domingo, 30 de maio de 2021

CPI DA COVID PROVOCA MUITAS PUBLICAÇÕES NA MÍDIA

 

 Brenda Zacharias – Jornal Estadão

Ao longo do primeiro e agitado mês de depoimentos, a CPI da Covid resultou em 11,8 milhões de publicações no Twitter. O grande volume de menções à investigação do Senado se soma a recordes de audiência em outras plataformas, a exemplo do YouTube, como mostrou o Estadão. O dado é da consultoria Bites e considera a repercussão da comissão na rede social desde o dia 1.º de maio.

O levantamento, realizado a pedido do jornal, inclui menções relacionadas à palavra-chave principal (CPI da Covid), seja pelo uso de hashtags seja em referências aos parlamentares e depoentes. A comissão, que busca investigar possíveis omissões do governo de Jair Bolsonaro no combate à pandemia do coronavírus virou o “novo hit” dos usuários do Twitter.

E, apesar das diferenças ideológicas, usuários à direita e à esquerda encontram interesse equivalente nas investigações. Diretora de Operações da Bites, Fabiana Parajara afirmou que nem governistas nem opositores ao governo federal se sobressaem no debate. “A reação governista é mais coesa, eles têm uma linha argumentativa mais parecida. Já no caso da esquerda, as pautas são mais difusas. Não tem um lado que está ‘ganhando’ a discussão. A gente tem um embate entre torcidas”, disse.O relator Renan Calheiros e o presidente da CPI, Omar Aziz, conversam durante a abertura da comissão © Edilson Rodrigues/Agência Senado O relator Renan Calheiros e o presidente da CPI, Omar Aziz, conversam durante a abertura da comissão

Interação

Até agora, o depoimento mais comentado foi o do primeiro dia do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello na comissão. Somente no dia 19, foram 1,3 milhão de tuítes em referência a falas do general. Em seguida, aparecem os depoimentos do ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, com 1,13 milhão de postagens, e da médica Mayra Pinheiro, com 702 mil menções à secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde e à comissão em si. Mayra ficou conhecida como “capitã cloroquina”, por defender o medicamento sem eficácia comprovada no tratamento do novo coronavírus.

Principal hashtag do período, #CPIdaCovid acumula 749 mil menções na rede social. A marcação é usada tanto por governistas quanto por opositores. Em seguida, vem a tag #RenanVagabundo, com 573 mil menções, inundada por críticas de apoiadores de Bolsonaro ao relator da comissão, o senador Renan Calheiros (MDB-AL).

O “levante” faz referência ao xingamento usado pelo senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) durante uma discussão com o parlamentar no fim do depoimento de Wajngarten ao colegiado.

Humor

A maior propagação de publicações – chamada na plataforma de retuítes ou RTs – vem de páginas, às vezes anônimas, que não estão associadas a partidos ou a figuras políticas. “Às vezes é uma pessoa com perfil pequeno (em número de seguidores). Aí, um influenciador vê (a publicação e compartilha) e começa a virar um viral”, afirmou Fabiana, que destaca a proliferação de páginas de humor. Entram nessa soma as arrobas JaIrme’s Vaccine Race, à esquerda, e Tony Stark Patriota, à direita.

Perfis de Lula e Bolsonaro se destacam

Mesmo com a proliferação de perfis anônimos criados para comentar as sessões da CPI da Covid no Senado, as páginas de políticos não deixam de ter o seu destaque. Figuras centrais da política brasileira, o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também são protagonistas entre os seus pares.

De acordo com a Bites, o atual chefe do Executivo se destacou no levantamento por um tuíte em defesa do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, no dia 13, antes mesmo de o general prestar o seu depoimento na comissão. Mais de 7 milhões de internautas foram atingidos pela publicação, segundo a Bites, que acumulava, até ontem, 14,3 mil

Na ocasião, Bolsonaro compartilhou trecho em vídeo do depoimento de Carlos Murillo, ex-presidente da Pfizer no Brasil, em que ele diz que o Brasil foi um dos primeiros países a aprovarem o registro da vacina contra a covid. “Parabéns Anvisa e ministro Eduardo Pazuello”, escreveu o presidente.

Gravata

Já Lula, em uma das poucas menções diretas à CPI, ganhou destaque com uma piada. “O que me deixou chateado com essa CPI foi o Pazuello copiando minha gravata. Era meu padrão desde 2009 pra dar entrevista internacional, pô…”, escreveu o perfil do petista.

A gravata em questão, com listras verdes e amarelas, foi usada pelo general em seu primeiro dia de depoimento à comissão. O levantamento registrou que a publicação teve mais de 3 milhões de impressões e, até ontem, 11,3 mil retuítes.

