segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

MINISTROS POLÍTICOS ESBARRAM NA CONSTITUIÇÃO

 

Bastidores: Gilmar, Toffoli e Moraes apostaram em onda pró-reeleição, mas esbarraram na Constituição

Por 6 votos a 5, STF barrou possibilidade de reeleição de presidente da Câmara ou do Senado na mesma legislatura

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

 

 

BRASÍLIA - No meio do caminho havia uma Constituição. Na última sexta-feira, 4, longe dos olhos da opinião pública, o Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou o julgamento que discutia a possibilidade de os atuais presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), disputarem a recondução ao cargo nas eleições da cúpula do Congresso marcadas para fevereiro de 2021. A análise da controvérsia ocorreu não nas transmissões ao vivo da TV Justiça, mas no plenário virtual, uma plataforma que permite a análise de casos na surdina, sem maiores debates entre os magistrados - e sem a transparência das tradicionais sessões plenárias. Integrantes da Corte apontavam que a tendência pró-reeleição seria maior com o julgamento na plataforma online, que poderia blindar o Supremo da enxovalhada de críticas e da pressão da opinião pública. Não foi o que ocorreu.

Tão logo começou a sessão virtual, em plena madrugada de sexta-feira, o sistema do STF já contabilizava três votos que abriam caminhos para a reeleição de Alcolumbre - e dois para a de Maia, devido à divergência pontual de Nunes Marques, que destoou parcialmente de Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Indicado por Jair Bolsonaro para o tribunal, Nunes Marques optou por um voto intermediário: a favor de Alcolumbre e contra Maia, atendendo aos interesses do Palácio do Planalto, que deseja ver na chefia da Câmara um dos líderes do Centrão, o deputado Arthur Lira (PP-AL).

Nuvens carregadas sobre a sede do Supremo Tribunal Federal (STF), na Praça dos Três Poderes, em Brasília Foto: Dida Sampaio/Estadão

Era uma tentativa de criar, logo no início do julgamento, uma "onda" pró-recondução, que foi acompanhada com entusiasmo por Alexandre de Moraes e Ricardo Lewandowski. Em menos de doze horas do início da sessão virtual - prevista para acabar apenas no dia 14 de dezembro (segunda-feira da próxima semana) -, o Supremo tinha cinco ministros a favor, em linhas gerais, à tese da reeleição. O movimento era incomum: tradicionalmente, os julgamentos do plenário virtual começam a ficar mais movimentados perto do prazo final, e não já no início.

Depois do barulho provocado pelo grupo pró-reeleição, seguiram-se os votos da ala contrária: Marco Aurélio MelloCármen Lúcia e Rosa Weber, todos já dados como certo no grupo dos opositores à recondução de Maia e Alcolumbre. A expectativa - até mesmo de aliados de Arthur Lira, que tentaram sem sucesso tirar o julgamento do plenário virtual - era a de que o relator da Lava Jato no STF, Edson Fachin, acompanharia esse grupo, o que se confirmou.

O placar final foi definido pelas posições de Luís Roberto Barroso e do presidente do STF, Luiz Fux - este, o último a votar, depois que todos os colegas já haviam se manifestado. Segundo o Estadão apurou, ao longo de um domingo chuvoso em Brasília, o presidente do STF e seus colegas Barroso e Fachin - expoentes da ala pró-Lava Jato da Corte - passaram o domingo em sucessivas conversas reservadas entre si.

Antes do início do julgamento, Fux era dado como um voto certo a favor da tese da recondução, mas acabou se alinhando a Fachin e a Barroso, se livrando não apenas do risco de ficar isolado dos colegas, mas também de carregar o ônus de permitir um "duplo twist carpado" na Constituição.

Interlocutores dos ministros admitem reservadamente que pesou no placar final a série de críticas despejadas sobre o STF ao longo dos últimos dias. O ex-presidente do STF Nelson Jobim, por exemplo, disse ao Estadão estar "perplexo" com a discussão. Também proliferaram reprovações na classe política, no meio acadêmico - e, convém ressaltar, dentro do próprio STF.

