quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

ECONOMISTAS RENOMADOS RESPONDEM A BOLSONARO SOBRE O BRASIL QUEBRADO

 

Economistas respondem a Bolsonaro: Brasil não está quebrado, mas governo precisa fazer escolhas

Segundo especialistas, País tem boa situação financeira, mas precisa avançar na aprovação de medidas essenciais para a sustentabilidade das contas públicas, como as reformas tributária e administrativa

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

 

 

BRASÍLIA - Economistas ouvidos pelo Estadão são taxativos no contraponto ao presidente Jair Bolsonaro: o Brasil não está quebrado, mas é preciso fazer escolhas para ampliar gastos, incluindo o avanço na aprovação de medidas essenciais para a sustentabilidade das contas públicas.


'Brasil está quebrado, chefe', disse Bolsonaro a apoiador nesta terça-feira, 5. Foto: Erado Peres/AP

 

Nesta terça-feira, 5, ao responder um apoiador que o cobrou sobre o aumento da isenção do Imposto de Renda (hoje, concedido a quem ganha até R$ 1,9 mil por mês), Bolsonaro disse: "Chefe, o Brasil está quebrado, chefe. Eu não consigo fazer nada".

Para economistas, porém, o presidente pode, sim, se empenhar para a aprovação da reforma administrativa que prevê uma reformulação no RH do Estado, com mudanças na forma como os servidores são contratados, promovidos e demitidos. Ou cortar os chamados benefícios tributários, quando a União abre mão da arrecadação em favor de grupos específicos. Com esse discurso, a avaliação é de que o presidente posterga e acumula os problemas.

Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro Nacional dos governos Temer e Bolsonaro. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro Nacional dos governos Temer e Bolsonaro

O Brasil não está quebrado. O presidente quis dizer talvez que, apesar da carga tributária elevada aqui, mesmo cumprindo com o teto dos gastos, ainda teremos este ano e nos próximos déficit primário e crescimento da dívida pública. Assim, não há espaço para o governo abrir mão de arrecadação porque ainda teremos que reduzir o mais rápido possível o desequilíbrio fiscal ao longo dos próximos anos para consolidar o cenário de inflação na meta, juros baixos e recuperação da economia.

A situação é a seguinte: hoje, o Brasil não pode abrir mão de R$ 1 de receita e ainda tem que se esforçar para recuperar neste e nos próximos anos a arrecadação que perdeu com a crise da covid-19 na queda do Produto Interno Bruto (PIB) e na arrecadação.


Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central e atual economista-chefe da Confederação Nacional de Comércio (CNC). Foto: Roque de Sá/Agência O Globo

Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central e atual economista-chefe da Confederação Nacional de Comércio (CNC)

O Brasil não está quebrado. O Brasil quebrou várias vezes no passado por falta de dólares. E quebrou em cruzados novos pela hiperinflação deixada pelo ex-ministro Maílson da Nóbrega com sua política de feijão com arroz. Hoje, o Brasil é credor líquido em dólares, tem a taxa de juros mais baixa da história, saiu em V da recessão e a renda média aumentou no ano passado. Fala que o País está quebrado somente quem não conhece economia. Mas presidente é presidente. Bolsonaro falou isso para ninguém pedir ajuda. Ele quis barrar pedidos de verbas ao governo. Quando ele prometeu ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda era outra época. Hoje, mudou tudo. É outro mundo. O presidente tem que falar não e não.

 


Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados

Iniciando a metade final de seu mandato, o presidente indica que não conseguirá fazer mais nada de relevante. Ao sugerir mãos atadas por um país quebrado, ele esquece de que poderia fazer uma reforma administrativa que envolvesse o funcionalismo da ativa e que poderia ir além na PEC emergencial, discutindo gastos tributários como a Zona Franca de Manaus. Ou que pudesse entrar em acordo sobre as reformas tributárias na Câmara e no Senado, mais profundas do que a apresentada pelo Ministério da Economia. Mas não. Ao sair com esse discurso por falta de força política o presidente posterga e acumula os problemas para 2023, início de um novo governo. Serão dois anos que, pelo jeito, veremos o Executivo bater cabeça como ficou o governo Temer depois da delação da JBS. Vamos, novamente, viver em compasso de espera.

