sexta-feira, 20 de maio de 2016

1984 EM DIANTE - ÉPOCA DO BIG BROTHER



1984, o livro que matou George Orwell



Em 1946, o editor David Astor emprestou a George Orwell uma afastada fazenda escocesa na qual pudesse escrever seu novo livro, “1984”. O editor do semanário britânico “The Observer”, Robert McCrum, conta história da torturante estadia de Orwell na ilha onde prestes a morrer engajou-se numa corrida febril para terminar o livro
Robert McCrum
“Era um dia claro e frio de Abril, e os relógios marcavam uma da tarde.” Sessenta e um anos após a publicação da obra-prima de Orwell, “1984”, essa primeira frase parece mais natural e atrativa que nunca.
Mas quando vemos o manuscrito original, encontramos algo a mais: não tanto o toque de claridade, mas as correções obsessivas, em diferentes borrões de tinta, as quais revelam o tumulto extraordinário por trás da composição.
Sendo provavelmente o romance definitivo do século 20, e uma história que permanece eternamente recente e contemporânea, cujos termos como “Big Brother”, “Duplipensar” e “Novilíngua” tornaram-se parte do cotidiano. “1984” foi traduzido para mais de 65 línguas e teve milhões de cópias vendidas pelo mundo, conferindo a George Orwell um lugar único no mundo literário.
“Orweliano” é agora um símbolo universal para qualquer coisa repressiva ou totalitária, e a história de Winston Smith, um homem comum para seus tempos, continua a ressoar para os leitores cujos medos do futuro são bem diferentes dos daquele de um escritor inglês, de meados dos anos 1940.
As circunstâncias que cercam o processo criativo de “1984” constroem um narrativa fantasmagórica que ajuda a explicar a desolação da distopia de Orwell. Ali estava um escritor inglês, desesperadamente doente, lutando sozinho contra os demônios de sua imaginação em uma casa escocesa localizada em meio aos resquícios da Segunda Guerra.
A ideia de “1984”, cujo título alternativo era “O Último Homem na Europa”, havia sido incubada na cabeça de Orwell desde a guerra civil espanhola. Esse romance, que tem algo da ficção diatópica de Yevgeny Zamyatin, provavelmente começou a adquirir uma forma definitiva durante o período de 1943 e 44, tempo no qual ele e sua esposa Eileen adotaram seu único filho, Richard. O próprio Orwell alegou ter se inspirado com a reunião dos líderes dos Aliados na Conferência de Tehran em 1944. Isaac Deutscher, um amigo, reportou que Orwell estava “convencido de que Stálin, Churchil e Roosevelt conscientemente traçaram um mapa para dividir o mundo” em Tehran.
Orwell trabalhou para o “Observer” (Jornal Britânico) de David Astor desde 1942, primeiro como revisor de livros, e depois como correspondente. O editor declarou ter grande admiração pela “absoluta retidão, honestidade e decência” de Orwell. A proximidade de sua amizade foi crucial para a história de “1984”.
A vida criativa de Orwell já havia beneficiado sua associação com o “Observer” na confecção de textos de “Animal Farm” (“A Revolução Dos Bichos”). Como o chamado para a guerra estava próximo, a interação frutífera de ficção e jornalismo de domingo poderia contribuir para a mais obscura e complexa obra que ele tinha em mente. Nas revisões dos livros do “Observer”, por exemplo, ele era fascinado pela relação entre moralidade e linguagem.
Havia outras influências em seu trabalho. Logo após a adoção de Richard, as economias de Orwell foram completamente destruídas. A atmosfera de terror inconstante na vida diária dos tempos de guerra em Londres tornou-se integral com o sentimento do romance em progresso. O pior estava por vir. Em março de 1945, enquanto estava cumprindo o contrato com o “Observer” na Europa, Orwell recebeu a notícia de que sua esposa, Eileen, havia morrido por causa da anestesia em uma cirurgia corriqueira.
De repente ele ficara viúvo e pai solteiro, ganhando a vida com muita dificuldade nos alojamentos de Islington, e trabalhando incessantemente para esquecer o fluxo de remorso e dor causados pela morte prematura de sua esposa. Em 1945, por exemplo, ele escreveu quase 110.000 palavras para várias publicações, incluindo 15 revisões de livros para o “Observer”.
Então Astor interferiu. Sua família possuía um pedaço de terra em uma remota ilha escocesa chamada Jura, perto de Islay. Havia uma casa, Barnhill, sete milhas de Ardlussa no remoto recanto nórdico cheio de montanhas rochosas em Inner Hebrides (um arquipélago à costa oeste da Escócia). Inicialmente, Astor ofereceu a casa a Orwell por um final de semana.
Em maio de 1946, Orwell, ainda juntando os cacos de sua vida, pegou o trem para a longa e árdua viagem para Jura. Ele disse a seu amigo Arthur Koestler que isso era “quase como pegar um navio lotado para o ártico”.