O duro recado foi dado pelos próprios ministros que rejeitavam a tese da reeleição. No plenário virtual, os magistrados não são obrigados a divulgar os votos. Muitos apenas se limitam, com apenas um clique, a acompanhar ou não o relator. Da ala pró-reeleição, por exemplo, apenas Gilmar Mendes e Nunes Marques divulgaram votos. Lewandowski, Moraes e Toffoli apenas "acompanharam o relator" e pronto.

Do outro lado, todos os ministros que se colocaram contra a recondução de Maia e Alcolumbre fizeram questão de marcar posição, divulgar a íntegra de seus votos -- e enviar contundentes recados à sociedade brasileira em defesa da Constituição.

Disse Marco Aurélio, ao abrir o entendimento que minou o caminho de Maia e Alcolumbre: "A tese não é, para certos segmentos, agradável, mas não ocupo, ou melhor, ninguém ocupa, neste tribunal, cadeira voltada a relações públicas. A reeleição, em si, está em moda, mas não se pode colocar em plano secundário o artigo 57 da Constituição".

"No caso examinado, não há sequer duas opções. Não há alguma", endossou Cármen Lúcia.

Em um voto incisivo, duríssimo, a ministra Rosa Weber afirmou com voz, ou melhor, texto eloquente: "A deslealdade ao texto constitucional caracteriza preocupante ofensa ao pacto da sociedade brasileira em torno do propósito de conferir força ativa aos compromissos assumidos no plano constitucional. Este Supremo Tribunal Federal, no exercício de sua missão de garantir a intangibilidade da Constituição, enquanto seu guardião por força de expresso texto constitucional, não pode legitimar comportamentos transgressores da própria integridade do ordenamento constitucional".

Coube, portanto, a Marco Aurélio e às duas únicas mulheres que compõem a Corte - Rosa Weber e Cármen Lúcia - lembrar aos colegas que havia uma Constituição a ser respeitada no meio do caminho.

 

RETOMADA DA ECONOMIA EXIGE REFORMAS URGENTES

 

Retomada sustentável da economia exige medidas urgentes e reformas estruturais

CNI

Recuperação do crescimento depende de expansão de crédito e programas de apoio às micro e pequenas empresas

 


Retomada do crescimento depende de expansão de crédito e programas de apoio às micro e pequenas empresas

Após meses de paralisação parcial do setor produtivo ocasionada pelas medidas de segurança necessárias para conter o avanço da covid-19, a indústria brasileira prepara estratégias para superar a crise econômica e retomar o crescimento.

Confederação Nacional da Indústria (CNI) lançou o documento “Propostas para a retomada do crescimento econômico” com 19 ações para alavancar o desenvolvimento e gerar empregos. Entre as prioridades, destaque para a reforma tributária.

O documento, entregue ao governo, está dividido em 2 blocos. No primeiro, estão 5 medidas prioritárias de transição, para serem adotadas imediatamente. No segundo, há 14 propostas estruturantes para a melhora do ambiente de negócios, redução do Custo Brasil e estímulo ao investimento.

De acordo com o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Abijaodi, as medidas emergenciais adotadas pelo governo e pelo Congresso no início da pandemia foram essenciais para dar fôlego às empresas. Porém, para ele, para manter as empresas vivas é preciso que o crescimento econômico seja sustentado.

“Nós temos 5 objetivos principais com essa proposta. Temos que trabalhar muito a questão financeira para manter as empresas vivas, porque sabemos que elas estão saindo da crise bastante debilitadas e com dificuldades e tínhamos que cuidar da saúde financeira dessas empresas. Depois, tem a parte das relações do trabalho e nos preocupamos para que não houvesse uma carga maior do que as empresas podem suportar”, destaca Carlos Abijaodi.

O presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, acredita que é fundamental que alguns programas de crédito emergenciais adotados pelo governo – como o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), o Peac (Programa Emergencial de Acesso a Crédito, do BNDES), o Pese (Programa Emergencial de Suporte a Empregos) do Banco Central, entre outros– sejam mantidos até pelo menos junho de 2021. Para ele, é pouco provável que o sistema financeiro retorne à normalidade no curto prazo.