MÚSICAS E VACAS

 

  1. Internacional
  2. The New York Times Life/Style

Quando os violoncelos tocam, as vacas voltam para casa

Uma colaboração entre um criador de gado e um programa de estudos de música da Dinamarca leva recitais regulares a gados mimados

Lisa Abend, The New York Times- Life/Style – Jornal Estadão

LUND, Dinamarca – Durante uma recente apresentação do Pezzo Capriccioso de Tchaikovsky, um grupo de ouvintes atentos, se curvou para frente com os olhos brilhantes, enquanto algumas discretas fungadelas encorajadoras escapavam da plateia em geral silenciosa. Embora relativamente recém-chegados à música clássica, eles pareciam muito sintonizados com os oito celistas no palco, levantando as cabeças abruptamente quando a melodia lânguida da peça dava lugar a rápidos golpes de arco.

Quando a peça terminou, entre aplausos fervorosos e gritos de “bravo”, pôde-se ouvir um ‘muu’ de apreciação.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).
Alunos da Scandinavian Cello School se apresentam para vacas.  Foto: Carsten Snejbjerg / The New York Times

Num domingo em Lund, uma aldeia a cerca de 80 quilômetros ao sul de Copenhague, um grupo de celistas de elite tocou dois concertos para algumas vacas amantes da música e seus colegas humanos. Culminação de uma colaboração entre dois criadores locais de gado, Mogens e Louise Haugaard, e Jacob Shaw, fundador da vizinha Escola de Violoncelo da Escandinávia, os concertos  têm a finalidade de chamar a atenção para a escola e os jovens músicos residentes. Mas a julgar pela resposta de ambos os apreciadores, de duas e de quatro pernas, também demonstraram como pode ser popular a iniciativa de trazer vida cultural para áreas rurais.  

Até poucos anos atrás, Shaw, 32, que nasceu na Grã-Bretanha, viajou pelo mundo como celista solista, apresentando-se em lugares consagrados como o Carnegie Hall e a Opera House de Guangzhou. Quando se mudou para Stevns (região à qual Lund pertence) e abriu a Scandinavian Cello School, ele logo descobriu que os seus vizinhos, a família Haugaard, que cria gado Hereford, também eram amantes da música clássica. Na realidade, Mogens Haugaard, que é ex-prefeito de Stevns, faz parte do conselho da Copenhagen Philharmonic Orchestra.

Quando o celista, que havia excursionado pelo Japão com a orquestra, contou ao fazendeiro como as famosas vacas mimadas da raça Wagyu do país  eram criadas para produzir carne macia, não precisou muito para convencer Mogens Haugaard a adotar um componente da sua criação para o seu próprio gado.

Desde novembro, um aparelho de som que toca Mozart e outras música clássica no celeiro de Haugaard, tem feito serenatas diárias para as vacas. Cerca de uma vez por semana Shaw e alguns estudantes residentes aparecem para uma apresentação ao vivo.

Embora não seja claro se os novos hábitos musicais das vacas afetaram a qualidade da sua carne, o fazendeiro notou que os animais vinham correndo sempre que os músicos apareciam e se aproximavam ao máximo quando eles tocavam.

“A música clássica faz muito bem aos seres humanos”, disse Mogens. “Ela nos ajuda a relaxar, e as vacas podem dizer se nós estamos relaxados ou não. Faz sentido que elas também possam se sentir bem”.

Entretanto, nem sempre é boa para as pessoas que a tocam. Shaw disse que fundou a Scandinavian Cello School para ajudar músicos principiantes a se prepararem para as demandas menos glamourosas de uma carreira profissional em uma indústria que às vezes pode engolir jovens artistas na busca constante do próximo gênio.

Enquanto excursionava internacionalmente como artista autônomo, ele se sentia exausto pela luta nas negociações dos contratos, promovendo a si mesmo e viajando incansavelmente, disse em uma entrevista. Esta experiência, juntamente com um período como professor de uma prestigiosa academia de música em Barcelona – o fez perceber que havia um buraco ali que precisava ser preenchido.

Em sua encarnação original, a Scandinavian Cello School era uma organização itinerante – mais um campo de treinamento em constantes deslocamentos do que uma academia. Mas, em 2018, Shaw e sua namorada, a violinista Karen Johanne Pedersen, adquiriram uma casa de fazenda em Stevns e a transformaram em uma base permanente para a escola. Os seus estudantes, provenientes do mundo inteiro e em geral com idades entre 17 e 25 anos, permanecem por um período para aperfeiçoar os seus talentos musicais e profissionais – e também como chegar a um equilíbrio entre a vida e o trabalho.

A localização ajuda para isto. Situada a uns 500 metros do mar, a escola também oferece aos músicos visitantes a oportunidade de brincar na horta, procurar ervas na floresta próxima, pescar para o jantar ou apenas para relaxar longe da cidade.

Este ambiente foi em parte o que atraiu Johannes Gray, um americano de 23 anos, atualmente morando em Paris, que ganhou o prestigioso Prêmio Pablo Casals Internacional em 2018. Inicialmente, Gray visitou a Escola em 2019, e então voltou para as primeiras admissões depois da pandemia, atraído pelas oportunidades de desenvolvimento da carreira e pelas atividades de lazer.

