terça-feira, 10 de novembro de 2020

GOVERNO ACHA QUE A CHINA TEM INTERESSE NAS NOSSAS ÁGUAS

 

Governo Bolsonaro avalia que China mira águas do Brasil

Análise é exposta em documentos do Conselho Nacional da Amazônia, comandado pelo vice Hamilton Mourão; existe plano de criar marco regulatório para controlar ONGs

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 16h02

BRASÍLIA - Documentos oficiais do governo começam a incluir a China entre as potências internacionais com interesse na Amazônia. Material do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL) obtido pelo Estadão registra a preocupação com um interesse do país asiático pelos recursos naturais estratégicos, especialmente a água. O órgão comandado pelo vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) destaca que as potencialidades brasileiras já estão na mira de potências como Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos.

“A entrada da China no seleto grupo de grandes potências econômicas hegemônicas do mundo, contextualiza uma nova realidade global, na qual regiões ricas em recursos naturais estratégicos passam a ser o alvo das políticas externas do Governo chinês”, ressalta uma apresentação feita na última terça-feira, 3, aos integrantes do Conselho.


 

Mourão é presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal Foto: Adriano Machado/Reuters

O documento ressalta que, na crise global da água, a situação já é crítica na República Popular da China, na Índia, no México e na região do Chifre da África – que abrange Somália, Etiópia, Eritreia e Djibouti. Nesses países, segundo o governo, os lençóis freáticos registram queda de um metro por ano, acima da taxa natural de reposição, o que aponta grave crise em 20 a 25 anos.

Apresentado por um subordinado de Mourão na reunião, o documento destaca um possível apoio de “entidades ambientalistas” aos governos europeus, além de “interesses menos republicanos entre nacionais”. “Será que vale a pena a troca de provocações nas Relações Internacionais?”, questiona o documento. A equipe de Mourão ainda lançou novo questionamento: “Qual seria a melhor estratégia para o Brasil?”. A resposta está registrada logo abaixo. “Assegurar sua soberania pela Coordenação e Integração de Políticas Públicas, por intermédio do CNAL”.


Ofício assinado pelo vice-presidente Hamilton Mourão convoca servidores para discutir os objetivos do grupo, incluindo a meta relacionada às ONGs

Gestão quer limitar atuação de organizações que contrariem 'interesses nacionais'

Como o Estadão revelou nesta segunda-feira, o conselho traçou objetivos para a região da Amazônia. Entre eles, a criação de um “marco regulatório” para controlar as Organizações Não-Governamentais (ONGs) que atuam na região. Segundo documentos entregues a membros do conselho, a meta é impedir a atuação na floresta de ONGs que não atendam aos “interesses nacionais”.

Os objetivos do conselho dividem-se em três principais eixos (preservação, proteção e desenvolvimento sustentável). Cada tópico é subdividido em objetivos mais pontuais, que têm metas e ações programadas. Na última semana, Mourão pediu para diversos ministérios indicarem especialistas para debater estes objetivos junto ao conselho. Além de um ofício assinado pelo general, a Vice-Presidência encaminhou a apresentação feita aos membros do conselho e tabelas com as descrições dos objetivos do grupo. Duas fontes do governo que acompanham as discussões confirmaram o envio dos documentos.


3ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional da Amazônia Legal. Foto: Conselho Nacional da Amazônia Legal/Reprodução

Questionado nesta segunda-feira sobre o assunto, Mourão disse desconhecer a proposta sobre as ONGs, apesar de ele mesmo ter assinado o comunicado convocando servidores de outras pastas para discutir o tema.

Para Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, o governo se isola ao pautar ações por “teorias da conspiração”. “A China tem importância ao País, principalmente no mercado internacional”, disse.

As discussões do conselho sobre a Amazônia ocorrem no momento em que o Palácio do Planalto avalia se vai manter seu discurso ambiental com a vitória do democrata Joe Biden, nos Estados Unidos, e o País sofre desgaste no exterior por causa do desmatamento. Mourão promoveu viagem com diplomatas de dez países pela Amazônia na última semana. "Ainda mais com a eleição de Biden (nos EUA), o mundo vai valorizar cada vez mais o multilateralismo. O acordo do Mercosul com a União Europeia mostra isso. A conspiração só vai isolar o Brasil", afirmou Astrini.

 


O que desequilibra a relação entre oferta de água nanatureza e a demanda mundial é o aumento do consumo. Foto: Conselho Nacional da Amazônia Legal/Reprodução

Nos planos do conselho da Amazônia há ainda meta de redução de 90% dos desmatamentos e queimadas na região até 2023, “como consequência da maior celeridade do fluxo de informações a antecipação das ameaças”. O conselho demonstra também preocupação com a imagem da gestão Bolsonaro. Por isso, outra ideia é aumentar em 70%, até 2021, o número de notícias positivas divulgadas pelo governo sobre repressão a crimes na Amazônia.

