sábado, 14 de novembro de 2020

ALGUNS SETORES DA ECONOMIA CRESCEM E OUTROS NÃO

 

Recuperação desigual

Retomada mais lenta do setor de serviços atrasa a recuperação dos empregos.

 

 

Maior fonte de empregos em tempos normais, o setor de serviços cresceu em setembro pelo quarto mês consecutivo, mas ainda sem retomar o nível de atividade pré-pandemia. Indústria e varejo começaram a recuperar-se mais cedo, em maio, e saíram mais rapidamente do buraco onde haviam caído em março e abril. Desde o início da retomada, o volume de serviços prestados acumulou expansão de 13,4%, resultado modesto quando comparado com a perda de 19,8% no período de março a maio.

Com aumento de 1,8% em setembro, a prestação de serviços ainda foi 7,2% menor que a de um ano antes. Foi a sétima taxa negativa nesse tipo de confronto. O balanço de janeiro a setembro foi 8,8% inferior ao dos nove meses correspondentes de 2019. Em 12 meses o recuo foi de 6%. O último dado mensal da indústria foi melhor que o de um ano antes, assim como o do comércio varejista. Também isso mostra o descompasso na recuperação.

O distanciamento social atingiu muito mais duramente os serviços do que os outros setores. Quando se comparam os períodos de janeiro a setembro deste ano e de 2019, as maiores perdas são observadas em alojamento e alimentação, com queda de 40,2%; transporte aéreo, com recuo de 37,6; e “outros serviços prestados às famílias”, com declínio de 30%. É fácil entender o contraste com os serviços de tecnologia da informação, com ganho de 6,5% no confronto entre os dois períodos de nove meses.

Barbearias, salões de beleza e academias também estão, sem surpresa, entre os negócios com grandes perdas na fase de maior distanciamento social. Seus problemas foram muito mais graves que os do comércio varejista, beneficiado, assim como parte dos bares e restaurantes, pela possibilidade de vendas online.

O governo conta com a recuperação dos serviços para o aumento do emprego, principalmente informal, em 2021. Essa é uma das expectativas indicadas pelo Ministério da Economia. Mas para isso a retomada do setor terá de ser bem mais vigorosa que a observada entre junho e setembro. Além disso, a evolução dos negócios, nos diferentes setores, será certamente afetada pelas prioridades de milhões de famílias com orçamento muito apertado.

Com o fim do auxílio emergencial, por enquanto previsto para dezembro, os consumidores terão de controlar severamente seus gastos. Segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes, o auxílio poderá ser prorrogado se ocorrer no Brasil uma segunda onda de covid-19. Nesse caso, haverá, de acordo com a perspectiva do governo, condições mais favoráveis à oficialização de um novo estado de emergência. Mas alguma pessoa ainda normal poderá desejar essa nova calamidade?

Uma segunda onda será menos provável que na Europa, se muitos cidadãos, contrariando as opiniões do presidente da República, forem cautelosos, continuando a usar máscara e observando outras medidas de prevenção. O abandono desses cuidados em muitas áreas da Europa e dos EUA foi desastroso. Produziu mortes e internações evitáveis e forçou um retrocesso na abertura econômica.

No Brasil falta um plano de manutenção da retomada. Contar com uma nova onda de covid-19 para reativar ou manter o auxílio emergencial parece no mínimo estranho. Também se fala, em Brasília, no lançamento de um grande programa de microcrédito.

Crédito fácil ajudará, mas sem substituir o auxílio direto ou um bom programa de incentivo fiscal. Além disso, quanto risco os banqueiros estarão dispostos a aceitar? De toda forma, essas questões parecem até estranhas quando nem se sabe se um orçamento para 2021 será votado até 31 de dezembro.

Empresários contam com as vendas de fim de ano para reforço de caixa. Há alguns sinais de otimismo e as contratações têm aumentado. Mas, segundo a Federação do Comércio do Estado de São Paulo, o varejo paulista deve contratar em novembro e dezembro cerca de 22,9 mil funcionários, o menor número desde 2017, quando foram abertas 24,3 mil vagas. Em 2019 foram 35,3 mil. Como ficará o País depois do réveillon? O governo tem pouco tempo para cuidar da resposta.

 

BOLSONARO SE IRRITA COM A FALA DO GENERAL PUJOL

 

Presidente reage a fala de Pujol e lembra que foi ele quem o nomeou

Comandante havia dito que o Exército ‘não tem partido’ e que não queria que a política entrasse nos quartéis

 

Felipe Frazão, Jussara Soares e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

 

 

O presidente Jair Bolsonaro reagiu às declarações do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, que afirmou ter atuado contra a contaminação política dos quartéis. “Não temos partido”, disse Pujol. Bolsonaro sentiu-se obrigado a se manifestar pelo Twitter, lembrando que as Forças Armadas “devem, por isso, se manter apartidárias, baseadas na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República”.

A primeira vez que Pujol se manifestara desde as tentativas do bolsonarismo de envolver as Forças Armadas em suas disputas políticas aconteceu na quinta-feira, quando o comandante do Exército disse: “Nosso assunto é militar, preparo e emprego. As questões políticas? Não nos metemos em áreas que não nos dizem respeito. Não queremos fazer parte da política governamental ou do Congresso Nacional e muito menos queremos que a política entre em nossos quartéis.”

