sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

OS ÚLTIMOS DIAS DE TRUMP NA CASA BRANCA

 

'Ele não aceita que perdeu': os últimos dias na Casa Branca de Trump

 

BBCNEWS

Os dias de Trump à frente da Casa Branca se aproximam do fim e um silêncio assustador toma conta do local, ao mesmo tempo em que o presidente tenta desafiar o resultado da eleição nos tribunais.

 


© Getty Images Trump retorna à Casa Branca após celebrar o Dia de Ação de Graças com sua família

Brian Morgenstern, o vice-diretor de comunicações, usava uma jaqueta com o emblema da Casa Branca em seu escritório na Ala Oeste. A jaqueta estava totalmente fechada, como se ele estivesse saindo. A sala, a algumas portas do Salão Oval, estava escura, com as cortinas fechadas.

O chefe dele, o presidente, estava em outra parte da Casa Branca. Naquele momento, Donald Trump estava no viva-voz com Rudy Giuliani, o chefe de seu esforço legal para contestar a eleição, e um grupo de legisladores estaduais que se reuniram para uma "audiência", como eles definiram, em um hotel em Gettysburg, na Pensilvânia.

"Esta eleição foi fraudada e não podemos permitir que isso aconteça", disse o presidente por telefone.

Morgenstern estava monitorando o evento pela tela do computador, distraído. Um momento depois, ele girou em sua cadeira e falou com um visitante sobre faculdade, imóveis, beisebol e, quase como uma reflexão tardia, as realizações do presidente.

O esforço de Trump para contestar os resultados da eleição na Pensilvânia fracassou na semana passada, não muito tempo depois da chamada audiência, e mesmo isso teve uma base legal duvidosa. Um juiz do Tribunal de Apelações disse que "não havia base" para contestação. Uma certificação das cédulas mostrou que o presidente eleito Joe Biden venceu o Estado por mais de 80 mil votos.

Os resultados das eleições em Michigan, Wisconsin, Nevada, Geórgia e Arizona foram certificados e Biden foi confirmado como o vencedor em todos os cinco.

Funcionários do governo começaram a trabalhar para uma transição para a nova administração, e o novo presidente assume em 20 de janeiro.

 


© Getty Images Rudolph Giuliani, em foto na Pensilvânia com a advogada Jenna Ellis, lidera os esforços do presidente para desafiar a eleição

Trump continua a reivindicar vitória. Ainda assim, nos bastidores da Casa Branca, as pessoas veem as coisas como elas são. Eles sabem que seus dias na Ala Oeste estão contados. E também sabem que, quando o chefe está perdendo, é melhor ficar longe dele.

"Estamos otimistas. Ainda estamos trabalhando duro", diz Morgenstern.

Ele era, no entanto, o único em um labirinto de escritórios da Ala Oeste. Ele segurava uma máscara de pano nas mãos e brincava com os cordões da máscara. O único som era o zumbido baixo de uma TV em outra sala.

Normalmente, esses escritórios estão cheios de pessoas, com assistentes trabalhando todas as horas. Mas agora não.

Jack O'Donnell, que já administrou um cassino em New Jersey para Trump, diz que entende por que as pessoas que trabalham para o presidente iriam embora em um momento como este.

"Você está pisando em cascas de ovo. Ninguém quer dizer a coisa errada."

 


© Reuters Brian Morgenstern começou a trabalhar na Casa Branca em julho

Certa vez, lembra O'Donnell, Trump estava caminhando por uma sala de teto baixo em um prédio que estava em reforma. "Houve alguns problemas", diz O'Donnell. Ele estava se referindo a problemas com a reforma, erros que Trump logo percebeu.

"Ele deu um pulo no ar e atingiu o teto", diz O'Donnell. "Ninguém quer ficar perto dele quando ele está bravo."

A raiva do presidente, sua ambição e determinação são lendárias. Ele teve sucesso em parte ao abraçar aforismos positivos e negar o fracasso, um estilo de liderança que foi estabelecido no início de sua carreira e que ultimamente anda exagerado.