Para Astrini, as metas de preservação ambiental são uma "maquiagem" que o governo mostra a investidores e diplomatas, com objetivo de recuperar recursos perdidos, como do Fundo Amazônia.  "Qualquer escrito que venha do governo em favor do meio ambiente, para mim, não passa de enrolação. A prática é antiambiental", diz ele.

 


Ásia Central e Bacia do Mar Cáspio, Amazônia e África são espaços vitais de recursos. Foto: Conselho Nacional da Amazônia Legal/Reprodução

 

BOLSONARO AINDA NÃO RECONHECEU A VITÓRIA DE BIDEN

 

Vergonha internacional

A demora do presidente Jair Bolsonaro em reconhecer a vitória do democrata Joe Biden ameaça ampliar o isolamento do Brasil.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

 


 

A demora do presidente Jair Bolsonaro em reconhecer a vitória do democrata Joe Biden na eleição presidencial dos Estados Unidos ameaça ampliar o isolamento do Brasil, já bastante acentuado em razão do comportamento irresponsável do governo em relação a temas caros à comunidade internacional, como o meio ambiente.

O argumento do governo para que Bolsonaro não se juntasse a chefes de Estado de quase todo o mundo, que cumprimentaram Biden assim que ficou claro o triunfo do candidato democrata, é que ainda cabem contestações ao resultado, por meio de recursos interpostos pelo presidente Donald Trump, que tentava a reeleição.

De fato, é direito do presidente Trump, bem como de qualquer outro derrotado, ingressar na Justiça para questionar o desfecho da eleição, se considerar que houve irregularidades. Dito isso, quase ninguém nos Estados Unidos parece levar a sério as alegações de fraude.

Mas Bolsonaro, que nada tem a ver com as atribulações de Trump, decidiu levar o caso a sério. Certamente aconselhado por seu chanceler, Ernesto Araújo, para quem Trump é nada menos que o “salvador do Ocidente”, o presidente brasileiro dá a entender que acredita na possibilidade de uma reviravolta a favor de seu guru norte-americano.

A hipótese benevolente é que se trata de uma estratégia para que Bolsonaro tenha tempo de encontrar um discurso que não o indisponha com Trump nem com os fanáticos bolsonaristas que, nas redes sociais, insistem que seu ídolo venceu a eleição e é vítima de um golpe dos democratas, em conluio com a imprensa e com as autoridades eleitorais dos Estados Unidos.

A hipótese mais plausível, contudo, é que Bolsonaro realmente acredita nas patranhas inventadas por Trump e pela extrema direita norte-americana. Vê nisso a narrativa ideal para seu próprio projeto eleitoral, como já ficou claro desde a campanha de 2018.

Pouco importa que, na eleição presidencial de 2016, Trump não tenha esperado o fim da apuração para se declarar vencedor, dado que seu triunfo foi atestado pelas projeções da mesma imprensa que ele hoje acusa de mentir; também pouco importa que, naquela mesma eleição, assim que a imprensa norte-americana prognosticou a vitória de Trump, um dia depois da votação, o então deputado Jair Bolsonaro parabenizou o ídolo, chamando-o de “o melhor, o patriota, aquele que lutou contra tudo e contra todos”. Coerência, como se sabe, nunca foi o forte desses vândalos da democracia.

O problema é que, de um jeito ou de outro, quem perde é o Brasil. Bolsonaro elevou à categoria de política externa as relações pessoais que julga ter com Trump – e que jamais foram recíprocas. Estimulado por seus estrategistas lunáticos, Bolsonaro alimentou a fantasia segundo a qual seu servilismo em relação ao presidente norte-americano tornaria o Brasil um país privilegiado pelos Estados Unidos. Isso nunca aconteceu e, para piorar, o alinhamento automático do Brasil com a irresponsabilidade de Trump ameaça converter o País de vez em pária mundial.

Não se misturam preferências pessoais com interesses de Estado. O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, mostrou como se faz: embora muito chegado a Trump, não hesitou em reconhecer a vitória de Joe Biden, pois sabe que depende de boas relações com o governo norte-americano – qualquer governo.

O Brasil de Bolsonaro acredita que pode se dar ao luxo de hostilizar o futuro governante dos Estados Unidos desde já. Alinha-se assim à Rússia e à China, que também demoram a reconhecer a eleição de Biden sob o pretexto de que ainda não é “oficial”. A diferença é que Rússia e China são países autoritários com amplo histórico de desavenças com os Estados Unidos e não se importam de alimentar mais uma; já o Brasil, potência apenas média e bastante dependente de investimentos externos, construiu seu bom status internacional sem se alinhar preferencialmente a nenhum país e sem hostilizar gratuitamente qualquer governo. É esse patrimônio que Bolsonaro joga fora, graças a um capricho pessoal, pelo qual o Brasil pagará caro.

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...