Jair BolsonaroJair Bolsonaro, presidente do Brasil Foto: Gabriela Biló/Estadão

Pujol estava em um evento do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa, do qual participaram os ex-ministros da Defesa Raul Jungmann e do Gabinete de Segurança Institucional general Sérgio Etchegoyen. Nesta sexta-feira, voltou a se manifestar no seminário Defesa Nacional, na Escola Superior de Guerra. “Somos instituições de Estado, não somos instituição de governo, não temos partido. Nosso partido é o Brasil”, disse, usando expressão similar ao slogan “Meu partido é o Brasil”, adotado pela militância bolsonarista. “Independente de mudanças ou permanência de um determinado governo por um período longo, as Forças Armadas cuidam da Nação. São instituições permanentes, não mudamos a cada quatro anos a nossa maneira de pensar e como cumprir nossas missões.”

Depois de sua nova manifestação, Bolsonaro sentiu necessidade de lembrar que fora ele quem nomeara Pujol para o cargo em uma espécie de “chamado de unidade” às fileiras. Escreveu então: “A afirmação do General Edson Leal Pujol (escolhido por mim para Comandante do Exército), que ‘militares não querem fazer parte da política’, vem exatamente ao encontro do que penso sobre o papel das Forças Armadas no cenário nacional.”

Para três oficiais generais ouvidos pelo Estadão – dois generais e um brigadeiro – pela reportagem, a reação de Bolsonaro demonstra um mal-estar. Um deles creditou o problema às pessoas próximas do presidente que apagam incêndio com gasolina. Seriam integrantes do Planalto que estariam intrigando o presidente com Pujol, sugerindo que as falas do general – que só havia afirmado o óbvio – seriam um recado à Bolsonaro ou que Pujol estaria querendo aparecer. Exploram o notório ciúmes que Bolsonaro têm de ver seus auxiliares retratados na imprensa.

Um dia antes, Pujol havia dito ainda que o Exército brasileiro não tem recursos suficientes para garantir a soberania do País. E citou a defesa antiaérea brasileira como um dos pontos em que a capacidade do Exército tem de melhorar. Ele descartou existir alguma ameaça real ao Brasil. “O general Etchegoyen me perguntou se haveria algum país em nosso continente que seria uma ameaça ao Brasil. Eu digo. Hoje não, mas não sabemos daqui 3 ou 4 anos. Por isso, fazemos nosso planejamento estratégico.”

A declaração aconteceu dois dias depois de Bolsonaro dizer que quando “a saliva acaba tem de que ter pólvora”, ao abordar as relações entre o Brasil e a futura gestão de Joe Biden, nos EUA.

Pujol defendeu ainda a criação de uma Guarda Nacional, que assumiria funções, como o combate aos crimes ambientais na Amazônia, hoje repassadas ao Exército. E criticou a quantidade de vezes que o Exército é empregado para garantir a lei e da ordem ou para cumprir missões, como a distribuição de água no Nordeste – operação iniciada em 1999 –, fazendo da instituição um “posto Ipiranga”.

O vice-presidente Hamilton Mourão, general de Exército da reserva que nos últimos anos de ativa perdeu cargos em duas ocasiões, por manifestações políticas, disse nesta sexta-feira que já endossou várias vezes o pensamento de Pujol. “Política não pode entrar dentro do quartel. Se a política entra pela porta da frente, a disciplina e a hierarquia saem pelos fundos”, afirmou Mourão ao deixar seu gabinete palaciano.

Por força de lei, militares da ativa são proibidos de se filiar a partidos e não podem se pronunciar sobre assuntos políticos publicamente. Eles têm direito a voto, mas só podem se envolver com partidos para tentar cargos eletivos – e devem se licenciar da função militar enquanto são candidatos. Só voltam à caserna se não forem eleitos e tiverem mais de cinco anos de serviço.

Imagem conquistada na sociedade

Pujol também defendeu que as Forças Armadas precisam solidificar a imagem conquistada na sociedade e devem dispensar quem não se adapta à carreira militar, ainda que seja bom profissional. “Dentro das instituições militares os valores éticos e morais são fundamentais para que a gente possa proteger a sociedade brasileira. Não abrimos mão desses valores”, disse na Escola Superior de Guerra.

No seminário, o ministro da Defesa, general de Exército da reserva Fernando Azevedo e Silva, exibiu um índice de confiabilidade de 80% nas Forças Armadas, conforme pesquisa Datafolha de julho de 2019. “É um patrimônio isso aqui. Foi conquistado nesses últimos dois anos? Não. Isso aí é instituição de Estado”, disse. O ministro também afirmou que Exército, Marinha e Aeronáutica estão inseridos na “democracia plena”.

Nos bastidores, o generalato já demonstrou incômodo e pressionou pela passagem à reserva dos colegas da ativa que assumiram cargos no governo Bolsonaro. Eles temem perder a credibilidade social por liderar políticas questionadas do governo Bolsonaro e ficarem associados a eventuais "fracassos" do Executivo. A identificação dos militares com o atual governo aumentou porque o oficialato da ativa participa do alto escalão ministerial de Bolsonaro. O caso mais notável é o ministro interino da Saúde, general de Divisão Eduardo Pazuello. Mas até meses atrás havia dois outros casos: o almirante-de-esquadra Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, e o general de Exército Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Ambos passaram à reserva.

O Tribunal de Contas da União (TCU) mapeou neste ano 6.157 militares, da ativa e da reserva, em funções civis do governo. Houve um aumento de 108 % em relação a 2016, no governo Temer, segundo dados da Secretaria-Geral de Controle Externo.

No início do ano, Bolsonaro participou de manifestações populares a seu favor e contra os demais poderes – Legislativo e Judiciário – em frente ao Quartel-General do Exército. Insinuou que as Forças Armadas estariam ao seu lado. “Nós temos o povo ao nosso lado, nós temos as Forças Armadas ao lado do povo, pela lei, pela ordem, pela democracia, pela liberdade”, afirmou, em outro protesto em frente ao Palácio do Planalto.

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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