domingo, 10 de janeiro de 2021

RELAÇÕES PESSOAS SÃO MUITO IMPORTANTES

 

De perto e de longe

Boas tecnologias podem ajudar muito, mas ainda estão longe de substituir as relações pessoais

Simon Schwartzman, O Estado de S.Paulo

 

 


O início de 2021 traz a esperança das vacinas, mas também a frustração por não sabermos se terão efeito duradouro e quanto conseguirão efetivamente controlar ou reduzir o impacto da epidemia. O isolamento social, que antes parecia um sacrifício inevitável, mas passageiro, agora parece ter-se tornado parte da vida, seja porque continuará sendo necessário, seja porque a enorme expansão do uso das novas tecnologias de informação e comunicação mostrou muitas possibilidades de convivência, educação e trabalho à distância que poucos conheciam e podem ter chegado para ficar. Além da extraordinária expansão e aceleração da pesquisa médica destes últimos meses, tivemos também um grande esforço de pesquisadores nas ciências sociais tratando de entender o que significa viver à distância, comparado com as formas tradicionais de convivência física, e seu possível impacto.

O relacionamento pessoal, lembra-nos o sociólogo Randall Collins – Social distancing as a critical test of the micro-sociology of solidarity, em American Journal of Cultural Sociology, 8 (3), pp 477-97, 2020 –, é a base sobre a qual a vida social se constrói. Esse relacionamento, que ele chama de “ritual de interação”, tem quatro componentes: a copresença, em que as pessoas estão fisicamente próximas e podem ver, ouvir e sentir o que as outras estão fazendo; um foco de atenção comum, em que os participantes lidam com as mesmas coisas, desenvolvendo um sentimento de intersubjetividade; um sentimento ou emoção compartilhada, de alegria, tristeza, medo ou outra; e uma sintonia rítmica, que inclui o tom de voz, a atitude corporal e atividades conjuntas como dançar, cantar, bater palmas, torcer por um clube, rezar e outras.

Esses componentes, quando combinados, trazem vários resultados importantes: solidariedade social, em que as pessoas se sentem como fazendo parte de um mesmo grupo ou comunidade; energia emocional, em que as pessoas se mobilizam para desenvolver alguma atividade comum, como nos esportes, atuando com confiança e entusiasmo; a criação e o fortalecimento de símbolos coletivos – palavras, maneiras de vestir, ideias – que permitem identificar quem faz parte do grupo e quem não faz, e fazem reviver as experiências compartilhadas; e moralidade, regras sobre o que é certo e errado, também compartilhadas pelos participantes.

É pela linguagem, em suas diversas formas, que os símbolos dessas microexperiências de relacionamento se cristalizam, se difundem e criam o que os sociólogos chamam de capital social, o sentido de pertencimento a uma cultura e sociedade em que as pessoas confiam umas nas outras e nas instituições.

A tese principal de Collins é que para que a sociedade se mantenha viva é necessário que esses rituais compartilhados se repitam e se renovem, sob pena de a cultura, os conhecimentos, os valores e a própria linguagem se tornarem demasiado distantes, abstratos, e se esvaziarem. A grande esperança dos sociólogos clássicos, como o francês Émile Durkheim, era que fosse possível fazer uso da educação e dos símbolos nacionais para manter a coesão social de sociedades complexas. O que vemos hoje é que, na busca da renovação desses rituais, as pessoas muitas vezes acabam desenvolvendo culturas, identidades, valores e mesmo linguagens diferentes e conflitantes.

Mas o que acontece quando esses rituais não se podem dar, ou são substituídos por interações à distância? Isso depende de três fatores: a idade das pessoas envolvidas, a complexidade das atividades que elas devem desenvolver e a qualidade e acessibilidade das tecnologias disponíveis. Quanto mais jovens as pessoas, mais elas necessitam dos rituais de interação de iguais, para desenvolverem sua identidade, e com adultos, para identificarem os modelos de pessoas que gostariam de ser – os role models, como dizem os sociólogos. Claro que as necessidades de uma criança aprendendo a ler são diferentes das de um adolescente ou de um jovem adulto, mas para todos é fundamental o ritual quotidiano de se reconhecer e conhecer o mundo por meio do compartilhamento de interações pessoa a pessoa, olho a olho, corpo a corpo.

Para adultos que já têm seu círculo de relações formado e sua identidade bem constituída é mais fácil trabalhar e estudar à distância, ainda que, isolados, a capacidade de criar e a produtividade tendam a cair. Na educação, os recursos tecnológicos podem trazer uma grande contribuição ao tornar disponíveis bons materiais pedagógicos e sistemas inteligentes de capacitação e avaliação individualizados, mas não substituem o contato do aluno com o professor, a vida social de um colégio ou universidade, ou, na pesquisa, o desenvolvimento de conhecimentos, valores e atitudes tácitas que não se codificam em manuais nem em algoritmos sofisticados.

Boas tecnologias, que facilitam a comunicação e simulam a interação do mundo real, podem ajudar muito, mas ainda estão longe de poder substituir a necessidade da realimentação da vida e dos sentidos que trazem as relações pessoais. Ao contrário, quando mais condições tivermos de trabalhar sozinhos e encontrar nossos próprios caminhos, mais necessidade teremos de estar próximos de outras pessoas e compartilhar o que aprendemos e quem somos.