“Jacob me aconselha sobre como criar um programa e basicamente formá-lo de maneira a torná-lo mais interessante”,  disse Gray. “Mas nós dois somos também dois grandes amantes da comida, e adoramos cozinhar, por isso, depois de um longo dia de ensaios, podemos sair e pescar ou planejar um enorme banquete. Não é apenas a música.”

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O estudante Johannes Gray é um dos músicos que tocam para pessoas e vacas na Dinamarca. Foto: Carsten Snejbjerg/The New York Times

Enquanto os músicos se beneficiam do ambiente, esta região fundamentalmente agrícola lucra com o pequeno vai-vem de artistas internacionais. A escola recebe alguma ajuda financeira da prefeitura e das empresas locais. Em troca, os músicos visitantes – sete vieram para a atual residência – se apresentam em escolas e cuidam das instalações da região. E ainda tocam para as vacas.

Por causa das restrições com o coronavírus, alguns concertos foram realizados ao ar livre, e o público de cada um deles foi limitado a 35 pessoas (ambos com lotação esgotada). Entre os ouvintes que tiveram a oportunidade de aproveitar dos hambúrgueres feitos por um chef local com a carne dos Haugaards durante uma das apresentações, estava a ministra da Cultura da Dinamarca, Joy Mogensen, que contou que este foi o primeiro concerto ao vivo ao qual ela assistira em seis meses.

“Tive a oportunidade de testemunhar muita criatividade nesses últimos meses”, ela afirmou em uma entrevista. “Mas digital não é a mesma coisa. Espero que seja uma das lições que devemos extrair do coronavírus, o quanto todos nós – até as vacas – sentimos falta de estarmos juntos em eventos culturais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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ADOLESCENTES E PAIS EM CRISE

 

  1. Internacional
  2. The New York Times Life/Style

Por mais que seja difícil ser um adolescente hoje em dia, também é cansativo ser pai de um

Constance Sommer, The New York Times – Life/Style – Jornal Estadão

A pandemia transformou a casa de Tiffany Lee em um campo de batalha. Com medo da doença, Tiffany começou a tomar precauções já em março de 2020. Ela pediu ao filho Bowen Deal, conhecido como Bo, 15 anos, que praticasse o distanciamento social. E insistiu que usasse máscara. Mas ele não gostou da ideia, porque muitas pessoas em sua cidade do interior não obedecem a estas normas, ela disse.

“Ele vê todos os colegas de classe irem a festas e jogar boliche e ele fica bravo comigo porque não o deixo ir”, contou. Bo está no primeiro ano do secundário em Metter, Georgia, na região de Savannah. “Ele acha que eu sou uma péssima mãe porque fico entre ele e seus amigos”.

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Tiffany Lee e seu filho, Bo Deal, tiveram conflitos sobre as regras da casa durante a pandemia. Foto: Stephen B. Morton/The New York Times

Em geral, é na adolescência que os filhos se separam dos pais, mas os adolescentes de hoje passam mais tempo em casa do que nunca. Os adolescentes que estão ansiosos por perambular em grupos estão confinados aos seus quartos conversando com imagens de poucos pixels nas telas dos seus celulares.

“O grupo que mais sofre”, no que diz respeito ao isolamento “é o dos 13 aos 24 anos”, explicou Harold Koplewicz, presidente e diretor médico do Child Mind Institute de Nova York. “Eles estão perdendo o processo de separação dos pais. Estão tendo problemas com seus objetivos acadêmicos. Muitas das coisas em que estavam trabalhando se foram”.

Mas por mais difícil que seja ser adolescente hoje em dia, é desgastante ser o pai ou a mãe de um deles. Uma pesquisa de âmbito nacional entre pais de adolescentes, divulgada em março pelo C.S. Mott Children’s Hospital, mostra os pais alternando táticas diferentes, na tentativa de preservar a saúde mental dos filhos.

Cerca da metade dos entrevistados afirmou que a saúde mental dos seus filhos adolescentes mudou ou piorou na pandemia. Em resposta, a metade destes pais tentou relaxar as normas da covid19 relativas à família, ou às redes sociais. Trinta por cento falaram com um professor ou com um conselheiro da escola a respeito do filho; outros 30% contaram ter solicitado ajuda formal para a saúde mental.

“Não tivemos nenhuma preparação para isto”, comento Julie Lythcott-Haims, ex-diretora de estudantes novatos de Stanford e autora do livro How to Raise an Adult: Break Free of the Overparenting Trap and Prepare Your Kid for Adulthood (Como criar um adulto: liberte-se da armadilha da paternidade e prepare seu filho para a vida adulta, em tradução livre).

“A maioria de nós, pais, não teve nada que se parecesse remotamente com a prática” em uma pandemia, ela disse, “por isso tivemos de arriscar de qualquer maneira, desempenhando ao mesmo tempo o papel de um pai em quem os filhos podem confiar para o apoio emocional”.

“Não surpreende”, prosseguiu, “que tenhamos chegado ao limite”.

A disponibilidade de vacinas eficazes, embora bem-vinda, acrescenta mais incertezas, segundo ela. Voltaremos ao normal? Quando? O que é normal agora?

