sábado, 12 de dezembro de 2020

AS CONTAS BANCÁRIAS AGORA ESTÃO NUMA AQUITETURA TECNOLÓGICA EM NUVEM

 

Sua conta bancária, agora em nuvem

Especialistas apontam que a migração para a nuvem tende a aumentar a disputa entre instituições tradicionais e fintechs

  •  Celso Ming, O Estado de S.Paulo

 

Há duas semanas, o Itaú Unibanco, uma das maiores instituições financeiras da América Latinaanunciou a migração dos seus sistemas de tecnologia para uma arquitetura tecnológica em nuvem, mais flexível e sob demanda, oferecida pela Amazon Web Services (AWS).

É mais um passo no processo de transformação digital do banco. Segue outros gigantes do setor financeiro, como Goldman SachsBNP Paribas e HSBC, que já anunciaram investimentos em nuvem para garantir maior sustentabilidade das suas operações.

Três perguntas que qualquer correntista pode fazer: o que muda nas relações do cliente com o banco? Essa iniciativa levará outros bancos ao mesmo caminho? Até que ponto fica garantido o sigilo das operações se elas ficam armazenadas nesse espaço nebuloso, algo que parece etéreo e, mais que tudo, supostamente acessível a um desses espertinhos em computador?

Antes disso, algumas informações.

O serviço de computação em nuvem permite que as empresas acessem os seus sistemas de informática por meio de centros de dados externos conectados à internet. Efeito importante é a redução de custos operacionais que hoje os bancos mantêm com grandes servidores físicos que operam para eles.

Como explica Ricardo Guerra, responsável pela área de tecnologia do Itaú, a maior parte da infraestrutura de tecnologia (mainframes e data centers), aplicativos e sistemas de call center devem ser levados para a nuvem em dois anos. Serviços como o Pix e o Credicard já funcionam com esse tipo de tecnologia.

“O objetivo é otimizar e acelerar a inovação em todas as linhas de negócio do banco. O principal resultado esperado será a melhora da experiência do usuário, desde o acesso mais rápido e a navegação pelos canais de atendimento, até a oferta de produtos e serviços customizados”, diz Guerra.

 


O serviço de computação em nuvem permite que as empresas acessem os seus sistemas de informática por meio de centros de dados externos conectados à internet. Foto: Marcos Müller/Estadão

A consultoria americana Gartner prevê para 2021 aumento de 18%, na comparação com 2020, em despesas com utilização de serviços de nuvem pública, para um total de US$ 304,9 bilhões. Uma das razões pelas quais o serviço passou a ser mais adotado foi sua melhor conformação ao novo ambiente de trabalho que se formou com a pandemia.

Leonardo Militelli, sócio-diretor da IBLISS Digital Security, empresa brasileira de cibersegurança, explica que, na nuvem, as empresas conseguem ter maior flexibilidade para dimensionar seus sistemas. Também passarão a ter melhor controle sobre a infraestrutura tecnológica utilizada. O ambiente evita tanto a ociosidade da infraestrutura como a sobrecarga do sistema nos horários de pico.

“As instituições já perceberam que essa tecnologia oferece ganhos operacionais na execução dos negócios que a infraestrutura tradicional não proporciona. O open banking está próximo de se tornar realidade no Brasil e a nuvem vai viabilizar mais rapidamente a interconectividade entre as instituições financeiras”, afirma Militelli.

O movimento feito pelo Itaú tende também a intensificar a concorrência dentro do setor. As fintechs já nasceram com o DNA da nuvem em seu “core business” e vinham ganhando espaço no mercado graças a essa vantagem. Para Maurício Cascão, CEO da Mandic Cloud Solutions, empresa brasileira especializada em soluções de computação em nuvem, a adoção dessa infraestrutura possibilita que as instituições atuem com mais agilidade no meio digital e ofertem produtos financeiros, como seguros e empréstimos, a juros mais baixos e outros serviços em plataformas mais modernas.

“As instituições mais tradicionais, até então, se moviam de forma mais lenta para a nuvem. Com a adoção dessa estrutura, os bancos equilibram o jogo no mercado catalisando o aspecto de agilidade e inovação dessa ferramenta, forçando outros players a seguirem o mesmo caminho”, pontua Cascão.

A mudança é vista com bons olhos pelos especialistas em segurança, que confiam na expertise das empresas que ofertam o serviço em garantir a proteção do ambiente. Gigantes da tecnologia, como AmazonMicrosoftGoogle e IBM estão entre os principais provedores da modalidade no mercado.