Era uma mudança arriscada; Orwell não estava bem de saúde. O inverno de 1946/47 foi um dos mais frios do século. O Posto de Saúde britânico estava acabado naqueles tempos de guerra, e ele sempre sofreu de problemas respiratórios. Ao menos, afastado das irritações da Londres literária, ele estava livre para se debruçar sobre o novo romance sem quaisquer impedimentos. “Sufocado pelo jornalismo”, como ele disse a um amigo, “Me tornei mais ou menos como uma laranja chupada”.
Ironicamente, parte das dificuldades de Orwell vieram do sucesso de “Animal Farm”, seu livro. Após anos de negligência e indiferença, o mundo estava despertando para a genialidade dele. “Todos ficam vindo até mim”, ele reclamava para Koestler, “querendo que eu escreva, com comissão para folhetos, querendo que eu aceite isso ou aquilo — você não sabe como desejo me livrar disso tudo e ter tempo para pensar novamente”.
Em Jura ele estaria livre dessas distrações, mas a promessa de liberdade criativa numa ilha em Hebrides veio com um preço a pagar. Anos antes, no artigo “Por que Eu Escrevo”, ele descreveu o esforço necessário para completar um livro: “Escrever um livro é horrível, o esforço é exaustivo, como a crise de alguma doença dolorosa. Uma pessoa jamais se sujeitaria a tal se não for dirigida por algum demônio, o qual não se pode resistir ou compreender. Esse demônio é o mesmo instinto que faz um bebê espernear por atenção”.
Desde a primavera de 1947 até sua morte em 1950, Orwell reorganizou cada aspecto de seu empenho da forma mais dolorosa que se possa imaginar. Particularmente, talvez, ele tenha experimentado a sobreposição entre a teoria e a prática. Ele sempre obteve sucesso na adversidade autoimposta.
Primeiramente, após um “inverno quase intolerável”, ele se satisfez na solitária e selvagem beleza de Jura. “Estou me debatendo com esse livro”, escreveu a seu agente, “que eu possa terminar no final do ano — de qualquer forma eu terei passado pela pior parte até que possa me manter à distância do trabalho jornalístico até o outono”.
Barnhill, acima do mar no alto de uma estrada sem movimento, não era grande, com quatro quartos em cima de uma espaçosa cozinha. A vida era simples, até mesmo primitiva. Não havia eletricidade. Orwell usava aquecedor a gás para cozinhar e aquecer água. As lamparinas queimavam a parafina. À tarde ele queimava turfa. Ele ainda fumava grandes e finos cigarros negros: a fumaça na casa era cômoda, mas nem um pouco saudável. Um rádio à bateria era a única conexão com o mundo externo.
Orwell, um cavalheiro, não apegado às coisas mundanas, chegou apenas com um saco de dormir, uma mesa, um par de cadeiras e alguns potes e panelas. Era uma existência à parte, mas supria todas as condições sob as quais ele gostava de trabalhar. Ele é lembrado aqui como um fantasma no nevoeiro, como uma figura esquelética em uma capa.
Os nativos o conheciam por seu nome verdadeiro, Eric Blair, um homem tristonho, cadavérico e alto que se preocupava em como enfrentar a si mesmo. A solução, quando se juntaram a ele o bebê Richard e sua babá, foi recrutar sua irmã, Avril.
Assim que seu novo regime foi estabelecido, Orwell pôde finalmente traçar um começo para o livro. No final de maio de 1947 ele disse a seu editor, Fred Warburg: “Acho que devo ter escrito um terço do esboço.
Eu não cheguei tão longe, pois fui acometido da ‘saúde desgraçada’ desde Janeiro (meu peito, como sempre) e não pude me livrar disto”.
Preocupado com a impaciência de seu editor com a novela, Orwell acrescentou: “É claro que o esboço é sempre uma bagunça com pouca ligação com o resultado final, mas ao mesmo tempo, é o principal de todo o trabalho”. Mas então, houve um acidente.
Parte do prazer de viver em Jura era que ele e seu jovem filho podiam aproveitar a vida ao ar livre juntos, eles podiam pescar, explorar a ilha, e passear por ai em barcos. Em agosto, durante um fascinante verão, Orwell, Avril, Richard e alguns amigos, enquanto voltavam do alto da costa em um pequeno barco a motor, foram jogados em meio ao famoso redemoinho de Corryvreckan.
Richard Blair lembra quando ficou “com o sangue congelado” nas águas de frio intenso, e Orwell, cuja constante tosse preocupava os amigos, teve os pulmões ainda mais comprometidos. Dentro de dois meses ele ficaria seriamente doente. Tipicamente, sua carta a David Astor dessa escapada difícil foi breve, e até mesmo indiferente.
O grande esforço com “O Último Homem na Europa” continuou. No final de outubro de 1947, molestado pela “saúde desgraçada”, Orwell admitiu que seu romance ainda era “uma bagunça mortal e quase dois terços disso teriam que ser completamente redigitados”.


