quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

RETROSPECTIVA DO MUNDO DO TRABALHO EM 2020

 

Retrospectiva: o ano de 2020 no mundo da carreira e do trabalho

Ano da pandemia é marcado por excesso de videoconferência no home office e atenção especial à saúde mental; demissão humanizada e benefícios flexíveis ganham destaque

Anna Barbosa, Letícia Ginak e Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

 

 


2020 foi um ano difícil de caber em uma retrospectiva. Não bastasse todas as coisas que podem acontecer todos os anos entre janeiro e dezembro, a pandemia do coronavírus revirou quase tudo que conhecíamos como normal.

 

No universo do mercado de trabalho não foi diferente. Em março, milhões de brasileiros foram colocados às pressas no home office, e outros milhões precisaram aprender a estar fora de casa enquanto uma pandemia deixava mais de 1,6 milhão de mortos no mundo. Muitos outros tiveram os salários reduzidos ou perderam seus empregos.

Com o passar dos meses, e percebendo que a realidade pré-pandemia não retornaria tão cedo, o mundo das carreiras precisou se adaptar. Sem os escritórios físicos, as videoconferências tomaram conta das rotinas, a saúde mental foi colocada ainda mais em evidência, o recrutamento passou a ser digital e questões relativas a diversidade e inclusão vieram à tona.

Confira o que foi destaque no mundo do trabalho em 2020, segundo os especialistas entrevistados ao longo do ano pelo Sua Carreira.

Saúde mental em foco

O isolamento social e as mudanças no estilo de vida colocaram problemas como ansiedade e síndrome de burnout em evidência. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Isma-BR (International Stress Management Association), 72% dos brasileiros que estão no mercado sofrem alguma sequela ocasionada pelo estresse. Desse total, 32% sofrem de burnout.

“Foi preciso trazer para a superfície a necessidade da saúde mental, que antes ficava na parte debaixo do iceberg. A empresa tem a necessidade de cuidar e trazer um espaço seguro para o cuidado do funcionário com a saúde mental”, aponta Débora Brewer, vice-presidente para a América Latina e Caribe da Degreed, plataforma de aprimoramento e requalificação.

Carine Roos, especialista em liderança feminina e cofundadora da Escola Elas, concorda que é necessário a criação de ambientes seguros para os colaboradores se expressarem. “A empresa que não for eticamente responsável com as pessoas será mais prejudicada.”

O ano da diversidade e da inclusão

Se em 2019 o tema da diversidade foi colocado em pauta, em 2020 o universo corporativo se movimentou ainda mais em torno do tema, analisa Bielo Pereira, palestrante e consultora em diversidade e inclusão corporativa.

“Fazendo um recorte mais fechado e mais pontual, veio à tona a questão da diversidade racial: momentos muito tristes que aconteceram na nossa sociedade e trouxeram luz para que pessoas pretas tivessem seus talentos reconhecidos.”

Carine Roos, especialista em liderança feminina e cofundadora da Escola Elas.  Foto: Divulgação

Ela aponta que, a partir disso, foi possível fazer com que as pessoas passassem a ver mais as questões da interseccionalidade, como gênero, raça, classe e inclusão de pessoas com deficiência. Empresas como Magazine Luiza e Bayer criaram programas de trainee exclusivos para profissionais negros. Nos estágios, Ambev, EDP e Eaton direcionaram os processos seletivos para a inclusão de pessoas negras. Outros grupos minorizados, como mulheres, a comunidade LGBTQIA+ e pessoas com deficiência foram alvo de programas de empresas como a Kraft Heiz.

Na questão de gênero, Carine Roos ressalta que a situação das mulheres ficou mais vulnerável na pandemia, seja por terem de lidar com os filhos e os cuidados da casa ou até por serem as mais demitidas no mercado.

Para ela, as mulheres ainda são as mais punidas porque existe preconceito de gênero muito claro. “Ao mesmo tempo, as empresas que se posicionam desta maneira ficam para trás”, acredita.

Demissão humanizada

Um dos grandes acontecimentos do mercado de trabalho em 2020 foi a onda de demissões logo nos primeiros meses da pandemia, o que levou funcionários a criar movimentos de indicações dos colegas demitidos nas redes sociais, muitos incentivados pelas próprias empresas.

Diretor geral do LinkedIn para América Latina, Milton Beck conta que antes da pandemia a plataforma tinha em torno de 200 mil vagas publicadas. No decorrer da crise, houve uma queda na oferta de 30% a 35%. “Hoje, há um aumento do número de vagas a níveis próximos de antes da pandemia, que é insuficiente para cobrir o gap de desemprego.”

