Especialistas em inovação
comentam o que esperar do mercado de startups em 2021
Ecossistema
deverá continuar surfando a boa onda iniciada em 2020
Por Giovanna Wolf e Bruno Capelas - O Estado de S.
Paulo
Depois de um susto inicial no começo da pandemia,
as startups brasileiras fecharam 2020
fortalecidas: houve recorde de aportes, avanços regulatórios e
até novos unicórnios (empresas avaliadas em
mais de US$ 1 bilhão). Seguindo esse movimento, 2021 promete ventos ainda
melhores para as empresas de inovação, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão.
Entre as expectativas para o ecossistema estão o
crescimento no número de aquisições e fusões e o aumento de aberturas de
capital no setor – no ano passado, houve mais de 140 aquisições no setor,
segundo dados do hub de inovação Distrito.
Outro ponto que deve avançar, segundo os
especialistas, é o aspecto regulatório: o mercado de startups deve continuar
colhendo frutos em 2021 de mudanças como a aprovação da telemedicina e
destravamentos no setor de fintechs.
Startups
devem se beneficiar de avanços regulatórios em 2021; na foto, espaço de
inovação Google for Startups
Nos serviços financeiros, também há um horizonte de
novas possibilidades com a chegada do meio de pagamento instantâneo Pix e
do sistema de open banking, que facilita o compartilhamento
de informações financeiras de clientes entre as instituições.
Quanto a setores, espera-se crescimento nas áreas
que já se destacaram ao longo dos últimos meses de pandemia, como saúde e
educação. Abaixo, seis especialistas em inovação comentam a perspectiva para o
mercado brasileiro de startups no ano que se inicia.
‘Novas leis são um novo começo’, diz
André Barrence, diretor do Google for Startups
André
Barrence, diretor do Google for Startups
“Haverá um número cada vez mais significativo de
saídas, seja com startups sendo adquiridas ou fazendo abertura de capital. Na
bolsa, empresas como Méliuz e Enjoei ajudaram a romper o teto de saída. Além
disso, teremos novidades a partir de mudanças de regulação, pois novas leis
representam um novo começo. Novidades, como o Pix ou o open banking, ajudam a
destravar o florescimento de novas startups, bem como a entrada de empresas em
novas áreas. É uma corrida: não necessariamente as startups que existem hoje
são aquelas que vão fazer o melhor uso das novas possibilidades. Quem ganha é o
usuário. Os organismos regulatórios têm plena consciência da sua importância
para destravar processos e beneficiar os usuários. Organizações, como o Banco Central, são sólidas e têm a dimensão que
as novidades são marcos sem retorno. Sou otimista nesse aspecto.”
'Toda empresa será fintech em potencial’, diz
Rafael Assunção, sócio da consultoria Questum
Rafael
Assunção, sócio da consultoria Questum
“Três temas principais serão destaques. O primeiro
deles é a “fintechização”. Antigamente, falávamos sobre o software “comer
tudo”. Agora, as fintechs é que vão comer tudo. Toda compra ou conta de usuário
vai virar uma conta digital. E isso se deve muito às ações do Banco Central,
que abriu espaço com o Pix e o open banking. O resultado é que não será mais
perceptível a diferença entre, por exemplo, uma empresa de educação e de
crédito. Nos EUA, só um terço do crédito vem dos bancos. No Brasil, isso é o
futuro. Além disso, veremos mais aberturas de capital do setor e mais fusões e
aquisições de startups. Para startups, essa área vai ser o melhor momento de
todos os tempos, porque as empresas vão comprar tecnologia para fazer sua
transformação digital. Outra palavra fundamental é o 5G: ele vai mudar nossa vida de forma
relevante, mas o Brasil precisa resolver isso.”