A casa onde George Orwell escreveu “1984”, na ilha de Jura, em Inner Hebrides, um arquipélago na costa oeste da Escócia

Ele trabalhava a passos largos, inconstantes. Os visitantes de Barnhill se lembram do som de sua máquina de datilografar vindo de seu quarto, na parte de cima da casa. Então, em novembro, cuidado pela zelosa Avril, ele teve uma prostração repentina por causa de uma “inflamação nos pulmões” e disse a Koestler que estava “muito mal, de cama”. Logo antes do Natal, em uma carta a um colega do “Observer”, ele acabou com as notícias de que já havia morrido. Finalmente teve seu diagnóstico de tuberculose.
Alguns dias depois, escrevendo para Astor do hospital Hairmyres, ele admitiu: “Sinto-me muito doente”, e reconheceu que, depois que a doença o pegou após o incidente do redemoinho de Corryvreckan, “como um tolo, eu decidi não ir ao médico — eu queria terminar o livro que estava escrevendo”. Em 1947 não havia cura para tuberculose — os médicos prescreviam ar puro e uma dieta regulada — mas havia uma droga experimental no mercado, a estreptomicina. Astor pediu uma encomenda de Hairmyres, dos EUA.
Richard Blair acredita que seu pai recebeu doses excessivas do novo remédio milagroso. Os efeitos colaterais eram horríveis (úlcera na garganta, bolhas na boca, perda de cabelo, descascamento da pele e desintegração dos dedos e unhas), mas em março de 1948, depois de três meses, os sintomas da tuberculose desapareceram. “É como afundar o barco para se livrar dos ratos, mas vale, se funcionar”.
Enquanto se preparava para deixar o hospital, Orwell recebeu uma carta de seu editor que, atrasado, seria outro prego em seu caixão. “É extremamente importante”, escreveu Warburg para seu autor, “do ponto de vista de sua carreira literária, conseguir isso (o romance) até o final do ano, o mais breve possível”.
Quando deveria estar em repouso, Orwell voltou a Barnhill, e mergulhou na revisão de seu manuscrito, prometendo a Warburg entregar no “começo de dezembro”, em meio ao mau tempo do outono em Jura. No comecinho de outubro ele confidenciou a Astor: “Eu me acostumei tanto a escrever na cama que penso preferir isso, embora, é claro, seja um tanto desajeitado para datilografar aqui. Estou lutando com os últimos estágios desse livro sangrento”.
A digitação da cópia original de “O Último Homem da Europa” se tornou outra dimensão da batalha de Orwell com seu livro. Quando mais ele revisava seu “inacreditavelmente horrível” manuscrito, mais se tornava um documento que apenas ele podia ler e interpretar. Era, como ele disse a seu agente, “extremamente longo, com mais de 125.000 palavras”. Com característica franqueza, ele declarou: “Não estou satisfeito com o livro, mas não estou absolutamente não satisfeito… Acho que ele é uma boa ideia, mas a execução seria melhor se eu não tivesse escrito sob a influência da tuberculose”.
E ele ainda estava indeciso sobre o título: “Estou inclinado a chamar o livro de ‘1984’ ou ‘O Último Homem da Europa’,” e escreveu, “mas provavelmente posso pensar em outro título nas próximas semanas”. No final de outubro, Orwell acreditava que tivesse acabado. Agora ele apenas precisava de um estenógrafo para ajudar a colocar tudo em ordem, de modo que fizesse sentido.
Era uma corrida desesperada contra o tempo. A saúde de Orwell estava se deteriorando, e “inacreditavelmente horrível”, o manuscrito precisava ser redigitado, e o final de dezembro já rondava. Warburg prometeu ajudar, e também o agente de Orwell. Não se entendendo com os digitadores, eles conseguiram deixar a situação ainda pior. Orwell, sentindo a ajuda fora de alcance, resolveu seguir os seus instintos de “ex-garoto-de-escola-pública”: faria sozinho.
No meio de novembro, muito fraco para andar, ele se refugiou na cama com o equipamento para a “horrível tarefa” de digitar o livro em sua “decrépita máquina de datilografia”, sozinho. Sustentado por infinitos inimigos, xícaras de café, chá forte e pelo calor da parafina, com ventos fortes esbofeteando Barnhill, noite e dia, ele continuou. Em 30 de novembro de 1948, estava virtualmente pronto.
As páginas digitadas de George Orwell chegaram a Londres no meio de dezembro, como prometido. Warburg reconheceu sua qualidade imediatamente (“dentre os mais horrorosos livros que já li”) e assim fizeram também muitos de seus colegas. Um memorando interno declarou: “se não conseguirmos vender de 15 a 20 mil cópias, temos que levar um tiro”!
Então Orwell partiu de Jura rumo a um hospital especializado em tuberculose, em Cotswolds. “Eu deveria ter feito isso há dois meses,” disse a Astor, “mas eu queria terminar aquele livro sangrento”. Novamente Astor se dedicou em monitorar o tratamento de seu amigo, mas o especialista responsável por Orwell estava bastante pessimista.
Assim que os comentários sobre o “1984” começaram a circular, os instintos jornalísticos de Astor vieram à tona e ele começou a planejar um perfil do “Observer”, um elogio significativo, mas a ideia foi recebida por Orwell com um “certo alarme”. Assim que a primavera chegou, ele começou a cuspir sangue, e sentia-se “desconfortável na maior parte do tempo”, mas ainda era capaz de envolver-se nos rituais de pré-publicação do romance, registrando “boas notícias” com satisfação. Ele brincava com Astor que não o surpreenderia se ele “tivesse que trocar aquele perfil por um obituário”. “1984” foi publicado em 8 de junho de 1949 (cinco dias depois nos EUA) e foi quase que universalmente reconhecido como uma obra-prima, até mesmo por Winston Churchill, que disse a seu médico ter lido duas vezes. A saúde de Orwell continuava a decair. Nas poucas horas de 21 de janeiro, sofreu uma hemorragia massiva no hospital e morreu sozinho.
As notícias foram transmitidas ao mundo pela BBC, na manhã seguinte. Avril Blair e Richard, ainda em Jura, ouviram a notícia pelo rádio à bateria em Barnhill. Richard Blair não se lembra se o dia estava claro ou frio, mas lembra do choque da notícia: seu pai estava morto, com 46 anos.
David Astor arranjou tudo para o funeral de Orwell nos jardins na igreja de Sutton Courtenay, Oxfordshire. Ele jaz lá agora, como Eric Blair, entre HH Asquith e uma família nativa de Gypsies.
Texto publicado originalmente pelo semanário britânico The Observer e traduzido para a Revista Bula  por Amanda Górski.

