sábado, 14 de novembro de 2020

ELIÇÃO MUNICIPAL SERÁ AMANHÃ PARA O PRIMEIRO TURNO

 

A porta de entrada da política

A eleição municipal é a oportunidade por excelência para a renovação da política.

 

 

A Constituição de 1988 atribuiu importantes competências à esfera municipal, o que faz com que as eleições para prefeito e vereador sejam muito relevantes para a população. Por exemplo, saúde, educação, transporte e habitação são afetados diretamente pela gestão municipal. Mas o pleito municipal tem também outra dimensão, de especial peso para a qualidade da democracia. As eleições municipais são a porta de entrada da carreira política. O pleito local é, portanto, a oportunidade por excelência para a tão necessária renovação da política, com gente competente e honesta, disposta a colocar suas melhores capacidades a serviço do interesse público.

Não é fruto do acaso a falta, tantas vezes criticada, de bons nomes nas esferas políticas federal e estadual. A ausência de boas opções nas eleições gerais é quase sempre resultado de escolhas irrefletidas no pleito municipal. Além dos efeitos negativos sobre a gestão da cidade, o descuido do eleitor com a esfera municipal faz com que sejam alçadas a uma posição de destaque na vida pública pessoas que talvez não tenham as necessárias condições de caráter e competência para a política.

Essa especial responsabilidade do eleitor não decorre apenas dos muitos efeitos da eleição municipal. A esfera local oferece uma oportunidade única. Nela, o eleitor tem maior proximidade com os candidatos. Assim, o voto para prefeito e vereador é mais acessível. O meio dado ao cidadão para descobrir e conhecer bons candidatos, alinhados ao que ele espera de uma boa gestão municipal e de uma boa política.

Expressiva quantidade de candidatos – por exemplo, em 2016 houve 460 mil candidatos a vereador no País – nas eleições municipais deixa evidente a falsidade das afirmações genéricas de que todos os políticos são corruptos ou de que nenhum político está comprometido com o interesse público. O que a crença irresponsável nesses preconceitos revela é, antes de mais nada, um eleitor desinteressado pela cidade e pela política. Ou seja, um mau cidadão.

Em 2018, o eleitor promoveu uma renovação inédita do Congresso, tanto da Câmara como do Senado. O resultado das urnas levou a uma significativa melhora do Parlamento. A atual legislatura é significativamente melhor do que a anterior. No entanto, para que essa renovação do Poder Legislativo federal, bem como do estadual, seja consistente – e não apenas um fato esporádico – é fundamental que o mesmo fenômeno, com a escolha de bons nomes, também ocorra no âmbito local.

É muito difícil que, sem um voto consciente e responsável nas eleições do próximo dia 15, haja bons nomes disputando o pleito de 2022 ou o de 2026. Naturalmente, não se pode ignorar que cada âmbito da Federação tem competências específicas, mas a boa política é uma carreira de obstáculos – e isso deve orientar o eleitor na escolha de seu candidato na esfera municipal, onde tudo começa. O decisivo é que, com seu voto, o eleitor apoie pessoas honestas e competentes, com capacidade e disposição para realizar a boa política.

As novas lideranças políticas, repetimos, nascem no âmbito local. E vale lembrar que elas não surgem por geração espontânea. O desabrochar de novos nomes – de mulheres e homens competentes, honestos e criativos, profundamente comprometidos com o bem público – se dá pelo voto. É nas eleições municipais, portanto, que o eleitor define as novas lideranças políticas.

Num regime democrático, todo o poder emana do povo. Sempre vigente e estruturando o funcionamento de todo o poder público, essa realidade é especialmente sentida nas eleições. Em cada pleito, o poder está nas mãos do eleitor. E em cada pleito, esse poder tem consequências específicas. No próximo dia 15, além de dizer a quem será entregue a gestão dos muitos assuntos públicos da esfera local, o eleitor definirá também como será a classe política dos próximos anos. Essa decisão merece especial cuidado.

 

BOLSONARO ESSA SEMANA AMEAÇOU GUERRA CONTRA OS ESTADOS UNIDOS

 

Bolsonaro no mundo da lua

A prova de que o equilíbrio de Bolsonaro depende cada vez mais das fases da Lua foi sua ameaça de declarar guerra aos EUA.

