domingo, 10 de janeiro de 2021

PARTIDO REPUBLICANO NOS EUA VIVE GUERRA CIVIL

 

Partido Republicano vive 'guerra civil', diz analista

Para pesquisador, sem o controle da Câmara dos Deputados, do Senado e da Casa Branca a partir de 20 de janeiro, legenda tem um futuro difícil

Entrevista com

Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV-SP

 

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

 

 

 

A invasão no Capitólio por extremistas pró-Donald Trump e a derrota nas duas vagas para o Senado na Geórgia são acontecimentos políticos que evidenciaram a "guerra civil" pela qual passa o Partido Republicano, avalia o pesquisador Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV-SP.


Donald Trump durante comício na Geórgia; argumento de fraude eleitoral divide republicanos   Foto: MANDEL NGAN / AFP

Para Stuenkel, sem o controle da Câmara dos Deputados, do Senado e da Casa Branca a partir de 20 de janeiro, a legenda tem um futuro difícil - em que precisará optar por tentar fortalecer a ala tradicional conservadora ou se virar para os grupos trumpistas mais radicais. "Isso ficará mais claro nas eleições de 2022 (para Câmara e parte do Senado), quando muitos congressistas tradicionais serão desafiados nas primárias por trumpistas".

Qual o significado da eleição dos democratas para o Senado na Geórgia?

A eleição na Geórgia foi histórica e terá impacto grande sobre a maneira que Biden pode governar. Ela aconteceu em um contexto muito inédito por ter uma parte do Partido Republicano levantando dúvidas sobre possível fraude nas próprias eleições da Geórgia. Olhando os condados, sobretudo em regiões rurais, a narrativa de fraude reduziu a mobilização dos republicanos. Então, essa estratégia de radicalização anti-democrática do Trump roubou dos republicanos o principal argumento de que as pessoas precisavam ir votar para eles continuarem com o controle do Senado. Na cabeça do trumpista mais radical, Trump ainda iria ocupar a presidência. Esse foi um baque grande para a ala trumpista nessa guerra civil do Partido Republicano.

Além desse discurso radical, o que mais permitiu a vitória nesse Estado?

Na Geórgia, por conta da mudança demográfica, a aposta dos republicanos se torna cada vez mais difícil. A população negra se expande mais que a branca e está mobilizada graças à ativista Stacey Abrahams, a grande arquiteta disso, e que tem boas chances de ser a próxima governadora. Foi, no fundo, uma eleição para mobilizar as pessoas a irem votar. Além da posição e da capacidade organizadora da Stacey que fez diferença, a postura ambígua dos republicanos boicotarem o pleito pesou.

Quanto isso deve influenciar o futuro da direita americana?

Está instaurado um confronto entre duas visões completamente diferentes. No Partido Republicano, a ala trumpista acusa a ala tradicional e conservadora de traição por ter reconhecido a vitória do Biden. Vejo uma batalha difícil, especialmente se o Trump continuar ativo. No caso dos democratas, Biden venceu de maneira bastante decisiva, o que deu mais força à ala centrista, que claramente domina o partido e permite alguns espaços para participação dos progressistas, como em mudanças climáticas e questões LGBT.

Depois de quatro anos de governo Trump, o Partido Republicano consegue voltar para a 'normalidade' ?

Isso depende de muitos fatores, principalmente da maneira como Trump vai acompanhar o processo político - se vai atacar qualquer tentativa de cooperação com o Biden e qual o tamanho da ala progressista no governo. Os republicanos estão numa situação muito ruim e será um trabalho muito difícil unificar o partido. Vão precisar criar pontos de contato entre as duas alas nos quais é possível cooperar e alinhar estratégias em relação ao Biden. Isso ficará mais claro nas eleições de 2022, quando muitos congressistas tradicionais serão desafiados nas primárias por trumpistas.

Qual o futuro de Donald Trump após 20 de janeiro?

A grande questão é de que maneira ele consegue manter sua visibilidade no discurso político. Vejo dois cenários: o primeiro é que ele vá embora e desapareça, o que acontece muito, principalmente por não ter mais o púlpito. Mas ele não é um político típico. Ele pode manter seu Twitter, Facebook, lançar um programa de TV. E pode seguir tão poderoso que continua controlando o Partido Republicano como aconteceu muito na América Latina. Há vários ex-presidentes que se mantiveram extremamente influentes. Lliderado por Trump, seus filhos ou algum aliado, o trumpismo tem boas chances de permanecer em cena e vencer essa disputa entre a ala conservadora tradicional e o campo nacionalista-autocrático.

