sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

GM ACREDITA QUE AINDA VALE A PENA INVESTIR NO BRASIL

 

'Acredito que ainda vale a pena investir no Brasil', diz presidente da GM

Para Carlos Zarlenga, tamanho do mercado brasileiro ainda é uma justificativa para novos investimentos no setor, mesmo com a pandemia da covid-19

Entrevista com

Carlos Zarlenga, presidente da General Motors América do Sul

 

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

 

 

Na semana em que um dos assuntos mais comentados foi o fim da produção de carros da Ford no Brasil e o risco de outras empresas tomarem o mesmo rumo, o presidente da General Motors América do Sul, Carlos Zarlenga, que há dois anos também ameaçou fechar operações, afirma que o tamanho do mercado brasileiro ainda é atrativo para investimentos no setor. “Acredito que ainda vale a pena investir no Brasil”, diz. A GM retomou, no início do mês, o plano de aplicar R$ 10 bilhões ao longo de cinco anos anunciado em 2019 e que estava suspenso desde março, no início da pandemia da covid-19.

Crítico do sistema tributário, que encarece o produto nacional e as exportações, o executivo ressalta que reformas precisam continuar, especialmente a tributária. Com cinco fábricas e líder de vendas no País, o grupo mudou sua estratégia de precificação em plena crise e vendas em queda acentuada, ação também adotada por outras montadoras. “Aumentamos os preços acompanhando a desvalorização do real, algo que não fazíamos há muito tempo”, diz. “Acho que é uma forma de voltar à rentabilidade.” Abaixo, trechos da entrevista.

 


GM repassou alta do dólar a preços, diz Zarlenga. Foto: Taba Benedicto/Estadão

 

Como o sr. viu o anúncio da Ford de fechar suas fábricas?

Não vou comentar sobre um concorrente num momento de decisões tão difíceis.

Diante das discussões que ocorreram, algumas colocando em dúvida a capacidade de o Brasil atrair investimentos, o sr. acredita que o País tem futuro como fabricante de automóveis?

O País terá este ano uma indústria de 2,5 milhões a 2,8 milhões de carros, alta de 25% ou mais em relação ao ano passado, embora não seja uma boa referência por ter sido um ano de muita queda. É uma recuperação que ainda não nos leva aos números de 2019, mas é forte e tem grande oportunidade de continuar nos próximos anos. Então, acredito que ainda vale a pena investir no Brasil. Custo Brasil, burocracias e carga tributária são empecilhos? São problemas de longa data e temos de trabalhar para mudar esse quadro.

Também voltou-se a falar que o setor depende de subsídios.

Quando falam que a indústria se acostumou com subsídios, eu digo: 45% a 50% de imposto sobre o preço do carro, enquanto nos EUA é 12%, de que subsídio estão falando? O que tem é uma tentativa de chegar a algo um pouco mais perto de ser razoável, mas nem assim, pois o Brasil tem tarifas duas a três vezes maiores que a média de outros países. Dizer que a indústria depende de incentivos e que não melhorou sua produtividade é uma falta de informação. A pressão tributária é asfixiante. Então, a adequação da política fiscal, do tamanho do Estado e a reforma tributária são fundamentais. O próprio governo fala da importância de se trabalhar uma agenda de competitividade para toda a indústria e entendo que isso vai ocorrer, inclusive para as exportações. Em nenhum outro país a exportação é taxada. O Brasil carrega de 15% a 18% de imposto em cada carro exportado, o que impede nossa competição lá fora.

Em 2019, o sr. chegou a falar em suspender investimentos, o que resultaria em fechamento de plantas. Ainda é preciso alguma medida desse tipo?

Lá atrás, se não fizéssemos investimentos, não haveria renovação de produtos e haveria esse risco. Mas conseguimos fazer acordos e anunciamos investimentos que já começamos a aplicar, como na produção da nova Tracker. O cenário de investimentos que precisávamos está aprovado. Não temos planos agora de fechar plantas nem no Brasil nem na América do Sul. A fábrica de Gravataí é a mais eficiente do mundo para o segmento de carros pequenos e médios. Fizemos a lição de casa em produtividade, redução de custos e eficiência.