“Nós nos encontramos em uma situação de animação suspensa”. Estamos no limbo, literalmente. Isto cria de fato certos temores existenciais: Será que vou ficar bem? Minha família vai ficar bem?”

Confiem nos seus filhos

Para Tiffany, 43 anos, os conflitos com o filho chegaram ao ápice em janeiro. Ela passara a temporada de férias aguentando as ofensas que as clientes que não queriam usar a máscara em sua butique atiravam para ela. Ao mesmo tempo, Bo pediu permissão para voltar a frequentar as aulas presenciais.

“Eu estava perdendo o juízo, não estava querendo brigar ainda mais com ele”, afirmou. E explicou que se ele pegasse covid19 e “a levasse para a família”, a responsabilidade seria dele. “Entendeu isto, não é?”

Um certo grau de autonomia é importante para os adolescentes, mas na pandemia eles pouco tiveram, disse Jennifer Kolari, autora de Connected Parenting: How to Raise a Great Kid (Paternidade conectada: como criar uma ótima criança)e terapeuta e instrutora de pais em San Diego, onde dirige oficinas sobre como ser pais. Para alguns, durante a pandemia, o seu quarto todo bagunçado talvez seja o único lugar em que se sentem no controle, ela disse.

E sugeriu marcar uma conversa com o seu adolescente, mais para o fim da tarde ou durante a semana, para discutir com ele o problema que leva os dois a brigar.

“Você pode dizer, ‘À noite, vamos conversar, eu quero ouvir o que você está planejando’”, ela disse. “Eu acredito que você tenha um plano, e se me contar do que se trata, acho que vai nos ajudar”.

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Thea Monyeé, uma terapeuta, podcaster e mãe de três filhas adolescentes, Talani Wilson, Taya Wilson e Lexington Winkler em sua casa.  Foto: Kendrick Brinson/The New York Times

Às voltas com o racismo

Entre as tensões raciais e os crimes de ódio, incluindo a onda de violência contra os asiáticos, muitos pais não brancos tentaram  ajudar os filhos a processar o racismo e a agitação civil.

Théa Monyée, uma terapeuta de Los Angeles, viu suas três filhas adolescentes negras participarem das batalhas nas redes sociais enquanto ela e o marido lutavam para descobrir qual era a melhor maneira de apoiá-las. Nós “não quisemos policiar este processo”, afirmou. “Elas precisavam ficar revoltadas por um tempo”. Por outro lado, se uma das meninas precisava de um lugar para descarregar a sua frustração ou raiva, “nós tínhamos de encontrá-lo, e então quando elas estivessem tristes ou frustradas ou magoadas, tínhamos de ter essas conversas”.

Ao mesmo tempo, Monyée continuava com o seu trabalho – além de começar um negócio e comandar um podcast – com os problemas das filhas com a escola virtual, enquanto as pessoas próximas dela lutavam com a covid-19 e a perda da renda. Ela e o marido tinham de lembrar continuamente um para o outro, ela disse, “de deixar um espaço para nós também”.

Ragin Johnson acha que está mais aterrorizada do que nunca por seu filho de 17 anos, um jovem negro alto que tem autismo. “Ele é um menino muito cordial”, disse Ragin, 43 anos, professora do quinto ano em Columbia, Carolina do Sul, “e eu não quero que alguém fique com uma impressão errada, pensando que ele é agressivo quando, ao contrário, é muito brincalhão”.

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Thea Monyeé, de saia vermelha, mãe de três filhas adolescentes, Taya Wilson, Talani Wilson, Lexington Winkler, em Pasadena.  Foto: Kendrick Brinson/The New York Times

Criar diferentes caminhos para um relacionamento

Se toda conversação acabar em uma briga – ou se o seu adolescente taciturno não está disposto sequer a começar uma conversa com você – tente uma tática diferente. Proponha dar uma volta de carro com o seu filho, mas com condições específicas. “Deixe que ele seja o DJ”, disse Jennifer Kolari. “E  fique quieta. Não use este momento para dar lições. Deixe seu filho falar”.

Se ele se abrir, então ou mais tarde, tente não resolver os problemas dele. “Fique ouvindo, e ouça compenetrada”, disse Koplewicz. “Estará validando o que ele está falando. E quando ele estiver pronto, diga: “Tudo bem, o que mais?’”

Peça ajuda

Se seu filho parecer inusitadamente triste ou emocionalmente frágil, não tenha medo de procurar ajuda. Koplewicz não era fã da terapia à distância antes da pandemia, mas os sucessos que ele viu neste campo neste último ano o converteram, ele disse. Tiffany encontrou um terapeuta on-line na BetterHelp.com, que a ajudou e ajudou Bo a superar esse período conturbado. “Neste último ano”, falou, “a terapia impediu que eu caísse no fundo do poço”. 

