geral mais baixa do que a de outras vacinas usadas na Europa e nos EUA.

Mesmo com o alto percentual de imunizados, o Chile viu um aumento das infecções nas últimas semanas, o que provocou um colapso no sistema de saúde e fez com que a capital, Santiago, tivesse de entrar em lockdown, no último dia 10 deste mês, para tentar frear as contaminações.

Na última terça-feira (22), o presidente chileno Sebastián Piñera anunciou que especialistas de saúde locais avaliam a possibilidade de distribuir uma terceira dose da vacina para tentar controlar a pandemia, ao mesmo tempo em que os adolescentes começaram a ser vacinados.

O Uruguai é outro exemplo de país com uma grande parcela da população totalmente vacinada, mas que ainda não conseguiu controlar a pandemia de maneira eficaz. Por lá, aproximadamente 42% da população de 3,5 milhões de pessoas já tomou as duas doses do imunizante contra a Covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde uruguaio. O país foi o primeiro da América Latina a vacinar crianças e adolescentes entre 12 e 17 anos. O imunizante mais utilizado no Uruguai também é a Coronavac.

Mesmo com a ampla cobertura vacinal, os uruguaios presenciaram nas últimas semanas um aumento no número de mortes causadas pela doença, e passaram a figurar entre os dez países do mundo com maior média móvel de óbitos num intervalo de sete dias.

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Coronavac, variante P1 e abertura mais acelerada podem ser as causas
O uso da Coronavac, menos eficaz que outras vacinas, é uma hipótese levantada para explicar o caso do Chile e Uruguai — mas não a única.

Biólogo e PhD em biologia celular e molecular, Fernando Reinach afirmou, em artigo publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo que abordava o caso específico do Chile, que a vacina usada pode ser uma das razões: “Talvez [a] Coronavac seja capaz de reduzir internações e mortes, mas não consiga impedir completamente a propagação do vírus”.

Apesar disso, Reinach também levanta outras hipóteses. “Possíveis explicações incluem diferenças climáticas, novas cepas e o relaxamento prematuro do distanciamento social.”

O Chile, por exemplo, se abriu mais rapidamente que nações europeias ao mesmo tempo em que uma cepa mais infecciosa do coronavírus se espalhava pelo país: a P1, também conhecida como variante gama, amazônica ou brasileira (essa cepa também é dominante hoje no Uruguai). Nesse aspecto, a situação do Brasil se assemelha mais à dos chilenos do que a dos europeus, que passaram por lockdowns rigorosos.

Em depoimento à CPI da Covid na quinta-feira (24), o epidemiologista Pedro Hallal, pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), disse entender que a situação do Chile se explica pela não adoção de medidas mais restritivas ao mesmo tempo em que começava a vacinação em massa, diferentemente de outros países que controlaram a pandemia. “Se o Chile tivesse feito como os outros países, que quando começaram a vacinação, adotaram medidas restritivas, talvez não tivesse chegado à necessidade de fazer lockdown”, disse.

Ou seja, a razão do sucesso de outras nações teria sido a adoção de medidas complementares: restrições fortes à circulação associadas à vacinação em massa. O Uruguai, assim como o Chile, também tem vacinação em massa acelerada, mas não adotou medidas mais restritivas de circulação das pessoas.

Hallal ponderou, contudo, que há indicadores de que a vacinação em massa impediu uma situação pior para os chilenos: “O que acontece no Chile, e a gente tem olhado os dados, é um aumento de casos, felizmente, não acompanhado de um aumento na mesma proporção de mortes”.

O epidemiologista da UFPel lembrou que estudos comprovaram que, especificamente no caso da Coronavac, a vacina é bastante eficaz na redução de mortes e hospitalizações provocadas pela Covid-19, mas não tanto em impedir a circulação do coronavírus. “Como os estudos já tinham mostrado as vacinas, especialmente a Coronavac, é muito mais eficaz para prevenir óbitos e hospitalizações do que para prevenir casos. Então essa é a explicação do Chile”, disse Hallal.

O epidemiologista disse ainda ser necessária uma cobertura maior do imunizante para que o Chile chegue à imunidade coletiva. “A imunidade coletiva, para ser atingida, precisa de 70% da população imunizada”, disse. Ou seja, com 64% da população vacinada, os chilenos ainda precisam de um pouco mais para atingir a imunidade de coletiva (ou de rebanho).

Velocidade da vacinação também é fator a ser considerado
O médico infectologista Renato Kfouri destaca que a vacinação é sim um dos pilares para o controle efetivo das contaminações, mas não é a única medida possível para garantir o sucesso do combate a uma pandemia.

Segundo ele, tão importante quanto a parcela da população vacinada é a velocidade com a qual os imunizantes são aplicados. Essa aceleração é fundamental para inibir o surgimento de novas variantes da Covid-19.

Um estudo realizado no município de Serrana, no interior de São Paulo, mostra que a velocidade da vacinação aliada a uma ampla cobertura faz a diferença no controle efetivo da pandemia — e que isso pode ser obtido mesmo com a Coronavac.