A empresa retomou neste mês o plano de aporte de R$ 10 bilhões até 2024, que estava suspenso desde março. Há mudanças em relação ao projeto inicial?

Paramos no início da pandemia porque não sabíamos qual seria o impacto da queda nas vendas no nosso caixa. Agora, o mercado voltou a operar em níveis razoáveis e decidimos retomar o investimento, principalmente em novos produtos. A única mudança é que vai atrasar um ano e vai até 2025.

Como foi 2020 para a GM?

Adotamos uma estratégia que pode nos ajudar a voltar à rentabilidade. Retomamos a política de preços baseada na planilha de custos. Aumentamos preços num patamar que não ocorria há muito tempo, acompanhando a desvalorização do real. A indústria parou de pensar em ganhar participação de mercado sacrificando margens e assim há mais chances de ser rentável.

Por que no passado os custos cambiais não eram repassados?

Historicamente, não havia repasses por desvalorização do real. Em 2018 e 2019, chegamos a ter produto que era melhor não vender, pois o custo de material era mais alto que o de venda. Agora, vamos operar num ambiente em que o preço será definido de forma racional, pois uma política predatória não funciona para ninguém. Antes, ficávamos perguntando se a desvalorização seria por longo ou curto prazo e ninguém repassava toda a perda, mas as desvalorizações anteriores não foram tão fortes. Em 2020, foi realmente complicado. Teve momento em que o dólar chegou perto de R$ 6 – em 2019, estava em R$ 3,90. No ano, a desvalorização foi de 30% e o aumento médio para nossos carros foi de 13%.

Esse repasse é suficiente para recuperar ganhos?

Há um universo de problemas que se mantêm, como o custo Brasil e a pressão tributária que já comentei. Se não fosse isso, os volumes de produção e vendas seriam bem melhores.

A empresa abrirá mão de produtos mais baratos para ter rentabilidade com carros mais caros?

Não serão só produtos de maior valor. Se o real desvalorizar ainda mais e (o dólar) for a R$ 8, vou repassar para o preço do Onix (o mais barato da marca). É uma variável que não controlo. Se desvaloriza, tenho de repassar. Do contrário, minha operação não é sustentável.

É possível saber se os reajustes afastaram compradores?

Não dá para saber qual foi o impacto dos aumentos e o da covid na queda das vendas, mas nossa participação de mercado se manteve bem. No quarto trimestre, as vendas já ficaram perto do que foi em 2019, mesmo com preços bem mais altos. Bons produtos no Brasil funcionam. A Tracker, por exemplo, era 11.º no ranking de vendas no segmento de SUVs e passou a ser a número um. O cliente recompensa quando se lança carros que ele quer.

A GM pretende focar a produção em modelos de maior rentabilidade, os mais caros, como outras montadoras estão fazendo?

A GM sempre está focada nos segmentos de maior rentabilidade. A Tracker tem fila de espera porque tem mais demanda do que capacidade de produção. O Onix, carro mais vendido do Brasil, tem benefício de escala. Estamos concentrando investimento nos segmentos que achamos que vão crescer mais e ter maior retorno.

O sr. vê a recente parceria entre a Foxconn e Geely como modelo para o futuro do setor?

O futuro está na mudança tecnológica, na eletrificação, no carro autônomo e até na mobilidade aérea. Nesta semana, a GM mostrou na CES (Consumer Eletronics Show), nos EUA, um protótipo de carro voador. A GM vai investir US$ 27 bilhões e lançará 30 modelos globalmente até o fim de 2025. As parcerias são interessantes.

O Brasil está sendo preparado para a mudança tecnológica?

Aqui vai demorar mais para chegar essas tecnologias, mas, como sempre, acabam chegando, às vezes, mais rápido do que se espera. O ciclo de tecnologia ocorre de forma e prazo diferentes em cada país.

