Língua portuguesa crescerá
na cena mundial com Guterres na ONU, diz embaixador
Agência Brasil
António Guterres
discursa durante a abertura da conferência da Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa
O embaixador Gonçalo Mello Mourão, representante permanente do Brasil
junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), ressaltou em
entrevista recente à Agência Brasil, em Lisboa, a importância da língua
portuguesa no atual cenário internacional. Para Mourão, a eleição e posse do
português António Guterres como novo secretário-geral das Nações Unidas,
substituindo a Ban Ki-moon a partir de 1º de janeiro, é um fato extraordinário
para o mundo lusófono.
“Quanto mais 'mundo' falando a nossa língua, mais o mundo fica próximo de nós e
mais nós ficamos próximos do mundo. Durante o mandato [de Guterres] - que nós
esperamos que seja renovado, como tem sido a prática da ONU -, nós vamos ter em
evidência um falante da língua portuguesa. O português hoje já é língua de
trabalho em alguns organismos das Nações Unidas, inclusive alguns de relevo”,
afirmou Mourão.
Atualmente, a Organização das Nações Unidas tem seis línguas oficiais: o
castelhano, o inglês, o mandarim, o russo, o francês e o árabe. O embaixador
lembrou, no entanto, que a escolha de uma língua como idioma oficial da ONU
traz impactos financeiros. “Uma língua na qual todos os documentos são
produzidos tem uma implicação de custos imensa, que não necessariamente pode
ser atendida pelo desejo político. De qualquer maneira, o Brasil continuará
sempre a trabalhar no sentido de que a língua portuguesa seja cada vez mais
aceita como uma língua internacional”, disse.
Para Mourão, a CPLP é, além de um espaço de cooperação entre os países-membros,
um lugar de pertencimento. “É um espaço que se funda na percepção que os
diversos países [que a integram] tiveram num certo momento de que há um passado
comum, um presente comum e um desejo de futuro comum, não só na cooperação para
o desenvolvimento, mas também na promoção da cultura de cada um de nós dentro
do âmbito da expressão linguística do português”.
O embaixador diz que a CPLP não pretende ser o principal instrumento de
cooperação para o desenvolvimento e solução dos problemas internos dos diversos
países que a compõem. Os acordos de cooperação seriam apenas uma das diversas
áreas de atuação da comunidade, que funciona, em todas as suas esferas, com
base no princípio do consenso em todas as decisões tomadas.
Apesar de reconhecer o peso (econômico, social, cultural e populacional) que o
Brasil exerce dentro da comunidade, Mourão ressalta que o interesse do país não
é o de direcionar a CPLP. “Claro que é um país que tem um peso e é obvio
que se olha [para ele] com alguma expectativa. Mas o Brasil não pretende
conduzir a CPLP para nenhum lado. O Brasil pretende que a CPLP vá para onde ela
quiser ir. E onde ela quer ir é onde todos os membros queiram ir”.
Livre Circulação
Em relação a um possível acordo de livre circulação entre os cidadãos dos
países-membros da CPLP (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné
Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste), Mourão
afirma que, apesar de o assunto vir sendo discutido dentro da comunidade, as
complicações são muitas e o processo deve ocorrer de forma lenta.
“Há, claro, um desejo de que um dia essa livre circulação se verifique. Eu acho
que isso não é só um desejo dos países de língua portuguesa, mas de todos os
cidadãos do mundo. Dentro da CPLP é um problema que tem que se resolver em
conjunto, mas também individualmente. Há certos problemas como pertencer a
outros agrupamentos regionais que têm acordos específicos sobre a matéria {como
Portugal com a União Europeia]. E é uma decisão política também sobre o desejo
de realmente abrir as fronteiras para essa livre circulação dos cidadãos da
CPLP”.
Mourão ressaltou a importância atual de o Brasil ter assumido, em outubro, a
presidência bianual da CPLP durante a 11ª Conferência de Chefes de Estado e de
Governo da Comunidade, em Brasília.
“O Brasil propôs, como meta de trabalho da organização, atingir certos
objetivos da agenda 2030 das Nações Unidas para o desenvolvimento sustentável.
Nós vamos começar a discutir, a partir de 2017, quais seriam os temas dessa
agenda que nós poderíamos apostar como possíveis de serem conjuntamente
desenvolvidos de modo que, ao final da presidência brasileira, daqui a dois
anos, nós possamos apresentar um resultado concreto. Nesse aspecto, foi uma
feliz coincidência a eleição de Guterres, porque nós vamos ter a CPLP
trabalhando em cima de uma meta da ONU”, frisou.