sábado, 9 de janeiro de 2021

CONSUMO E A INFLAÇÃO

 

O consumidor e a inflação do atacado

Aperto do consumidor pode ter dificultado o repasse de aumentos do atacado ao varejo.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

 


A tóxica mistura de inflação e desemprego foi em 2020 uma das maiores ameaças ao bem-estar das famílias, principalmente das mais pobres. O desemprego ainda será muito alto em 2021, mas os preços ao consumidor deverão subir 3,32%, menos que no ano anterior, segundo projeção do mercado. Mas isso dependerá da confiança na gestão das contas públicas, das oscilações do dólar e do repasse da inflação do atacado ao comprador final. Por enquanto, os preços por atacado permanecem como um rochedo mal acomodado no alto de um morro. Esses preços aumentaram 31,63% em 2020, segundo o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), calculado mensalmente pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Os preços ao consumidor subiram muito menos, segundo o mesmo indicador. No ano recém-terminado a alta ficou em 4,81%, uma taxa desconfortável, mas equivalente a apenas 15,21% do aumento geral no atacado. O repasse foi muito menor que o observado em anos anteriores, como se uma barreira tivesse contido a avalanche e garantido alguma proteção às famílias.

O próprio comércio varejista pode ter imposto alguma resistência ao repasse de preços. Outro fator pode ter sido o comportamento cauteloso das famílias. Depois da grande contração econômica de março-abril, os consumidores voltaram às compras. O volume de vendas acumulado de janeiro a outubro foi 0,9% maior que o de um ano antes, mas o entusiasmo do consumidor, no início do último trimestre, já era bem menor que no início da retomada.

O auxílio emergencial foi reduzido de R$ 600 para R$ 300 a partir de setembro. Dezenas de milhões de famílias tiveram de se ajustar. Falta o balanço dos três meses finais de 2020, mas o aperto dessa gente também deve ter desestimulado o repasse dos aumentos. Além disso, a alta dos preços da alimentação – 12,69% até dezembro, de acordo com o IGP-M – deve ter limitado a já modesta lista de compras das pessoas mais pobres. A comida tem peso muito grande na cesta de consumo desse grupo.

Alguma barreira ao repasse de aumentos quase sempre existiu, mas nem sempre eficiente como no ano passado. Em 2018 a alta dos preços no varejo, de 4,12%, correspondeu a 43,69% da inflação geral das matérias-primas e dos bens intermediários (9,43%). Em 2019 a inflação enfrentada pelas famílias, de 3,79%, equivaleu a 41,74% da alta acumulada nos estágios da produção (9,08%).

Um fenômeno especialmente notável ocorreu em 2017, primeiro ano depois da recessão de 2015-2016. Naquele início de retomada, houve inflação de 3,14% no varejo e recuo de 2,55% nos preços por atacado.

A enorme distância entre as taxas de inflação no início e no fim da cadeia – 31,63% e 4,81% – também faz de 2020 um período muito especial. Repasses foram evitados, mas o ano terminou com grande acúmulo de aumentos no atacado. Esse acúmulo é visível também no Índice de Preços ao Produtor (IPP) calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A taxa mensal diminuiu de 3,41% em outubro para 1,3% no mês seguinte. No ano, o indicador geral aumentou 18,92%. Nesse período, os preços das indústrias extrativas subiram 47,23%. No caso das indústrias de transformação a alta foi de 17,59%. Os números acumulados até dezembro devem ter continuado muito altos.

O desemprego deve permanecer elevado. Sem o auxílio emergencial, muitos milhões de famílias serão forçadas a consumir com muita cautela. Isso poderá dificultar o repasse da inflação do atacado. A pobreza permanecerá como barreira aos aumentos, mas o risco persistirá.

Pela projeção do mercado, o IGP-M deverá aumentar 4,58%. Será um enorme recuo, depois da taxa de 23,14% em 2020. Esse recuo dependerá, obviamente, de uma evolução bem mais favorável dos preços por atacado. Essa evolução estará ligada, em boa parte, à produção de alimentos, sujeita às condições do tempo, às cotações das commodities e à evolução do dólar. Em boa parte, o câmbio refletirá, como no ano passado, as ações, as palavras e a diplomacia do presidente Jair Bolsonaro, as variáveis mais inseguras da economia brasileira.