O município de 45 mil habitantes teve 95% de sua população imunizada com as duas doses da Coronavac em pouco mais de dois meses, entre fevereiro e abril deste ano. Após esse período os pesquisadores viram as mortes pela Covid-19 caírem em 95%. Já as internações foram reduzidas em 85%.

O infectologista Renato Kfouri diz que esse cenário, infelizmente, é irreproduzível em um curto ou médio prazo no Brasil. Ainda assim, o estudo comprova que a velocidade da vacinação aliada a uma grande parcela da população imunizada pode, de fato, controlar a pandemia. “Isso demonstra que a velocidade é uma variável importante. Qualquer vacina, com altas coberturas, em poucos meses, terá um resultado mais efetivo. Infelizmente não é o que teremos por aqui.”

Kfouri ainda diz ser muito difícil estabelecer uma comparação entre países para traçar cenários para o Brasil. Ele lembra que cada nação adotou medidas diferentes de controle da pandemia que vão além da vacina, como distanciamento social, lockdown, uso obrigatório de máscaras, etc.

“O Chile não tem uma cobertura igual aos Estados Unidos, de 70%. A velocidade com que esses países vacinaram também é bem diferente. O tempo de cobertura também é muito distinto. Existe ainda a questão das variantes que surgem no local de maior transmissibilidade e as medidas de distanciamento que foram adotadas ou não. Esse é outro fator que impacta os resultados”, diz.

Kfouri cita outro país que controlou a pandemia: Israel. “Quando você olha para Israel, que fez três lockdowns, junto com vacinação, os resultados foram espetaculares. É uma somatória de ações. As vacinas não são as únicas a controlar a pandemia.”

Apesar do sucesso de Israel, uma nova variante que começou a se espalhar pelo país (a indiana ou delta) acaba de forçar o governo local a dar um passo atrás na abertura do país: em ambientes fechados o uso da máscara voltou a ser obrigatório para os israelenses.

Segundo Kfouri, como a campanha de vacinação no Brasil não atingiu ainda os porcentuais mínimos para controlar a disseminação do coronavírus, é necessário reforçar outras medidas de prevenção. “Enquanto não se avança de uma maneira mais ostensiva no número de vacinados por aqui, as medidas de distanciamento, do uso de máscara, continuam sendo as ferramentas que vão auxiliar no controle da pandemia”, diz o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

O infectologista Renato Kfouri ressalta que nenhuma das vacinas disponíveis atualmente é 100% eficaz, mas reforça que o número de pessoas beneficiadas pela imunização será sempre imensamente maior do que aqueles indivíduos que, mesmo vacinados, venham a evoluir para casos graves e eventuais óbitos causados pela Covid-19.

“Chama a nossa atenção, claro, aqueles indivíduos que foram vacinados e acabaram adoecendo, e tendo casos graves da doença. Enquanto mantivermos taxas de infecções tão altas, vamos continuar vendo casos, infelizmente, de falhas vacinais, que corresponderão a uma pequena minoria daqueles vacinados”, diz o médico.


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BOLSONARO CRITICA CPI E STF APÓS MOTICIATA

 

Críticas do presidente
Por
Gazeta do Povo – Gazeta do Povo

(Chapecó – SC, 26/06/2021) Motociata em Chapecó. Foto: Isac Nóbrega/PR

Bolsonaro em motociata de Chapecó.| Foto: Isac Nóbrega/PR

Um dia após o depoimento dos irmãos Miranda na CPI da Covid, o presidente Jair Bolsonaro criticou neste sábado (26) a comissão parlamentar de inquérito do Senado e o Supremo Tribunal Federal (STF). Sem se referir à acusação dos irmãos Miranda de que foi avisado sobre supostas irregularidades na compra da vacina Covaxin, Bolsonaro disse: “Lamentavelmente, o Supremo decidiu pela CPI e decidiu que governadores são desobrigados a comparecer. Querem apurar o quê? No tapetão não vão levar”.

A CPI da Covid só foi instalada por decisão do STF, pois o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), aliado de Bolsonaro, estava se recusando a autorizar o funcionamento da comissão apesar de o requerimento de criação dela ter cumprido todos os requisitos legais. Nesta semana, porém, o STF barrou a convocação de governadores – bolsonaristas argumentam que o que teria de ser investigado não é o governo federal, mas os desvios de recursos para o combate à pandemia que ocorreu nos estados.

As críticas de Bolsonaro ao STF e à CPI foram feitas ao fim de uma “motociata” (passeio de motos) do qual ele participou em Chapecó (SC).

Por mais de uma vez, Bolsonaro usou a analogia do “tapetão” para dizer que querem afastá-lo da Presidência sem motivo. “Não adianta provocar, inventar, querer nos caluniar, nos atacar 24 horas por dia, porque não conseguirão. Só uma coisa me tira de Brasília: o nosso Deus. Não vão ganhar no tapetão ou inventando narrativas”, disse.


Bolsonaro insinua que o “tapetão” seria para eleger Lula
Sem citar o ex-presidente Lula (PT) nominalmente, Bolsonaro também afirmou que haveria interesse em elegê-lo por meio de uma fraude. E insinuou que isso teria sido feito pelo STF. “Tiraram um vagabundo [Lula] da cadeia, o tornaram elegível, e querem agora torná-lo presidente pela fraude”, disse o presidente.

