quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

EMPRESAS MONITORAM O DESCANSO E NÃO O TRABALHO

 

Empresas agora monitoram o descanso, e não o trabalho dos funcionários

Bloquear a agenda de reuniões em determinados dias e horários ainda é movimento tímido, mas virou norma institucional em algumas empresas; na Sanofi, está proibido ter reunião às quintas

 

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

 

 

Zoom, Teams, Meet. Workplace, Yammer. Miro. Hangouts, Slack, WhatsApp. Para fazer reuniões, integrar todos os funcionários em um mesmo espaço virtual e trocar mensagens, essas são algumas das plataformas e aplicativos que se tornaram essenciais em tempos de home office. O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que essas tecnologias proporcionam migrar companhias inteiras para o trabalho remoto (e assim manter todos minimamente seguros dos riscos de contágio pelo coronavírus), o desgaste mental causado pelo tempo e quantidade de telas bate à porta. Após oito meses de home office, as empresas se deparam com o desafio de equalizar o tempo em que os funcionários estão conectados e, incrivelmente, monitorar o descanso.

 

Como toda novidade, o aprendizado vem em ondas. Inicialmente, o desafio era garantir a ergonomia, com mesa e cadeira apropriadas. Em paralelo, veio a saúde mental, com o oferecimento de telemedicina e teleterapia. Depois, novos tipos de benefícios entraram em jogo. Já mirando a necessidade de oferecer soluções de lazer, plataformas de bem-estar foram criadas, com aulas de exercícios físicos. Mas tudo via plataforma de vídeo, afinal o mundo presencial está em quarentena. Agora, a exaustão pelo tempo de conexão e de tela chegou.

O primeiro passo dado pelas empresas foi pensar na etiqueta das reuniões em vídeo, orientando sobre horários mais apropriados e até mesmo trazendo a reflexão sobre a necessidade de tudo se tornar uma reunião com câmera ligada. O próximo passo, mais longo e ainda tímido, é estabelecer de forma institucional pausas ou dias sem reuniões.

É o caso da farmacêutica Sanofi, que implementou há três meses o no internal Zoom meeting day (dia sem Zoom) na unidade de negócios Consumer Healthcare. Todas as quintas-feiras está suspenso qualquer tipo de reunião interna. A ação é mais do que uma orientação, pois a agenda de todos os 400 colaboradores foi travada neste dia até o final do ano pelo general manager da unidade, Rodolfo Hrosz. Eles ainda recebem alertas todas as semanas para lembrá-los de não marcarem reuniões às quintas-feiras.

“Os apontamentos sobre a estafa em relação ao Zoom vieram de rodas de conversas que fazemos com os gestores. Percebemos que aquela parada que os funcionários davam quando estavam no trânsito começou a ser positiva, porque era o momento em que ele conseguia desligar da tela”, diz Sueli Thome, gerente sênior de recursos humanos  da unidade de negócios Consumer Healthcare da Sanofi. “As pessoas criaram uma rotina do Zoom que elas mesmas perderam o autocontrole”, completa.


Ana Paula Franzoti, gerente de cultura organizacional da Unilever Brasil; empresa institucionalizou horários barrados para fazer reuniões e pausas durante o dia.  Foto: Taba Benedicto/Estadão

O funcionário fica livre neste dia. “Falamos: use esse dia a seu favor”, diz Sueli, que completa explicando que os feedbacks que recebeu depois da criação do dia sem Zoom a surpreendeu. “A princípio, achei que o impacto fosse pequeno. Mas de todas as ações que a gente trouxe para o home office, essa foi a que teve maior repercussão”.

Sobre o número de plataformas utilizadas pela empresa, Sueli diz que o Zoom é a ferramenta oficial para as reuniões e o Yammer, rede social corporativa, é utilizado para a comunicação entre todos. “O WhatsApp é incontrolável, mas ele não é uma ferramenta de comunicação corporativa. A gente tem um grupo sim por lá, mas se tornou um espaço de encontro entre todos, em que não se fala muito de trabalho. Quando a gente percebe que o uso está indo além dos limites (em relação a trabalho), a gente dá uma segurada”, conta.

Outra empresa que também começa a colocar em prática pausas e bloqueios institucionais é a Unilever Brasil. Depois de organizarem duas semanas voltadas ao bem-estar no mês de julho, com palestras e atividades, a empresa reuniu um time de 20 pessoas com diversos níveis hierárquicos e áreas de atuação para ouvir as principais demandas e dificuldades do home office.

“Quando você organiza um evento de bem-estar você está ofertando, mas não está ouvindo”, diz Ana Paula Franzoti, gerente de desenvolvimento organizacional e cultura da Unilever Brasil. “Ouvimos muitas queixas sobre a falta de tempo  para se planejar, criar, ler e mesmo almoçar. ‘Passo o tempo todo em reunião’, era o que mais diziam”, conta Ana Paula.