 


Guilherme Tinoco, especialista em contas públicas. Foto: Twitter/Reprodução

Guilherme Tinoco, especialista em contas públicas

O Brasil não quebrou. O País vive um momento econômico complicado e, em termos fiscais, há que de fato se ter muita responsabilidade. A dívida do país cresceu bastante, atinge níveis recordes e segue sendo uma das mais altas, senão a maior, entre países emergentes. Isso não é desculpa, contudo, para nada fazer. Esse discurso não serviu, por exemplo, para impedir o aporte bilionário de recursos na empresa estatal militar, Engeprom, ou a concessão de aumento salarial aos militares. Esse discurso também não tem sido suficiente para mobilizar o governo para realizar as reformas necessárias.

Onde está a reforma administrativa? Onde estão as privatizações prometidas? E o anúncio de corte nos benefícios fiscais? Também é importante lembrar que o atraso na vacinação custa bastante, em termos financeiros, conta que um país quebrado não pode suportar. A cada 1 ponto percentual de PIB perdido por conta desse atraso, o governo deixa de arrecadar um montante próximo ao valor da privatização da Eletrobrás.

 

 

NÃO HÁ DADOS CORRETOS SOBRE AS COMPRAS FUTURAS DE INSUMOS

 

Transparência contra a especulação

Não há dados transparentes sobre as compras futuras de insumos pelo mercado internacional

Ricardo Santin*, O Estado de S.Paulo

 

 

Informação é ouro. Em tempos de fake news, porém, ouro é a informação idônea e de fontes confiáveis. Informação correta elimina a escuridão e projeta as verdades escondidas.

Quer ver uma delas? Um ano de ouro gera menos para o Brasil do que um ano de carne de frango. Em 2019, exportamos US$ 3,6 bilhões em ouro. Dobre esse valor e você terá algo próximo ao que embarcamos de carne de frango: US$ 7 bilhões. Nos últimos 20 anos, as vendas para o mercado internacional geraram para o Brasil US$ 116 bilhões. Some a este quadro as vendas de carne suína, setor com sistema produtivo equivalente. O total passa para US$ 140 bilhões.

Concentrada especialmente no interior, essa produção reúne em torno de 220 frigoríficos e gera 4,1 milhões de empregos diretos e indiretos. Envolve 100 mil famílias de pequenos e médios produtores. São números de setores que alicerçam a economia de centenas de municípios distribuídos pelo País.


Em 2019, exportamos US$ 7 bilhões em carne de frango - o dobro das exportações de ouro. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

São alicerces sólidos, mas não indestrutíveis. O vento que sopra a favor do crescimento econômico, da agregação de valor e da geração de empregos também pode ecoar o efeito destrutivo da desinformação vendida como informação. Essa é a consequência negativa que especulações infundadas causam.

Na economia de mercado, especular é um movimento comum. É a aposta num fim baseado em números, projeções e fatores como o nervosismo do mercado. Entretanto, quando esse sentimento é impulsionado, o estrago pode ser grande. Veja o cenário que os produtores têm enfrentado nos últimos meses. Em plena crise pandêmica, com a economia frágil e perda do poder de compra, quem produz proteína animal se depara com altas de até 100% nos preços do milho e no farelo de soja. Juntos, esses insumos representam 70% dos custos da avicultura e da suinocultura.

Essa conta impactará o consumidor e o País. No mercado interno, o inevitável repasse de custos elevará os preços nas gôndolas. Para fora, sofreremos uma severa perda de competitividade, justamente quando os players internacionais retomam as atividades.

Além disso, com insumos tão caros, será inviável sustentar animais com menores índices de produtividade. Poderá haver redução do alojamento de aves e diminuição da oferta de produtos. Tudo baseado na projeção de que faltam grãos no mercado interno.

O fato, porém, foi refutado pela ministra da AgriculturaTereza Cristina. Conforme levantamento da pasta, há grãos suficientes para abastecer o mercado interno. Isso nos leva à conclusão de que especuladores com grãos em estoque estão retendo a circulação dos insumos, forçando altas artificiais.