Foi o STF que determinou a soltura de Lula e que restabeleceu os direitos políticos do petista, permitindo que ele volte a disputar eleições. Além disso, vários ministros do Supremo são contra a volta do voto impresso nas eleições – o que vem sendo defendido por Bolsonaro para evitar fraudes eleitorais.

“Tem eleições ano que vem. Se Deus quiser, com apoio do parlamento, [teremos] o voto [impresso] auditável. Vamos botar um fim, no mínimo, na sombra da fraude que deve acontecer com toda a certeza a cada eleição”, afirmou Bolsonaro nesta sábado em Chapecó. Bolsonaro costuma se referir a fraudes na eleição de 2018 e chegou a dizer que teria provas disso, mas nunca as apresentou.

Já a Câmara dos Deputados debate uma PEC para reinstituir o voto impresso para que o resultado da votação eletrônica possa ser auditado.

Apesar disso, a possibilidade de a PEC passar no Congresso sofreu um revés neste sábado (26). Em reunião, presidentes de 11 partidos, que representam dois terços dos deputados e senadores, decidiram se posicionar a favor da votação eletrônica e contra a adoção de voto impresso para apuração dos votos. Os partidos representados foram DEM, MDB, PSDB, PP, PSD, PSL, Avante, Republicanos, Solidariedade, Cidadania e PL.

Em entrevista à CNN, o ministro do STF, Luís Roberto Barroso, comemorou a posição dos partidos. Barroso, que também é presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é uma das principais vozes contrárias ao voto impresso.


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LEIS RIGOROSAS CONTRA CARTEL DAS EMPRESAS DE TECNOLOGIA

 

Acton University
Por
Gabriel de Arruda Castro, especial para a Gazeta do Povo

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Facebook quer aumentar restrições sobre informações consideradas falsas sobre vacinas.| Foto: Maicon J. Gomes/Gazeta do Povo

A tecnologia não é neutra, e os governos deveriam tomar medidas legais mais incisivas para impedir que as grandes empresas como o Google e o Facebook violem a privacidade e os direitos individuais das pessoas. Essa foi a conclusão de um painel sobre o poder da chamada “big tech”, nesta quinta (24), segundo dia da Acton University, um evento internacional que debate os princípios de uma sociedade livre.

O debate reuniu James Poulos, editor da revista The American Mind, Declan Ganley, CEO da Rivada Networks, e Shalini Kantayya, uma cineasta que produziu um documentário sobre os vieses dos algoritmos de reconhecimento facial.

“Eu fiquei assustada quando descobri a extensão com que os seres humanos estão terceirizando a tomada de decisões para máquinas, de uma maneira que altera vidas e modifica o destino das pessoas”, disse Shalini. O filme “Coded Bias”, dirigido por ela, foi um dos premiados do Festival de Sundance no ano passado. Shalini afirmou que, hoje, existe um sistema invisível decidindo, em alguns casos, “quem é contratado, quem vai para a faculdade e até mesmo a duração de sentenças judiciais”. Um dos problemas apresentados por ela neste documentário é o fato de que esses sistemas muitas vezes carregam vieses e preconceitos, embora sejam pretensamente neutros.

Poulos, por sua vez, afirmou que o problema criado pelo uso cada vez maior da inteligência artificial vai muito além das distorções apontadas no documentário. “Nós não devemos nos concentrar com a discussão sobre quem é colocado numa posição mais alta pelo algoritmo. O que nós precisamos fazer é restaurar a responsabilidade humana sobre essas tecnologias e preservar nossa habilidade de tomar decisões e lidar uns com os outros face a face”, disse ele.

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Os participantes do painel afirmaram ainda que um dos maiores desafios para os legisladores é a concentração de um poder desproporcional nas mãos de poucas grandes empresas de tecnologia – o que, para eles, configura um cartel.

Ganley também chamou atenção para um complicador: além das grandes empresas americanas por vezes adotarem políticas nebulosas quanto ao uso de dados pessoais, a situação pode se tornar ainda mais preocupante com o avanço do 5G. Ganley lembrou que a China se preparou para tomar a dianteira no desenvolvimento da tecnologia.

“Uma das minhas maiores preocupações é que essas tecnologias vão operar em plataformas desenvolvidas e mantidas em servidores que operam de acordo com as leis e a infraestrutura do Partido Comunista Chinês”, disse ele. Na opinião de Ganley, o domínio chinês nesse campo traria um “enorme problema de segurança cibernética e privacidade”.


Soluções legais
Os participantes do painel concordaram que a proteção da privacidade e dos direitos individuais dos usuários depende de legislações que coíbam a formação de cartéis no campo da tecnologia e estabeleçam normas mais claras sobre o destino dos dados pessoais.

Para Ganley, os governos devem tratar os dados individuais como propriedade privada, e aumentar o rigor quanto ao uso dessas informações para fins comerciais sem o consentimento explícito das pessoas. “É preciso reforçar as leis de propriedade privada. Vamos tratar nossos dados como propriedade privada e limitar o que pode ser usado sem o consentimento do usuário”, disse ele.