Em agosto, a taxa de desemprego chegou a 14,4% - 13,8 milhões de brasileiros -, o maior nível já registrado pela Pnad Contínua, do IBGE.


O diretor-geral do LinkedIn para a América Latina, Milton Beck.  Foto: Vivian Koblnsky

Para minimizar danos aos ex-funcionários e à própria reputação da empresa, algumas organizações fizeram o que ficou conhecido como demissão humanizada. Foram ofertados aos demitidos itens como a garantia do plano de saúde e vale-alimentação por alguns meses após a demissão, apoio financeiro, doação de equipamentos como computadores e celulares corporativos e parcerias com empresas que estavam contratando.

 

Recrutamento digital

Se antes o RH funcionava como coadjuvante, neste ano a área passou a ser a grande protagonista, sendo um dos departamentos mais acionados pelos colaboradores. Desde as estratégias para a adaptação dos funcionários em home office até as novas formas de contratação, o setor passou por profundas mudanças.

Depois da onda de demissões, setores como o de tecnologia passaram a ofertar vagas de trabalho. Para isso, o recrutamento digital ganhou força com o uso de diferentes tecnologias, que vão desde games até chatbots. Além do processo de seleção, também foi preciso aprender a integrar os novos funcionários de forma online, com happy hour virtual, atividades laborais e dinâmicas de grupo por aplicativos de videoconferência.

 

A nova carteira de benefícios corporativos

Com o home office, as empresas precisaram mudar suas políticas de benefícios. Quem passou a trabalhar de casa - segundo a Pnad Contínua, cerca de 8,7 milhões de brasileiros, em agosto - parou de usar o vale-transporte e viu as despesas com internet, energia elétrica e material de escritório aumentarem.

De olho nessas mudanças, muitas empresas passaram a adotar os benefícios flexíveis - modalidade que permite que o funcionário escolha como gastar os valores. Outras substituíram o vale-transporte por vale internet, conta de luz e auxílio home-office (para a compra de materiais necessários ao trabalho, como cadeiras ergonômicas, fones de ouvido, teclado e outros).

Habilidades comportamentais: as soft skills

As famosas soft skills não surgiram em 2020, mas se tornaram prioridade no mercado neste ano. Os efeitos da pandemia fizeram com que elas fossem ainda mais relevantes na seleção e na manutenção das vagas de emprego.

“As hard e soft skills sempre foram úteis, mas, em um momento em que as pessoas têm mais problemas de comunicação, algumas dessas habilidades se tornam ainda mais imprescindíveis”, pontua o diretor geral do LinkedIn para América Latina, Milton Beck.

Uma pesquisa realizada pela startup de recursos humanos Revelo, com sua base de 16 mil clientes, listou as cinco habilidades comportamentais mais procuradas pelas empresas: comunicação assertiva, empatia e capacidade de dar feedback, autogerenciamento, resolução de problemas e relação interpessoal.

 

COMO FAZER UM CURRÍCULO SEM TER EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL

 

Como montar um currículo sem ter experiência profissional?

Listamos algumas dicas importantes para montar um currículo sem experiência e conseguir um primeiro emprego ou outra oportunidade de trabalho

Ítalo Lo Re, O Estado de S. Paulo

 

 

Em um contexto de instabilidade no mercado de trabalho acarretada pela pandemia do novo coronavírus, que elevou a taxa de desemprego no Brasil para 13,6% em agosto, montar um currículo competitivo se torna uma missão ainda mais desafiadora. E se essa já não é uma tarefa simples para grande parte das pessoas, que dirá para candidatos sem experiência profissional para inserir no currículo. Como passar uma mensagem positiva em casos como esse?

Como o currículo profissional normalmente é a “porta de entrada” para as oportunidades de trabalho, é fundamental que ele passe uma boa impressão já “nos primeiros segundos de interação com recrutadores e outros profissionais responsáveis pelas contratações”, explica a consultora de carreira e oficineira de programas da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Prefeitura de São Paulo Camila Viotto.

 

Mas para impressionar de forma efetiva, é preciso equilíbrio. De acordo com o consultor de marketing e cofundador da empresa Beasyness, Victor Jamé, que faz sucesso no Twitter produzindo conteúdos para ajudar jovens a conseguirem oportunidades, um bom currículo é aquele que foca em objetividade e diferenciação. O primeiro ponto para passar as informações de forma clara; o segundo, para ressaltar a individualidade do candidato.