Mas a terapia não é o único tipo de apoio. Johnson preferiu um grupo muito unido de amigas. “A nossa sociedade está treinada para tentar controlar as coisas”, afirmou Patrick Possel, diretor do Programa Cardinal Success, que fornece serviços gratuitos para a saúde mental a pessoas que não têm seguro ou cujo seguro é reduzido, em Louisville, Kentucky. Muitos clientes do programa estão lidando com várias crises, da insegurança do emprego e da casa ao abuso e a suas lutas pessoais para preservar a própria saúde mental.

Quando um adolescente da casa começa a brigar, os pais podem dizer que não dispõem de recursos para tratar deste problema também. Mas Possel e seus colegas os aconselham a olhar em volta, perguntando aos clientes: “Há uma rede, um amigo, um profissional que possa ajudá-lo?”, ele disse.

Cuidem de vocês mesmos

Liz Lindholm supervisiona o ensino à distância das filhas gêmeas de 12 anos e do filho de 18 em casa, em Federal Way, Washington, subúrbio de Seattle, enquanto trabalha em administração na área de saúde.

O que está sendo mais difícil neste ano “é encontrar um equilíbrio entre a vida e o trabalho”, afirmou, “sendo que o trabalho não tem fim e a escola não tem fim e tudo de certo modo se mescla”.

Tentar algo novo – voltar à escola em janeiro – se revelou o segredo para Tiffany e seu filho.

Tiffany ficou agradavelmente surpresa com o fato de Bo ser um dos poucos estudantes que usam máscara quando ela vai pegá-lo na escola. Um dia, no caminho de volta no carro, ele disse à mãe que ficou espantado em descobrir que os seus amigos não entendiam como a vacina funciona. Desde então, ela notou uma mudança no grupo de amigos do filho, e ela diz que a tensão em casa diminuiu consideravelmente.

“Acho que o nosso relacionamento ficou mais forte agora, principalmente desde que eu tive de confiar nele para sair e tomar suas próprias decisões”, afirmou. “Não sou mais a mãe ruim que ele pensava. Sinto que o estou respeitando mais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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JUSTIÇA BRASILEIRA NÃO COMBINA COM O BOLSONARO

 

Tribunais e Ministério Público derrubaram ao menos dez inquéritos que tinham opositores do presidente como alvo; quatro deles foram abertos com base na Lei de Segurança Nacional

Pepita Ortega e Rayssa Motta – Jornal Estadão

Ministro da Justiça mandou investigar responsável por outdoor; inquérito foi arquivado pelo Ministério Público. FOTO: TIAGO COSTA RODRIGUES

A ofensiva jurídica do governo Jair Bolsonaro contra críticos tem sofrido seguidos reveses no Ministério Público e em tribunais do País. Usada como estratégia de intimidação a opositores, a iniciativa congestiona o sistema judicial, mas não tem surtido efeito prático. Levantamento feito pelo Estadão mostra que pelo menos dez investigações abertas após pedidos do Ministério da Justiça e até do filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), foram barradas nos últimos meses.

Os alvos foram diversos – youtubers, advogados e professores estão na lista. As ações miram desde quem  chamou Bolsonaro de “genocida” nas redes sociais a jornalistas que criticaram o presidente em publicações, numa prática que especialistas comparam à perseguição política da ditadura militar. Das dez investigações arquivadas, quatro são baseadas na Lei de Segurança Nacional (LSN), que prevê prisão de até quatro anos para quem “caluniar ou difamar” o presidente da República. A legislação, cuja redação é de 1983 – um resquício do regime ditatorial do País –, foi revogada pela Câmara dos Deputados no início do mês, mas o Senado ainda precisa avaliar se concorda em anulá-la.

Em março, o Estadão mostrou que, sob Bolsonaro, o número de inquéritos abertos pela Polícia Federal com base na Lei de Segurança Nacional aumentou 285% em relação a governos anteriores – foram 77 investigações entre 2019 e 2020.

Um dos principais argumentos usados por juízes e procuradores na hora de mandar as investigações pedidas pelo  governo para a gaveta é o de que, embora algumas declarações possam ser reprováveis em termos morais (como desejar a morte do presidente, por exemplo), elas não representam crime.

Foi assim no caso em que o ex-ministro da Justiça André Mendonça pediu para investigar uma médica que afirmou, em suas redes sociais, que a facada em Bolsonaro na campanha eleitoral de 2018 foi “mal dada”. Na semana passada, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) mandou parar o inquérito. Na decisão, o desembargador Olindo Menezes afirmou que o comentário era “infeliz”, mas não havia ali qualquer indício de crime contra a democracia.

Na quarta-feira passada, a Justiça Federal em Brasília também derrubou a apuração aberta contra o cartunista Renato Aroeira e o jornalista Ricardo Noblat por causa de uma charge que retrata Bolsonaro ao lado de uma suástica, símbolo do nazismo. Segundo a decisão, a ilustração não é criminosa, e ocupantes de cargos públicos estão sujeitos a críticas.