Este quadro se fortalece na ausência de informações claras sobre os embarques internacionais. A produção nesta safra é superior em relação à de 2019. Também temos exportações equivalentes no mesmo período. Então, o que sustenta essas altas? A maior tensão vem das supostas compras futuras de insumos pelo mercado internacional.

Mas não há dados transparentes sobre essas compras. No Brasil, não há controle oficial sobre as exportações futuras. Algo diferente do que ocorre com os EUA, outro grande produtor mundial de grãos. Por lá, toda venda internacional é registrada pelo governo. Esse protocolo não gera entrave aos produtores e dá uma visão precisa sobre o quadro de abastecimento de insumos estratégicos.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) solicitou ao Ministério da Agricultura o monitoramento dessas vendas futuras. É uma demanda que vai além da equivalência competitiva. Tem impacto direto na inflação dos alimentos para a população brasileira. “Um erro terrível teorizar antes de termos informação”, disse Arthur Conan Doyle. Portanto, sem dados, a especulação ganha força. E, assim, a produção de alimentos enfraquece e o Brasil perde.

*PRESIDENTE DA ABPA

 

BOLSONARO DIZ QUE O PAÍS ESTÁ QUEBRADO

 

O País quebrado de Jair Bolsonaro

Presidente disse que o Brasil está quebrado para justificar o fato de não ter cumprido uma promessa de campanha sempre cobrada por seus apoiadores: aumentar o limite da faixa de isenção do Imposto de Renda

Adriana Fernandes*, O Estado de S.Paulo

 

 


Um presidente da República não deveria sair alardeando por aí que o país que ele mesmo governa está quebrado. Muito menos para servir de justificativa para o fato de não ter cumprido uma promessa de campanha sempre cobrada pelos seus apoiadores: aumentar o limite da faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF).

Saiu-se logo com a resposta mais fácil: o Brasil quebrou. Mas a verdade é que o presidente não mexeu uma palha para abrir espaço para corrigir a tabela do IRPF. Pelo contrário, beneficiou setores específicos nesses dois anos de governo e atropelou a discussão de mudanças no campo tributário por disputas políticas. Também não ajudou na pauta de corte de gastos ineficientes.

O que vão achar os investidores que compram papéis de um governo do qual o seu próprio presidente diz que está quebrado? É natural que comecem a cobrar cada vez mais para comprar os títulos da dívida brasileira.

Jair BolsonaroO presidente Jair Bolsonaro em evento no Palácio do Planalto. Foto: Dida Sampaio/Estadão - 16/12/2020

Ou seja, pode custar mais dinheiro para os contribuintes que o presidente promete ajudar com a correção da tabela do IRPF.

A fala do presidente é irresponsável sob todos os aspectos. Mas é ainda mais perigosa no momento atual em que o Tesouro Nacional passou por meses de grande dificuldade para se financiar e tem pela frente um trabalho difícil para pagar uma montanha de dívida concentrada nos primeiros meses do ano e que já supera R$ 1,3 trilhão até o final de 2021.

A declaração é ainda mais inoportuna depois da revelação pelo Estadão de que o Brasil não honrou o pagamento da penúltima parcela de US$ 292 milhões para o aporte de capital no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), a instituição financeira criada pelos cinco países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

O prazo para a quitação da parcela terminou no último dia 3 de janeiro e o Brasil agora está inadimplente com o banco que ajudou a fundar e é um dos acionistas.

A equipe econômica não quer nem que se fale em calote com temor do estrago. Prefere dizer que é um atraso. No dicionário, porém, a definição de calote é: dívida não paga.

O sinal é ruim. Outros organismos multilaterais também não receberam, mas não há transparência nenhuma do Ministério da Economia para explicar o que aconteceu, qual o tamanho da dívida e a razão de ela não ter sido paga.

Depois da fala do presidente nesta terça-feira, 5, é melhor a equipe econômica agir rápido, fazer uma declaração oficial para afastar a desconfiança.

*É REPÓRTER ESPECIAL DE ECONOMIA EM BRASÍLIA

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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