quinta-feira, 19 de novembro de 2020

MUDANÇA DE COMPORTAMENTO

 

As pessoas mudam?

Simone Demolinari

 

 

 


Muitos questionam a capacidade de mudança de um indivíduo. As dúvidas geralmente aparecem quando precisamos decidir se daremos outra chance a quem errou, se voltaremos a confiar em quem traiu nossa confiança.

Nesse momento nos deparamos com um impasse: quem errou mudará ou voltará a incidir no mesmo erro? Trata-se de uma dúvida intrigante, pois há pessoas que erraram e mudaram, assim como há outras que reincidiram incansavelmente no erro uma vida inteira, sempre justificando seus atos.

Ao contrário do que dizem os manuais da felicidade, mudar não é apenas uma questão de escolha. Dizer que a decisão de mudar já é meio caminho andado para solucionar o problema é um equívoco. Se fosse assim, seria fácil fazer dieta, parar de fumar, terminar relacionamentos doentios e assim por diante.

Na verdade, decidir talvez seja o passo mais importante por ser o primeiro, mas não altera nada em termos de resultado. Após a tomada de decisão, começa um árduo caminho pelo qual não se sabe andar. Um caminho novo que, embora promissor, causa insegurança.

Mudar não é fácil, é um processo complexo e demorado. Há quem afirme que mudou em um “click”. Isso é o que chamo de mudança estratégica: dura apenas o tempo do susto ou então tem a ver com o medo de perder as regalias. Devemos desconfiar daqueles que dizem que mudaram rapidamente porque a “ficha caiu”.

Sim, a “ficha pode cair” rapidamente, no sentido da compreensão, mas o processo da mudança real passa por um longo e doloroso período de aprendizagem, conscientização, privação, humildade e muita força de vontade. Essa mudança só poderá ser comprovada através de atitudes realizadas ao longo de meses, quiçá anos.

Mas, afinal, por que mudar é tão difícil?

Nosso comportamento está alicerçado em convicções enraizadas ao longo de décadas e quando decidimos mudar precisamos ir além da ação; precisamos mudar, especialmente, a forma de pensar. Podemos comparar nosso jeito de ser a uma pirâmide, onde o topo (parte menor) significa a nossa forma de agir e a base (parte maior) representa nossas convicções.

Dessa forma, só conseguiremos mudar o comportamento se mudarmos as convicções nas quais ele está alicerçado. Por exemplo: uma pessoa regida pela ideia de levar vantagem dificilmente exercerá uma conduta justa. Mesmo sabendo da ilicitude do ato, isso não será suficiente, pois a base da convicção é maior. Essa atitude deriva do fato de que as convicções estão de acordo com o código interno de conduta, com isso, não há a ação de nenhum freio moral.

Nossas convicções funcionam como uma espécie de consciência: se agirmos de acordo com elas, não nos sentiremos incomodados mesmo que estejamos, notoriamente, fazendo algo errado.

Alem disso, podemos usar a genial lógica do ganho secundário deixada por Freud: “Quando a dor é maior que o ganho o indivíduo muda”.

 

O PERÚ TEVE TRÊS PRESIDENTES EM UMA SEMANA

 

O calvário peruano

Com a escolha de Francisco Sagasti, o país teve em uma semana três presidentes.

 

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

 

 

A autofagia política no Peru chegou ao paroxismo. As acusações de corrupção abundam por todos os lados e, em meio ao fogo cruzado entre o Legislativo e o Executivo, nenhum dos representantes eleitos em 2016 está de posse de seu mandato.

Sob ameaça de impeachment, supostamente por corrupção, o presidente Pedro Pablo Kuczynski renunciou em 2018. Seu sucessor, Martín Vizcarra, por sua vez, aumentou a pressão por reformas políticas alegadamente motivadas pela repressão à corrupção, chegando a ponto de dissolver o Parlamento e convocar novas eleições em 2019. Em retaliação, a nova legislatura passou a pressionar Vizcarra até conseguir o seu impeachment, no último dia 9, e a ascensão à presidência do líder oposicionista no Parlamento, Manuel Merino. Este por sua vez foi pressionado pelo povo nas ruas até cair, no domingo passado. Com a escolha do parlamentar Francisco Sagasti como presidente interino, o Peru teve em uma semana três presidentes.

A queda de Vizcarra é classificada por muitos peruanos como um golpe. A Constituição prevê a possibilidade de o Congresso depor um presidente por “incapacidade moral permanente”, mas as investigações sobre um suposto recebimento de propina por Vizcarra quando governador de Moquegua entre 2011 e 2014 ainda estão em curso. Além disso, Vizcarra tinha mais de 50% de aprovação popular e 75% dos peruanos eram contra a sua deposição.

Mas, se a legalidade do impeachment já era questionável – e está sendo questionada no Tribunal Constitucional –, quaisquer rudimentos de legitimidade do regime de Merino foram pulverizados em poucos dias.

Merino, que como presidente do Congresso promoveu diversas medidas populistas e arbitrárias, ao invés de apaziguar os ânimos, montou rapidamente um gabinete sectário e rancoroso. Uma multidão de peruanos foi às ruas. Ao mesmo tempo que o novo regime tentava deslegitimar os protestos, empenhou as forças policiais em uma truculenta repressão que deixou um rastro de mais de cem feridos, diversos desaparecidos e dois mortos. Em poucos dias o regime se mostrou totalmente insustentável e Merino renunciou. A procuradoria peruana iniciou uma investigação por delitos de homicídio doloso, abuso de autoridade, lesões graves e desaparições forçadas.