Uma das formas de fazer isso seria determinando que as empresas possam recolher dados dos usuários apenas de forma temporária, por um curto período, e sempre para fins específicos. “A maior ameaça ao livre mercado não é o comunismo ou o socialismo, são esses gângsters que defendem o livre mercado da boca para fora enquanto o destroem por dentro, eliminando toda a competição”, disse Ganley.

Para Shalini, os gestores públicos e a sociedade civil devem pensar formas de reduzir o poder excessivo das grandes empresas de tecnologia. “Deve haver algum tipo de regulação sobre essas empresas, e minha preocupação é que nove companhias baseadas nos Estados Unidos e na China largaram 20 anos na frente no que diz respeito à colega de dados pessoais, e elas vão tentar nos impedir de imaginar formas mais humanas e éticas de usar a tecnologia para o bem comum”, disse ela.

Além de defender a “descentralização” das novas tecnologias, Poulos criticou como as grandes empresas de tecnologia utilizam-se de itens da agenda progressista como uma forma de se isentar de cobranças sobre seu poder excessivo e seu uso de dados pessoais dos usuários: “Eles estão marchando juntos, dizendo que os compromissos éticos deles purificam suas organizações e os tornam imunes de qualquer controle ou fiscalização”, afirmou.


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AS ÚLTIMAS DECISÕES DE MARCO AURÉLIO NO STF

 

  1. Política 

Na hora do adeus, ministro deixa como herança o ‘Estado de Coisas Inconstitucional’

J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo

O ministro Marco Aurélio, que se prepara para se aposentar do STF e entregar ao Brasil, com a sua saída, a melhor realização dos 31 anos que passou no cargo, parece ter guardado para essas últimas horas o pior que poderia fazer para fechar a sua carreira. Pensava-se que a chave de ouro tinha sido a sua ordem para tirar de uma cadeia de segurança máxima, tempos atrás, um dos mais notáveis criminosos que constam nas anotações da polícia, o traficante André do Rap – que sumiu do mapa e está solto até hoje. Que nada. Antes de ir para casa, o quase ex-ministro conseguiu se superar e criar uma alucinação jurídica que não existe em nenhum lugar do mundo – o “Estado de Coisas Inconstitucional”.

Essa aberração impõe uma espécie de toque de recolher, ou estado de sítio, para todo e qualquer setor da administração pública que, segundo algum dos onze ministros, esteja com problemas. Não é preciso que alguém, ali, desrespeite qualquer dos 250 artigos da Constituição; basta que o PSOL, o PT ou coisa parecida – sempre eles – queiram bloquear o que está sendo feito na área e exigir uma intervenção do STF. Uma vez decidido pelos ministros que há um “Estado de Coisas Inconstitucional” em algum pedaço da máquina do Estado, é o tribunal que passa a mandar ali, diretamente ou através de interventores nomeados por ele. Não há nenhuma sílaba na Constituição que permita uma coisa dessas.

Marco Aurelio Mello
O ministro Marco Aurélio Mello, decano do STF, com aposentadoria marcada para julho  Foto: GABRIELA BILÓ / ESTADÃO

Algumas semanas atrás, Marco Aurélio baixou o “Estado de Coisas Inconstitucional” nas penitenciárias brasileiras – todas, sem exceção, das que investem fortunas nos presídios e cumprem todos os requisitos legais em sua manutenção, como as de São Paulo, até os mais sinistros chiqueiros onde se enfiam presos por esse interiorzão afora. 

O ministro disse que é tudo igual; deu três meses para o governo apresentar um “plano” que “resolva completamente”, nos próximos “três anos”, um problema de séculos. O interventor encarregado de mandar na área é o Conselho Nacional de Justiça – uma aglomeração de burocratinhas que jamais colocaram o pé num xadrez em toda a sua vida.

Agora, com a aposentadoria roncando no calendário, Marco Aurélio inventou o “Estado de Coisas Inconstitucional” para a covid e o seu tratamento. Se o plenário do STF aceitar esse novo surto, os “entes federados”, sob “a coordenação do Executivo” ficam obrigados, entre outros disparates, a fazer “análise diária dos impactos na redução dos casos, fornecer “máscaras de pano multicamadas” para 210 milhões de pessoas, adotar “medidas de bloqueio”, orientar a população a ficar em casa e outros despropósitos que circulam entre a ignorância, a burrice e a preguiça mental. Marco Aurélio não ouviu, ao baixar essa sua bula, o Conselho Federal de Medicina ou qualquer outra entidade da área médica ou científica; apenas executou o pedido de “18 entidades de trabalhadores”.

Mergulhado na sopa ideológica que o STF cozinhou em torno da covid, o ministro acabou se metendo numa sinuca de bico. Denuncia a “inação” do governo federal mas nada diz sobre o fiasco das autoridades locais a quem o próprio STF deu autonomia plena para gerir a covid. Não foram elas que criaram o “Estado de Coisas Inconstitucional”? E agora: quem vai mandar na área? Os mesmos que fracassaram? Marco Aurélio não sabe. Também não sabe quem vai fazer, na prática, “a política concertada” que, segundo ele, é indispensável para lidar com a epidemia. O ministro diz apenas que o STF vai atuar “incentivando a formulação e a implementação de políticas públicas”. Fica reservado ao “Legislativo e ao Executivo” o “campo democrático das escolhas”. Deu para entender alguma coisa de útil?