 

IMPRENSA CRITICA O MINISTRO DA SAÚDE

 

Precisa-se de um ministro da Saúde

A infeliz declaração de Pazuello, que nem de seringas e agulhas entende, mostra a clara opção por lavar as mãos diante de uma tragédia.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

 


Em vez de se arvorar em consciência crítica da imprensa brasileira, faria melhor o intendente Eduardo Pazuello se trabalhasse como se espera de um ministro da Saúde no curso de uma crise sanitária que já matou mais de 200 mil de seus concidadãos. Informação correta para nortear a atuação do poder público não falta. A bem da verdade, nunca faltou.

O que anda em falta é coragem ao ministro para atuar de acordo com os dados científicos à disposição do governo para pôr fim a este descalabro que é a condução da pandemia no âmbito federal. O ministro Pazuello prefere ignorar os fatos e adular cegamente o seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro, um convicto negacionista da tragédia e sabotador das medidas de contenção ao espalhamento do novo coronavírus. Afinal, como já dissera, “um manda, o outro obedece, é simples assim”. E não têm faltado cabotinos para obedecer.

E não deveria ser assim. Ordens ilegais ou imorais não devem ser cumpridas por quem tem brio, respeito às leis e norte moral bem calibrado. A infeliz declaração do intendente, que nem de seringas e agulhas entende, mostra a clara opção por lavar as mãos diante de uma tragédia que, em sua visão, tem múltiplos responsáveis, nenhum deles no governo federal.

Num pronunciamento em Brasília no dia 7 passado, no qual manifestou a intenção da pasta de adquirir 100 milhões de doses da vacina Coronavac, do Instituto Butantan, para o Programa Nacional de Imunizações (PNI), o ministro da Saúde responsabilizou os jornalistas pela gravidade da pior emergência sanitária de que as atuais gerações têm notícia. Um ataque absolutamente despropositado à imprensa profissional, mas não incoerente. O governo do qual faz parte é useiro e vezeiro na desqualificação do trabalho dos jornalistas, a começar pelo presidente Bolsonaro.

“Os meios de comunicação, os senhores e as senhoras (referindo-se aos jornalistas presentes no pronunciamento), comuniquem os fatos. Me mostrem quando um brasileiro delegou aos redatores a interpretação dos fatos. Eu não vi. Nós não queremos a interpretação dos senhores, a tendência ideológica ou a bandeira. Quero assistir à notícia e ver o fato que aconteceu. Deixem a interpretação para o povo brasileiro, para cada um de nós”, disse o ministro da Saúde.

Seja como oficial do Exército, seja como ministro de Estado, é inacreditável que o intendente mostre tamanho distanciamento da Constituição. A liberdade de imprensa é plenamente assegurada pela Lei Maior do País, assim como o direito da sociedade de ser informada. Esta obtusa visão do ministro, segundo a qual os fatos não podem ser interpretados pela imprensa profissional, coaduna-se com uma percepção de mundo totalitária, em que não há espaço para contestação às versões que agradam aos poderosos de turno. Não há de ser por outro motivo que o intendente não se dispõe a conceder entrevistas, esquiva-se como pode das perguntas dos jornalistas e até mesmo dos fotógrafos. “Eu não posso levantar um dedo que já apontam uma máquina fotográfica para mim”, disse. Ele pode voltar ao conforto de sua privacidade no momento que quiser. Basta pedir demissão.

O fato é que a calamitosa gestão do intendente no Ministério da Saúde não apenas não ajuda o País a sair da crise, como a aprofunda ao minar esforços dos entes federativos. Mas há quem se preocupe com tal comportamento. Ao deferir uma medida cautelar pedida pela Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, determinou que o ministro da Saúde não requisite seringas e agulhas adquiridas pelo governo paulista para sua campanha de vacinação contra a covid-19. “A incúria do governo federal”, disse Lewandowski, “não pode penalizar a diligência da administração do Estado de São Paulo, a qual vem se preparando, de longa data, com o devido zelo para enfrentar a atual crise sanitária.” Cabe lembrar ainda que o Ministério da Saúde também só se dignou a esboçar um plano nacional de vacinação sob ordens da Suprema Corte.