Charge de Aroeira. FOTO: RENATO AROEIRA

O advogado Cláudio Pereira, professor de Processo Penal na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), vê uma “manipulação dos meios de persecução penal” nas iniciativas do governo contra críticos. Para ele, as divergências políticas estão sendo levadas para o sistema de Justiça com dois objetivos: o de “atemorizar aqueles que realizam quaisquer atos de oposição” e o de fazer as instituições aderirem à politização. “Essas derrotas revelam que são iniciativas políticas juridicamente sem cabimento.”

‘Pressões’. Segundo Pereira, as dezenas de pedidos de investigação acabam por atrapalhar. “Congestionam o sistema judiciário com questões que não são importantes, como também causam nas pessoas que são demandadas (MP, polícia e Justiça) pressões políticas de toda a natureza que não são democráticas, não são republicanas.”

No parecer em que pediu o arquivamento do caso envolvendo o advogado Marcelo Feller, o procurador João Gabriel Morais de Queiroz foi na mesma linha. “Apesar dos arroubos antidemocráticos e da proliferação de defensores da ditadura observada nesses últimos anos, vivemos em um sistema democrático de direito”, disse Queiroz.

Feller foi alvo de investigação após usar os termos   “genocida”, “criminoso” e “omisso” para se referir ao presidente, em um debate na CNN Brasil. A Justiça do Distrito Federal arquivou o inquérito em janeiro por considerar que as declarações se inserem no “exercício do direito à livre manifestação do pensamento”.  “O governo pega críticas que ganham visibilidade e tenta passar o recado para a coletividade de que elas serão criminalizadas, como se dissesse: ‘Cuidado ao me criticar, porque vou te trazer problemas’”, afirmou Feller ao Estadão.

O professor Tiago Costa Rodrigues também foi alvo de pedido de investigação de Mendonça, por crime de calúnia contra a honra do presidente. Rodrigues foi o responsável por outdoors que comparavam Bolsonaro a um “pequi roído”. Em março, o Ministério Público Federal arquivou o caso sob alegação de que se tratou de “crítica política”.

Para o criminalista Augusto de Arruda Botelho, as pessoas que buscam investigações ou processos com base na LSN “no fundo sabem que não vai dar em nada”. O advogado integra o movimento Cala-Boca Já Morreu, lançado após o youtuber Felipe Neto ser alvo de investigação por ter chamado Bolsonaro de “genocida” nas redes.  O inquérito foi aberto pela Polícia Civil a pedido de Carlos Bolsonaro e, depois, arquivado.

Felipe Neto. FOTO: DIVULGAÇÃO

“As iniciativas do Ministério da Justiça, de parlamentares e familiares do presidente de investigar pessoas por terem se manifestado contra Bolsonaro são tentativas de constranger, porque o resultado prático, jurídico, dessas iniciativas, quase sempre é inexistente”, afirmou Botelho. O projeto encabeçado pelo advogado dá assistência gratuita a cidadãos processados por criticarem o governo ou qualquer autoridade pública. Hoje, o grupo cuida de sete casos.

O advogado João Paulo Martinelli, professor do Ibmec-SP, levantou ainda a possibilidade de os autores de pedidos de investigação baseados na LSN serem punidos.  “É um abuso de autoridade, pois extrapola aquilo que a lei descreve como crime.”

Procurados, o Ministério da Justiça e André Mendonça não se manifestaram.

3 PERGUNTAS PARA…

Cláudio Couto, professor de Ciência Política da FGV

1.Na avaliação do senhor, qual é o efeito prático desses pedidos de investigação contra críticos e opositores do governo Jair Bolsonaro?

Eu acho que, na realidade, isso tem um custo particularmente para aquelas pessoas que são alvo desse tipo de representação. Afinal de contas, tem um custo judicial, tem que contratar advogado, dá trabalho, chateia. Há um monte de custos importantes que precisam ser considerados para que possamos entender por que o governo faz isso. Claro, ele faz para intimidar, faz para mostrar que ele não aceita qualquer tipo de crítica e nisso Bolsonaro tem uma clara demonstração do seu autoritarismo.

2.Mesmo com os arquivamentos, o senhor acredita que pode haver uma espécie de autocensura?

Acho que sim, algumas pessoas podem ficar mais, digamos, intimidadas e preferir não se expor. Mas acho que também tem o efeito reverso. Quando o governo age dessa forma, ele produz ondas de solidariedade às pessoas que são vitimadas por essa perseguição.

3.Existe algum paralelo possível entre essas tentativas de investigação com a perseguição política na ditadura?

O presidente Jair Bolsonaro é um fã da ditadura, ele nunca escondeu isso. Até mesmo dos torturadores, o que não dizer de outros aspectos da ditadura. Lançar mão de práticas autoritárias é esperado de alguém como ele.

sábado, 29 de maio de 2021

PAZUELLO DEFENDE QUE NÃO FOI ATO POLÍTICO JUNTO COM BOLSONARO

 Felipe Frazão – Jornal Estadão

BRASÍLIA – Alvo de processo disciplinar aberto pelo Comando do Exército, o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, apresentou nesta quinta-feira, 27, sua defesa e disse não ter participado de um ato político ao lado do presidente Jair Bolsonaro, no domingo, no Rio. Pazuello afirmou, na justificativa, ter sido convidado pelo presidente para um passeio de moto, quando foi surpreendido com o pedido para subir em um carro de som, ao lado do presidente.