Para mostrar como trabalhar esses pontos na prática, reunimos algumas dicas importantes sobre como montar um currículo se você ainda não tem experiência profissional — documento que pode ser determinante para conseguir uma primeira oportunidade de trabalho.

A taxa de desemprego no País aumentou de 13,3% na primeira semana de agosto para 13,6% na segunda semana do mês. Foto: Nilton Fukuda/Estadão - 28/5/2015

 

Por que o primeiro emprego é tão importante?

“A primeira oportunidade, que geralmente ocorre entre os 16 e 18 anos, impacta muito na vida das pessoas em geral. É por meio dela que os profissionais ingressam no mercado de trabalho e começam a construir suas carreiras”, destaca Camila Viotto. Segundo ela, o primeiro emprego pode influenciar bastante nos caminhos que os profissionais tomam ao longo da carreira, já que, normalmente, seguem se candidatando por vagas na mesma área.

Por conta disso, nesse momento inicial, é importante apresentar um currículo bem formulado, mostrar-se inclinado a aprender e se dedicar aos processos seletivos que geram interesse — seja para ser jovem aprendiz, estagiário, monitor, entre outras opções.

“O jovem precisa ter em mente que, entre as fatias do bolo do desemprego, o público entre 18 e 24 anos ocupa a maior parcela. Em meio a isso, é preciso, para além de experiências profissionais, apresentar diferenciais desde cedo”, orienta Camila, destacando a importância de trabalhos voluntários e cursos para enriquecerem o primeiro currículo.

Como montar um currículo completo?

De acordo com o modelo estabelecido por Camila Viotto, são seis as categorias a se preencher para montar um currículo:

·         Dados pessoais;

·         objetivo;

·         formação e idiomas;

·         qualificações;

·         experiência profissional;

·         atividades complementares.

Portanto, o currículo não se resume em experiências, já que reúne diversos tipos de informações que têm o objetivo de transmitir o quão qualificado profissionalmente um candidato é e quais anseios ele tem para a carreira.

 

O que colocar no currículo quando não se tem experiência?

Compilamos algumas dicas de como preencher cada uma das seis categorias listadas acima quando não se tem experiência:

Dados pessoais

Os dados pessoais normalmente são aqueles que ficam em destaque no cabeçalho do currículo — a depender da formatação que cada candidato escolhe. Eles reúnem nome, telefone, e-mail, endereço, CEP, entre outras informações básicas.

Camila Viotto ressalta que os contatos fornecidos devem ser plenamente utilizados pelo candidato, o que garante que ele atenda caso seja contatado pela instituição de interesse. Além disso, é importante ter atenção ao e-mail informado, que pode descredibilizar o candidato caso fuja muito do padrão de nome e sobrenome, e também ao endereço, que principalmente em metrópoles, como São Paulo, é importante conter a região em que se mora.

Objetivo

Os objetivos indicam a pretensão profissional do candidato, o que permite que o avaliador que recebe o currículo entenda os motivos do documento ter sido submetido. De acordo com Camila Viotto, o objetivo tem que estar presente sempre, mesmo que para indicar interesses em grandes áreas — como administrativa ou financeira, por exemplo.

“É um erro grave tirar o objetivo, porque pode passar a impressão de que o candidato está querendo qualquer emprego. As organizações querem pessoas que tenham objetivos claros e alinhados com o que a empresa procura. Se quer ser um jovem aprendiz, coloque isso no objetivo isso e seja franco”, destaca. Para a consultora de carreira, não é porque alguém não tem experiência profissional que deve se abster de colocar um objetivo.

Nos casos em que não há um objetivo bem definido, algumas alternativas são colocar “em busca de uma oportunidade na área financeira” ou “com disposição para atuar na área comercial”, por exemplo. Usar palavras-chave e adotar formulações como essas indicam que, mesmo sem experiência, o candidato tem um ideal de futuro.

 

Formação e idiomas

De modo geral, é recomendado que os currículos se adaptem de acordo com cada área e vaga. Ainda que nem sempre seja uma regra, para oportunidades na área acadêmica, por exemplo, a formação profissional deve receber mais destaque, enquanto para vagas no mercado de trabalho as experiências profissionais podem ser mais valorizadas.