O País não precisa de mais um intendente. Precisa de um ministro da Saúde.

VACINA TRAZ OTIMISMO PARA AS EMPRESAS AÉREAS

 

Vacina contra a covid traz otimismo e aéreas veem retomada do setor

Apesar do avanço de casos da doença, empresas identificam melhora em taxas de ocupação e aumentam oferta de voos no País; restrições ainda preocupam

Cristian Favaro e Beth Moreira, O Estado de S.Paulo

 

 

Apesar do crescimento do número de casos de covid-19 no Brasil, as companhias aéreas continuam observando uma retomada consistente dos seus negócios nos voos domésticos. O cenário ainda está distante de um céu de brigadeiro, mas mostra um momento muito menos dramático para as empresas. Como pano de fundo, os anúncios recentes sobre a vacinação no País trouxeram ao mercado a percepção otimista de que a volta do setor não deve ser um voo de galinha.

Em divulgação preliminar dos números de dezembro, a Gol, por exemplo, apontou um aumento de sua oferta para uma média de 476 voos por dia, crescimento de 29% em relação à média de 369 voos diários de novembro. Na alta temporada, entre 18 de dezembro e o próximo dia 31 de janeiro, a empresa espera uma média de 558 voos diários. Um dado otimista foi o da geração de caixa pelo segundo mês consecutivo, de R$ 6 milhões por dia em dezembro. A empresa esperava queimar R$ 3 milhões ao dia.


Empresas têm voltado a atenção para o interior com a alta demanda de voos para essas regiões. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Já a Azul divulgou ter fechado dezembro com aumento de 18,1% na demanda em comparação com novembro, além de avanço de 22,5% na oferta. A ocupação dos voos no mês foi de 80%. A aposta, conforme dados divulgados no mês passado, é a de fechar o primeiro trimestre deste ano com 100% da oferta do mesmo período de 2019.

Sinalização

Um analista que acompanha de perto o setor, que falou sob a condição de anonimato, destacou que os dados da Gol trouxeram uma sinalização importante de continuidade na demanda e estabilidade de caixa. “Em julho, o cenário que a gente tinha tanto para Gol quanto para Azul era de queda de 70% na demanda e notícias de que as empresas tinham risco de quebrar. Com as recentes capitalizações nas duas empresas associadas à retomada da demanda, a situação financeira delas ficou muito melhor”, disse.

O motor de sustentação para o setor é de fato a demanda, que levou o País a figurar como um dos mais bem posicionados na retomada doméstica no mundo. Dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês) apontam que a demanda de passageiros nos mercados domésticos globais caiu 41% em novembro na comparação com igual mês de 2019, enquanto a ocupação estava em 66,6%. No Brasil, o cenário era de queda de 34,5% na demanda e ocupação em 84,5%.

As notícias nesta semana sobre a vacinação no Brasil fortalecem a percepção de que a volta dos brasileiros para as viagens aéreas não será algo temporário, acreditam as companhias.

Restrições

A maior barreira hoje para os viajantes são as medidas de restrição nas cidades por causa da pandemia, diz Guilherme Amaral, sócio responsável pela área de Direito Aeronáutico do ASBZ Advogados. “O que assusta o passageiro não é o medo de voar. As empresas e os aeroportos conseguiram passar protocolos. O receio é saber o que a pessoa vai conseguir fazer em outro Estado ou cidade”.

Ainda assim, a pandemia não afastou o passageiro brasileiro das festividades de final de ano. Dados preliminares divulgados pela Smiles mostraram que os resgates de milhas em outubro e novembro chegaram a 90% e a 81%, respectivamente, dos registrados um ano antes.

A dúvida de analistas é se essa força vai continuar no Carnaval, uma vez que as pessoas tendem a estar com menos milhas para usar e, ainda, têm acumulado poucas delas com as menores compras nos cartões. Em paralelo, há movimentos para cancelar ou postergar as festividades em cidades como Salvador e Rio de Janeiro, o que pode reduzir a procura.

Corrida ao interior

As sinalizações positivas para a demanda têm levado a uma corrida à aviação regional. A Azul lidera o movimento e, em agosto, lançou a Azul Conecta, braço de aviação regional fruto da aquisição da TwoFlex, que era parceira da Gol no segmento.

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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