O FUTURO DO ETANOL

 

  1. Economia 

Mesmo sendo uma opção para a eletrificação da mobilidade, o etanol segue ameaçado porque países ricos e as grandes montadoras já optaram por um caminho para o carro elétrico

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

O que será do etanol quando todas as montadoras estiverem fabricando apenas carros elétricos, como têm avisado? Serão sucateadas as destilarias de álcool no Brasil, que produzem cerca de 30 bilhões de litros por ano? E o que será dos 40 mil postos de combustíveis espalhados pelo Brasil? E o custo da instalação de milhares de pontos de recarga das baterias?

Na edição desta sexta-feira, esta Coluna expôs o ponto de vista de Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE). Para ele, o carro elétrico a bateria recarregável foi a solução ambiental encontrada por países ricos, que não poderá ser adotada pelos países pobres, pelo alto custo, não só das baterias, mas da infraestrutura necessária para colocar os veículos elétricos em circulação. Ele continua apostando no futuro dos biocombustíveis com base no argumento de que, se o fundamento para a transição é a preservação do meio ambiente, então é preciso dar força para o etanol, porque o carro a álcool polui menos do que o modelo elétrico em voga.

Outro consultor da área, Paulo CardamoneCEO da Bright Consulting, não tem dúvidas de que o futuro da mobilidade é a eletrificação, mas não necessariamente a do carro elétrico com seu trambolho de bateria, que pega todo o chão do veículo e pesa mais de 500 kg.

Para ele, a corrida das montadoras baseada na “baterização” do carro elétrico não é viável, do ponto de vista da sustentabilidade, para os países mais pobres. Em seu lugar, aposta no hidrogênio como energia do futuro e na possibilidade de produção do elemento dentro do carro que, por sua vez, gerará a energia elétrica que moverá o veículo. É a tecnologia da célula de combustível (em inglês, Solid Oxide Fuel Cell – SOFC). Nessas condições, o etanol poderá tornar-se estratégico, na medida em que sua composição contém o hidrogênio necessário para produzir a energia elétrica que acionará o motor.

A vantagem adicional é a de que dispensará grandes mudanças na malha viária de recarga que, na verdade, exigiria despesas ainda mais altas com o modelo a energia elétrica produzida fora do veículo (overboarding). “A atual guinada para o carro elétrico é disputa por poder econômico. A Alemanha assumiu essa posição por conta do crescimento da China e os Estados Unidos também entraram nessa briga”, diz Cardamone.

Etanol cana
Na célula de combustível, o etanol passa por um reformador para extrair o hidrogênio que, por sua vez, será combinado ao oxigênio do ar na célula de combustível para gerar uma reação química (eletrólise) – responsável por gerar a eletricidade que alimentará a bateria do carro. Foto: Epitácio Pessoa/ Estadão 

Evandro Gussi, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), está engajado em garantir futuro para seu produto, o etanol, agora ameaçado. Ele repete os argumentos de Pires e de Cardamone, mas reconhece que será preciso conseguir que outros países adotem o etanol como fonte.

Há alguns anos, os produtores de etanol no Brasil não conseguiram a adesão do governo do Japão para trabalhar pela transformação do etanol em commodity. Agora, pretendem convencer a Índia e países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (FilipinasIndonésiaMalásiaMianmarCingapuraTailândia e Vietnã), também produtores de açúcar, a optar pelo etanol. O tempo dirá se obterão sucesso.

Outra questão consiste em saber se as montadoras se deixarão tocar pela lógica de que o carro com grandes baterias não deve ser a única nem a melhor solução. Para isso, teriam de adotar linhas diferentes de produção, com tecnologias díspares, o que hoje parece difícil diante das exigências de escala.

Gussi se apega às possíveis dissidências entre as montadoras. Observa que a Toyota optou, também, pelo híbrido, com um motor elétrico e outro flex a combustão. A Nissan e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), ligado à USP, renovaram parceria para tornar a célula de combustível a etanol comercialmente viável e adaptá-la ao uso de outros biocombustíveis, como o GNV. E o CEO da Volkswagen para América do Sul, Pablo Di Simanifestou entusiasmo pela adoção do etanol como principal fonte de alimentação da célula de combustível.

Essa posição em defesa do etanol enfrenta dois enormes obstáculos. O primeiro: os países avançados estão despejando enormes investimentos em mobilidade elétrica “baterizada”. O outro: as grandes montadoras já optaram por esse caminho e vai ser difícil revertê-lo, inclusive no Brasil.

Seja como for, o que parece inevitável é que, nos próximos anos, o governo brasileiro terá de optar por uma rota, como já está acontecendo com a maioria dos países líderes.