Saiba mais sobre o livro 1984, de George Orwell

1984 denunciou as mazelas do totalitarismo e tornou-se um dos mais influentes romances do século 20. De modo profético, George Orwell abordou temas relevantes como a quebra da privacidade

Álvaro Oppermann
"Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam 13 horas." Assim começa um dos romances mais citados do século 20. A frase omite o ano da ação, mas isso seria redundante, pois ele dá nome à obra: 1984. Só a menção ao título desencadeia uma avalanche de associações mentais: comunismo, polícia política, nazifascimo, tortura... O livro ganhou fama por tratar de forma ficcional de uma das grandes mazelas contemporâneas, o totalitarismo.

Escrito pelo jornalista, ensaísta e romancista britânico George Orwell e publicado em 1949, o texto nasceu destinado à polêmica. Foi traduzido em 65 países, virou minissérie, filmes, inspirou quadrinhos, mangás e até uma ópera. Mas - ah!, estava demorando - ganhou renovados holofotes em 1999, quando a produtora holandesa Endemol batizou seu reality show (formato que chegou à TV nos anos 1970), de Big Brother, o mais sinistro personagem, ou melhor, entidade do livro. O pai da ideia, John de Mol, nega de pés juntos a inspiração, mas há outras associações possíveis além do nome do programa. A origem do título 1984 é controversa. Orwell supostamente queria "O Último Homem da Europa", mas seu editor Frederick Warburg insistiu que trocasse por algo mais comercial. O texto foi concluído em 1948 e o nome traz os dois dígitos finais invertidos. Era uma forma de dizer que a distopia descrita não era uma ameaça distante.