 

COM POUCA VERBA GOVERNO DÁ PRIORIDADE PARA COMPRA DE ARMAMENTOS

 

Sem obras para o crescimento

Governo tem pouca verba para investir e parte deverá ser gasta com armamento

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

 


Estradas continuarão a esboroar-se em 2021, se a infraestrutura, já muito comprometida, depender de dinheiro federal para se recompor e, numa hipótese quase fantasiosa, voltar a se expandir e a se modernizar. A verba para obras e outros investimentos, estimada inicialmente em R$ 28,6 bilhões, ainda poderá encolher, por causa da expansão de gastos obrigatórios. Em 15 anos esse foi o menor valor previsto para a formação de capital fixo para uso público. Mais do que nunca, o Brasil depende do capital privado para projetos indispensáveis ao funcionamento do País – como rodovias, ferrovias, portos, estruturas de geração e distribuição de energia e sistemas de água e saneamento.

Investimentos em máquinas, equipamentos, instalações, habitação e obras de infraestrutura fortalecem a economia de duas formas. O efeito imediato ocorre pela mobilização de mão de obra, muito importante para o aumento do consumo, e pela demanda de equipamentos, como tratores e guindastes, e de materiais, como cimento, combustíveis, metais, vidros, plásticos e cerâmicas. O efeito mais duradouro ocorre pela expansão da capacidade produtiva e da eficiência geral. Com maior potencial, o País pode crescer mais velozmente, por vários anos, sem pressões inflacionárias e com menor risco de gargalos nas contas externas.

O baixo ritmo da economia brasileira, nos últimos dez anos, é em grande parte explicável pelo baixo investimento e pela baixa eficiência do capital aplicado pelo governo, com muito dinheiro desperdiçado em obras mal projetadas, mal fiscalizadas, superfaturadas e com frequência inacabadas. Além de investir mais que a administração pública, o setor privado tende a usar o dinheiro com eficiência muito maior, exceto, talvez, no caso de setores empresariais superprotegidos e favorecidos com grandes benefícios fiscais.

Mesmo com o esforço maior do setor privado, o valor total investido anualmente vem-se mantendo, em média, nos últimos 20 anos, na faixa de 17% a 18% do Produto Interno Bruto (PIB). Em outros países emergentes, incluídos vários latino-americanos, a razão investimento/PIB tem sido bem maior. Taxas iguais ou superiores a 24% do PIB foram encontradas com frequência, antes da pandemia, e indicadores ainda maiores têm sido observados nas economias mais dinâmicas da Ásia.

No Brasil, o custo do capital, a tributação disfuncional e a instabilidade de regras têm sido, tradicionalmente, importantes obstáculos ao investimento privado. Com a redução dos juros básicos, iniciada no fim de 2016, o capital ficou menos caro e pelo menos esse entrave foi reduzido. Outros fatores, no entanto, mantiveram a economia em marcha lenta a partir de 2014. O baixo ritmo de expansão e de modernização da indústria manufatureira foi uma das características desse período. O agronegócio, no entanto, continuou a investir, a modernizar-se e a ampliar sua presença no mercado internacional. Poucos segmentos da indústria – e o aeronáutico talvez seja o melhor exemplo – exibiram esforço semelhante de modernização e de busca de eficiência.

O setor público permaneceu amarrado e isso se agravou nos últimos dois anos. O Orçamento-Geral da União continua engessado, com despesas obrigatórias consumindo mais de 90% das verbas. Neste ano essa restrição deve aumentar. O aumento dos gastos com aposentadorias e outros benefícios previdenciários vai tornar mais comprimida a parcela de recursos para obras e outros gastos “discricionários”. O mais novo problema apontado pelos técnicos do governo é o aumento do salário mínimo. O reajuste para R$ 1.100, pouco maior que o previsto anteriormente, deve consumir R$ 11,6 bilhões a mais do que se previa na proposta orçamentária.

Além de escassa, a verba para investimento ainda estará parcialmente comprometida com gastos militares. Novos tanques e outros armamentos estão entre as prioridades, segundo orientação do presidente Jair Bolsonaro. Reformas e boa gestão poderão superar outros problemas. O problema Bolsonaro é mais complicado e muito mais grave.