Ele apareceu na sala de reuniões da Ala Oeste na semana passada para se gabar do mercado de ações. O Dow Jones havia fechado acima de 30 mil pontos, um nível recorde. O presidente, diz Morgenstern, estava "comemorando o sucesso do mercado que certamente se deveu em parte às suas políticas", como "melhorar os negócios" e "independência energética".

 


© Getty Images Manifestantes pró-Trump em Atlanta; presidente contesta resultado das urnas

Investidores disseram que as ações subiram porque a transição para um governo Biden foi oficialmente anunciada. Mas para Trump, a vitória pertencia a ele.

Suas reivindicações de vitória e sua recusa em admitir a derrota não têm impacto no resultado: a transição para a Casa Branca de Biden está em andamento.

No entanto, a postura do presidente é importante, já que milhões de pessoas o admiram. Essas pessoas o seguirão assim que ele deixar a Casa Branca, seja concorrendo novamente a um cargo, como muitos esperam, ou construindo um império de mídia. No dia em que Trump falou com parlamentares em Gettysburg, os apoiadores se reuniram em frente ao hotel com cartazes: "Parem a fraude eleitoral".

No livro Trump: The Greatest Show on Earth: The Deals, the Downfall, the Reinvention (Trump: O maior espetáculo da Terra: os Negócios, a Queda, a Reinvenção, em tradução livre), do jornalista Wayne Barrett, pessoas que conhecem Trump disseram que ele encarava o caso do ex-presidente Jimmy Carter, derrotado em 1980 após apenas um mandato, como um sinal de alerta.

"A velocidade com a qual você dispara para cima é a velocidade com a qual você pode despencar", teria dito ele, de acordo com as fontes do livro, acrescentando que Carter caiu na obscuridade depois de deixar a Casa Branca e se tornou tão anônimo quanto "um caixeiro viajante".

 


© Getty Images Grafite anti-Trump: 'o jogo acabou, Donny'

Para evitar o fracasso, Trump nega a realidade, dizem aqueles que o conhecem. Ele fez vários pedidos de falências como empresário, mas agiu como se fosse parte de um plano. "Ele dizia: 'fiz isso intencionalmente'", lembra Jack O'Donnell, que trabalhava para ele, acrescentando: "É um absurdo".

"Em sua mente, ele não perdeu", disse O'Donnell, descrevendo a eleição. "Ele nunca vai ceder. Sempre dirá: 'foi tirado de mim.'"

Trump agora está lutando pelo controle republicano do Senado e planeja ir à Geórgia no sábado, onde haverá nova eleição, para apoiar os candidatos.

Enquanto isso, do lado de fora do escritório de Morgenstern, uma das mesas vazias é decorada com um porta-copos: "O fracasso não é uma opção".

O lema resume a filosofia de Trump e sua abordagem em relação à Presidência — pelo menos até ele sair.

 

 

GRANDES FRIGORÍFICOS E O DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA

 

As imagens de satélite que apontam ligação entre grandes frigoríficos e desmatamento na Amazônia

 

BBCNEWS

 

 

Em meio a recordes de queimadas na Amazônia, as três maiores empresas do setor de carne bovina do Brasil — JBS, Marfrig e Minerva — compraram gado de 379 fazendas que desmataram ilegalmente na região amazônica, aponta um extenso levantamento da organização internacional Global Witness.

A área atingida, segundo o relatório da ONG, é de 202 quilômetros quadrados (quase o tamanho da cidade do Recife ou 20 mil campos de futebol). Ainda segundo a Global Witness, essas três empresas também falharam em monitorar "mais de 4.000 fazendas no Pará inseridas em suas cadeias produtivas, e com um total estimado de 140 mil campos de futebol de desmatamento, para evitar que gado dessas fazendas chegasse a seus frigoríficos".

As cadeias de abastecimento dessas empresas são auditadas de forma independente por multinacionais. E no papel, os resultados parecem cada vez melhores a cada ano. A empresa JBS, por exemplo, afirma que praticamente 100% de toda a sua carne provém de fazendas que cumprem com os compromissos legais de não adquirir gado de onde houve desmatamento recente.