“Ainda estamos sob os efeitos dessa pandemia e algumas medidas ainda nesse período precisam ser preservadas, pelo menos no setor empresarial, como a manutenção de juros baixos, a colocação de recursos financeiros disponíveis, principalmente para médias e pequenas empresas, que conseguiram sobreviver à pandemia. É preciso cuidar dessas empresas”, afirma.

 

A renegociação, o parcelamento do prazo de pagamento de tributos também é um fator considerado importante para que a economia cresça de forma sustentável. O presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, destaca que a normalização da economia pode levar tempo e são necessárias ações e políticas específicas para o período de transição entre as medidas emergenciais e o crescimento sustentado.

“É preciso evitar que mais empresas quebrem, com prazo de 12 meses para pagamento dos tributos. A renegociação e o parcelamento do prazo são medidas importantíssimas para que a gente passe por esse momento que estamos vivendo agora”, explica Robson Braga de Andrade.

Reforma tributária

No 2º bloco de propostas da CNI, o destaque é a reforma tributária. A instituição defende uma reforma que torne o sistema tributário mais simples e eficiente, com foco na redução da cumulatividade. Isso permitirá a desoneração completa dos investimentos e das exportações e aumentará as condições para os produtos brasileiros competirem com os estrangeiros nos mercados interno e externo.

A reforma tributária substituiria os atuais tributos incidentes sobre o consumo (PIS/Cofins, ICMS, ISS e IPI), além do IOF, por um único Imposto sobre Valor Adicionado, de abrangência nacional, ou seja, a reforma deve, fundamentalmente, envolver os tributos dos 3 níveis: federal, estadual e municipal.

Carlos Abijaodi, lembra que a reforma tributária tem influência na competitividade da indústria, na desburocratização e traz maior segurança jurídica, porque, segundo ele, é importante que haja um sistema claro no que diz respeito ao pagamento de tributos.

“Para nós, a reforma tributária também dá um status diferente para o Brasil, que é o único país no mundo que tem um sistema tão complexo. Isso assusta um pouco os estrangeiros, principalmente no que diz respeito a investimentos. Não estou dizendo que a reforma tributária vai estimular investimentos, mas ela vai ser um fator e decisão”, garante Abijaodi.

Nova lei do gás natural

Dentre as propostas estruturantes para a retomada do crescimento econômico, a indústria defende a aprovação, na íntegra, do projeto de lei 6.407/2013, conforme o texto da Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados.

A proposta – que busca proporcionar a oferta de gás natural a menores preços para indústria, comércio e consumidores em geral, estimular o aproveitamento racional do petróleo e do gás natural no Brasil e garantir segurança jurídica para os investidores do setor –, foi aprovada pela Câmara em 1º de setembro e está em discussão no Senado.

De acordo com a CNI, o preço do gás natural para o setor industrial no Brasil é um dos mais elevados do mundo, sendo um obstáculo para a competitividade da indústria. Os preços do gás no Brasil variam de US$ 8 a US$ 12 por milhão de BTUs (unidade térmica britânica, na sigla em inglês), o dobro de mercados como os Estados Unidos.

Com preço mais baixo, os investimentos podem chegar a R$ 150 bilhões em 2030, segundo o cálculo do governo, com incremento na competitividade de setores industriais como química, siderúrgica, minério de ferro, alumínio, cerâmica, vidro e papel e celulose, que, juntas, utilizam 80% do gás consumido pela indústria.

“A aprovação do marco regulatório do gás vai contribuir bastante para a gente reativar a indústria de uma maneira compensadora, com investimentos”, explica Carlos Abijaodi.

Reforma Administrativa

Outra reforma estruturante defendida pela indústria, a reestruturação administrativa do setor público deve ter como foco o aumento da competitividade e o enfrentamento do crescimento constante das despesas com pessoal, segundo a CNI.

“A reforma do Estado brasileiro, por meio de uma reforma administrativa que reduza e racionalize os gastos públicos, deve visar a melhora na qualidade e a eficiência dos serviços prestados à população. Políticas públicas precisam ter metas de desempenho e avaliação precisa de custos e benefícios, para assegurar a efetividade nas ações e na aplicação de recursos públicos”, explica Robson Braga de Andrade.