E será uma briga contra cachorros grandes./COM PABLO SANTANA

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

sábado, 26 de junho de 2021

GOVERNO AMEAÇA PUNIR QUEM FEZ DENÚNCIAS DE CORRUPÇÃO

 

 Por Maria Carolina Marcello – REUTERS

Por Maria Carolina MarcelloPresidente Jair Bolsonaro© Reuters/UESLEI MARCELINO Presidente Jair Bolsonaro

BRASÍLIA (Reuters) – O presidente Jair Bolsonaro negou nesta quinta-feira que tenha havido corrupção no processo de importação da vacina indiana contra Covid-19 Covaxin, e acrescentou que quem buscou “armar” a história “vai se dar mal”.

O presidente sustentou que a compra ainda não foi efetivada e que não houve sobrepreço das doses e aproveitou para questionar a motivação do deputado federal Luís Miranda (DEM-DF), que ao lado do irmão Luís Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, denunciou as supostas irregularidades.

“Nós não gastamos 1 centavo com a Covaxin. Não recebemos uma dose de vacina Covaxin. Que corrupção é essa?”, questionou, na tradicional live semanal pelas redes sociais às quintas-feiras.

“Determinei que a Polícia Federal investigue esse caso desse deputado, que tem uma ficha bastante extensa. Ele fez isso. Isso aconteceu em março. Quatro meses depois ele resolve falar para desgastar o governo. O que ele quer com isso? Ele andou de moto comigo em Brasília, esteve aqui conversando comigo… De repente, do nada, o cara ´vapt´. Vai ser apurado, e com toda certeza quem buscou armar isso daí vai se dar mal”, afirmou.

Bolsonaro disse ainda que haverá “providências” caso haja qualquer “roubalheira” em sua gestão.

Mais cedo, em evento no Rio Grande do Norte, o presidente rechaçou as denúncias, afirmou que acusações sobre corrupção em seu governo são “mentiras” para desgastá-lo, e aproveitou para atacar o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado, que deve centrar seu foco de apuração no processo de compra do imunizante da Índia a partir de agora.

Segundo o deputado federal, ele e seu irmão denunciaram a Bolsonaro irregularidades no processo de importação do imunizante. Eles alertaram um auxiliar direto da Presidência, pedindo que ele fosse avisado sobre um “esquema de corrupção pesado” na compra de vacinas, e chegaram a se encontrar pessoalmente com o presidente para tratar do assunto.

Os irmãos devem depor à CPI na sexta-feira e já avisaram que pretendem entregar ao colegiado toda a documentação que aponta de forma “clara”, segundo eles, as irregularidades no processo.

O Ministério Público Federal (MPF) também apura o caso. O MPF afirma que o contrato para a comprada Covaxin para a entrega de 20 milhões de doses apresenta valor total de 1,6 bilhão de reais, tendo sido a dose negociada por 15 dólares, preço superior ao da negociação de outras vacinas no mercado internacional, a exemplo da vacina da Pfizer.

NEGACIONISMO AO TRATAMENTO MATA

 

A banalização da palavra ‘negacionista’

Por
Cristina Graeml – Gazeta do Povo


No rol de palavras repetitivas, usadas para consolidar narrativas políticas e ideológicas, uma tornou-se insuportável de ouvir, tamanho o exagero de uso nesses tempos de pandemia. A palavra é ‘negacionista’.

Pronunciada à exaustão, por meses a fio, de forma vazia, acusatória e leviana, diz mais sobre quem fala do que sobre as pessoas para quem se dirige. Os “donos da verdade”, que incluíram mais esta pérola no vocabulário recente, sentem-se no direito de julgar todo mundo, de pessoas comuns a profissionais de saúde, pesquisadores e autoridades.

Para os adeptos da palavrinha maldita, bastou defender algo que eles repudiam, como a autonomia dos médicos e o direito que os pacientes têm de ser tratar logo no início dos sintomas, para classificar a pessoa de negacionista e culpá-la até mesmo pelas mortes por Covid.

Desde quando alguém que reconhece a necessidade de se tratar está negando a existência e o perigo da doença? É justamente o contrário. Quem acha que não precisa se tratar, que pode ficar esperando para ver se os sintomas se agravam, é que está minimizando os riscos reais de morrer.

Depois de meses incomodada com o uso indiscriminado e errado da palavra ‘negacionista’, decidi aproveitar essa ideia, banalizada ao extremo, para apontar o que talvez se comprove o maior erro dessa pandemia: o negacionismo do tratamento imediato aos doentes.


Politização da morte e do luto alheio
Na última segunda-feira (21), enquanto muitos se distraíam com as manobras da CPI do Senado, que não quer investigar nada, não está nem aí para os doentes ou mortos de Covid, busca só enfraquecer ou incriminar o presidente da República, a Câmara dos Deputados realizou uma sessão que deveria ter sido vista por todos os brasileiros.

Não era para discutir nada relacionado à pandemia, mas como o Brasil tinha acabado de ultrapassar a triste marca dos 500 mil mortos, usaram a sessão como palanque para os discursos populistas de sempre.

Durante as quase seis horas em que os deputados estavam definindo o texto da medida provisória para viabilizar a privatização da Eletrobras, inúmeros deles usaram a tribuna, mesmo que virtual, para um espetáculo digno do que temos visto na casa ao lado, o Senado Federal.