No enredo que tem Londres como cenário (na fictícia Oceânia) -, tudo gira em torno do Grande Irmão. "Quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis", o Big Brother é o líder máximo. Assumiu o poder depois de uma guerra de escala global (análoga à Segunda Guerra, porém com mais explosões atômicas), que eliminou as nações e criou três grandes estados transcontinentais totalitários. A Oceânia reúne a ex-Inglaterra, as ex-Américas, ex-Austrália e Nova Zelândia e parte da África. É um mundo sombrio e opressivo. Cartazes espalhados pelas ruas mostram a figura bisonha da autoridade suprema e o slogan: "O Grande Irmão está de olho em você". E está mesmo, literalmente, graças às "teletelas". Espalhadas nos lugares públicos e nos recantos mais íntimos dos lares, elas são uma espécie de televisor capaz de monitorar, gravar e espionar a população, como um espelho duplo. A intimidade era tão devassada ali quanto na casa do Projac que sediou a última edição do Big Brother Brasil.

O protagonista é Winston Smith. Funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, um dos quatro ministérios que governam Oceânia, sua função é falsificar registros históricos, a fim de moldar o passado à luz dos interesses do presente tirânico (prática, aliás, comum na União Soviética). A opressão era física e mental. A Polícia das Ideias atuava como uma ferrenha patrulha do pensamento. Relações amorosas estavam entre as muitas proibições. Nesse cenário de submissão onde não há mais leis, mas sim inúmeras regras determinadas pelo Partido, ninguém nunca viu o Grande Irmão em pessoa. Uma sacada genial do autor: o tirano mais amedrontador é também aquele mais abstrato. Winston detesta o sistema, porém evita desafiá-lo além das páginas de seu diário. Isso muda quando se apaixona por Júlia, funcionária do Departamento de Ficção. O sentimento transgressor o faz acreditar que uma rebelião é possível. Mas combater o regime não é nada fácil. Enredada numa trama política, a "reeducação" dos amantes será brutal.

Raros escritores tiveram o privilégio de virar adjetivo. George Orwell (um pseudônimo) foi um deles. Seu nome de batismo, na Igreja Anglicana, é Eric Arthur Blair. Se Marcel Proust deu origem a "proustiano", por causa das ricas descrições memorialistas, o termo "orwelliano" virou sinônimo dos vívidos e sinistros porões do totalitarismo. Não que, como romancista, ele seja comparável a James Joyce, Franz Kafka ou Proust. Os críticos costumam ser mais positivos sobre seus ensaios. Ainda assim não são unânimes. O grande legado de Orwell é mesmo sua lucidez política.

Nascido na Índia, em 1903, filho de um funcionário colonial inglês, ele nunca levou vida fácil. Cursou uma escola da elite (Eton). Em vez de seguir o caminho seguro (matricular-se numa universidade chique como Oxford), entrou para a Polícia Imperial da Índia. Lá conheceu de perto a truculência do Império Britânico no esforço de controlar os nativos. Orwell tinha tudo para ser promovido, mas, escandalizado, largou a farda e foi levar uma vida boêmia em Paris e Londres. Nessa época, beirou a mendicância. Em 1936, viajou para a Espanha para lutar contra o franquismo, na Guerra Civil. Foi ferido no pescoço e dali em diante só conseguiria falar em tom baixo. Dizia ser um socialista democrático. Já um amigo, o escritor Malcolm Muggeridge, o definiu como "um sujeito que é fácil de a gente amar, mas difícil de ter por perto". Uma de suas marcas pessoais era um rígido senso de justiça e de busca da verdade. Alguns o admiravam por isso. Outros o viam como um grande chato. O certo é que essa característica o ajudou a se desencantar das utopias políticas, inclusive a soviética, impiedosamente atacada também em A Revolução dos Bichos (1945). "A aceitação de qualquer disciplina política parece ser incompatível com a integridade literária", afirmou, inconformado com a subserviência dos intelectuais aos regimes de direita ou de esquerda.

Poucos descreveram tão bem a tortura política. Nas páginas de 1984, O’Brien, um figurão do Partido, usa um método especialmente cruel: o flagelo com ratos. "Eles saltarão sobre seu rosto e começarão a devorá-lo. Às vezes atacam primeiro os olhos. Às vezes abrem caminho pelas bochechas e devoram a língua", diz a Winston.
Dedo-duro

Num episódio controverso, Orwell entregou ao serviço secreto britânico, em 1949, uma lista de 130 simpatizantes do comunismo, entre eles J.B. Priestley e Charles Chaplin. O autor foi procurado quando estava hospitalizado, tratando-se de uma tuberculose. Ele morreu no ano seguinte.