 


O presidente Jair Bolsonaro, como um valentão na hora do recreio, chamou o País para a briga. Descontrolado como poucas vezes se viu em sua vergonhosa Presidência, classificou como “maricas” os milhões de brasileiros que se preocupam com a pandemia de covid-19.

Donde se depreende que corajoso, para Bolsonaro, é quem ignora as medidas de proteção contra a pandemia, pois, afinal, segundo suas próprias palavras, “todos nós vamos morrer um dia”. Ou seja, o presidente da República está explicitamente incitando seus governados a correr risco de morte.

Mas não ficou só nisso. Bolsonaro questionou a inteligência dos eleitores que apoiam prefeitos “que fecharam as cidades” – isto é, que tomaram providências para conter a pandemia: “Por que esses caras estão bem na frente nas pesquisas, meu Deus do céu?”.

E tudo isso depois de celebrar um suposto revés na pesquisa da vacina desenvolvida pela China em parceria com São Paulo, Estado governado por seu maior desafeto, João Doria.

Quase nada escapou da logorreia de Bolsonaro. Ele atacou os jornalistas, chamando-os de “urubuzada”, tornou a questionar a confiabilidade das urnas eletrônicas nas eleições brasileiras e ainda fez piada grosseira com as movimentações políticas de centro para enfrentá-lo nas eleições de 2022: “Aí vem a turminha aí falar de ‘ah, queremos um centro, nem ódio pra lá nem ódio pra cá’. Ódio é coisa de maricas, pô. Meu tempo de bullying na escola era na porrada”.

Completou a glossolalia queixando-se de que é responsabilizado “por tudo o que acontece no Brasil” e que a Presidência é uma “biboca” que “tem criptonita ou um formigueiro”. Emendou criticando os que querem seu lugar “falando besteira o tempo todo, mentindo, provocando, caluniando, perseguindo os familiares o tempo todo”. A menção aos “familiares” não foi gratuita: sempre que o cerco judicial ao filho Flávio Bolsonaro no escândalo das rachadinhas se aperta, o presidente perde as estribeiras.

Mas a prova cabal de que o equilíbrio de Bolsonaro depende cada vez mais das fases da Lua foi sua tresloucada ameaça de declarar guerra aos Estados Unidos. O presidente queixou-se das cobranças feitas por Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos, a respeito da proteção da Amazônia e, após questionar “como é que podemos fazer frente a tudo isso”, amparou-se no seu chanceler Ernesto Araújo, outro selenita, para declarar: “Apenas a diplomacia não dá, não é, Ernesto? Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona”. Custa a crer que os militares que estão no entorno de Bolsonaro não se envergonhem de seu “capitão” ante tamanho desatino, que enxovalha a Presidência da República.

Se tudo isso somado não constitui clara afronta ao decoro do cargo, ou seja, crime de responsabilidade passível de impeachment, como determina o artigo 7.º da Lei 1.079, é difícil saber o que mais seria. Mas Bolsonaro desafia os brasileiros e suas leis há muito tempo, desde a época em que, como deputado, violava o decoro a cada vez que abria a boca, sem contudo ser punido. E não será agora, pelo menos enquanto estiver sob a proteção do notório Centrão – que, em troca, coloniza um governo sem rumo, cujo símbolo maior é a inépcia de um ministro da Economia que deu agora de falar em risco de “hiperinflação” em razão da escalada da dívida que lhe cabe, e a seu chefe, administrar.

Mas os brasileiros não responderão a mais esse repto do sr. Bolsonaro, pois têm mais o que fazer do que dar atenção a um presidente que se comporta como o buliçoso da turma do fundão. Há uma pandemia a enfrentar, uma economia a recuperar e um País a reconstruir. “Entre pólvora, maricas e o risco de hiperinflação, temos mais de 160 mil mortos, uma economia frágil e um Estado (o Amapá) às escuras”, lembrou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que completou: “Em nome da Câmara dos Deputados, reafirmo o nosso compromisso com a vacina, a independência dos órgãos reguladores e com a responsabilidade fiscal”. Para nossa sorte, nem todos em Brasília estão no mundo da lua.