Vários deputados do PT, Psol e de praticamente todos os partidos de esquerda, que adoram jogar para a plateia e que, assim como quase todos os senadores da CPI, vivem tentando achar um jeito de incriminar o governo federal pelas mortes da pandemia, passaram uma tarde inteira sambando em cima dos caixões.

Fizeram o tradicional teatro, com plaquinhas estampando o número de vítimas fatais, para simular empatia pelas famílias, quando na verdade o discurso tinha o único objetivo de tentar atribuir ao presidente a responsabilidade pelas 500 mil mortes.

Há culpados pelas mortes?
Nessa sessão macabra, para variar, politizaram o tema e insistiram na tese de que não é um vírus que está matando e sim, alguém muito irresponsável e mal-intencionado. Em parte os críticos até têm razão, mas o canhão está sempre virado para o lado errado.

Se é para achar culpados há, sim, muitas possibilidades, embora até agora nenhuma delas tenha sequer esbarrado na CPI que se propôs justamente a isso.

Alguns prefeitos, governadores, secretários de saúde e outros funcionários públicos municipais e estaduais são suspeitos de desviar dinheiro da saúde seja na construção de hospitais de campanha que mal foram usados ou na compra de respiradores superfaturados, muitos sequer entregues.

O STF pode ter blindado governadores e prefeitos para que não precisassem depor; os senadores podem não querer ouvir esses políticos, mas a polícia federal, o Ministério Público e os tribunais de Contas estão atrás e ainda vamos ouvir falar desses casos. A verdade vai aparecer.

Tapa com luva de pelica no fim da sessão
Voltando à sessão de segunda (21) na Câmara Federal… Não foi pelos discursos deploráveis de deputados de esquerda que as seis horas de debates deveriam ter sido acompanhadas por todos os brasileiros. Foi pelo que disse o deputado Diego Garcia (Podemos-PR) no fim da sessão.

Ele aguentou ouvir barbaridades ao longo de uma tarde inteira mesmo estando afundado na dor do luto pela morte recente do pai, um dos 500 mil brasileiros vítimas fatais da Covid. Ao final da sessão pediu a palavra para escancarar quem são, na sua opinião e na de milhões de brasileiros, os verdadeiros patrocinadores das mortes por Covid no Brasil.

Num desabafo emocionado e autoexplicativo Diego Garcia conta como perdeu o pai de repente, aos 63 anos, sem qualquer comorbidade. É triste saber os detalhes do “vá para a casa e espere ter falta de ar”, especialmente quando sabe-se que não houve descuido.

Diego Garcia diz que o pai não era negacionista dos riscos da doença, buscou ajuda logo no primeiro dia de sintomas, mas foi mal oreintado. Quando o deputado se deu conta do que acontecia e encaminhou toda a família para acompanhamento com outro profissional de saúde, conseguiu salvar a mãe, o irmão, a cunhada e sobrinhos, que também estavam contaminados.

O pai já estava em fase mais avançada da doença. Não cabia mais, portanto, o tratamento precoce. Conforme preconizam os médicos que vêm tratando doentes com remédios off label a medicação costuma evitar a proliferação do vírus e a consequente tempestade inflamatória se for administrada nos primeiros dias de sintomas.

O relato ganha ainda mais peso quando o deputado revela que ele e a esposa, grávida de 37 semanas, também contraíram Covid, consultaram um médico em Brasília e, tal qual aconteceu com o pai, não houve qualquer orientação de tratamento, apenas para voltar para a casa e esperar.

Um segundo profissional de saúde consultado, do grupo que não se deixa contaminar pelo medo e pela patrulha dos negacionistas do tratamento, prescreveu a medicação e começou o acompanhamento pelos 5 dias em que se recomenda tomar os remédios. Ambos se curaram rapidamente.

Para ver o vídeo completo do desabafo do deputado na sessão de segunda na Câmara Federal clique aqui. Um trecho editado está disponível na versão deste artigo em vídeo no topo da página.

Dúvidas de quem ser recusa a ser negacionista
Perguntas incômodas vêm à mente depois de assistir à fala de Diego Garcia e todas remetem à palavra negacionista, especialmente às pessoas que se utilizaram dela tantas vezes nos últimos meses a ponto de terem interditado um debate tão importante quanto o da autonomia médica e o do direito de pacientes a buscar todos os tratamentos possíveis, especialmente durante uma pandemia.

Quantas mortes poderiam ter sido evitadas se os pacientes tivessem recebido orientação para procurar um médico logo após os primeiros sintomas? Quantos pacientes teriam conseguido evitar o avanço da doença se médicos e prefeitos não tivessem criminalizado o tratamento e ao menos encaminhassem para outro profissional os doentes que quisessem tentar se tratar?

Que número estaria estampado nas plaquinhas dos deputados lacradores se antivirais usados há décadas, e nunca antes associados a qualquer efeito colateral grave, tivessem sido prescritos também por médicos que assumiram postura negacionista do tratamento? E quão mais vazios estariam os hospitais a essa altura do campeonato?