De cima para baixo

Foi então que surgiram as ‘regras de ouro’, na qual foram vetadas reuniões entre 12h e 13h30 e após as 18h, reuniões em horas cheias, ou seja, é preciso fazer uma pausa de 10 minutos entre uma reunião e o outro compromisso, e o expediente de sexta-feira se encerra agora às 16h. A regras foram comunicadas pelo presidente, Fernando Fernandez. “A comunicação vir de forma corporativa deu um peso maior. Não é um posicionamento da área de recursos humanos. É um posicionamento da Unilever Brasil”, diz.

Para exemplificar a efetividade das ‘regras de ouro’, Ana Paula acredita que a hora do almoço virou “sagrada”. “Vejo o movimento da liderança, mas também do funcionário para cima. Essa é a transformação mais importante, o funcionário se sentir confortável para ele dizer ‘olha, não dá pra fazer reunião nesse horário’”. A empresa usa a plataforma Teams como ferramenta de reuniões e emite um boletim diário sobre o que acontece na organização. É no boletim que a empresa também incentiva os momentos de desconexão dos funcionários, com dicas de livros, receitas e atividades que possam ser feitas ao ar livre.

Maria Elisa Moreira, psicóloga especialista em psicologia organizacional e professora do Insper, ressalta a importância de as práticas de desconexão e alívio de tela virem de cima para baixo: corporação, liderança, time. “A gente viu líderes completamente despreparados para lidar com esse momento. Líderes que cobravam presença virtual, registro em foto, marcavam reuniões em horários absurdos. É a instituição que vai nortear a postura de liderança. E, já que as pessoas não se organizaram, eu como empresa vou ter que dizer que esse período é para você descansar. As empresas vão ter de monitorar o descanso”, acredita.

Você sabia?

Antes de existir o zoom fatigue  (exaustão mental causada pelo excesso de interação em telas, não importa a plataforma ou app), já existia a Síndrome Visual Relacionada a Computadores (SVRC). Os sintomas mais comuns da SVRC é sensação de areia, ardência, embaçamento e vermelhidão nos olhos, além de dores de cabeça, sonolência, mal-estar, tontura e cansaço. A Sociedade Brasileira de Oftalmologia alerta que até 90% das pessoas que utilizam computador por mais de três horas diárias apresentam algum sintoma relacionado à SVRC.

 

RECUPERAÇÃO LENTA DO MERCADO

 

Previsões cautelosas do mercado

Projeções indicam recuperação lenta, mas com início de arrumação fiscal

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

 


Apesar da alardeada recuperação em V, o Brasil levará quase dois anos para voltar ao nível de produção de 2019, se os fatos confirmarem as novas expectativas do mercado, contidas no primeiro boletim Focus divulgado neste ano. Depois de ter encolhido 4,36% em 2020, o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá 3,40% em 2021 e 2,50% em 2022, segundo a mediana das projeções captadas pelo Banco Central (BC). Completado esse trajeto nada brilhante, o PIB de 2022 ficará apenas 1,36% acima do contabilizado três anos antes, no início do mandato do presidente Jair Bolsonaro. Se nenhuma grande transformação ocorrer, com a recuperação em V o País apenas confirmará sua posição entre os mais lentos na corrida global.

Muitos outros países também levarão mais de um ano para retomar a atividade anterior à pandemia. Essa previsão vale para economias avançadas, emergentes e em começo de desenvolvimento. Vários desses países, no entanto, avançaram mais velozmente que o Brasil em anos anteriores à crise da covid-19. Além disso, a vacinação contra o novo coronavírus já foi iniciada em dezenas de países. Essa vacinação é essencial para a segurança da retomada econômica.

Nenhum surto de otimismo aparece nas expectativas sintetizadas na pesquisa Focus. A perda econômica estimada para 2020 é pouco menor que a indicada no boletim da semana anterior (4,40%). Mas a mediana das projeções para 2021 também diminuiu, passando de 3,49% para 3,40%. Quatro semanas antes estava em 3,50%.

A indústria deverá contribuir muito modestamente para a retomada. A produção industrial, com aumento estimado em 4,78%, continuará bem abaixo do nível anterior à crise, depois da queda de 5% calculada para 2020. No último boletim divulgado em dezembro, o produto industrial de 2021 seria 5% maior que o do ano anterior.

O volume e o valor da produção brasileira continuarão, portanto, a depender excessivamente da agropecuária, o setor mais dinâmico e mais eficiente da economia nacional. Não há informações diretas sobre isso no boletim semanal publicado pelo BC. Mas o superávit comercial estimado em US$ 55,10 bilhões dependerá, com certeza, basicamente do agronegócio, como tem dependido há muitos anos.

A safra de grãos 2020-2021 deverá ser novo recorde, segundo o Ministério da Agricultura, mas isso dependerá, em boa parte, do sol, da chuva e dos ventos. Essas potestades têm exibido mau humor com frequência antes desconhecida. São reações, dizem especialistas em meteorologia, aos desaforos de quem favorece queimadas e outras agressões ao meio ambiente.

Os alertas têm sido inúteis. Não só em relação à pandemia, mas também diante dos desarranjos climáticos, o presidente Bolsonaro prefere o negacionismo e insiste em provocar os deuses do tempo. Com esse comportamento ele também confronta os importadores de produtos brasileiros e põe em risco muitos bilhões de dólares. A demora dos governos europeus em confirmar o acordo comercial com o Mercosul é uma conhecida consequência do antiambientalismo bolsonariano.