O que se orienta, de toda forma, é não ser prolixo nesta parte, destacando a formação mais alta no currículo e a proficiência em idiomas, quando há. Se o candidato concluiu o ensino médio recentemente, é importante que esteja presente no currículo apenas a escola de conclusão. Já em relação aos idiomas, o ideal é inserir apenas aqueles em que já há algum nível de conhecimento a respeito.

 


O currículo profissional normalmente é a porta de entrada para novas oportunidades de trabalho. Foto: Unsplash

 

Qualificações

Na parte das qualificações, é importante inserir experiências que comuniquem com o que o candidato pretende fazer no novo cargo. Nesse caso, o indicado não é colocar a maior quantidades de cursos e certificações possíveis, mas aqueles que demonstrem como o profissional dialoga com a vaga ofertada e como pode contribuir.

Em currículos em que candidatos não contam com experiência profissional, as qualificações ganham ainda mais destaque, já que são elas que demonstram por onde o candidato está se qualificando. De acordo com Victor Jamé, o atual contexto do mercado de trabalho faz com que as pessoas permaneçam em “constante estado de aprendizado”, o que, de maneira prática, dá ainda mais destaque à procura por qualificações atualizadas.

Experiência profissional

A parte de experiência profissional de um currículo lista por quais empregos um profissional já passou — informando o cargo, as atividades executadas e a duração da experiência. Quando não há experiências para acrescentar, essa parte pode ser suprimida, o que permite ao candidato dar mais destaque aos outros pontos.

Para Camila Viotto, é importante lembrar que, na parte de experiência profissional, não entram apenas empregos formais. Trabalhos informais também podem ser adicionados, contanto que tenham sido cumpridos com certa constância e sejam úteis para justificar a qualificação do candidato à nova vaga.

Atividades complementares

Por fim, em atividades complementares podem ser inseridas outras experiências que agreguem à imagem do candidato, como prêmios, reconhecimentos e trabalhos voluntários, que são bastante valorizados em currículos sem experiência profissional. Entre as partes do currículo, esse seria um espaço mais livre para agregar informações que enriqueçam o profissional que se apresenta.

Como melhorar o visual do currículo?

Como normalmente os currículos passam por filtragens, é muito importante que, para além do conteúdo, eles também sejam visualmente apresentáveis. “Quando o recrutador bater o olho, precisa ter uma boa impressão com o currículo, já que interage com diversos documentos do tipo ao longo do dia. Não pode ser muito poluído, com diversas fontes diferentes, mas também não deve ser dos mais simples”, ressalta a consultora de carreira Camila Viotto.

Em meio a isso, Victor Jamé indica a ferramenta Canva, que conta com diversos templates de currículos para montar um documento visualmente agradável. De acordo com o consultor de marketing, o Canva tem “uma infinidade de possibilidades e oferece modelos diferentes de acordo com cada área”, o que pode ajudar bastante. Como alternativa, o Estadão também preparou um material com cinco modelos de currículos para baixar.

 

Quais outras dicas podem ser úteis?

Por fim, algumas dicas finais para se dar bem em um processo seletivo mesmo sem experiência profissional:

Foto

De modo geral, a recomendação é não colocar foto 3x4 no currículo. Isso só deve ser feito quando a foto for expressamente solicitada pela empresa.

WhatsApp

Se o número fornecido no currículo é o do WhatsApp, uma dica fundamental é evitar fotos e frases nos status que podem causar uma má impressão no âmbito profissional. “Cada vez mais as empresas estão convocando candidatos por WhatsApp. Então, é importante se atentar a este quesito”, destaca Camila Viotto, orientando também que os jovens não se comprometam tanto em perfis de redes sociais.

Tamanho e formato

O ideal é que o currículo seja conciso e tenha apenas uma página. Além disso, recomenda-se que seja salvo no formato PDF, protegendo as informações do candidato de possíveis edições.

Pretensão salarial

Já a pretensão salarial, quando solicitada, não deve estar no próprio currículo, mas no corpo do e-mail no qual, normalmente, o currículo é enviado em anexo.

E-mail

Por falar em e-mail, é importante não enviar apenas um e-mail qualquer com o currículo em anexo, mas ser minimamente cordial. Escrever um e-mail adequado pode ser fundamental para a impressão que se gera ao enviar o currículo.

Networking

O currículo é importante, mas é preciso fazer conexões profissionais para além dele. A rede indicada para isso, de acordo com Victor Jamé, é o LinkedIn, que pode ser bastante útil para fazer com que candidatos se conectem com empresas de interesse antes mesmo de enviar os currículos.

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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