A obra do escritor é profética também sobre a questão da quebra de privacidade. O avanço tecnológico permite um amplo monitoramento (dos satélites às microcâmeras). Em Nova York, a ONG New York Civil Liberties Union protesta hoje contra a existência de 40,76 câmeras instaladas por quilômetro quadrado em Manhattan. Uma coisa, porém, Orwell não pôde antever: o gosto atual pelo exibicionismo/voyeurismo (o que vale tanto para a moçada do Big Brother quanto para certos usuários do Youtube, Facebook e afins). "As pessoas agora detestam acima de tudo o anonimato. Explorar o privado virou uma forma de participação pública", diz a especialista em comunicação Cosette Castro, da Universidade Pública de Barcelona. "Na obra de Orwell, é o governo que observa tudo através de câmeras - ele fala de autoritarismo e não de voyeurismo, como é nosso caso", disse John de Mol, criador do Big Brother, numa entrevista à revista VEJA. Mas Orwell faz questão de frisar que existe um nexo indissolúvel entre voyeurismo e totalitarismo. No livro, é evidente o prazer de O’Brien em imiscuir-se na vida dos outros. Em As Sombras do Amanhã, de 1945, o historiador Johann Huizinga demonstrou que uma das chaves para o sucesso dos regimes autoritários é estimular a bisbilhotice alheia. Todo mundo gosta de um pouco de fofoca e muitos ditadores já usaram isso a seu favor, para coletar informações sobre os cidadãos.

"Temos curiosidade de saber como o outro dorme, come, toma banho. O Big Brother propicia uma resposta a esse anseio", diz Cosette. O fenômeno do reality show, que talvez tivesse escandalizado o escritor, é mundial. No Brasil, faz sucesso há dez anos. "O reality show é um laboratório do qual a audiência também faz parte", afirma Cosette Castro, referindo-se ao poder dos telespectadores de decidir o destino dos participantes dos programas. O Big Brother da ficção foi superado pelo Grande Irmão da realidade.

Teletelas

"Viveremos uma era em que a liberdade de pensamento será de início um pecado mortal e mais tarde uma abstração sem sentido", disse Orwell. As teletelas do livro são ferramentas de controle. Estão em todo canto. Transmitem mensagens e monitoram ao mesmo tempo.

Novafala

No mundo de 1984, a língua ganha novos termos, e palavras antigas, novas acepções. A semântica é distorcida para criar um estado de torpor e confusão. Isso está expresso no lema do Partido único: "Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força".

Grande Irmão
Ditador e líder do Partido. É dever da população amá-lo, embora nunca tenha sido visto em pessoa. Foi inspirado em Josef Stalin e representa o perigo do totalitarismo, junto com a teletela. Nas ruas, cartazes mostram seu rosto e dizem "O Grande Irmão está de olho em você".

OBSERVAÇÃO:
O Grande Irmão, hoje, é a INTERNET controlada pelos Estados Unidos da América, que está de olho em todos nós.




O PRÓPRIO GETULIO VARGAS SE RETIROU ETERNAMENTE



Vargas não sofreu impeachment

Manoel Hygino 



Os fatos políticos recentes nos fazem retroceder no tempo, alcançando 1954, quando a crise política brasileira de então chegara ao ápice. Na época do atentado a Carlos Lacerda, na rua Tonelero, em Copacabana, Josué Montello admitiu que o cerco estava a fechar-se em torno de Vargas, comparado pelo escritor a um “herói shakespeariano, à porta de um desfecho brutal, como nas tragédias”.
Elmano Cardim, historiador, comentou por telefone com Café Filho, vice-presidente da República: “A situação política está se deteriorando rapidamente. E eu temo que o desfecho da crise seja ruim para o Getúlio”. “Em todo o caso, Café Filho vai ter uma conversa com Vargas. Estamos na linha do imprevisível. Tudo pode acontecer. Ou nada pode acontecer”, observou Cardim.
Procuravam-se culpados e Montello tentou apontá-los: “A crise, na verdade, tem uma origem: a da luta contra o poder emergente de Samuel Wainer, diretor de Última Hora, pessoa ligada a Vargas, e a do atentado da rua Tonelero, em que morreu um major da Aeronáutica. Tudo o mais se insere nessas vertentes, inclusive a desmandos da guarda pessoal de Vargas, com destaque para a pessoa de seu chefe, Gregório Fortunato”.
Naquele instante, a situação parecia ter chegado ao clímax. As paixões chegavam ao nível do forno de Volta Redonda, aceso nas 24 horas do dia. Se não houvesse bom senso, a combustão incendiaria o país. Pretendia-se levar Getúlio ao IPM–Inquérito Policial Militar, aberto no Galeão. Café Filho propôs: que o presidente, Getúlio, e ele o vice, renunciassem simultaneamente a seus cargos, para escolha de um novo presidente em 30 dias.
Começou-se uma campanha em rádio, televisão e jornais exigindo a renúncia. Pensou-se no impeachment, mas foi imediatamente desconsiderado porque a Constituição exigia um quorum que a oposição não conseguiria de maneira alguma. O clima no Congresso Nacional era quase de morte. Um discurso inflamado de Afonso Arinos fazia acusações graves ao presidente. Gustavo Capenama subiu à tribuna para defender Vargas e sofreu uma crise de nervos.
Lacerda, ferido no pé em Tonelero, mantinha-se aceso e escreveu: ”Ninguém ousava, nem os maiores amigos de Getúlio ousavam, subir à tribuna para defendê-lo. O máximo que faziam era calar, ou falar para fora do plenário. Mas mesmo assim, o que não havia era quorum para o impeachment”.
Sem Getúlio admitir a dupla denúncia, sem condições legais para o impedimento, ameaçado por quase todos os lados, ainda que contando com enorme apoio popular, o pai dos pobres – como apelidado – apelou para o sacrifício maior.
Montello meditou: “Mais do que uma figura política, Vargas é uma figura histórica para minha geração. Todo um largo período de vida brasileira o envolve, e é ele quem domina a cena, ainda moço, na Revolução de 1930, para continuar a dominá-la ainda agora, já velho, no derradeiro lance de sua biografia”.
O tempo se encarregou de responder à pergunta: “Qual será a reação do povo, com esta tragédia? Eu próprio, longe da política, me sinto atingido e arrasado. E a verdade é que Vargas, abatido, humilhado, vencido, repentinamente desbaratou todos os seus adversários com o tiro que deu em si mesmo”.