O crescimento econômico vai depender também do enfrentamento dos problemas fiscais. As finanças do governo foram duramente afetadas pelas medidas de combate aos efeitos da pandemia. Essas medidas foram necessárias, mas agora é preciso implantar um programa de ajuste das contas oficiais. Conter o aumento do endividamento público será uma tarefa especialmente importante, mas isso dependerá, em primeiro lugar, de um compromisso presidencial.

Sem esse compromisso, os investidores terão dificuldade para apostar na responsabilidade fiscal, ameaçada por ministros gastadores, por aliados fisiológicos e pelo empenho do presidente em garantir sua reeleição. Na virada do ano, o mercado manteve as principais estimativas do cenário fiscal, como o déficit primário (sem juros) equivalente a 10,60% do PIB em 2020 e a 3% em 2021. A projeção para este ano pressupõe uma política compatível com as expectativas dos financiadores do Tesouro. Esta é a principal demonstração de otimismo em relação ao novo ano.

 

POPULAÇÃO DESPREPARADA

 

A causa do despreparo da população

Carência de qualificação é culpa de quem faz do sistema educacional brasileiro terra arrasada

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

 

Em mais um tortuoso monólogo pronunciado no cercadinho do Palácio da Alvorada, quando fala para convertidos e opina sobre as mais variadas questões, o presidente Jair Bolsonaro atribuiu o alto índice de desemprego à falta de preparo da população. Em novembro, o desemprego bateu novo recorde, atingindo 14 milhões de brasileiros, e a taxa de desocupação da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid-19, do IBGE, atingiu 14,2% – a maior desde que esse levantamento começou a ser feito.

Desordenada como sempre, a fala de Bolsonaro misturou temas como crescimento de ações trabalhistas, importação de serviços e dificuldades enfrentadas por empregadores, o que faz com que “ser patrão é uma desgraça”. O denominador comum, porém, foi o despreparo da mão de obra. “Então, é um país difícil de trabalhar. Quando fala em desemprego, né, vários motivos (sic). Uma parte considerável não está preparada para fazer quase nada.”

Em princípio, a premissa de que parte Bolsonaro é correta. No último Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, por exemplo, a ênfase foi em interpretação de textos e o Brasil ficou entre as 20 últimas posições do ranking. O levantamento mostrou que só 2% dos estudantes brasileiros souberam separar fatos de opiniões, o que é vital para o desenvolvimento do pensamento crítico. Dados oficiais revelam que, em 2019, 30% dos jovens com até 25 anos não terminaram o ensino médio. Dos que concluíram, menos da metade conseguiu entrar num curso superior. Ou seja, são poucos os jovens preparados para ganhar a vida.

O que Bolsonaro não disse é que ele tem uma alta dose de responsabilidade por essa situação. Desde que chegou à Presidência, ele vem desmontando o setor educacional. Em vez de tratar a educação como política de Estado, ele a trata como política de governo, desprezando as opiniões de pedagogos, formulando programas com enfoques religioso e ideológico, perdendo tempo com discussão sobre indumentária escolar e entregando cargos estratégicos a amadores. Também deixou os Estados à própria sorte após a pandemia, sem articular a substituição do ensino presencial pelo ensino remoto. E, além de ter nomeado quatro ministros da Educação em dois anos de mandato, tumultuou o calendário do Enem e ainda transferiu para o setor de infraestrutura recursos do ensino básico, para gáudio do Centrão governista.

Em momento algum o governo Bolsonaro ouviu as advertências de ONGs educacionais, de especialistas em ensino básico, de membros do Conselho Nacional de Educação e de dirigentes de organismos multilaterais sobre o fosso que o País está cavando por negar às novas gerações a formação escolar de que precisam para obter colocação profissional num período de intensas transformações tecnológicas. Nestes dois anos, em momento algum o governo relacionou ensino com redução das desigualdades sociais, educação com padrão de vida e formação escolar com potencial produtivo dos jovens. As autoridades governamentais nem sequer comentaram um estudo que o Banco Mundial apresentou no fim de 2020, informando que, por causa do baixo nível de aprendizagem dos adolescentes e dos jovens brasileiros, eles ingressarão no mercado de trabalho nos próximos anos com apenas 55% do seu potencial produtivo desenvolvido.

Diante da intensidade das mudanças nas técnicas de produção, que estão reconfigurando o mundo do trabalho, só terão vez os jovens com formação especializada e capacitação técnica – requisitos que o governo Bolsonaro não oferece por absoluta inépcia administrativa. O impacto que essa incompetência monumental terá na educação poderá causar não só a ampliação da informalidade, mas o aumento da exclusão social e a elevação da criminalidade. Como a educação é um investimento de longo prazo, cujos efeitos sociais e econômicos se convertem em patrimônio da sociedade, Bolsonaro deveria ter tido mais cuidado quando atribuiu o desemprego ao despreparo da população. Se parte significativa dela carece de qualificação, a culpa é de quem vem, desde sua posse, fazendo do sistema educacional brasileiro terra arrasada.

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...