Mas o relatório da Global Witness aponta outro cenário.

"Os fazendeiros são cúmplices diretos da destruição da Amazônia, os frigoríficos estão falhando em remover o desmatamento das suas cadeias produtivas do gado que compram desses pecuaristas, os auditores têm restrições para realizar suas auditorias, o que significa que as auditorias não estão detectando os casos que identificamos, os bancos, por sua vez, não estão fazendo perguntas suficientes aos frigoríficos e, ao mesmo tempo, não são obrigados por seus governos a fazerem um controle rigoroso para remover o desmatamento de seus investimentos, resumiu Chris Moye, pesquisador sênior de Amazônia na Global Witness.

Segundo a ONG, "essas empresas de carne compraram de pecuaristas acusados de fraudes, grilagem de terras e violações de direitos humanos, ou que foram multados pelo Ibama por desmatamento ilegal".

JBS, Marfrig e Minerva contestaram a metodologia adotada pela ONG e refutaram cada uma das 379 acusações contra fazendas que fornecem gado. De modo geral, afirmam que o relatório da Global Witness é incorreto e impreciso e que cumprem com todas as obrigações legais e requisitos socioambientais firmados (leia mais abaixo).

Como a ONG fundamenta suas acusações?

Os especialistas da Global Witness se debruçaram sobre todas as guias de trânsito animal da JBS no Pará dos últimos três anos. Esses documentos, disponíveis no site da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará), servem para o governo federal rastrear todo a trajetória do gado, do nascimento ao abate de cada animal.

Com os dados de origem de todo o gado comprado pela JBS, a ONG então cruzou as áreas das fazendas fornecedoras com imagens dos satélites Landsat e Sentinel analisadas em parceria pela ONG brasileira Imazon, que para monitora o desmatamento na região amazônica.

O passo seguinte foi identificar quais dessas áreas foram desmatadas com autorização legal ou não. No Brasil, para se desmatar nessa região é preciso, por exemplo, de uma autorização de supressão de vegetação, que segue o Código Florestal Brasileiro.

Depois desses cruzamentos, os especialistas da Global Witness e da Imazon apontaram que a JB comprou gado em 2017 de 177 fazendas com áreas desmatadas ilegalmente, de 231 em 2018 e 204 em 2019.

Imagens de satélite mostram claramente a extensão do desmatamento ao longo do tempo. Grandes áreas de floresta são desmatadas até 2004, quando ocorre uma redução significativa após uma série de políticas e medidas de repressão à pecuária ilegal. Mas, a partir de 2012, o desmatamento voltou a acelerar, à medida que governos sucessivos priorizaram os interesses dos agricultores em detrimento da conservação.

"Os fazendeiros derrubam a floresta e queimam o material seco e assim limpam o solo para plantar capim para o gado. Cerca de 80% da área desmatada é usada para pastos e a tendência tem sido de aumento do desmatamento", afirmou Paulo Barreto, pesquisador do Imazon, à BBC.

Desmatamento recorde em uma década

O desmatamento da floresta amazônica em território brasileiro atingiu seu nível mais alto desde 2008, informa o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Um total de 11.088 km2 (4.281 milhas quadradas) de floresta tropical foi destruído de agosto de 2019 a julho de 2020. Isso representa um aumento de 9,5% em relação ao mesmo período no ano anterior.

Cientistas dizem que o país sofreu perdas em um ritmo acelerado desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência em janeiro de 2019.

O mandatário tem incentivado as atividades de agricultura e mineração na maior floresta tropical do mundo.


© Fornecido por BBC News Desmatamento atinge maior nível em uma década na Amazônia. Taxa anual em quilômetros quadrados. Obs.: Dados de 2019 foram atualizados em jun.2020.

Os dados mais recentes marcaram um grande aumento em relação aos 7.536 quilômetros quadrados anunciados pelo Inpe em 2018 — um ano antes de Bolsonaro assumir o cargo.

Os números são preliminares, e as estatísticas oficiais consolidadas devem ser divulgadas no início do próximo ano. Se confirmados, os dados do desmatamento da Amazônia serão 9,5% maiores que os do último período, quando notícias sobre as queimadas na floresta tropical ganharam o mundo.