‘Otimismo com o Marco Legal das Startups’,
diz Livia Brando, diretora do hub de inovação Wayra Brasil, da Vivo
Livia
Brando, diretora do hub de inovação Wayra Brasil, da Vivo
“Estamos bastante otimistas em relação ao
ecossistema de empreendedorismo e venture capital em 2021. Entendemos que o
comportamento do consumidor mudou muito em 2020, e há algumas áreas com um
potencial especial de oportunidade, como saúde, educação e serviços
financeiros. A forma como a gente busca conteúdo para educação mudou. Também
não somos mais atendidos pela medicina do mesmo jeito. Além disso, do lado dos
serviços financeiros, houve transformações relevantes como o Pix. Continuaremos
colhendo os efeitos dessas mudanças neste ano. Um ponto importante é a evolução
do Marco Legal das Startups: esperamos que isso
traga benefícios para o ecossistema. Na Wayra, continuaremos buscando startups
em fase de tração, para que possamos apoiar e gerar negócios de fato, trazendo
soluções não só para a Vivo mas para os clientes da Vivo.”
‘Nova safra de empresas é ótima’ , diz Dennis
Wang, diretor do fundo Igah Ventures
Dennis
Wang, diretor do fundo Igah Ventures
“2021 será melhor que o ano passado. Primeiro,
porque as empresas já se adaptaram para trabalhar num cenário de pandemia.
Segundo, porque com a vacina chegando, a economia tradicional vai ser retomada.
E terceiro porque há muita liquidez no mercado. Os fundos captaram nos últimos
anos e ainda há muitos capitalizando. E isso bate de frente com uma ótima safra
de empreendedores nas empresas que estão em fase inicial de investimento. Há
muitos setores com potencial de avançar: saúde e seguros vão ser dois temas
importantes. E software também: com as empresas se digitalizando e precisando
atender clientes, softwares serão essenciais. Se a economia continuar como
está, a janela continua aberta para IPOs de empresas. Acho que vai ser um ano
bem agitado para o setor e, mais importante, as empresas vão focar em resolver
dores do cliente.”
'Startups vão querer quem pensa diferente’,
diz Luís Gustavo Lima, diretor da empresa de inovação ACE
Luís
Gustavo Lima, diretor da empresa de inovação ACE
“Antigamente, toda empresa queria um cara que
vestisse a camisa. Agora, toda empresa vai querer um colaborador empreendedor.
Aquele que pensa diferente, que não se contenta com o status quo e cria
problemas de forma positiva. A competência de inovação vai ser fortíssima com
uso de metodologias ágeis. É uma palavra que virou chavão, mas que vai ter de
ser vivida na prática, com o cliente no foco. Outra coisa que foi muito falada
e a partir de agora vai passar a existir de fato é que as pessoas vão ter
outras prioridades no trabalho. Há uma busca por conciliar propósito, impacto e
segurança, seja ela financeira ou psicológica. A transição da liderança de
comando e controle para uma liderança sensível e empática vai ser muito
sentida. Por outro lado, as startups que crescem vão ter que olhar mais para
governança, para as coisas chatas, com processos e rituais.”
'Conexões serão essenciais em 2021’, diz Dani
Junco, CEO da aceleradora B2Mamy, focada em mães empreendedoras
Dani
Junco, CEO da aceleradora B2Mamy, focada em mães empreendedoras
“Estamos vindo de um ano em que as mulheres
sofreram demais com a pandemia, sobrecarregadas dentro de casa. O sentimento
foi de enxugar gelo para nós que estamos liderando essa batalha de diversidade,
desigualdade de gênero e impacto social. Porém, estamos otimistas com 2021. Com
a promessa da vacina e quando for possível o retorno das escolas, começaremos a
respirar novamente e a nos encher de energia. O ano é promissor e esperamos um
crescimento em V para negócios de mulheres - principalmente para aqueles que estão
conectados a comunidades como aceleradoras, porque nunca fez tanto sentido
querer se unir novamente. Vamos precisar de intuição e colaboração como nunca.
Aspectos como liderança horizontal e pensamento focado na experiência do
usuário serão mais valorizados. Prevejo bonança e abundância para quem souber
se conectar de verdade.”