Com esse argumento, o general da ativa negou ter cometido uma transgressão às normas do Exército. O general da ativa destacou, ainda, que não é filiado a nenhum partido e disse que o País não vive um período eleitoral. A informação foi antecipada pela CNN e confirmada pelo Estadão. Em transmissão ao vivo pelas redes sociais, na noite de ontem, Bolsonaro adotou a mesma linha de defesa de Pazuello, na tentativa de livrar o general de uma punição mais severa.

“É um encontro que não teve nenhum viés político, até porque eu não estou filiado a partido político nenhum ainda”, afirmou Bolsonaro na live. “Foi um movimento pela liberdade, pela democracia, em apoio ao presidente. Não tinha nenhuma bandeira vermelha, nenhuma foice ou martelo”, emendou o presidente, em sintonia com a justificativa apresentada por Pazuello.O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e o presidente Jair Bolsonaro discursam a apoiadores em ato no Rio de Janeiro. © Wilton Júnior/Estadão O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e o presidente Jair Bolsonaro discursam a apoiadores em ato no Rio de Janeiro.

O presidente fez vários elogios ao ex-ministro da Saúde, que deixou a pasta em março com o País batendo recorde de mortes por covid-19. Bolsonaro disse na live que Pazuello é “um tremendo gestor”, tendo se destacado no Exército desde a preparação para a Olimpíada do Rio, em 2016.

A participação de militares da ativa em atos político-partidários é proibida pelo Regulamento Disciplinar do Exército. A pena para quem desobedecer a essas ordens varia de advertência a prisão por até 30 dias. Pazuello foi aconselhado a antecipar sua ida para a reserva – que deve ocorrer apenas em agosto de 2022 –, na tentativa de receber punição mais branda, como uma advertência verbal, por exemplo, mas não aceitou.

O general avalia que, se sair da ativa agora, passará à CPI da Covid a imagem de que se acovardou. Pazuello já prestou depoimento à CPI, mas foi reconvocado pelos senadores depois de subir a um carro de som com Bolsonaro e discursar sem máscara de proteção contra coronavírus.

Generais ouvidos pelo Estadão avaliaram que a transgressão disciplinar cometida por Pazuello tem potencial para um novo embate entre o Palácio do Planalto e o Comando do Exército. O receio é que a tentativa de blindagem de Pazuello, por parte de Bolsonaro, leve à renúncia do comandante, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, que ontem acompanhou o presidente em viagem a São Gabriel da Cachoeira (AM).

Para contornar o confronto, porém, o Exército pode aplicar apenas uma repreensão, em vez de optar pela pena mais grave. O ministro da Defesa, Braga Netto, tenta encontrar uma solução de meio-termo para evitar uma crise entre o presidente e o comandante.

A solução “média” prevista no regulamento é a repreensão, descrita como uma forma de censura “enérgica”, feita por escrito pelo comandante. É publicada em boletim interno da caserna e, por vir a público nas Forças Armadas, vira uma mácula no currículo de um general, principalmente no topo da carreira.

A repreensão é mais grave do que uma advertência verbal – a mais branda das punições. A prisão de Pazuello vem sendo considerada hipótese remota por generais que acompanham o caso, justamente porque pode amplificar a crise.

Apesar das negativas do ex-ministro da Saúde, a transgressão disciplinar foi fartamente documentada. A inexistência de antecedentes, porém, pode ser considerada como atenuante.

Bolsonaro fez um aceno às Forças Armadas e pregou respeito aos “seus” militares. O presidente viajou para o extremo norte da Amazônia, com o objetivo de inaugurar uma ponte de madeira em São Gabriel da Cachoeira e visitar uma área indígena Ianomâmi.

Em pronunciamento político, diante de ministros militares – Braga Netto (Defesa) e Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil) –, além do general Paulo Sérgio, e de oficiais do Comando Militar da Amazônia, Bolsonaro chamou todos de “amigos”. Ao falar de sua eleição, em 2018, disse que divide a responsabilidade com os militares.

Um trecho do encontro foi divulgado nas redes sociais do presidente. “O governo respeita os seus militares”, afirmou Bolsonaro, usando uma expressão que não é do agrado dos oficiais, já que as Forças Armadas são instituições de Estado, e não de um governo. Bolsonaro já provocou insatisfação na caserna ao se referir várias vezes à corporação como “meu Exército”.

O general Paulo Sérgio acompanhou atenciosamente as palavras de Bolsonaro, olhando para ele, de braços cruzados. No fim, aplaudiu o discurso do presidente, assim como os demais à mesa.

O comandante do Exército está prestes a decidir qual punição aplicar à transgressão disciplinar cometida por Pazuello. A possibilidade de uma escalada de tensão na crise entre o Palácio do Planalto e o Exército existe e generais consideram que o comandante pode renunciar, caso seja desautorizado.

