O endividamento das
famílias brasileiras
Paulo Haddad
A retomada do crescimento da economia brasileira deverá ser muito lenta.
Não se deve esperar que o país volte a crescer a taxas de 3 a 4 por cento nos
próximos dois anos. A longo prazo, o crescimento depende do ritmo de acumulação
de capital, com investimentos em novas fábricas e expansão das existentes,
assim como com investimentos em infraestrutura econômica e social.
A acumulação de capital deve se realizar com inovações tecnológicas
visando à aceleração da produtividade total dos fatores de produção. As
inovações precisam ser multifacetadas: novos produtos, novos processos de
produção e de consumo, novos mercados e novas formas de organização
institucional. O que, em última instância, dependerá de engenho e arte dos
brasileiros ancorados por um sistema educacional de excelente qualidade e de
acesso democrático sem discriminação social.
Por outro lado, quando a economia se encontra em recessão com imensa
capacidade ociosa de homens e máquinas, o crescimento econômico passa a
depender da dinamização da demanda agregada. A demanda de consumo e de
investimento para absorção interna da produção de bens e serviços, assim como a
absorção externa através das exportações brasileiras para os demais países.
No entanto, o que impacta a decisão de investimento do empresariado em
um contexto em que tudo o que podem produzir é bem superior ao que já estão
produzindo e vendendo? São as expectativas da economia no médio e no longo
prazo em relação às condições políticas do país, o custo do dinheiro, a
conjuntura econômica mundial, etc.
As condições de competitividade global, da política cambial, da
qualidade da infraestrutura econômica e social são fatores que levam um país a
exportar. Infelizmente, no caso brasileiro, todos esses aspectos apresentam
sinal negativo: o atraso tecnológico nos nossos sistemas produtivos com raras
exceções (o agronegócio é, sem dúvida, a mais destacada) e a política cambial
titubeante que não assegura um horizonte de estabilidade para as decisões
empresariais.
Somado a isso há que se considerar a nossa precária infraestrutura face
ao lento processo decisório do Governo em transformar alguns dos seus segmentos
em áreas de negócios privados, além de estar convivendo internamente com uma
grave crise fiscal de insolvência financeira.
Resta, pois, analisar se o consumo das famílias brasileiras será
suficientemente intenso para impulsionar uma economia brasileira em estado
depressivo. Há muitas dificuldades e problemas nesse sentido. As famílias
somente voltarão ao consumo com maior intensidade se melhorarem as perspectivas
nos mercados de trabalho, as condições de financiamento e a recomposição da
renda real familiar per capita.
Mas há outra questão: o nível de endividamento das famílias brasileiras
bem acima dos padrões normais. No Fórum Nacional de setembro do ano passado,
mostrou-se que o comprometimento de renda das famílias que, em 2005, era inferior
a 16 por cento, atingiu recentemente 22 por cento da renda disponível. O
comprometimento de renda se define como os fluxos de despesas com amortizações
e juros proporcionalmente à renda que as famílias dispõem para consumir ou
poupar.
Se retirarmos os financiamentos de prazos mais longos com taxas de juros
mais baixas, ainda assim o comprometimento ainda é muito elevado, de 19,5 por
cento da renda disponível das famílias. Elevado, por exemplo, quando o estudo
do Fórum Nacional o compara com o comprometimento de renda em vários países:
Itália (4,6%), França (6,2%), Alemanha (6,5%), Espanha (7,3%), Portugal (7,8%),
etc.
Em alguns países, onde esse comprometimento é muito mais elevado do que
no Brasil, os prazos de financiamento são muito maiores e as taxas de juros
muito menores. É o caso dos Estados Unidos, onde o comprometimento cai para 8,3
por cento da renda familiar disponível quando se retira do estoque da dívida as
hipotecas com prazos de 20 a 30 anos. Além do mais, as taxas de juros de mercado
de curto prazo norte-americanas são praticamente iguais a zero.
Esse endividamento tão elevado das famílias brasileiras traz alguns
riscos e muitas incertezas. Riscos de inadimplência muito altos e incertezas
sobre as chances de novos endividamentos para expandir o consumo. Na verdade, o
padrão de consumo das famílias somente crescerá de maneira estável com a queda
do desemprego, o aumento da produtividade da mão de obra e as taxas de juros em
níveis civilizados.
Se há dificuldades por todos os lados para se dinamizar a demanda
agregada, estaríamos fadados a nos transformar em um país de baixo crescimento,
de alto desemprego e de empobrecimento da classe média por muitos anos à
frente? Definitivamente não.
A experiência histórica mostra que é possível superar esse contexto de
grave crise econômica e social através do que Karl Polanyi denominou, em 1944,
a Grande Transformação, a qual se caracteriza pelas mudanças institucionais,
reformas micro e macroeconômicas, redefinição do papel do Estado na economia, novas
formas de inserção da economia na divisão internacional do trabalho, etc.
Tudo isso pressupõe lideranças políticas que não comandem a vida do país
como se o exercício do poder fosse um grande balcão de negócios com uma base
aliada, a qual coloca os seus interesses velados acima dos interesses da
população. O Brasil continua carente de estadistas.