Bolsonaro decide demitir
presidente do BB por fechamento de agências; Guedes tenta reverter decisão
Na última segunda, André Brandão anunciou plano de
reestruturação que vai fechar 112 agências e demitir 5 mil funcionários; com
possível saída, ações do banco caíram 4,7% na Bolsa brasileira
Adriana Fernandes e Tânia Monteiro, O Estado de
S.Paulo
BRASÍLIA - A proposta do Banco do Brasil de fechar 112 agências e desligar 5 mil
funcionários abriu uma crise no governo e deve levar à
demissão do presidente do banco, André Brandão, menos de quatro meses após sua posse.
O Estadão apurou que o presidente Jair Bolsonaro decidiu
demiti-lo pelo desgaste provocado com o anúncio, mas o ministro da Economia, Paulo Guedes,
ainda tenta demovê-lo da ideia.
Embora a reestruturação do banco tenha agradado
investidores e tenha sido considerada positiva pela equipe econômica para um
reposicionamento do banco com enfoque no digital, o anúncio foi considerado
inoportuno neste momento em que o Palácio do Planalto negocia apoio para os comandos da Câmara e do Senado.
André Brandão, atual presidente do Banco do Brasil.
Foto: Dida Sampaio/Estadão
Em campanha por Arthur Lira,
Bolsonaro recebeu em um só dia oito deputados e ouviu reclamações sobre o
fechamento de agências do BB em cidades menores. O presidente argumentou que
não foi avisado antes do plano de reestruturação, embora Brandão tenha sido
contratado exatamente com a missão de enxugar o banco.
No ano passado, em um evento, o presidente já tinha
sido cobrado por um manifestante para reabrir uma agência. Em 2019,
Bolsonaro chegou a admitir que pediu ao Banco do Brasil que abrisse uma
agência num município do Maranhão que
o elegeu. Agora, o anúncio do fechamento de mais de uma centena delas, em meio
à pandemia do novo coronavírus, foi considerado um desgaste político
inoportuno.
Com os rumores sobre a demissão de Brandão, as
ações do Banco do Brasil na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fecharam com
queda de 4,71% nesta quarta.
A saída de Brandão seria mais um desgaste para
Guedes, já que o enxugamento do banco é uma orientação da equipe
econômica. Próximo do presidente da Caixa Econômica, Pedro Guimarães,
o presidente Bolsonaro sempre tem feito comparações na atuação entre os dois
bancos. Guedes já perdeu vários integrantes da sua equipe em choque com as
determinações do presidente. Foi assim com os secretários Salim Mattar,
por causa do fracasso da agenda de privatizações, Paulo Uebel,
pelo atraso no envio da reforma administrativa, e Marcos Cintra,
pela resistência à recriação da CPMF.
Antes do BB, Brandão atuava como chefe global
da instituição para as Américas do HSBC.
Foi escolhido por Guedes para fazer a transformação no banco e não estaria
disposto também a retroceder nesses planos.
Desde o início do governo, Bolsonaro tem se
mostrado sensível às críticas de parlamentares e prefeitos
sobre fechamento de agências do BB e da Caixa. A pressão aumentou com o
anúncio do BB, que foi visto também pelos políticos como a abertura de caminho
para privatização do banco. A Frente Parlamentar em Defesa dos
Bancos Públicos está programando convocar o presidente do BB para ir
ao Congresso explicar o plano de reestruturação.
Eventual demissão de André
Brandão expõe ingerência política no Banco do Brasil, dizem analistas
Especialistas do mercado financeiro afirmam que, se
confirmada a demissão, episódio vai contra o discurso de diminuição da máquina
pública e gestão técnica das estatais que ajudou a eleger Bolsonaro
Renato Carvalho e Luísa Laval, O Estado de S.Paulo
Os analistas do mercado financeiro são unânimes ao
analisar a notícia de que o presidente da República, Jair Bolsonaro,
quer demitir o atual presidente do Banco do Brasil, André Brandão, que está no cargo desde o
final de setembro. Eles acreditam que o episódio vai contra o
discurso que inclusive ajudou a eleger Bolsonaro, de diminuição da máquina
pública e gestão técnica das estatais, sem ingerência política.
André Brandão, presidente do Banco do Brasil Foto:
Alan Santos/PR
A proposta do Banco do Brasil de fechar 112 agências e desligar 5 mil
funcionários irritou Bolsonaro por acontecer em um momento
de busca de apoio para os candidatos do governo para as presidências da
Câmara dos Deputados e do Senado. Na visão de Carlos Daltozo,
head de Renda Variável da Eleven Financial, se confirmada a demissão, será um
sinal claro de ingerência política, algo que os investidores esperavam que não
ocorresse na gestão Paulo Guedes no Ministério da
Economia. "Isso vai contra a própria nomeação do Brandão,
que tem um perfil mais técnico. Então, com certeza haverá uma reação negativa
que vai ter reflexos na ação." Daltozo lembra que BB ON caiu quase 5% nesta quarta, e foi o pior desempenho do Ibovespa.
Na
visão de Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos, a demissão deixa o
BB ainda mais distante de seus concorrentes em relação à percepção dos
investidores sobre o potencial de crescimento e rentabilidade. "O ROE
(retorno sobre patrimônio líquido) do BB é mais baixo que o dos outros bancos,
e isso ocorre muito pela dificuldade em conseguir implementar medidas de ganho
de eficiência", explica.
O
analista da Guide lembra que os outros bancos fecharam muitas agências físicas
no ano passado. E no primeiro passo que o presidente do BB tenta dar neste
sentido, surge a notícia de que ele pode ser demitido. "Cada vez fica mais
claro que aquele viés liberal que o governo tantas vezes disse possuir,
principalmente na campanha, não é verdade. Cada vez fica mais claro que as
estatais vão continuar sendo utilizadas para os mesmos fins", afirma.
Um
outro analista, em condição de anonimato, também destaca a postura do governo
como um problema que vai aparecer no desempenho das ações do BB e até de outras
estatais. "Nós esperávamos medidas de diminuição do tamanho da máquina
pública, e esse episódio só mostra que esta foi mais uma promessa não cumprida
pelo Bolsonaro".
A
Ativa Investimentos vai na mesma linha. "A notícia é negativa na medida
que expõe, mais uma vez, os riscos de ingerência política na estatal e coloca
em cheque qualquer possibilidade do BB assumir uma gestão mais liberal no atual
governo", opina a área de Research da corretora.
Bruno
Madruga, sócio da Monte Bravo Investimentos, acredita que a confirmação desta
eventual demissão pode demorar um pouco. Mas se confirmada a saída de Brandão,
os investidores vão reagir de forma bastante negativa. "Brandão vem
fazendo o planejamento de desinvestimentos do Banco do Brasil, que tem
repercutido positivamente dentro da estatal. Os investidores não gostam de
nenhum tipo de interferência governamental dessa forma".