 

SOCIÓLOGO, É MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS

 

O ANO DA VACINA

 

O ano e seu adversário

2021 pede sabedoria tática, que passa por denunciar a política destrutiva de Bolsonaro

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

 


A virada do ano confirmou, para mim, as prioridades que me parecem óbvias no Brasil de 2021: vacinação em massa e retomada da economia com ênfase em sustentabilidade e responsabilidade social. Uma retomada verde.

No entanto, não adianta muito pura e simplesmente repetir prioridades. Em primeiro lugar, não significam tudo e, em segundo, não resolvem as emergências.

A pandemia voltou a se agravar, com o aumento de casos em dezembro. A expectativa de alguns cientistas é de que tenhamos um dos mais tristes janeiros da História.

Respondendo a uma pergunta do deputado Ivan Valente (PSOL-SP), a comissão do governo encarregada do tema afirmou que não havia previsão de uma segunda onda de coronavírus no País. Isso significa que a existência real de uma segunda onda, agravada pelos excessos das festas de fim de ano, vai se desenrolar diante da indiferença do governo em Brasília.

Nessas circunstâncias, a vacina e a retomada verde não produzem um milagre. O caso da Inglaterra revela como o processo de vacinação, sobretudo na fase inicial, não transforma a realidade.

Os ingleses já estão usando dois tipos de vacina, Pfizer e Oxford, mas foram obrigados a decretar de novo um lockdown. De certa forma, tudo se paralisa de novo. Pesou na decisão inglesa a existência de uma nova cepa do coronavírus com capacidade de contaminação, segundo os cientistas, 70% maior que as outras.

No Brasil, por falta de recursos, há menos pesquisas genéticas sobre os tipos de corona que circulam entre nós. Mas, de qualquer maneira, os ingleses reagiram não somente porque havia uma nova cepa, e sim porque havia um aumento substancial de casos.

É o que acontece no Brasil, um aumento de casos. Ao negar a existência de uma nova onda, o governo prossegue na sua posição inicial de negar a importância da pandemia, justamente quando chegamos ao patamar de 200 mil mortos.

Assim como sua inércia pode enfraquecer o estímulo que a imunização nos trará, a incompetência mais ampla transformou o processo de vacinação brasileiro num drama patético. Os órgãos de imprensa no Brasil conseguiram criar um consórcio que informa o número diário de mortos e contaminados. Ainda não é possível, todavia, mostrar com clareza todos os meandros desse labirinto que é o futuro processo de vacinação no Brasil.

O presidente Bolsonaro é o único estadista no mundo a ter uma visão negativa da vacina. Sua posição, revelada inúmeras vezes, é a de investir em remédios. Ele também é o único a suspeitar que a vacina traga efeitos adversos, até mesmo transfigurando a pessoa em jacaré.

Ele não tem força para negar totalmente a vacina. Contenta-se em empurrar com a barriga. Isso nos coloca diante de uma encruzilhada. Será preciso simultaneamente realizar o processo de vacinação e cobrar de Bolsonaro sua responsabilidade histórica.

Para que isso se concretize de forma mais eficaz é preciso uma aproximação da sociedade, do Parlamento, da Justiça, todos com uma visão clara de como pressionar e, simultaneamente, colher as peças de acusação.

Se Bolsonaro é o principal adversário da prioridade número um, o que dizer da outra, a retomada verde?

Nunca houve na História recente tamanha disponibilidade de capitais, uma conjunção de políticas públicas tão favoráveis ao desenvolvimento sustentável. Trilhões estão à espera de boas oportunidades para investimento em recursos naturais. Vê-se hoje nos jornais algo que era difícil no passado. O interesse de Wall Street pelo Rio Colorado, por exemplo.

Os recursos naturais, que ontem eram vistos apenas como um acessório da produção, passam a ser considerados importantes fontes de riqueza. E apesar de suas dificuldades momentâneas, o Brasil, assumindo-se como potência ambiental, tem diante de si um tipo de futuro muito mais promissor do que os constantes voos de galinha.

Mas esbarramos de novo no grande obstáculo: Bolsonaro. Ele tem uma visão de crescimento econômico típica do século passado. Na verdade, talvez não a tenha muito articulada, mas reage às aspirações imediatistas de alguns produtores rurais que o apoiam.

Esse é o quadro do conflito em 2021. Bolsonaro segue negando a emergência na pandemia, arrasta o processo de vacinação e fecha o Brasil para as imensas oportunidades de investimento externo.

Portanto, é um ano que pede muita sabedoria tática. Ela implica pressão para que as prioridades nacionais sejam cumpridas e, ao mesmo tempo, confronto com o grande obstáculo. Como são questões de vida ou morte, até determinando nosso nível de mobilidade, de associação, de presença física, não é possível dissociá-las.

A campanha pela vacina é, ao mesmo tempo, uma campanha contra a indiferença de Bolsonaro. A tentativa de preservar nossos recursos naturais e transformá-los em nossa máxima riqueza passa por denunciar a política destrutiva de Bolsonaro.

Quando existe um obstáculo tão nítido diante de nós, é possível que exista também a possibilidade de ignorar pequenas diferenças, ressentimentos, vaidades. Que a força da vida nos guie a todos em 2021.

 

JORNALISTA

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...