Após a invasão ao Capitólio, acredita que pode haver mais ataques de supremacistas nos EUA?

Sim. E a atuação mais incisiva do Facebook e do Twitter - a qual não estou criticando - vai fazer com que esses grupos migrem para redes mais radicalizadas, paralelas, onde circulam essas teorias da conspiração. Apesar de ser difícil de mensurar, isso claramente está em ascensão. São grupos que radicalizam as pessoas e as mantém à parte da realidade. O risco de violência política cresce com o fortalecimento e a permanência desses grupos.

Qual o significado mais profundo dessa invasão?

É ruim dizer isso, mas a ascensão de um partido que não se distancia abertamente do racismo e do extremismo é sinal de que as coisas estão mudando. A situação é péssima, mas está ocorrendo porque esses grupos reagem ao que eles consideram como ameaças aos seus privilégios. O gabinete de Joe Biden é o mais diverso da história, haverá legislações aprovadas que facilitam ainda mais a participação da população negra. Então, vai haver aumento de grupos radicais que vão combater esses avanços. Grandes avanços nos Estados Unidos na questão racial sempre produziram reação temporária.

Que resultados isso traz para o cenário político?

É preciso articular um tipo de narrativa que, de alguma maneira, possa incluir e trazer esses grupos de volta ao processo democrático. Há grupos dispostos a operar fora do contexto democrático, extremamente radicalizados e eles não vão sumir agora. Manterão sua resistência contra medidas que continuem esse longo processo de democratização do sistema político. Sou cético com relação à capacidade de Biden em unificar e pacificar o país. Além disso, não consigo imaginar o Partido Republicano voltando a controlar rapidamente essa ala radicalizada.

 

DESIGUALDADES E ERROS DAS INSTITUIÇÕES

 

'Se desigualdade cresce, há erro nas instituições', diz escritor polonês

Para autor de ‘Crises da Democracia’, eleição de Biden é esperança de que sistemas podem sobreviver

Entrevista com

Adam Przeworski

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

 

 

invasão do Congresso americano por extremistas pró-Donald Trump no dia em que o Senado confirmaria o democrata Joe Biden como novo presidente dos Estados Unidos jogou luz à discussão sobre a solidez da considerada a maior democracia do mundo. Para Adam Przeworski, autor do livro Crises da Democracia, agora os EUA não podem mais “se vender como bastião da democracia”.

A invasão do Congresso mostra fragilidade das instituições americanas?

 

Acredito que a insurreição mostra mais sobre polarização na sociedade, a existência de uma fatia fanática considerável dentro da direita política. As regras das eleições americanas são incoerentes e incompletas, mas foram suficientes no passado. O que é novo é o candidato derrotado se recusar a ceder o poder, e isso abriu um conflito em torno dessas regras.


Migrantes aguardam em fila sob neve para receber comida em Bihac, Bósnia Foto: Kemal Softic/AP

O sr. acredita que a democracia nos EUA está em perigo?

A democracia sempre foi fraca nos EUA, em grande parte por conta da exclusão de grandes segmentos da população das instituições políticas. Os efeitos dessa crise são difíceis de prever. Por um lado, o governo Biden não será visto como legítimo por boa parte da sociedade. Por outro, deve haver uma forte coalizão bipartidária de centro para unificar o país.

Qual o impacto do que ocorreu em outros países?

Os Estados Unidos já haviam perdido muito de seu “soft power” por causa de Trump e, particularmente, de sua maneira em lidar com a pandemia. Agora, os EUA não têm mais condição de se vender como bastião da democracia, certamente não como um sistema que deva ser seguido por outros países.

É possível a coexistência entre democracia e capitalismo?

Muitas pessoas desde o século 17 pensavam que não, pelo fato de o capitalismo ser um sistema de economia desigual e a democracia, de igualdade política. Pensavam que a democracia era uma ameaça letal ao capitalismo. Mas, no fim, isso se provou não ser verdade. Temos 13 países no mundo nos quais o capitalismo e a democracia coexistiram por mais de 100 anos de forma relativamente pacífica. A relação sempre será tensa, haverá conflitos entre os sistemas de produção e distribuição de renda, mas a coexistência é possível.

 


Ascensão de grupos extremistas, tentativas de golpes, eleições questionadas: como está o sistema democrático em diferentes países

 

E com o socialismo?

Em princípio, acho que é possível, acreditei toda minha vida que sim. Mas tivemos vários exemplos, principalmente em meados dos anos 60, que não funcionaram. Se por socialismo você se refere à centralização de recursos, não vimos um experimento que tenha sido bem-sucedido.

Existe um ponto em comum entre crises democráticas de diferentes países?