NÃO IMPORTA A COR DO GATO DESDE QUE ELE PEGUE O RATO



QUATRO VELHOS

Moysés Peruhype Carlech 





A China para se desenvolver, a partir de 1978, resolveu abolir os QUATRO VELHOS,  problemas que travavam o seu desenvolvimento: VELHAS IDEIAS, VELHOS COSTUMES, VELHOS HÁBITOS E VELHA CULTURA.
O que vemos, hoje, graças ao apoio maciço da população chinesa e pulso firme do governo, uma china desenvolvida econômica e cultural sendo uma das maiores potencias mundiais.
O Brasil, pode atingir esse nível de desenvolvimento, alias, deveria ter atingido, muito antes da china, se não fosse as nossas políticas equivocadas e mal conduzidas pelos nossos governantes.
Podemos recuperar o tempo perdido, ainda há tempo, desde que adotemos uma NOVA POLÍTICA ECONÔMICA E CULTURAL, nos moldes da china, para isso, devemos abolir os nossos QUATRO VELHOS problemas:
VELHA CORRUPÇÃO, VELHOS POLÍTICOS, VELHAS IDEIAS E VELHOS COSTUMES

FESTIVAL DE CANNES



Cannes recebe 'Juste la Fin du Monde'

Luiz Carlos Merten 



Nos últimos dias do 69.º Festival de Cannes, que se encerra domingo, 22, com a atribuição da Palma de Ouro, os filmes concorrentes se atropelam. Você sai de um Xavier Dolan para um Cristian Mungiu e um Nicolas Winding Refn. Assiste a coisas boas, mas também se pergunta o que certos filmes fazem num festival como Cannes. O diretor dinamarquês participou do restauro de O Planeta dos Vampiros, de Mario Bava, em Cannes Classics. Ao apresentar o terror futurista de Bava, Winding Refn respondeu à pergunta básica. Por que trazer o Bava a Cannes? Porque o festival precisa ver bons filmes, de vez em quando. Deixou subentendido - aguardem! - que o dele seria da mesma estirpe.

The Neon Demon é super-hiper estilizado. Uma garota desembarca em Los Angeles e rapidamente começa a ser disputada por fotógrafos e estilistas. Elle Fanning é ‘natural’, todas as demais modelos foram corrigidas ou aprimoradas pela cirurgia plástica. Ela provoca desejo - e ódio. Winding Refn pode estar flertando com thrillers italianos dos anos 1960, de diretores trash que viraram cults, mas seu filme imita, sem chegar lá, David Lynch. A garota desenvolve um ego gigantesco. Acha que é indestrutível, um perigo para os outros e outras. Como em Lynch, torna-se uma aberração aos olhos de seus (e suas) semelhantes. E precisa ser destruída. Algumas observações poderiam ser interessantes - sobre a beleza natural -, mas o filme não convence. Recebeu uma torrente de vaias.

Juste la Fin du Monde é o sexto filme de Dolan, e o sexto em Cannes. Todos passaram em diferentes sessões do festival. Foram premiados. Em 2014, Mommy dividiu o prêmio especial do júri com Jean-Luc Godard, Adeus à Linguagem. Juste la Fin du Monde baseia-se numa peça autobiográfica de Jean-Luc Lagarce. O autor (gay) volta para casa para anunciar que está morrendo - e Lagarce morreu de aids, nos anos 1990. A mãe, a irmã, o irmão, a cunhada. Filmando em primeiros planos, como se quisesse devassar a alma de seus personagens, Dolan mostra o que as palavras não exprimem, o que não pode ser dito. O filme é esplendidamente realizado e interpretado.