O Brasil estabeleceu uma meta de desacelerar o ritmo de desmatamento para 3.900 km2 anuais até 2020.

Além de incentivar o desenvolvimento econômico na floresta tropical, o governo Bolsonaro também cortou fundos para agências federais que têm o poder de multar e prender fazendeiros e madeireiros que infringem a legislação ambiental.

Bolsonaro já havia entrado em confronto com o Inpe por causa dos dados de desmatamento. No ano passado, ele acusou a agência de manchar a reputação do Brasil.

Em nota, a organização não governamental brasileira Observatório do Clima disse que os números "refletem o resultado de uma iniciativa bem sucedida para aniquilar a capacidade do Estado brasileiro e dos órgãos de fiscalização de cuidar de nossas florestas e combater o crime na Amazônia".

Mas algumas autoridades disseram que o fato de a taxa de aumento ter sido menor do que a registrada no ano passado é um sinal de progresso.

"Embora não estejamos aqui para comemorar, isso significa que os esforços que estamos fazendo estão começando a dar frutos", disse o vice-presidente, Hamilton Mourão, em entrevista coletiva a jornalistas.

A Amazônia abriga cerca de 3 milhões de espécies de plantas e animais e 1 milhão de indígenas, e é considerada uma região crucial para o combate ao aquecimento global.


© Getty Images Área desmatada dentro da Terra Indígena Menkragnoti, no Pará; Estado foi responsável por 46,8% do desmatamento no país no último ano

Por isso, a pressão internacional sobre o Brasil tem sido crescente.

No começo de 2021, a União Europeia começará a discutir uma norma que poderá aumentar a pressão contra o desmatamento no Brasil.

Empresas que vendem para a Europa terão de provar que seus produtos foram feitos sem contribuir com a destruição de biomas como a Amazônia e o Cerrado.

A proposta mira especialmente a soja e a carne de boi, dois dos principais produtos vendidos pelo Brasil aos europeus. A mesma exigência se aplicaria também a empresas europeias que venham a investir dinheiro no Brasil — como bancos e fundos de investimento.

Só em carne de boi, o Brasil vendeu aos países europeus US$ 560 milhões em 2019. No mesmo ano, a venda de soja para os países do bloco trouxe para o Brasil o equivalente a R$ 32,5 bilhões.

Outro lado das empresas

As três empresas apontadas no relatório, JBS, Marfrig e Minerva, se comprometeram publicamente a não comprar gado de fazendas que desmataram após outubro de 2009, foram embargadas pelo Ibama ou se sobrepunham a terras protegidas ou indígenas, ou de fazendas com desmatamento ilegal ocorrido após julho de 2008.

Procuradas pela BBC, todas as três empresas negaram ter comprado qualquer carne de procedência ilegal e disseram cumprir com todas as obrigações legais e compromissos voluntários contra o desmatamento.

Elas também rebateram em detalhes ponto a ponto do relatório da Global Witness.

Acerca das 327 fazendas de sua cadeia produtiva as quais a entidade acusa de desmatamento ilegal, a JBS afirmou que 94% delas estavam cumprindo suas promessas legais e voluntárias de não desmatamento, e que não tinha registro de compra de gado dos 6% restantes.

A Marfrig afirmou que 84 das 89 fazendas acusadas de irregularidade cumpriram suas promessas voluntárias e legais de não desmatamento e que tinha registro de compras de gados das cinco restantes.

A Minerva também declarou que 13 das 16 fazendas ligadas à empresa que foram acusadas cumpriam suas promessas voluntárias e legais de não desmatamento e que não tinha registros de compras das demais.

As consultorias responsáveis pelos relatórios que atestam o cumprimento dos compromissos socioambientais das três empresas, DNV-GL e Grant Thornton, afirmaram à Global Witness que "restrições às auditorias podem tê-las impedido de identificar os casos encontrados pela entidade".

Procurado pela reportagem, o Ministério do Meio Ambiente ainda não respondeu aos questionamentos enviados.

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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