Bolsonaro afirmou que o Brasil ainda não vive um período de normalidade e que a liberdade depende das Forças Armadas, embora não tenha citado os clamores por intervenção militar de sua base de apoiadores.

“Tenho certeza de que vocês agirão dentro das quatro linhas da Constituição, se necessário for. Espero que não seja necessário, que a gente parta para a normalidade”, disse o presidente.

 

ALERTA PARA O SETOR ELÉTRICO DO PAÍS

 


  1. Economia
     

Atual situação do setor elétrico no Brasil interessa aos que se beneficiam com a alta volatilidade dos preços da energia

Adriano Pires*, O Estado de S.Paulo

Há algum tempo, temos procurado chamar a atenção sobre a necessidade de uma nova visão para o planejamento do setor elétrico. As nossas preocupações têm como alvo as tarifas crescentes, os subsídios e a segurança de abastecimento. Faz tempo que cometemos erros recorrentes e temos tido a sorte de nos safar de apagões elevando as tarifas, sempre ajudados pela falta de crescimento econômico.

Temos um problema de potência e o planejamento do governo insiste na solução vinda das energias intermitentes e das linhas de transmissão. Diagnóstico equivocado que tem promovido grandes volatilidades nos preços e pode levar a apagões. Neste ano o pesadelo voltou e parece que de uma maneira mais forte. No fim de maio os níveis de reservatório deverão ser de 31,7%, isso é pelo menos 4,6 pontos abaixo da mínima histórica. Em 2019 e 2020 choveu muito em fevereiro, março e abril, com isso os reservatórios ainda aumentaram o nível. O que não foi o caso em 2021. Se considerarmos a média dos últimos 16 anos, já no fim de agosto poderemos estar com o nível abaixo de 20% e poderemos alcançar valores muito abaixo de 10% a partir de outubro. Isso tem levado a um estresse na operação do sistema de armazenamento do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Energia
No sistema atual, os pequenos consumidores subsidiam os grandes consumidores. Foto: Marcelo Min/Estadão

Portanto, precisamos tomar providências de curto prazo e soluções estruturais devem ser implementadas para evitar pesadelos futuros. Mas agora estamos em urgência. E o que fazer no curto prazo? Primeiro, deixar que os preços indiquem a real situação do setor elétrico. Na realidade, hoje nem o PLD a R$ 250/MWh nem a bandeira vermelha nível 1 retratam a realidade do setor elétrico. O correto é o PLD no seu nível máximo e deveríamos estar em bandeira vermelha nível 2 desde o início de abril. Além do mais deveríamos, também, já estar despachando todas as usinas não hidrelétricas na capacidade máxima, inclusive as a diesel. Como foi feito em 2014/2015 quando tivemos um cenário parecido com o atual.

E a médio e longo prazos. O que fazer? A MP da Eletrobrás (1031) ao propor a implantação das térmicas a gás, com geração mínima de 70%, conta com mecanismos de financiamento de longo prazo, diluindo seu custo no tempo, trazendo os seguintes principais benefícios:

  • Redução das despesas com o acionamento das térmicas a óleo e diesel, sistematicamente despachadas, fora da ordem de mérito de custo, para garantia energética;
  • Elevação dos níveis dos reservatórios, aumentando sobremaneira a garantia do suprimento de energia e potência, permitindo o uso racional dos reservatórios, preservando a capacidade de atendimento não apenas do setor elétrico, como também do consumo humano, das atividades de lazer, indústria e agricultura;
  • Redução do impacto das bandeiras na conta do consumidor cativo e maior estabilização dos preços da energia a curto prazo e médio prazo, permitindo que o modelo de formação de preços de curto prazo dê o sinal econômico mais próximo da realidade;
  • Redução da necessidade de geração hidrelétrica para atendimento à demanda, porém com menor impacto financeiro, por causa de uma redução e menor volatilidade do PLD;
  • Aumento da segurança elétrica, com a implementação de geração térmica próxima aos centros de consumo, deslocando os acionamentos de termoelétricas a óleo, muito mais caras, por motivos de energia ou restrição elétrica, seja em regiões remotas ou ainda para equacionar a oferta na ponta da demanda;
  • Garantir a segurança do abastecimento possibilitando o contínuo avanço das fontes renováveis, intermitentes e sazonais, como eólica e solar;
  • Dar uma proteção necessária ao crescimento econômico do País e a potencial eletrificação dos meios de transporte;
  • Permitir a participação equilibrada de todos os consumidores, na estrutura de custo necessária a garantir o abastecimento de energia;
  • Matriz elétrica mais limpa com a substituição de térmicas a óleo por gás natural.

A quem interessa a manutenção da atual situação do setor elétrico? Aos que se beneficiam com a alta volatilidade dos preços da energia e àqueles que querem manter a anomalia onde os pequenos consumidores subsidiam os grandes consumidores.

*DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE INFRAESTRUTURA (CBIE)

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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