Além disso, o presidente da CNI defende que a reforma administrativa contribuirá para o reequilíbrio fiscal. Isso aumentará a capacidade de investir do Estado, bem como o nível de confiança da economia, determinante na atração de investimentos.

Para a indústria, a reforma administrativa não deve ser colocada à frente da reforma tributária. Elas podem caminhar juntas ou a administrativa pode vir depois, por não ter impacto imediato sobre as despesas. “A revisão do modelo de tributação será o norte para a modernização do Estado. Desta forma, as reformas tributária e administrativa devem tramitar simultaneamente no Congresso, para que, ao final, tenhamos um Estado menos pesado e um sistema tributário simplificado, possibilitando ao Brasil iniciar um novo ciclo de desenvolvimento”, explica Andrade.

Pesquisa, desenvolvimento e inovação

A indústria defende a aprovação do projeto de lei complementar 135/2020, que libera recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FDNCT), seja aprovado pelo Congresso Nacional. A proposta foi aprovada pelo Senado em 13 de agosto e está em discussão na Câmara.

De acordo com a CNI, apenas R$ 600 milhões dos R$ 5,2 bilhões arrecadados pelo fundo em 2020 estão disponíveis para investimentos este ano em atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) realizadas por universidades, institutos de pesquisa e empresas. Um total de R$ 4,6 bilhões está retido nos cofres do governo federal.

No início de agosto, CNI e outras 3 entidades lançaram manifesto conjunto em defesa da aprovação da proposta.  O texto, também assinado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei) e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), cobra a liberação dos recursos do FNDCT.

“A retenção de parte tão expressiva do FNDCT implicará para a vida dos brasileiros e para a economia do país perdas e danos pelo seu enorme impacto sobre a ciência brasileira e sobre a competitividade da indústria local”, destaca o manifesto.

Recuperação Gradual

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, explica que o segmento têxtil foi bastante impactado, quando o comércio precisou ser paralisado por causa da pandemia.

“O varejo do nosso segmento ficou fechado por cerca de 90 dias. Esse impacto trouxe uma preocupação brutal porque o movimento caiu cerca de 90% no início da quarentena. Isso paralisou indústria e comércio. Por conta disso, houve um estresse enorme, principalmente pela busca de crédito”, destaca.

Para ele, algumas medidas do governo, especialmente o auxílio emergencial e a flexibilização da jornada de trabalho foram importantes, mas as ações para garantir crédito às empresas demoraram a acontecer.

“O crédito demorou muito a engrenar e, no início, havia desespero pelo crédito porque as empresas precisavam pagar as contas. Só agora a questão do crédito começou a engrenar por causa de ações como o FGO (Fundo de Garantia de Operações) e o FGI (Fundo Garantidor para Investimentos)”, diz Fernando Pimentel.

Em um cenário de recuperação mais forte, depois de 90 a 100 dias com a produção parada ou parcialmente interrompida, o retorno nunca é sincronizado, segundo Pimentel. Ele lembra que, enquanto estavam paradas, as empresas não receberam materiais, os insumos.

Após regularizar o fluxo de produção e distribuição, a indústria começou a apresentar sinais de recuperação. “Nós já começamos a gerar emprego. Perdemos quase 80 mil postos formais de trabalho de março a julho, mas recuperamos cerca de 8 a 10 mil entre julho e agosto e temos expectativa de que continuaremos a recuperar. O aumento de emprego é um sinal óbvio de que a retomada está acontecendo”, pontua Pimentel.

Além da retomada de emprego, os números de produção da indústria já demonstram a retomada em andamento. Leia no infográfico:

De acordo com Fernando Pimentel, existe entre os empresários do setor a expectativa de que o movimento de Natal seja semelhante ao do ano passado, mesmo havendo as restrições de distanciamento.

“O momento atual é de retomada, em que a indústria cresce mais do que o esperado, os índices de produção aumentam, os índices de consumo aumentam, a taxa de emprego aumenta e estamos de olho no ano que vem em relação ao que vai ser tomado de decisão por conta da manutenção ou não de algum auxílio emergencial”, conclui.

Editoria:
• Economia

Tags:
#economia #investimento #micro e pequenas empresas #crescimento econômico #reforma tributária

Foto: José Paulo Lacerda

 

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