Gaspard Ulliel faz o filho pródigo e o restante do elenco é de sonho. Natalie Baye, Marion Cotillard, Léa Seydoux, Vincent Cassel. A trilha é de Gabriel Yared. Mais uma lição de cinema do jovem diretor canadense de 27 anos (nasceu em 1989). Será que por que ele é jovem, bonito, talentoso - e chique? Defender Dolan virou uma plataforma de cinéfilos. Há, sim, preconceito contra ele.

A dois dias da premiação, só se pensa aqui em quem vai levar a Palma. Ainda faltam filmes importantes, incluindo Elle, de Paul Verhoeven, com Isabelle Huppert. Aquarius, o representante brasileiro, vai levar alguma coisa? O quê? E, claro, tivemos os romenos. O primeiro, Sierra Nevada, de Cristi Puiu, havia sido muito bom - e poderia ser candidato, com Dolan, ao prêmio de mise-en-scène. O segundo chegou ontem, quinta, 19. Cristian Mungiu já ganhou a Palma com Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias. Ele volta com Baccalauréat, coproduzido pelos irmãos Dardenne, que concorrem de novo a mais uma Palma (a terceira?) por La Fille Inconnue, A Garota Desconhecida. Ninguém, seriamente, acredita numa nova Palma dos Dardennes. Já Mungiu...

O filme dele investe no social sem negligenciar a dramaturgia nem o desenho dos personagens. Um médico e sua mulher. Preparam a filha para os exames finais e desses resultados depende a ida dela para a Inglaterra. É o sonho dos pais, ou do pai, mais que da filha. Na véspera da prova, ela sofre uma tentativa de violação, e desmorona. Embora seja crítico da corrupção na Romênia, papai percorre a cadeia de influências para garantir que a filhota seja aprovada. O responsável pelos exames está sendo investigado. Seu telefone está grampeado. Lava Jato romena, as pequenas questões éticas do cotidiano. A rigor, Baccalauréat talvez não seja grande quanto os filmes anteriores de Mungiu - como Beyond the Hills, premiado em 2012. Mas é muito bom.

Cannes foi a vitrine do novo cinema romeno. Dois filmes na competição não representam pouca coisa. Dois filmes premiáveis, então, são a prova de que a crise da Romênia (corrupção, violência, desemprego) pode ser uma tragédia, mas rende ótimos filmes.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


NÃO DEMORA MUITO UM LABORATÓRIO AMERICANO LANÇARÁ ESSE MESMO REMÉDIO E TODA A COMUNIDADE MÉDICA O ACEITARÁ



Associações e especialistas elogiam decisão de suspender fosfoetanolamina

Fabiana Cambricoli e Fábio de Castro 




Para o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Florentino Cardoso, a decisão do Supremo de suspender a lei que liberou 'pílula do câncer' resgata a credibilidade que o País tinha na comunidade científica internacional. "Recebemos várias manifestações de que o Brasil não era um país sério. Essa mácula está sendo corrigida. A decisão resgata esse prestígio na comunidade médica internacional", disse.

Segundo Cardoso, é dever da classe médica recomendar aos pacientes somente tratamentos com eficácia e segurança comprovadas. "Nossa conduta deve ser pautada no conhecimento técnico e forte evidência científica. O que defendemos é que essa substância siga todo o trâmite necessário da agência reguladora", opinou.

O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Carlos Vital, também elogiou a suspensão. "O CFM não recomenda a incorporação da fosfoetanolamina no arsenal terapêutico antineoplásico até o seu reconhecimento científico", disse a entidade, em nota oficial.

Professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP e especialista na descoberta de novos fármacos, Glaucius Oliva destacou que a liberação da fosfoetanolamina abria precedentes perigosos. "Mais preocupante que os riscos potenciais dessa substância - que desconhecemos - foi o desenrolar desse episódio, que colocou em risco todo um sistema de segurança farmacológica com base em evidências científicas, que foi construído ao longo de décadas", disse o ex-presidente do CNPq.

Atual presidente do Instituto Oncoguia, ONG que dá suporte a pacientes com câncer, Luciana Holtz afirma que a decisão dos ministros foi "uma medida bastante ponderada diante de uma substância ainda tão cheia de dúvidas". "Precisamos de mais respostas e de segurança. Os estudos clínicos vão começar e temos de aguardar os resultados."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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