Com todo esse movimento de migração, a segurança deve continuar sendo uma das maiores preocupações do setor bancário que, no momento, continua sujeito às invasões, apesar dos grandes investimentos realizados para proteger as informações financeiras dos seus clientes./COM PABLO SANTANA

*

COMENTARISTA DE ECONOMIA

 

AS PRIVATIZAÇÕES DEVERÃO VIR APÓS AS VACINAS

A vacina é a privatização

Em 2021, precisamos apagar 2020 levantando esta bandeira, que tem ficado na retórica

Adriano Pires*, O Estado de S.Paulo

 

O ano de 2020 está terminando ou nunca começou? Bom é se nunca tivesse iniciado ou que pudesse ser deletado. Como nada disso é possível, vamos à realidade e fazer algumas constatações, análises e reflexões sobre este ano em que o mundo ficou de cabeça para baixo.

No início da pandemia, lá pelos meses de abril e maio, as previsões eram de que o PIB brasileiro iria cair uns 7% a 8%, o consumo dos combustíveis e de energia elétrica começou a despencar e a inadimplência, a aumentar. As privatizações seriam novamente empurradas para a frente, junto com as reformas no Congresso. As consequências principais: aumento do desemprego, queda na renda e fechamento de inúmeros negócios de todos os tamanhos. Tempestade perfeita.

O que ocorreu de fato: o PIB deve cair em torno de 4% a 4,5% e o consumo de energia elétrica e de combustíveis teve uma recuperação mais rápida do que todos imaginavam. Na energia elétrica, tivemos no início da pandemia preços como R$ 50/MWh, e agora já passaram os R$ 500/MWh, e a demanda cresceu com a retomada da economia no terceiro trimestre. Assim, em ano de pandemia estamos passando por um momento de medo de apagão no setor elétrico. Isso porque o setor está refém de duas variáveis exógenas às adversidades climáticas, dado que a matriz elétrica está muito dependente de fontes intermitentes, como hidrelétricas a fio d’água, eólicas e solares, e que o crescimento econômico em 2021 deve voltar com a chegada das vacinas. Sem falar da governança do setor elétrico, que precisa ser revista.


Para o governo, sucesso do leilão mostra a atratividade do Brasil na área de petróleo e gás. Foto: Fábio Motta/Estadão

As privatizações continuam não ocorrendo na velocidade esperada e desejada. Isso por falta de políticas públicas, legislações e, principalmente, vontade política e determinação. Isso gera instabilidade regulatória, insegurança jurídica e, consequentemente, as privatizações continuam sendo pouco atraentes para o investidor privado nacional e o estrangeiro. Basta ver como a concorrência para a compra de ativos tem sido baixa, mesmo com um dólar supervalorizado.

Exemplos não faltam. Na venda das refinarias da Petrobrás temos, praticamente, uma empresa por refinaria. Na Bahia, só apareceu o Fundo Mubadala. Nas duas melhores refinarias à venda, a do Paraná e a do Rio Grande do Sul, parece só haver dois interessados, a Raízen e a Ipiranga, que pela regra do jogo só poderão comprar uma das duas. Ou seja, no fundo, temos só uma empresa por refinaria. No caso da Gaspetro apareceram somente duas propostas e o processo aparentemente estaria suspenso por causa de questões ligadas ao Termo de Compromisso de Cessação (TCC) firmado entre a Petrobrás e o Cade. Neste processo de venda da Gaspetro também foi veiculada na imprensa a intenção da Mitsui de vender a sua parte na empresa.

Ainda na área do gás natural a Petrobrás comunicou o cancelamento de investimento no projeto de adequação de infraestrutura da unidade de tratamento de gás de Caraguatatuba. A decisão teria sido tomada por causa da perda de atratividade econômica do projeto. Mas isso vai significar menos gás natural no sistema e mostra que a ideia é reinjetar mais gás do pré-sal e importar GNL.

No setor elétrico, o apagão do Amapá reacendeu o discurso dos contrários à privatização da Eletrobrás, alegando que o incidente do incêndio dos transformadores mostrou a ineficiência da administração privada e a importância de mantermos a Eletrobrás estatal.

Ao contrário, é de extrema importância que o Congresso retome o projeto de privatização da Eletrobrás e, concomitantemente, a agenda de modernização do setor. Apesar dos esforços por melhores resultados, a privatização da Eletrobrás urge, diante da restrita capacidade de investimento. As seis últimas distribuidoras pertencentes à estatal foram privatizadas em 2018, contribuindo para cessar com a sangria nos cofres da companhia.

Em 2021, precisamos apagar 2020 levantando a bandeira da privatização, que foi usada de forma correta na campanha do presidente Bolsonaro, mas que, infelizmente, por uma série de razões, tem ficado mais na retórica do que na prática. A vacina para a economia brasileira voltar a crescer em 2021 é a privatização. E novos investimentos, em particular dos setores ligados à infraestrutura.

 

 

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...