 

INFLAÇÃO DE ALIMENTOS ALTA E OS SALÁRIOS NÃO ACOMPANHAM

 

A inflação na mesa e o consumo

Varejo cresceu em setembro, mas custo de alimentos já causa estragos.

 


Comida mais cara afeta o poder de consumo dos pobres, já prejudicado pela redução de salários, pelo desemprego e, desde setembro, pela diminuição do auxílio emergencial. O efeito perverso da inflação dos alimentos é bem visível no desempenho dos hiper e supermercados. O aumento de preços impulsionou a receita e ao mesmo tempo derrubou seu volume de vendas. Mas, apesar do aperto da maior parte das famílias, o volume vendido pelo comércio do dia a dia cresceu 0,6% em setembro, completando cinco meses de expansão e atingindo nível recorde na série iniciada em 2004, mesmo com a perda de ritmo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O crescimento mensal, de 0,6%, foi o menor desde o começo da recuperação, em maio, e a desaceleração foi descrita como normal pelo gerente da pesquisa mensal do comércio, Cristiano Santos. Foi uma acomodação, segundo explicou, depois da forte reação inicial à queda de março-abril. Com cinco meses de avanço, o varejo restrito já alcançou um nível 7,7% superior ao de fevereiro.

Acrescentando-se veículos e material de construção, chega-se ao varejo ampliado, composto por dez segmentos do comércio. As vendas desse conjunto mais amplo cresceram 1,2% em setembro. Mesmo com o aumento mensal de 5,2%, o total vendido pelas lojas de veículos, motos, partes e peças continuou 9,3% abaixo do resultado de fevereiro. Em 12 meses a perda ficou em 11,6%.

O auxílio emergencial ainda favoreceu o consumo em setembro, segundo o pesquisador. O efeito da redução, iniciada nesse mês, só deve ter afetado as vendas a partir de outubro. Mas os danos causados pelo encarecimento da comida já eram evidentes. Entre abril e setembro a receita dos hiper e supermercados cresceu 10,6%, mas o volume vendido só aumentou 4,7%.

Nos últimos três meses apurados, lembrou Santos, a variação da receita foi positiva em dois meses (0,5% em julho e 2,1% em setembro) e negativa em um (-0,7% em agosto). Em todo o período, no entanto, a variação do volume foi negativa, com recuos de 0,3% em julho, 2,1% em agosto e 0,4% em setembro.

Os mais sacrificados foram os consumidores de baixa renda, porque a alimentação pesa mais em seu orçamento. De janeiro a outubro, a inflação das famílias mais pobres chegou a 3,5%, enquanto a das famílias de renda mais alta ficou em 1%, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Nesse período, encareceram muito vários itens de grande peso na cesta de consumo dos mais pobres, como arroz (+47,6%), feijão (+59,5%), leite (+29,5%), óleo de soja (+77,7%) e frango (+9,2%). Ao mesmo tempo, houve alívio em preços de bens e serviços importantes para as famílias de renda mais alta, como gasolina (-3,3%), seguro de automóvel (-9,9%), hospedagem (-8,4%), passagem aérea (-37,3%) e pré-escola (-1,7%).

Seis faixas de renda são consideradas no levantamento do Ipea. Em outubro, a inflação das famílias mais pobres chegou a 0,98%. A da faixa mais alta ficou em 0,82%, taxa também muito elevada, mas, ainda assim, as variações acumuladas no ano permaneceram muito diferentes. No mês passado, a alta de preços da comida teve impacto de 0,61 ponto porcentual na inflação da camada mais desfavorecida e de 0,15 ponto na do grupo mais alto. No grupo de renda média, o quarto de baixo para cima, o efeito foi de 0,32 ponto porcentual.

A evolução das cotações internacionais, principalmente por causa das vendas à China, explica em parte a inflação dos alimentos, mas o comércio externo afeta diretamente apenas os preços de alguns produtos, como soja e derivados, milho, carnes e café. O encarecimento de outros itens, como arroz, feijão e leite, é atribuível mais facilmente a outros fatores, como o aumento da demanda para consumo em casa e as fortes oscilações do dólar. A instabilidade do dólar tem resultado principalmente das incertezas quanto à condução das contas federais e à evolução da enorme dívida pública. Parte importante da inflação tem sido fabricada na sede do Executivo – e a conta mais pesada vai para os pobres.

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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