VACINAÇÃO COMEÇA NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA

 

O penoso caminho da vacina

Enfim, o governo federal parece dar-se conta de que, para superar a pandemia do novo coronavírus, não há elixir mágico e é preciso vacinar a população.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

 

 


Enfim, o governo federal parece dar-se conta de que, para superar a pandemia do novo coronavírus, não há elixir mágico e é preciso vacinar a população. Segundo o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, a vacinação contra a covid-19 deverá começar na próxima quarta-feira, dia 20.

Talvez esse longo e tortuoso processo para o início da vacinação tivesse sido um pouco mais breve e retilíneo – gerando menos apreensão na população –, se o presidente Jair Bolsonaro e o intendente Eduardo Pazuello tivessem assimilado uma das habilidades previstas para o 7.º ano do Ensino Fundamental na Base Nacional Comum Curricular. Trata-se de documento de caráter normativo que define as aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica.

A décima habilidade prevista na área de ciências para alunos do 7.º ano (12 anos) é “argumentar sobre a importância da vacinação para a saúde pública, com base em informações sobre a maneira como a vacina atua no organismo e o papel histórico da vacinação para a manutenção da saúde individual e coletiva e para a erradicação de doenças”. A Base Nacional Comum Curricular, na parte referente ao Ensino Fundamental, foi aprovada em 2017.

De fato, parece que Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello tiveram dificuldades com a habilidade prevista para a garotada de 12 anos. Ao longo dos últimos meses, por exemplo, trabalharam como se não soubessem que a vacinação contra a covid-19 exige seringa e agulha. Agora, no entanto, parecem ter finalmente captado que a população quer a vacina. E desejam transformá-la em um grande palanque eleitoral.

Antes mesmo de ser divulgada a data de início da vacinação, o Ministério da Saúde informou que haverá na próxima terça-feira, dia 19, um evento no Palácio do Planalto para festejar a vacina. Não sabe se haverá seringa e agulha para todos – sete Estados não têm estoque suficiente de seringas e agulhas para vacinação contra a covid-19 –, mas o Ministério da Saúde já definiu qual será o slogan da cerimônia: “Brasil imunizado, somos uma só nação”.

Depois de tantas dificuldades colocadas pelo governo de Jair Bolsonaro para a vacinação contra a covid-19, a ideia de realizar um evento festivo-eleitoral no Palácio do Planalto soa a escárnio contra a população. Não há notícia de algum governo no mundo que tenha tido o descaramento de começar a vacinação contra a covid-19 com um evento em sua sede oficial. Em geral, como o bom senso e a saúde pública recomendam, os esforços estão voltados para vacinar os grupos prioritários. O evento do dia 19 é mais um sintoma das enormes dificuldades de Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello para “argumentar a importância da vacinação para a saúde pública”.

A corroborar que o Palácio do Planalto vê a vacina como questão político-eleitoral, o governo federal informou que proibirá a aquisição de vacinas por empresas para imunização de funcionários. A notícia foi dada no dia 13 por representantes dos Ministérios da Saúde, das Comunicações e da Casa Civil a empresários, em reunião organizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A vacinação contra a covid-19 promovida por empresas para seus funcionários pode reduzir os gastos públicos e agilizar o processo de imunização da população, além de favorecer o retorno à normalidade da atividade econômica, com consequências positivas sobre o emprego e o ambiente de negócios. Fornecer ou não vacina para funcionários é uma decisão unicamente empresarial na qual governo algum deveria se meter. No entanto, o liberal governo de Jair Bolsonaro prefere declarar que a vacinação contra a covid-19 é monopólio estatal.

É impressionante a capacidade do governo de Jair Bolsonaro de transformar até mesmo aquilo que seria uma boa notícia – a disponibilidade de vacinas contra a covid-19 para a população –, num grande imbróglio. O penoso quadro revela a importância de cuidar da educação de todas as crianças, para que todas elas, sem exceção, desenvolvam as habilidades previstas na idade correspondente. Com isso serão evitados muitos problemas no futuro.

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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