Após dois dias de convulsão parlamentar, na segunda-feira o Congresso elegeu Sagasti. Tudo indica que as forças políticas chegaram a uma solução de compromisso minimamente estável, capaz de conduzir o país à renovação nas urnas em abril. Sagasti está entre os 19 parlamentares que, contra 105, votaram contra o impeachment. Ele é engenheiro e fez carreira na vida pública como tecnocrata, servindo em vários órgãos de Estado e organismos internacionais como o Banco Mundial. Só em 2020, aos 76 anos, foi eleito parlamentar pelo partido de centro-direita Morado.

Assim como tem considerável experiência na gestão pública, Sagasti parece ser suficientemente independente das oligarquias parlamentares que foram incapazes de controlar a crise que elas mesmas produziram. Seu ex-chefe no Ministério das Relações Exteriores, Allan Wagner, o descreveu como “afável, conversador, sempre em busca de consensos e especialista em dinâmica de grupo”. Ao ser nomeado, Sagasti cuidou de adotar um tom conciliador e comprometido com o combate à pandemia e a recuperação econômica. O mercado reagiu positivamente.

Há pelo menos 20 anos as forças políticas peruanas estão em atrito permanente, sobretudo em razão de uma epidemia de corrupção, frequentemente retaliada por virulentos espasmos anticorrupção. O terremoto da última semana deitou por terra muitas partes podres do edifício institucional peruano e aprofundou suas fissuras até os alicerces. Espera-se que o novo regime consiga manter um mínimo de paz civil para que o povo peruano possa restaurar aquilo que há de mais sólido em suas estruturas e deliberar sobre uma nova arquitetura a fim de iniciar a reconstrução da sua vida política nas eleições de 2021.

 

MEDIDAS DE FLEXIBILIZAÇÃO AGORA É UM DESCUIDO MORTAL

 

Descuido mortal

Nada poderia ser mais inconsequente do que tomar medidas de flexibilização da quarentena como sinal inequívoco de que tudo voltou ao normal.

 

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

 


 

A julgar pelo comportamento de muitos brasileiros, a pandemia de covid-19 parece ser uma catástrofe que ficou para trás. Nada poderia ser mais inconsequente neste momento do que tomar as medidas de flexibilização da quarentena que têm sido adotadas pelo poder público como um sinal inequívoco de que o pior já passou e que tudo voltou ao normal. Afinal, a pandemia, cumpre reafirmar, não acabou. Ao contrário, ganha força.

Há algumas semanas, muita gente relaxou nos cuidados para conter a disseminação do novo coronavírus. Observaram-se grandes congestionamentos nos grandes feriados, praias lotadas, aglomerações em bares, festas e reuniões entre familiares e amigos, ou seja, comportamentos totalmente alheios à dura realidade: o vírus mortal ainda está em circulação no País.

Como o patógeno é implacável e não liga para o estado de espírito das pessoas, muitas exauridas nesses quase nove meses de quarentena, o número de infectados e mortos tornou a subir após semanas de queda e estabilidade. De acordo com o Imperial College de Londres, referência internacional no estudo da pandemia, a taxa de transmissão (Rt) do novo coronavírus no Brasil voltou a ficar acima de 1 pela primeira vez desde setembro. No dia 17 passado, a instituição britânica revelou que a Rt no País estava em 1,10, vale dizer, cada grupo de 100 infectados pelo Sars-Cov-2 transmitia o vírus para outras 110 pessoas. Apenas uma semana antes, a Rt estava em 0,68, então a menor taxa registrada desde abril. Uma taxa de transmissão acima de 1 indica que a doença está se expandindo. Abaixo, indica que está perdendo intensidade.

De acordo com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que monitoram a taxa de transmissão no Estado, a Rt em São Paulo está em 1,05, o que indica aumento da propagação da doença. Este aumento pôde ser sentido na ocupação dos leitos dos hospitais públicos e privados, que voltou a subir na primeira quinzena de novembro. As redes de laboratórios também registraram maior procura por exames para detecção do novo coronavírus, com aumento de cerca de 20% no número de diagnósticos positivos. Isso é mais do que um alerta. São vigorosos sinais do alto preço que o novo coronavírus cobra por qualquer descuido.

Diante desse quadro absolutamente preocupante, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), agiu bem ao editar um decreto prorrogando a quarentena em todo o Estado até o dia 16 de dezembro. Não houve a progressão para a faixa verde do Plano São Paulo, menos restritiva, em 90% do Estado, como planejado. As atividades consideradas não essenciais, portanto, poderão ser novamente suspensas nos termos do Decreto 64.879, de março deste ano, caso a Secretaria de Estado da Saúde julgue necessário, a depender da evolução da doença nos próximos dias. “Se tivermos índices aumentados, seguramente medidas mais austeras e restritivas serão tomadas. Reforço que não estamos no nosso normal, e sequer no nosso novo normal”, disse o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn.

Na capital paulista, o quadro é menos crítico, porém, não menos preocupante. De acordo com o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, não foi observado aumento significativo no número de internações em hospitais da rede pública municipal como se observou nos hospitais da rede privada. Mas houve interrupção da queda notada no mês de outubro.

O governo estadual afirma que não há que se falar, ao menos por ora, em “segunda onda” da covid-19 no Estado, pois o aumento do número de casos se dá em comparação com uma semana de feriados. Mas é fato que não é pequeno o contingente de paulistas que retomaram hábitos de antes da pandemia de forma menos cautelosa.

O comportamento de cada paulista determinará o próximo estágio da pandemia no Estado. Quanto maior a cautela, mais segura e duradoura será a retomada das atividades normais. Quanto mais negligente, maior o risco de aumento de contágios e mortes e mais duras serão as medidas de contenção do vírus.

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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