Nada trará de volta as vidas que se foram. Mas seria prudente abolir o uso indiscriminado da palavra negacionista, com todos os preconceitos que ela carrega, e apoiar de uma vez por todas os médicos que estão salvando milhares de vidas mesmo em meio a perseguição, ataques infundados e a acusações de todos os tipos.


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IMPEACHMENT É COLOCAR O MOURÃO COMO PRESIDENTE?

 

Por
Egon Bockmann Moreira – Gazeta do Povo

Michel Temer e Dilma Rousseff em evento no Clube do Exército, em 2016.| Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Quem me conhece sabe que sou um leitor compulsivo. Tudo (ou quase tudo) que chega às minhas mãos é lido: desde bula de remédio até filosofia grega, passando por romances e livros de direito. Algumas dessas leituras não se explicam a não ser por um prazer mórbido, muitas vezes o de conhecer o lado sombrio da força. É o caso do livro Tchau, querida: o diário do impeachment, do ex-deputado Eduardo Cunha.

São mais de 800 páginas, recheadas de narrativas autolaudatórias combinadas com versões peculiares do universo circundante e linhas bastante agressivas a inimigos e adversários. Existe um mundo sui generis neste livro – que, felizmente não sei, talvez represente a realpolitik brasileira: o exercício do poder político em vista de interesses pessoais, organizados em grupos ou puramente individuais. Muita coerção e poucas cogitações éticas.

O impeachment não visa a afastar o presidente eleito, mas sim a investir o vice-presidente na Presidência da República

Mas fato é que o livro gera alguns insights, dentre eles a definição do que se pode entender por impeachment. Ou, melhor, qual a sua finalidade. Nós, juristas ingênuos, tendemos a imaginar o impeachment como o processo por meio do qual o presidente que comete determinados atos ilícitos é removido. Crime e castigo, puro e simples, por meio de processo cujo rito é jurídico, a culminar em decisão política. Serve para afastar presidente que descumpre a lei. Porém, determinada passagem do Tchau, querida pode comprovar que não é nada disso.

Ao narrar o encontro em Nova York com líderes de partidos políticos do chamado Centrão, o livro aponta “a senha para a aprovação do impeachment”, que teria sido dita pelo presidente do PP, o atual senador Ciro Nogueira: “Não se tira presidente, se coloca presidente”. Prestemos bem atenção nisso: o impeachment não visa a afastar o presidente eleito, mas sim a investir o vice-presidente na Presidência da República. O processo presta-se a colocar alguém no mais alto cargo administrativo nacional. E quem é o titular desse imenso poder político, que é o de colocar presidentes?


Aqui existe uma mistura, dependente sobretudo da capacidade de o vice-presidente articular o seu próprio (futuro) governo, com apoio do Congresso Nacional. Serão as negociações conduzidas pelo potencial presidente que derrubarão o real e atual presidente. Não se trata de tratativas explícitas, à luz do dia. São posicionamentos, sinalizações e acenos de partilha de poder político-econômico. Compromissos de como funcionará a próxima presidência. Esse é o coração do impedimento: se vale a pena colocar um outro alguém na Presidência (e não se é preciso retirar o mandatário em exercício).

Quem sabe uma revisão dos processos de impeachment pós-Constituição de 1988, e os respectivos vice-presidentes, tenha algo a nos revelar. Contra Fernando Collor, foram 29 pedidos; Itamar Franco recebeu 4; Fernando Henrique Cardoso teve 27; Luiz Inácio Lula da Silva, 37 pedidos; Dilma Rousseff contou com 68, e Michel Temer teve 33. Muito embora os números possam variar minimamente de acordo com a respectiva fonte, eles revelam a essência do impeachment – que parece ser os vices. Ao que tudo indica, vices que não pretendem aceder à Presidência abstêm-se de colaborar, e fazem com que o Congresso Nacional não saiba se vale a pena apostar no processo.

Se Hamilton Mourão não fizer saber a quem merece ouvir que deseja ser colocado na cadeira presidencial, nenhum pedido de impeachment seguirá adiante

De todos, o mercurial Itamar Franco era o mais explícito adversário de Fernando Collor. Fernando Henrique e Lula tiveram sorte de contar com pessoas tão discretas quanto eficientes: Marco Maciel e José Alencar são os vices dos sonhos de qualquer presidente. Ao seu tempo, Michel Temer tinha a discrição como marca, mas nitidamente não se alinhava nem apoiava a presidente Dilma. O que talvez confirme que o impeachment não é o processo jurídico-político que sirva a retirar, mas sim a colocar um presidente.

Se essa hipótese estiver certa, de nada adiantam manifestações de rua, grosserias toscas, pandemias, baixa popularidade e inflação. Pouco representativos serão os vários pedidos protocolados na Câmara dos Deputados, nem mesmo o apelidado de “superpedido” de impeachment. Os seus efeitos serão outros – desgaste político, estresse existencial, aumento dos custos de transação etc. –, mas não removerão o atual presidente da República. Para que isso aconteça, necessário se faz que o atual vice-presidente, Hamilton Mourão, faça saber a quem merece ouvir que deseja ser colocado na cadeira presidencial.


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