Democracia para mim é um sistema de resolução temporária de conflitos por meio de eleições. Para que esse sistema funcione, algo deve estar em jogo na eleição, mas não muita coisa. Se perder é muito doloroso para os perdedores e os vencedores não dão aos perdedores temporários uma chance de vitória no futuro, então as eleições não funcionam como um mecanismo, os conflitos saem das instituições e vão para as ruas.

E isso tem ocorrido?

Alguns pensam que o aborto nunca deve ser legalizado, outros que ele deve ser permitido até os três meses. São visões diferentes, mas a questão é o que fazer quando há uma discordância. O que ocorre em diversos países, como nos Estados Unidos e no Brasil nos últimos 20 anos, é que a hostilidade também aumentou. As pessoas se olham como inimigas. A hostilidade está dentro dos empregos, das famílias. As pessoas não conseguem conversar sobre política.

Essa polarização leva ao surgimento de “outsiders”?

Nos EUA, no Brasil, na Itália, isso é verdade. Nos anos 80, pessoas votavam, os governos mudavam e a vida das pessoas não, principalmente das classes mais baixas. Então surgem aqueles que oferecem soluções mágicas, os famosos “curandeiros”. Esse é o cenário de Trump, do 5 Estrelas na Itália. E isso justifica o colapso dos tradicionais partidos de centro-esquerda e centro-direita. Veja o PSDB, está colapsado.

É possível acabar com a crise da democracia?

Acho que na maioria dos países a democracia não está em perigo. Nos últimos 20 anos, mais ou menos, houve um aumento claro de partidos radicais de direita, mas parece que o apoio para esse tipo de radicalismo de direita fica sempre na faixa de 20% a 25%. O fato é que as instituições representativas tradicionais não funcionam muito bem. Se você é uma pessoa pobre no Brasil, no México, na Espanha, na Grécia, e se pergunta o que essas instituições fizeram por você ao longo da vida, a resposta será “muito pouco”. Desigualdade em alta é sintoma de algo errado com as instituições. Acho que essa crise veio para ficar, mas não ameaça a existência da democracia na maior parte dos países. De alguma forma, a eleição nos EUA é uma esperança, a democracia estará mais fraca, mas vai sobreviver.

O que o sr. pensa de política e religião estarem lado a lado?

O que me impressiona é que a religião permeie a política nos EUA e no Brasil atualmente. Os valores tradicionais da família foram ameaçados e alguns partidários de Bolsonaro, por exemplo, defendem a família tradicional. Se você olhar nas pesquisas dos EUA, uma das grandes diferenças na forma de votar está no fato de as pessoas serem casadas ou não. Isso é o que está em jogo. As pessoas se sentem ameaçadas em seu “jeito tradicional de levar a vida” e a religião é uma espécie de linguagem com a qual esses valores são transmitidos. Essa é uma nova divisão. As diferenças religiosas sempre existiram, mas nunca foram colocadas à venda.

Tirar líderes autoritários do poder demanda o que?

É uma questão de educação, mas também de organização, mobilização. O problema na maioria dos países é que as oposições estão extremamente divididas. Parte do motivo de ser tão difícil remover alguns líderes é a oposição rachada, como na Venezuela, no Brasil.

Falando de alguns países, como o sr. classifica a situação de Cuba?

Cuba é um caso muito, muito particular. É uma relíquia do passado, que de alguma forma sobreviveu. Antigos países comunistas ou colapsaram ou passaram por reformas gerais, como a China e Vietnã de forma bem sucedida. Cuba não teve uma reforma, ou teve muito pequena, e de alguma forma sobreviveu. Acredito que parte da situação atual é responsabilidade dos EUA. Acho que Cuba não tem muita opção. Se eles se abrem, vão ter uma injeção massiva de capitalismo, desigualdade, racismo vindo dos EUA e dos cubanos emigrantes. Então, não acho que eles tenham muita opção. Existiram momentos de abertura e quando ocorreram houve uma tentativa de reforma, mas acho que é uma situação impossível.

E a China?

Eu não sou tão anti-China como muitos são. É um governo brutal, um governo autoritário. O que fazem com os muçulmanos é brutal. A repressão aos ativistas é brutal, mas é um país de 1,4 bilhão de pessoas no qual as pessoas comem cada vez mais e as pessoas não se matam.Quando começo a pensar em China X Índia, os chineses brutalmente mantêm a prosperidade e a segurança e acho que são bem sucedidos nisso. Eu acredito na democracia, no direito de as pessoas se expressarem, escolherem seus governos, mas os chineses foram bem sucedidos em diversos de objetivos que não compartilhamos.

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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